sexta-feira, 21 de abril de 2017

Na trilha da devoção


Me leva.
Me leva, irmã divina.
Me leva até a altura onde alcançaste.
Me leva.
Que os raios de luz do teu olhar sejam a trilha de ascenção de minha meditação.
Me leva, irmã divina.
Que tua voz seja o eterno som, música das estrelas, zumbido de um pequenino inseto, som das águas... o cântico suave da natureza, a recordar minhas origens.
Me leva.
Que o teu alento seja o ar, suave e profundo, que me conduz mais e mais para dentro de mim mesmo.
Me leva, amiga, amada, para junto de meu peito.
Que teu coração transborde compaixão por tudo que não sei.
E que tuas águas refresquem, inundem e carreguem todo o meu passado de apego e dor.
Me leva, divina flor, divina lua, divina irmã.
Que teus braços dancem harmoniosamente irradiando a graça de tudo o que move: as folhas e ramagens do caminho, as nuvens, o regato, as aves e as ondas do mar. Que nossos braços sejam o proprio vento.
Me ensina, suave e silenciosa amiga, mestre dançarina.
Que teus pés, teus doces pés esvoaçantes, pisem nesse mundo no mesmo tempo que os meus para que você me conduza ao amor divino ainda nesta vida.
Me leva.
Me aceita nessa hora.
Me recebe em tua companhia neste sadhana divino, neste alegre jogo da verdade.
Me leva.

