terça-feira, 26 de agosto de 2025

Sem fronteiras para o amor

Um dia posso explicar pra vcs como é lá no Fraternidade sem Fronteiras RJ. Mas recomendo que façam uma visita. Podemos marcar de ir juntos. Recomendo que se tornem voluntários. 

O que agora fiquei vivendo aqui foi uma reminiscência. De quando nasceu para mim o café da manhã. 

Pq no Fraternidade as pessoas põem o nome por volta de 10:30. 

Daí na hora do almoço os voluntários vão lá neste local e chamam em grupos de 25. São 4 rodadas. 

Tudo muito organizado.

"Regras e normas."

O rapaz usou essa expressão muitas muitas vezes.

"Acolhimento" uma palavra tão usada que pareceu-me se esvaziar.

Aí eles chegam, se cadastram, e aí sim almoçam e fazem outras atividades possíveis no dia lá.

Não quero fazer crítica, só estou revisitando o passado.

Eu ia a um café da manhã que em comum era o fato de ser de segunda a sexta. E ter tudo organizado. Mas era um grupo de 30. Bem mais leve. Ainda mais sob o frio de uma Juiz de Fora mineira que deixa tudo mais leve. 

Mas enquanto o grupo aguardava na garagem do centro espírita Garcia o pessoal lá da cozinha trazer o café... eu tive um ímpeto de ir lá fora e começar uns ensaios de convivência. Apertar as mãos. Dar bom dia. Puxar assunto. De repente já estava propondo umas brincadeiras. Umas dinâmicas de grupo. Até ciranda e festa junina. 

Era que eu já tinha no sangue o educador popular correndo mais forte que a instituição de caridade com suas paredes e normas. (Acho que para mim caridade verdadeira é como um rio que transborda).

Foi assim que de lá migrando para o Rio de Janeiro nasceu o café da manhã de segunda. Há 20 anos. 

Fiquei agora nessa reminiscência. Se eu fosse mais lá no Fraternidade talvez eu tivesse o ímpeto de ficar ali na rua desde as 10h... e ali fazer alguma coisa. Sei lá. Quem será que tem vontade de viver isso?

Entenda. Eu agradeço a quem veio antes. E a quem faz, fazer o que pode. As inovações não nascem do zero. Como diz o querido professor José Pacheco não se trata de começar uma escola do zero e jogar fora a tradicional. 

É a partir da escola tradicional que podemos ir fazendo as revoluções na forma de ser escola. 

Então eu acredito que dá pra fazer algo com mais vida e encontro no Fraternidade? Sim. E isso vai se dar graças a ele existir do jeito que consegue existir e resistir hoje. É uma luta. Financeira, vizinhança, voluntariado etc.

Vcs acham que eu acho que mudanças vão acontecer a partir de conversas e reuniões com a equipe, direção etc? Não. Isso eu já aprendi na primeira metade da vida, sofrendo com as diretorias e sendo visto como o incômodo cara que não se adequa.  O barato seria ir lá fora e conviver com o povo na espera e aí sim algo ir nascendo. 

Esse é meu método. Hehe

Se é que aos 46 já posso reconhecer no espelho alguma coisa que eu sou.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Minibiografia para entrevista com meu amigo Vinícius

André nascido em Nova Iguaçu, filho de pais professores, teve em casa o estímulo dos estudos sociais, e via desde muito cedo o engajamento político e sindical na reuniões dos amigos dos seus pais. O afeto era tecido com ideais políticos de um mundo melhor. Na escola, quando faltava professor, sentava do lado de algum colega da turma para ensinar matemática ou folhear o livro de geografia. Um dia uma amiga viu uma foto de crianças num lixão e não sabia que isso existia. Andrezinho não só sabia como já refletia sobre as causas estruturais dessas realidades. Assim foi se fazendo professor. Anos depois, está ele hoje aos 46 anos ainda como professor mas algumas coisas atravessaram seu caminho dando um toque diferente do que ele via nos movimentos de esquerda. André que era muito mental encontrou na yoga, e no sentimento místico-poético, alguma coisa que falava de um trabalho de corpo e a necessidade de uma coerência de sentimento nesse processo todo. Conhecer a fundo sua raiva e suas tristezas pessoais era tão importante quanto idealizar um mundo com mais amor e vida melhor. Nesse caminho André começou a arregaçar as mangas para fazer um trabalho muito simples que foi o de organizar distribuição de alimentos para pessoas com fome. O encontro com Betinho e uma frase de Madre Teresa de Calcutá o tocou, que era algo como enquanto os homens discutem as causas da pobreza ela ia lá e fazia alguma diferença. Não dava pra esperar pela revolução, algo precisa vir ao longo do processo, porque afinal, isso nos faz crescer como pessoas também. As pessoas que irão viver no outro sistema com que sonhamos... nós precisamos nos tornar essas pessoas. Nesse tempo André se torna pai da Liora que hoje está com 9 anos e durante a gestação dessa menina ele inicia as aulas do projeto que veio a se chamar Yoga de Rua. O projeto se torna rapidamente um coletivo bem participativo e descentralizado que é uma verdadeira escola para todos os participantes e voluntários e André, que teve o mérito criativo de iniciar o movimento, volta a sentar-se como aluno de yoga e da vida. Muitas histórias de alegrias e lutas nessa micropolítica tem para compartilhar. Vamos conversar?