sábado, 18 de março de 2017

Agora na rua:
Menino de 5 anos com sua mãe. Ela diz:
- Vamos agora para casa fazer o seu trabalho. Vamos recortar as figuras...
- Ah, mãe.
- Filho, o que é mais importante brincar ou o trabalho?
- O trabalho , disse o menino chorando.
- Imagina se você chega na escola sem fazer o trabalho. Você vai ser o mico do ano! Todo mundo fez o trabalho menos você.
Isso pra mim é um escândalo mais sério que os dos políticos. Na verdade, creio que a raiz da nossa crise atual esteja aí. É o nascedouro. Pessoas dissociadas de seus sentidos de vida, de si mesmas, criadas neuroticamente para um mundo de cabeça para baixo. Gente!, a questão política mais profunda não é ser de qual partido nesse contexto polarizado, a verdadeira questão política é: como contruir um outro mundo possível com pessoas vivendo plenamente os propósitos de vida de suas almas. Como vamos proteger as crianças de suas famílias neuróticas e amedrontadas? Com tantas experiências de escola livre, tantas escolas com boa visão sobre a infância... ainda existem escolas que passam dever de casa e pais que matriculam seus filhos nelas e entram no jogo do dever, do medo, do que os outros vão pensar de mim, ao invés de cultivar o prazer, a confiança e a autenticidade. Tão novinho. O menino devia bater no meu joelho. Era um pingo de gente... sendo diminuído em seu ser nessa ideologia maluca que NENHUM pedagogo jamais ensinou.
Assim como os políticos não discutem uma reforma política que acabe por exemplo com seus salários, o que acabaria com o incentivo a entrar na política por interesse pessoal, da mesma maneira a sociedade, que padece gravemente do analfabetismo emocional, não consegue encarar o fato de que tem vergonha de dançar, que não troca afeto, que tem medo de amar, que vive um mal estar espiritual que lhe traz imenso vazio, que se vicia em bebidas alcoolicas e comida nada saudável, que abandonou seus sonhos há muito tempo e perdeu sua espontaneidade e alegria de viver, que abusa seu poder sádico sobre os mais fracos (especialmente as crianças) e que foge de tudo isso e mal consegue se olhar nos olhos no espelho e sorrir ou chorar, essa mesma sociedade não consegue ver nem sentir o mal que faz aos seus filhos transmitindo-lhes todo esse sofrimento.
Olhando assim, fica óbvio que a política hoje está tão enferma quanto as pessoas e que a discussão política está tão surda quanto a barulheira emocional mal-tratada de cada membro de nosso corpo social.
Como vamos fazer a reforma política sem os políticos? Como vamos mudar a relação com as crianças sem uma mudança emocional-espiritual dos pais?
Sim. Reafirmamos: Um outro mundo é possível.
E vai nascer a partir de dentro da gente.
Na verdade, já tem muita gente vivendo ele. Só não passa na mídia. Esses irão inspirar os demais.
Inspirem-nos Pestalozzi, Alexander Neill, Janusz Korczak, Rabindranath Tagore, Rudolf Steiner, Victor Frankl, Eurípedes Barsanulfo, Rolando Toro e tantos educadores que perceberam a causa profunda dessas crises, inspirem-nos a encontrar caminhos para nossas crianças.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Desejos para o Ano Novo.
Então começa o ano, agora que passou o Carnaval.
2017. E nesse domingo acordei e vim aqui te desejar coisas boas para esse novo ano.
Quais as coisas boas eu posso desejar?
E como eu posso traduzir em palavras?
Tem a ver com o caminho que estou trilhando e, de algum modo, quero partilhar com você, para que a gente possa caminhar junto.
Então o primeiro desejo é esse: que você caminhe. E caminhe junto. Tem uma estrada aqui à nossa frente. E eu não quero que você fique de fora dessa jornada. E também não quero ir sozinho. Por isso vem que estaremos ambos em boa companhia.
O segundo desejo é que você entenda que ninguém conduz a caminhada. Cada um faz suas escolhas e, como que num passe de mágica, na mais perfeita sincronicidade, a gente encontra harmonia nesse caminhar. As coisas dão certo porque eu estou cuidando de mim. E você está cuidando de você.
Para que isso funcione assim com tamanha fluidez desejo que você cuide dessa conexão interna. É você cuidando de você. Quando criança precisamos de Atenção, Acolhimento e Afeto. Agora que somos adultos não precisamos mais de nada. Já temos tudo. Já somos isso tudo e podemos oferecer. Então o terceiro desejo é que você se torne uma pessoa adulta. E tenha, por isso mesmo, como primeiro princípio: não reclamar de ninguém, nem de nada. Nem mesmo quando alguém do seu lado der crise de infantilidade e reclamar de você. Seu trabalho é olhar para dentro de si e cuidar de si, do que acontece em você.
E assim a gente continua na estrada. E o quarto desejo é que você abra as janelas da criatividade. Crie a sua própria vida, crie quem você é, crie assim o campo quântico em torno de você que manifestará o mundo que você deseja a sua volta, atraindo as pessoas e situações perfeitas para o seu desenvolvimento.
O quinto desejo é que você descubra alguém, um princípio, uma força, uma divindade, em quem você confie e então permaneça na confiança e olhe sorrindo para as desesperadas vozes de dúvida que surgem em você porque isso é um padrão muito antigo e a vida pede confiança.
O sexto desejo é que você busque inspiração em pessoas inspiradoras. E aprenda com elas que elas foram adultas e criaram sua própria realidade. E olhando para elas, que você encontre inspiração para o seu andar.
O sétimo desejo é que você pare, absolutamente pare de investir no que não serve mais. E pare inclusive de se contrapor a essas coisas porque a crítica é uma forma de investir inconscientemente. Então deixe para trás o mundo da velha política, dos cinismos das organizações, das articulações maquiavélicas do ambiente de trabalho, das brigas de família (que é a maior das infantilidades) e pare de criticar os outros, inclusive aqueles que estão por aí criticando tudo e não fazendo nada.
Pare. Esse é meu oitavo desejo. Que você pare e não faça nada. Respire um pouco. Aprenda a arte do não fazer. Deixar o celular, a tv, nem livro, nem internet, nem nada. Apenas você com você. Ócio, tédio mesmo. Um pouco dessa parada vai fazer germinar a sua transformação. Vão brotar ideias e ações mais autênticas.
Então o meu nono desejo é que quando a gente se encontrar a gente possa se olhar um pouquinho, sem dizer nada mesmo, apenas sentindo um ao outro. Os verdadeiros encontros não precisam de palavras. Então desejo que quando a gente se encontre, a gente sinta. Cada um sente em si, o que pode sentir do outro. E abertos, aceitando um ao outro, acontecerá o amor. Então desejo verdadeiramente que a gente se ame. E no amor, floresce a alegria de estar junto e daí vem o que há de melhor nos encontros.
E como décimo desejo, eu quero que você olhe as crianças, e sinta-as, e ame-as. E antes mesmo de tocá-las, falar-lhes, bater palminhas ou todas essas coisas do primeiro impulso... você perceba a divindade ali se manifestando na graça dos seus movimentos, na perfeição da sua anatomia, na pureza de sua expressão sem o autocontrole egoico do que os outros vão pensar... e trate de aprender com elas a desfazer as couraças que você lhe impôs pelo desejo de ser reconhecido e aceito e amado por uma sociedade de adultos infantis (portanto doentes). E então aprendendo com as crianças você vai poder falar com elas a partir de um lugar de verdade interior. E também assim vai olhar os animais e as plantas e sentir o mar, e o vento e tudo o que há.
Que você seja feliz nesse caminho. Desfrute. Eu estou aqui desfrutando de tudo isso e te convido a caminhar junto. Com amor.
Amor. Muito amor. Muito muito amor.
Andre Ahlaad
"Após uma forte tempestade, um homem achou pedaços de livros, dentre os quais, uns trechos do que era o Evangelho dos cristãos.
Juntou-os, e assim os leu:
"Olhais os lírios do campo, este é o meu corpo.
Lançai vossas redes ao mar, este é o meu sangue"
E então, o homem, que vivia junto à sua aldeia no interior da floresta, imediatamente ajoelhou-se e, vertendo lágrimas, louvou o seu Deus por ter encontrado escritura tão bela, tão verdadeira."

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Iamas e Niamas nas aulas com quem vive nas ruas

No encontro do dia 2 de fevereiro, apresentamos em nossa parte teórica, os cinco iamas da conduta social e os cinco niamas da conduta pessoal. Falar de yoga com nossos alunos sempre desperta muitas curiosidades e perguntas. Aqui, vou fazer uma breve reflexão sobre esses 10 princípios sendo pensados especificamente para nosso pessoal que vive nas ruas.

IAMA

1- Ahimsa (não-violência)
Um dos temas mais cotidianos de quem vive na rua são ligados à violência. O padrão mental usual é o da agressividade, do medo, da ameaça. Nossos alunos estão tendo a oportunidade de refletir sobre o poder do silenciar diante dos agressores, da vibração do amor, da compreensão do outro... e nos relatam que estão mais tranquilos diante de situações onde normalmente reagiriam na mesma moeda. Estar em paz na aula de yoga é uma coisa... nossa conversa é sempre com o objetivo de prolongar esse estado de ahimsa para o dia a dia.

2- Satya (verdade)
Falar sempre a verdade. E se isso for ferir alguém, optar por ficar em silêncio. Falar a verdade tanto significa não inventar histórias para obter benefícios quanto encarar as situações de frente, encarar a própria historia. Satya é olhar as pessoas nos olhos, levantar a cabeça. É um compromisso muito potente esse de falar e viver a verdade.

3- Asteya (não roubar)
Não nos apoderar daquilo que não nos pertence. Assim como falar a verdade, não roubar é um princípio que nasce da própria integridade. Mesmo nas situações mais difíceis de sobrevivência, da fome, do frio, do desespero... esse princípio garante a consciência tranquila que é essencial para não ficar preso no passado, na consciência de culpa.

4- Brahmacharya (moderação)
Significa viver sem vícios, sem compulsão, sem excessos. Na vida de rua, por estar livre de responsabilidades familiares e sociais, a pessoa tem a sensação de liberdade de fazer o que quer. É o risco de se deixar seduzir por vícios e acabar aprisionado a eles.

5- Aparigraha (ausência de ambição)
Também conhecido como desapego. Reconhecer aquilo que já possui. A vida, o ar, a água, o alimento, os amigos. Agradecer por tudo. A ambição nasce da falta de reconhecimento do que se é e da incapacidade de se viver no momento presente. Então ao invés de ficar projetando conquistas futuras muito distantes ( e quase sempre ilusórias), viver um dia de cada vez e descobrir o contentamento com a simplicidade.