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

...que eu deixo pra amanhã o que eu tenho pra fazer

Hoje eu sonhei com você de novo.

Pela manhã tive aquele impulso de mandar uma mensagem agradecendo por você estar presente no meu sonho. Por ter me dado a mão. E de como é gostoso (sim, eu usaria essa palavra) ter você do meu lado.

Também uma música me veio à cabeça logo que acordei. Que diz algo como deixa eu cuidar de você que eu deixo pra amanhã o que eu tenho pra fazer.

Aí fui pra varanda pendurar roupa no varal e o sol tava nascendo.

Então comecei a sentir você em mim. É um jeito que sinto que é também um pouco como se eu mimetizasse você. E se eu fosse você? Com seria viver e sentir as coisas como se eu fosse ela? - eu penso. E percebo a realidade maior do nosso encontro. Ele se dá no interior. Ele é só eu comigo mesmo. Você faz acordar algo em mim que é bonito e gostoso de viver. Uma certa forma profunda de sentir as coisas. Silenciosa e encantada.

Se eu mandar a mensagem pra ela vai ser mais do mesmo - pensei - que tal se ao invés disso eu cultivar esse sentimento sem falar nada pra ela? Pode ser que assim eu não dissipe essa presença. Quem sabe até ela lá onde ela estiver vá viver algo também do jeito dela. Quem sabe até ela me escreva.

Resolvi não mandar a mensagem e viver do meu jeito. Hoje tenho terapia então posso falar disso na terapia também. 

Se você estivesse aqui, fico imaginado. Deitaria na rede e ficaria curtindo o dia. Você é daquelas raras pessoas que sabe ficar um tempo sem fazer nada. Contemplativa. É dessas coisas que são meu aprendizado contigo.

Daí adiei a meditação da manhã pra fazer um café e só ficar na varanda vendo a alegria das árvores do quintal recebendo os primeiros raios da manhã. E ver que a terra está mais feliz depois de ter recebido um cuidado que foi remover pedras e peneirar um pouco. Uma flor. 

E também escrever. Porque afinal você é uma escritora. 

Aí eu vim escrever também. E nesse momento as lágrimas começam a descer.

E é bom. 

A conclusão filosófica (sim, o meu eu sem você busca conclusões) é de que a fonte da dor não é o amor, nem sua irrealização (afinal é irrealizável) mas a confusão. Por não ter nome para o que você é e nós somos, meus instrumentos internos de percepção confundem e chamam tudo de uma coisa só.

Deixa inominado, você me diz. 

E assim é. E por isso até hoje eu não sei o seu nome. 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Prova de amor verdadeiro

ah esse amor... 

esse seu amor que posso sentir.

e também o meu amor por você. 

já pensou numa prova de amor?

já pensou se eu resolvo te pedir uma prova desse amor?

já pensou se você me pede para provar?

aproveitei que você disse que me ama e automaticamente comecei a pensar (como a fazer uma brincadeira que os que se amam se permitem fazer)

hum... se ela ama mesmo posso pedir uma coisa que só se pede a quem ama

então pensei, pensei, e com todas as coisas que eu pensava em pensar em pedir, logo dentro de mim surgia uma voz que dizia: não, isso você não pode pedir, isso não é coisa que se possa pedir a ela. 

daí, eliminadas todas as opções, consegui chegar a uma: ah é, então você disse que me ama, então como prova de amor eu peço que você... ame, continue amando do seu jeito, não precisa fazer nada, só continue amando. 

ame e faça o que quiser. 

isso é o que o meu amor te pede.

um amor à prova de provas.