NIAMA

1- Sauca (limpeza)
Um desafio a mais para quem vive na rua, com pouco acesso a banheiro ou locais para tomar banho. A sugestão é de se limpar antes e depois das aulas. Higiene, cuidado com o corpo e a saúde, sentir-se bem consigo mesmo e à vontade no contato com as outra pessoas. Na aula de yoga muitas pessoas começam um convívio. Cuidado com os pés, com os dentes, a importância de tomas banho regularmente.

2- Samtosa (contentamento)
Como obter contentamento se a história de vida muitas vezes está num ponto trágico de rupturas e dores? O yoga abre a possibilidade de consciência desse sentimento íntimo de contentamento, de bem estar de estar vivo, de respirar. É a partir desse ponto que as mudanças na vida exterior podem ocorrer a partir de um estado de potência do sujeito.

3- Tapas (disciplina, perseverança)
Nesse início de pratica, fazer um esforço inicial de praticar os asanas, pranayamas, a observação de si, a meditação, foco e o cuidado com os pensamentos todos os dias, mesmo fora do horário de aula. Perseverança no caminho. Presença nas aulas, ultrapassar os incômodos emocionais que podem acontecer.

4- Swadhyaya (autoestudo)
Respirar. Observar a respiração. Observar os conteúdos mentais, as emoções. A prática está criando o hábito de auto-observação em nossos alunos. Perceber os padrões de reatividade, de frequência mental. Conhecer também os estados de alegria, de paz interior, de amor. Tomar consciência de que o Ser é o observador de tudo isso.

5- Isvarapranidhana (devoção)
Entrega. Confiança. Amor. Reverência pela vida e o reconhecimento sincero da presença de Deus no outro.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Eu defendo a compaixão

Queridos, hoje estive no café da manhã e meu coração mais uma vez se contorceu de dor com uma mistura de sentimentos vendo a situação de cerca de 200 companheiros vivendo na rua. Por que tanta gente sem casa, tendo que percorrer a cidade em busca de alimento para sobreviver? Hoje muitos vieram me pedir ajuda para tirar segunda via de documentação, outros vieram pedir ajuda para um dentista, outro para um oftalmologista pois a fila para o atendimento na saúde pública é tão grande que ele que está com dor de dente hoje vai ter que esperar mais de um mês para o tratamento. Vejo tantos jovens se formando em medicina, em odontologia... tanto conhecimento, tanta vontade de trabalhar... por que o atendimento é tão demorado e muitas vezes inviável para essas pessoas? Teve uma hora que fomos doar roupa e um monte de gente se acotovelando para um peça de roupa... olhei para aqueles homens se acotovelando... era um perfil parecido... depois alguns me chamaram no canto e disseram: aquela roupa ali vai ser vendida no brechó e você sabe pra que os caras querem dinheiro... Me pergunto por que as pessoas se drogam tanto? Nossas sociedades modernas tem no mínimo 70% da população consumindo alteradores de consciência... e olha que não estou sendo radical e incluindo a televisão aqui... estou falando de crack, maconha, álcool... uma sociedade onde as pessoas tem um aplicativo para fugir da polícia não é uma sociedade saudável, nem ética... Depois chegou um homem totalmente transtornado, criou uma grande confusão provocando briga, pegou pedras para jogar nas pessoas e eu tive que ir lá acalmá-lo... conversa vai conversa vem... fui sentindo que temos ali um caso de transtorno mental grave sem tratamento... tantos profissionais da psiquiatria, tantos psicólogos formados com vontade de trabalhar... por que as pessoas ficam na rua sem tratamento adequado e ainda correndo o risco de serem presas como se fossem criminosos? Aliás me pergunto quantos presos não precisariam, na verdade, de tratamento? Lidar com a frustração é tão difícil para todos nós... às vezes olhando tanta dor no mundo, e tanta inconsciência... eu acho que eu estou por um triz de pirar também... me sinto tão impotente em fazer algo por essas pessoas. As coisas estão tão erradas... e parece que ninguém vê. Claro que no meio de tanto sofrimento, a gente vê um monte de coisa bonita também. Na nossa aula de yoga, uma de nossas alunas falou da mudança que está tendo em seu temperamento: que está "boba consigo mesma", que antes era agressiva e agora não briga mais com as pessoas. Todo mundo devia fazer yoga ou outras terapias para terem o mesmo efeito, né? Pelo menos isso a gente está conseguindo oferecer gratuitamente. Mas as sombras ainda são muitas e meu coração se enche de compaixão. Acho que compaixão é o amor misturado com o desejo de justiça. Quero que as pessoas sejam felizes. Olho o homem com pedras na mão e gostaria que ele encontrasse tratamento, ao invés de prisão... mas sei que a opinião pública que elege os políticos e mantem um pensamento conservador vitorioso no país não consegue ver assim... e que a opinião pública, a mesma que escolheu Barrabás ao invés de Jesus, quer jogar pedras no homem com pedras na mão. Mas meu coração dói diante do sofrimento psíquico do homem que segura as pedras na mão... e ao mesmo tempo dói só de pensar no que as pessoas pensam desse homem e que ninguém vê ali um doente mental precisando de ajuda, mas um criminoso que merece morrer. Eu defendo a compaixão... por isso ajudo a chegar o pão a quem tem fome. Eu defendo a caridade, por isso quero que chegue a moradia, o tratamento de saúde, o fim do linchamento, da execução sumária e da tortura, porque as pessoas precisam ser tratadas e não odiadas.... eu sou pelo amor e por isso estou na rua em contato com os mais pobres dos pobres da cidade, os que moram nas ruas, os sem ninguém, o sintoma da doença social que vivemos na cidade. Eu sou pela paz e por isso me pergunto por quanto tempo nós vamos aceitar que os dirigentes do Estado (esse que tem o poder de construir casas, de fazer funcionar o sistema de saúde, de organizar melhor para que não haja tanto excesso de comida na mesma cidade que tem tanta fome) continuem não cumprindo o seu dever. Meu coração está doído demais. Mas é a compaixão que me faz perseverar, apesar da dor alucinante do faminto que me xinga por eu lhe entregar o pão, apesar da ignorância do senso comum político que diz que o Brasil é subdesenvolvido porque pobre não gosta de trabalhar... ouço isso e sinto o ódio dessas pessoas e busco a fé... é preciso muita fé para tentar trazer luz sob o céu nublado do sofrimento humano... meus mestres foram mortos por serem bons... eu persisto! E acredito que assim a gente faz a diferença... vamos em frente! Aqui tem o texto da Política Nacional para a Inclusão da População em Situação de Rua... o texto é lindo! Foi uma vitória a sua aprovação a nível nacional. Sonho que seja colocado em prática... quem sabe... pelo Brasil a fora... esses novos prefeitos eleitos...
http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/cao_civel/acoes_afirmativas/Pol.Nacional-Morad.Rua.pdf

domingo, 30 de outubro de 2016

(In)Exato

Voltando para casa irritado e frustrado após uma conversa com uma pessoa mergulhada no senso comum político, desabafei para minha mãe:
- Acho que escolhi a profissão errada.
- Como assim? - Ela quis saber.
- Eu não devia estar no campo das ciências humanas, as pessoas não respeitam seus anos de estudo, elas são cheias de opiniões erradas sobre o mundo social, não levam em conta o saber da história em seu pensamento, são dominadas pela ideologia dominante. Isso não aconteceria com um cientista natural, as pessoas perguntam para saber algo de um astrônomo, por exemplo... e jamais ficariam argumentando que é o sol e a lua que giram ao redor da terra.
E depois de um silêncio, eu terminei meu desabafo:
- Eu devia ter feito exatas.
E então minha mãe retrucou sabiamente:
- Mas você não é exato...

Minha mãe tem 69 anos e quando não está reclamando das dores do corpo, tem essas tiradas sábias e exatas para manter a auto-estima do filho.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Do fogo eleitoral à fogueira do conselho


"O dom da fala foi concedido aos homens não para que enganassem uns aos outros, mas sim para que expressassem seus pensamentos uns aos outros." Santo Agostinho.