O teatro do destino

Hoje no café da manhã na varanda um menininho corria o risco de derrubar o copo de vitamina.
Ele ficou em pé e veio dando uns passinhos pra trás.
Rapidamente tirei o copo do chão por baixo das suas pernas. 
Todo orgulhoso dei o copo na mão dele. "Atenção com suas pernas. Você podia ter derrubado o copo."
Ele se sentou e antes de beber, sem querer, entornou o copo no chão.
Fiquei pensando na força do destino.

Hoje acordei de um sonho muito forte, um pesadelo em que eu ia me apresentar no teatro mas eu havia esquecido tudo: as falas do personagem, havia deixado a roupa em casa, estava sem maquiagem; tudo por fazer, a peça por começar, e ninguém estava muito disposto a me ajudar; eu não tinha nem ensaiado.

Acordei muito assustado, com essa sensação terrível do branco na mente, o esquecimento, confusão. 

Ao mesmo tempo que algumas pessoas me achavam brilhante quando me ouviam dizer uma ou outra palavra, na tentativa de ensaiar em cima da hora, eu mesmo nem sabia o que estava fazendo. 

Estava morrendo de medo do público, com vergonha da minha parceira de cena que estava pronta e sabia tudo direitinho mas estava sem nenhuma paciência para me ajudar em cima da hora.

O que representa o destino? Pensei que o menininho talvez não quisesse mais tomar o suco. E de algum jeito não conseguia falar isso diante do público, esqueceu o texto, o figurino, a maquiagem... acordei assustado.

domingo, 11 de maio de 2025

Seja feliz! - palavras do professor Goenka, cantadas nos cursos de 10 dias.

Meu professor, que você possa ser vitorioso.
Compassivo, que você possa ser vitorioso.
O senhor me deu a admirável jóia do Dharma, 
quem tem sido tão benéfica para mim. 

Permitiu que eu provasse o néctar do Dharma
e agora nenhum prazer sensual pode me seduzir.
Uma tal essência do Dharma me deu,
que a concha [da ignorância] foi abandonada.

O senhor me deu um Dharma tão poderoso,
que me auxilia e me ampara a cada passo.
Ajudou a libertar-me de todos os medos,
e tornou-me completamente destemido.

De cada poro gratidão
De cada poro jorra tamanha gratidão,
que eu não posso saldar a dívida.

Viverei a vida do Dharma
e distribuirei os seus benefícios
a todos os que sofrem
esse é o único modo [de saldar a dívida]

Ó meu professor, em seu nome,
eu compartilho a doação do Dharma.
Que todos aqueles que vierem para meditar
sejam felizes e estejam em paz.

Que haja uma chuva do 
néctar do Dharma nesta terra.
Possa ela lavar todas as impurezas mentais
e purificar a mente de todos.

Que haja uma chuva do 
néctar do Dharma nesta terra.
Possa ela lavar todas as impurezas mentais
e refrescar a mente de todos.

Que todos possam ser felizes.
Que todos possam ser felizes.

Neste mundo de padecimento,
que ninguém seja infeliz.
Que o Dharma surja no mundo,
trazendo felicidade a todos.

De ódio e má vontade
que não permaneça nenhum rastro.
Possa o amor e a boa vontade
preencher o corpo, a mente e a vida.

Possam todos os seres estar livres do medo,
livres da animosidade, livres da doença.
Possam todos os seres ser felizes, 
ser felizes, ser felizes.

Assim como o meu sofrimento terminou,
que possa ter fim o sofrimento de todos.
Assim como a minha vida melhorou,
que a vida de todos possa melhorar. 

Somos afortunados por ter o sabão
e por ter a água pura.
Agora venham! Nós mesmos temos
de lavar a roupa suja da mente. 

Que o enlevo se espalhe
pelo lago da mente.
Que cada poro emita o som:
seja feliz! seja feliz!

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Sobre me expor diante da turma


 "Como pode ser gostar de alguém / E esse alguém não ser seu?" 

Nas férias abro meu amor e minha intuição à turma que virá no próximo semestre.

Antes de saber quem serão as alunas, abro-me a um planejamento subjetivo do curso. Qual será o percurso da turma de arte? Vou lendo, vou sentindo, vou colocando umas cartas na manga.

Nesse ano me vinha um pensamento que ouvi de que, em congressos de psicanálise, há momentos de relato de percurso de análise, em que uma pessoa conta a sua história pessoal. 

Contar minha vida a partir dos meus erros, minhas fragilidades, meu processo de autoconhecimento até aqui. Coloquei essa carta na manga. Estava pronto para contar tudo e responder a toda e qualquer pergunta de minha vida pessoal. (No semestre anterior, na disciplina optativa, em que temos ênfase em yoga, recebi uma pergunta que adorei: "professor, o que você mais gosta e o que você menos gosta em você?")

Quando o ano começou eu adorei ver os rostos conhecidos das meninas. Tínhamos vivido excelentes experiências na turma de corpo do primeiro período. 2 anos e meio depois elas estavam comigo outra vez. Sabia que ia ser bom.

Um dia combinamos de fazer a vivência do autorretrato, com colagens. A turma ficou fazendo (não consegui fazer o meu porque estava providenciando materiais e apoiando na impressão de suas fotos). Os trabalhos estavam ficando lindos (um grupo realmente talentoso) e uma das meninas me segredou que era seu aniversário. Então pedi pra ela escolher um música para tocar de fundo. Ela escolheu Amado, da Vanessa da Mata. A canção começa com a frase da epígrafe desse texto. E no meio da música eu lancei a pergunta: "vocês acham que as pessoas costumam desejar justamente os amores impossíveis?"

Cada uma começou a falar, e enquanto continuavam em suas colagens de seus autorretratos a conversa foi ficando animada, a aniversariante lembrou da frase de Schopenhauer:  "A vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir".

Até que surgiu a pergunta: "professor, o senhor já traiu?"

Elas não sabiam que eu estava esperando uma oportunidade para contar minha historia. Vão saber agora que estão lendo esse texto. Por sinal, no fim da aula recebi o pedido de fazer um relato deste encontro tão caloroso que tivemos. Porque foi nesse dia também que mostrei pra elas meu blog (este aqui). Todo feliz contei da minha primeira postagem que foi algo do meu nascimento como professor. E depois li a última postagem, que foi sobre a descoberta da minha filha da alegria de escrever um diário e, consequentemente, da alegria de um pai perceber a alegria de sua filha com a escrita.

Eu contei a elas um monte de coisas da minha vida pessoal. Falei: "antes de contar se traí ou não, acho que preciso que vocês saibam um pouco de como foi minha historia", contei das minha inibições na infância e adolescência, se espantaram ao saber a idade de meu primeiro beijo, contei das minhas inseguranças sexuais e tive que explicar os fantasmas do fracasso sexual que povoam a mente dos meninos, os males do machismo sobre os meninos, as expectativas de performance, etc. contei também dos primeiros ensaios de namoro e dos relacionamentos longos que tive.

Minha fala ia sendo entrecortada por comentários delas. O ambiente estava muito descontraído porque à medida que ia recebendo julgamentos, ora eu os acolhia, ora eu devolvia como uma forma de provocação. A coisa virou uma espécie de ringue: 10 mulheres contra 1 homem. Evidentemente, eu fui ao chão várias vezes.

Por um momento nos perguntamos se iríamos discutir a questão de "uma pessoa" que trai, ou de "um homem" que trai. Isso faria alguma diferença. E pode ser que todos tenhamos ao longo do bate papo refletido sobre nossas histórias e questões nos relacionamentos, e que a lição de um possa ter servido para inspirar a vida de outras. Mas o tom do momento acabou prevalecendo: todas contra um.

Ao final fiquei feliz com uma certa catarse coletiva em que aquelas mulheres puderam descarregar seus ressentimentos acumulados por uma sociedade extremamente machista. Por todas as violências concretas e sutis que sofreram e ainda sofrem. É bom que possam saber bater nos homens, eu pensei em alguns momentos. É bom que haja sororidade, concluímos ao final.

No entanto, pelas tendências em tomar partido no momento da escuta, em ter logo um julgamento, fiquei pensando no ambiente em que elas cresceram e possivelmente ainda vivem. Se as ideias de certo e errado, bom e mau, são todas muito bem definidas, deve haver algum custo para se encaixar nos padrões da moralidade de seu grupo social, como se fosse possível a um ser humano alcançar a luz sem reconhecer a existência de sombras. 

E o meu plano inicial que imaginei nas férias: contar minha historia para exemplificar as complexidades da subjetividade humana, a noção de que a vida não segue uma linha reta, as ilusões e o processos demorados de amadurecimento, a dura jornada de autoconhecimento, para onde foi tudo isso?