Em tempo eleitorais, venho refletindo muito sobre que tipo de mecanismo democrático tem mais sintonia com os novos tempos da evolução humana.

Venho assistindo a disputa eleitoral, e mesmo tomando partido por um candidato, não posso deixar de me sentir triste com o processo democrático que me parece muito ultrapassado para valores que hoje já compartilhamos.

Nessas últimas semanas fiquei perplexo com a grande inconsciência das pessoas e de como a propaganda eleitoral afeta as opiniões de forma a deixar as pessoas menos reflexivas e mais preconceituosas.

Senti-me imensamente desanimado com a falta de sensibilidade com relação ao sofrimento das pessoas mais pobres e vítimas da crueldade e violência sistêmica que vivemos. Conversar com as pessoas é como "cair na real" e ver que o espírito de compaixão anda muito distante quando se pensa no todo.

Vi-me decepcionado também com a falta de motivação das pessoas para a participação e em acreditar que elas podem "fazer a diferença".

E para piorar meu estado de ânimo, senti-me altamente afetado com o clima de disputa que aumenta a emoção do ódio na cidade.

Entretanto, em meio a essa crise íntima, buscando alguma luz, eis que fui presenteado, só nessa semana, com três encontros em que falamos e fizemos um ritual conhecido como "bastão da fala". O que me fez pensar sobre: "afinal, o que significa todo esse processo eleitoral e qual democracia precisamos buscar?"

A inspiração do "bastão da fala" vem dos povos nativos da América do Norte e está concretamente presente nas formas de organização política das pequenas comunidades ecológicas atuais.

"Quando precisam tomar decisões que afeta a nação, os povos nativos das Américas recorrem a um ritual que pode durar toda a madrugada. Os membros desse conselho que se reúne em torno da fogueira são pessoas que já viveram muitos anos, sempre demonstrando lealdade, bravura, compaixão e altruísmo, além de ser um bom ouvinte, um conselheiro discreto, um juiz justo e um honrado membro da tribo.

Em cada tribo, todos reverenciam os anciãos com grande respeito por terem dirigido os caminhos da nação com desprendimento, coragem e sabedoria. E então, nos momentos de difíceis decisões, eles se reúnem enrolados em seus cobertores em volta da fogueira para passar a noite: é a Fogueira do Conselho.

E ali evocam a presença de todo o parentesco dos homens. Os espíritos dos antepassados, guias e conselheiros espirituais do povo, bem como o avô sol, a avó lua, as estrelas... e os animais, as plantas, as nuvens, as pedras... todos igualmente sagrados, assim como o vento, a terra mãe, o pai céu... E todo esse conjunto de seres, é colocado dentro do Cachimbo e a fumaça do Cachimbo conduz o espírito de todos os parentes para que participem e inspirem o Conselho.

Todos os pontos de vista são ouvidos. E ali cada um fala segurando o bastão que dá voz a quem o segura. Cada um escuta atentamente. Há silêncio reflexivo entre as falas. Os problemas pessoais são deixados de fora do círculo. Todo talento que possa ser útil para resolver as questões é trazido para dentro. Qualquer discórdia entre os membros do conselho é solucionada enterrando-se o Fornilho antes de fumar o Cachimbo. Ao final de cada reunião é realizada uma prece de gratidão, e muitas vezes um banquete festivo.

O objetivo é sempre manter a Paz. E quem convoca um conselho deve estar sempre pronto para acatar as decisões do mesmo. Quando um mau comportamento de alguém é levado ao conselho, admitir o erro e corrigi-lo ajuda a forjar o caráter e fortalece a Nação. A pessoa não passa vergonha, não é humilhada, e toda vez que tenta sinceramente corrigir seu erro, isso é visto como um ato de coragem.

Só quando todo o povo está bem, um indivíduo pode estar bem.

Quando essas diretrizes forem seguidas por todos os povos, os Filhos da Terra conseguirão, finalmente, romper os grilhões da desigualdade e da ditadura."

(citação livre do livro: "As Cartas do Caminho Sagrado" de Jamie Sams)

Viver a realidade dessa fala sincera e dessa sensibilidade para a escuta do outro, faz relativizar o que chamamos democracia hoje.

Não. Não é democracia. É disputa de poder. Democracia é outra coisa. E são os índios, em sua profunda conexão com o sagrado e a irmandade dos povos viventes, que têm algo a ensinar...

E assim, depois dessa reflexão e das práticas de bastão da fala entre estudantes e amigos, seguirei até domingo com a sensação de estar com a alma curada... tenho clareza de que o candidato que escolhi compartilha valores democráticos que se aproximam deste ideal, mas também tenho clareza da distância que há entre esse processo que estamos vivendo e o que sonhamos... já sei por quais caminhos devo investir minhas energias para ajudar a construir a socio-cosmo-cracia do futuro.

Vamos em frente. Há muito a ser feito.

sábado, 27 de agosto de 2016


Leituras poéticas entre mar e céu
André Andrade Pereira


Lendo o livro de Rita Loureiro Graça
Pele-a-pele, aforismos de uma poesia do cotidiano: o por aí afora da vida.
Editora Chiado, 2016

“Eu sou pássaro-árvore, minhas raízes estão aqui
Na minha casa interior e minhas asas,
Abertas para o temporal do mundo.
Vou e fico, num mesmo segundo.
Apresentação

Tive a alegria de conhecer pessoalmente essa escritora no ambiente mágico de Piracanga. Depois de alguns encontros onde não disfarcei meu interesse em conhecer aquela linda jovem compenetrada em seu lap top mas que, igualmente, sabia se fazer presente na alegria do sorriso em cada troca de olhar, depois de falarmos dos mistérios da temporalidade de se viver ali em Piracanga, eis que a jovem começa a citar Jorge Luis Borges e outros poetas  interessantes até que, finalmente, ela revela que escreveu um livro de poesias. Fomos até sua casa e ela me vendeu um exemplar com uma belíssima dedicatória de presente. Então a minha própria poesia renasceu lendo página a página de seu livro.

A maioria dos seus poemas são encantados, tem o dom da iniciação. Enquanto lia, sentia o universo de Rita, um universo calmo, altamente perceptivo e sensível, contemplativo até; a dose certa entre a descrição do mundo de fora, com a imensidade do mundo de dentro... e ali, imediatamente, minhas percepções igualmente se abriam e me convidavam a ver e sentir o mundo a minha volta, um mundo eternamente novo, apesar de o mesmo de sempre.

O milagre que andei procurando ao longo da minha vida de aventureiro apaixonado pelos inícios: como me encantar permanentemente com o mundo da rotina, do cotidiano? Rita, neste livro, nos inicia nessa arte. E, assim, aprendiz, resolvi ler com mais vagar seus aforismos e poemas, comecei a mandar alguns deles para um grupo de amigos do Rio, pelo telefone celular. Então, uma amiga pediu que eu comprasse um exemplar para ela também. Fiquei feliz porque teria a chance de encontrar Rita de novo e comentar sobre alguns poemas dela. Só que nesse meio tempo, machuquei meu pé jogando vôlei (quem me conhece sabe que de cada três partidas, eu me machuco três vezes) e fiquei em casa de repouso. Mas Gabi, companheira amada, junto com nossa filha foram até a casa dela. Rita ia entregar a ela mas como nenhuma das duas sabia o nome da amiga para a dedicatória, minha mulher disse para Rita ir lá em casa, levar o livro e aproveitar para me visitar. Na verdade, nessa terra de magia, Gabi também usou suas artimanhas e conseguiu atrair a escritora para tomar um chá com a gente lá em casa e nos inspirar um pouco mais. E foi uma maravilhosa oportunidade de ouvi-la contar um pouco mais das histórias por trás dos seus escritos, e entrarmos na dimensão poética da vida que acontece a cada segundo. Entre um chá e outro, ela foi presenteada pela presença divina de nossa filhinha, sem saber que tudo era um grande plano do Destino para nos tornarmos amigos. É assim a vida de pessoas que estão abertas a ver a luz das pessoas. Depois ela me contou sobre terapia homeopática e outros mistérios que ainda pretendo me iniciar. De tudo, crescia a vontade de escrever minha leitura de seus textos (uma interpretação, uma análise crítica, uma re-criação?), para incentivar mais e mais leitores, de modo que pudessem sentir esse aroma, ter esse gosto e vivienciar, na pele, o universo de Rita e de si mesmos. E agora, um pouco do meu também.