Depois da aula encarei a questão: será que eu sou mesmo um ser humano ruim? Se estou num relacionamento e me apaixono por uma outra pessoa, isso fala do meu caráter? O que é certo e o que é errado fazer? Contar, não contar? Viver a paixão, freá-la, esquecê-la? Como contar? Por que as pessoas não contam? Esse é um tema que merece aprofundamentos.

Na aula lançamos a provocação: as pessoas questionam o caráter de quem se apaixona, mas ninguém parece questionar o modelo hegemônico da monogamia. Conversei com uma amiga sobre isso e ela me escreveu: "A expectativa hegemônica, compulsória, de exclusividade sexual, não permite a espontaneidade da relação amorosa, inibe desde o princípio e constrange a possibilidade de sinceridade na comunicação. Como é que a pessoa que ouve "eu só tenho olhos para você, você é tudo para mim, tudo que um homem precisa eu tenho em casa", vai conseguir, numa boa, tranquilamente, ouvir "eu estou ficando a fim de outra pessoa, eu quero estar mais vezes com ela"? O que se ouve é "essa relação já não serve mais, vamos terminar". A monogamia não permite meios termos, nuances, confluências."

Daí ela me indicou o texto sobre a sinceridade, do filósofo Rafael Lauro. Lendo seu texto eu consegui identificar o sentimento de confusão e incertezas que permearam minha história, ainda em andamento, de (re)conhecer meus desejos: "Quem consegue responder exatamente o que é a verdade e o que é a mentira quando tratamos de coisas tão movediças quanto os nossos desejos?"

Conversar, conversar, conversar... Rafael me fez lembrar de que contar ou não contar não é tão simples porque ao longo do que vivi eu não tinha clareza  das mudanças que aconteciam no meu sentimento. Porque "a verdade não nos espera pronta, ela está por fazer. Relacionar-se com sinceridade não significa ser obrigado a dizer tudo o que pensa ou faz, mas de criar condições pelas quais possamos ser e mostrar aquilo que somos, incluindo as contradições. Então, a sinceridade não é apenas a comunicação das certezas, mas fundamentalmente a conversa cuidadosa sobre as incertezas."

O difícil foi ter me acostumado com uma relação "estável" sem perceber que ela mudava, foi não ter me acostumado com os convites do que encantava minha alma (os apaixonamentos) sem conseguir dançar seus fluxos. Não conseguimos, é verdade, manter as relações abertas o suficiente para as conversas cuidadosas sobre as incertezas. 

Quero encerrar esse relato da aula, escrito para elas, com um poema. A professora e poeta Geni Núñez (Yvoty Juky é seu nome em guarani dado por sua mãe) em suas pesquisas sobre relacionamentos, fala em descolonizar os afetos, nos inspira com a metáfora do reflorestar as relações em sua diversidade, em contraposição a lógica da monocultura. Gosto também bastante de um conceito que ela traz, para além dos rótulos e dos padrões normativos, que é o de "artesania dos afetos": ou seja, compreender as relações como algo que se vai construindo artesanalmente, cada um do seu jeito. Geni transparece bastante sinceridade no que fala, como quem fala a partir de suas buscas pessoais. Eu amei o seu livro e poema "Felizes por enquanto: escritos sobre outros mundo possíveis", mas aqui eu compartilho um poema que acho que tem muito a ver com toda essa semana que passei em busca de trazer uma compreensão para o que vivemos na aula.

Poema em linhas tortas: é pelo jeito de errar que a gente ama

Mais do que te ver acertar, acho que foi quando te vi se permitindo falhar que mais te admirei
Mais do que quando você alcançou as notas, te admirei mesmo quando você continuou cantando mesmo percebendo a própria desafinação
E mesmo tropeçando, continuou dançando
E não parou de dizer gaguejando
Quando não deu tanto mérito à vida em linha reta
E quando riu de si sendo ridículo e absurdo
Quando perdeu todas as rodadas, mas não desistiu de jogar
Há uma certa coragem que os erros têm que nenhum acerto jamais terá
E é sem atribuir tanta importância à possibilidade de falhar
Sem atribuir tanta magnitude ao que os outros irão pensar se a gente tentar e não conseguir é que encontramos alguma autenticidade
Farta de deuses e semideuses,

eu me apaixono é por gente.


Foto: poema de Sérgio Vaz, no livro Flores da Batalha


sexta-feira, 18 de abril de 2025

diário

o pai precisa botar a filha para dormir, ele entra no quarto pronto a dizer, tá na hora, e vê a filha sentada escrevendo em seu diário. lembra-se de uma conversa que teve com a mãe de um amigo de sua filha: a pessoa tá lendo aí as pessoas chegam e falam com ela como se ela não estivesse fazendo nada de importante. isso é uma cultura familiar. a pessoa está lendo e ninguém a interrompe porque ela está lendo. isso é outra cultura familiar. a filha descobriu a alegria de escrever diário, lendo o que ela mesma escrevera meses atras, e se lembrou dos acontecimentos daquele dia. na casa do pai a cultura familiar é dessas: convidou pra sentar pra fazer o exercício do livro novo de matemática? para tudo. prioridade. deixa a louça pra depois. a menina está escrevendo em seu diário? agradeça por você conseguir um ambiente calmo e silencioso pra menina seguir seus escritos com todo o tempo do mundo. o pai correu para escrever também e transformar um pedacinho de seus sentimentos em palavras. ele escolhe as palavras. as vírgulas, os pontos... escolhe também o que não usar, nem aspas, nem travessões, nem maiúsculas, nem nomes. tudo é bem cuidado. os tempos, as pessoas. a escrita é, na verdade, reescrita, ele aprendera há pouco sobre esse burilar, coisa que sempre fez. e pensa, piegas, nas casas em que prioridade não é ler. na verdade foi essa dor que lhe fez ir refletir. um filme em sua mente lhe fez ver uma criança escrevendo seu diário na cama e um adulto gritando dizendo para com esse negocio e vai logo tomar banho ou dormir, ou seja lá o que seja prioritário. a filha hoje disse ao pai sobre adultos que não tratam bem as crianças. isso tudo é agora página desse diário que

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A poesia em si - Allan Dias Castro

Quando a indiferença de alguém fizer você se sentir quase invisível,
E esse sentimento trouxer aquela vontade de sumir, 
Lembre que a poesia não depende do poeta para existir.

Pense nisso quando parecer que um relacionamento vai acabar,
e você achar que é o seu mundo que está acabando.
Não. A vida não se esqueceu de você.
Talvez você tenha que se esquecer de procurar no outro
A sua razão para viver.

Dói, mas liberta.
A dor tem que passar
Para deixar a porta aberta.

Repito, a poesia não depende do poeta para existir.
Da mesma forma que, entre páginas viradas,
Você carrega um poema em si,
Um sentimento que acaba pode virar um verso triste,
Mas a sua beleza ainda está ali.

Mesmo quando o outro não consegue,
Ou não quer mais enxergar,
Não se engane achando que a beleza não existe.
Se o outro não vê, o problema não está em você.
Quem perde é o poeta que enxerga o poema,
Mas não o divide.

Quem sabe a poesia da vida está aí:
Só tem a ganhar aquele que consegue dividir
A beleza que enxerga em si.
Por isso, é melhor seguir
Respeitando o tempo de cada verso
E o tempo do outro também.
Para multiplicar o seu poema
Quando enxergar a poesia em alguém.

A gente acha que nunca mais vai ser feliz.
Mas a solidão não é um ponto final.
Deixe o tempo transformar
O nunca mais em por enquanto
Só você sabe o que sentiu,
Então só você pode transformar esse vazio
Numa página em branco.

extraído do livro Voz ao Verbo - poemas para calar o medo



quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

É tudo o jogo de Deus

É somente Deus quem faz tudo. Você pode dizer que neste caso, o homem pode cometer pecado. Mas isso não é verdade. Se um homem estiver firmemente convencido de que Deus é O que faz, e que ele próprio não é nada, então nunca dará um passo em falso.

Foi Deus somente quem plantou na mente humana aquilo que o "inglês" chama de livre arbítrio. As pessoas que não realizaram Deus ficariam cada vez mais empenhadas em ações pecaminosas, se Deus não tivesse plantando nelas o livre arbítrio. A incidência de pecado teria aumentado se Deus não tivesse feito o pecador sentir que somente ele era responsável pelo seu pecado.

Aqueles que realizaram Deus são conscientes que o livre arbítrio é meramente aparente. Na realidade o homem é a máquina e Deus Seu operador, o homem é o carro, e Deus, o Condutor.


Nota: Sri Ramakrishna usava esta palavra "ingles" para designar os europeus em geral, e também, aqueles cujos pensamentos e maneiras eram profundamente influenciados pelas ideias ocidentais.


Diário de M., Evangelho de Sri Ramakrishna, sábado 5 de janeiro de 1884.