Primeira Impressões

Fiquei muito impactado com seu trabalho logo no início, nos primeiros poemas e aforismos.
O livro começa assim:

“Nós vivemos para conquistar nossas saudades”.

E logo mais a frente encontrei um poeminha singelo chamado “Inocência”:

“Tinha uma tristeza
Morando em mim,
Fiz dela passarinho
Retirei seu ninho
E voou como um querubim...”

E um outro aforismo que me revelou um pouco do espírito da sua poesia:

“Sabe quando tem um buraco no meio do seu ser? O meu virou uma janela.”

Três momentos de seu livro. A saudade, a tristeza, o vazio. Três dores. Uma poesia que está às voltas com o sentimento humano. E com os processos do viver. Rita tem a maturidade dos espíritos fortes, capazes de encarar a própria dor. E faz da poesia sua alquimia, seu caminho de transformação, de sabedoria, de estar em paz com a própria vida, de estar em paz com as leis da vida. Com profundidade e leveza, nasce o bom humor e as soluções que só se encontra na sabedoria das crianças inocentes ou nos sábios anciãos. Talvez seja esse o seu recurso poético, manter a magia, o encantamento da infância. Rita retorna a infância e faz essa alquimia. Saudade ao invés de chorada e sofrida, se torna motivo de conquista, de impulso de vida. A tristeza se torna um passarinho que voa como um querubim. E mais tarde veremos como o tema do voo aparece numa poesia que igualmente ama a terra e as raízes bem fincadas no solo (da infância?). O vazio, ou melhor, o buraco no meio do ser, ao invés de lugar para se afundar, se tornou janela, ou seja, foi através da dor que seus horizontes se ampliaram, convidando-a ao voo do viver.

Essa foi a Rita com quem comecei a entrar em contato através dos seus poemas.

O tempo da poesia

“Se cada ato meu não pode ser poético então nada mais vale a pena.”
Ler a poesia de Rita é se convidar a entrar num outro ritmo, numa outra relação com o tempo. Um tempo de contemplação, de percepção sutil das coisas. É preciso parar e respirar, deixar tudo de lado e se concentrar para mergulhar com ela em seu mundo. Um mundo interior em constante relação com os elementos naturais que vão surgindo em seus textos, o mar, as árvores, o sol, a lua, as estrelas, a chuva, seu manjericão na varanda, as frutas com que se delicia, a sombra das árvores de sua infância, a presença humana do amigo na varanda, a luz que entra pelas janelas, a areia da praia, a porta velha de madeira da casa, o mar e as areias.

Acompanhar sua poesia é entrar numa outra atmosfera perceptiva, um estado alerta, atento, o que faz parecer uma leitura espiritual de meditação, de percepção de todas as coisas ao redor e, ao mesmo tempo, a percepção da interioridade. (Quem sabe a interioridade das coisas seja a sua grande busca?) Mesmo nas coisas mais ínfimas do cotidiano. Tudo em constante comunicação entre o ser de dentro e o de fora.

Com uma habilidade misteriosa de despertar empatia, ler seus poemas, seus aforismos, é compartilhar desses sentimentos, suas alegrias, seus êxtases, suas saudades, suas raivas, seus desejos e paixões repentinas, sua descoberta do feminino, e a suavidade do seu amor, sim, o amor é o tema mais presente, um amor misterioso, cujo objeto ora é um humano, ora um pé de manjericão, ora o pai, mas o que predomina mesmo é o amor puro, o amor verbo sem objeto definido, e quando o objeto aparece, aparece mais ao final do poema, pois o tema é sempre ela mesma “Andarilha de si mesma”, em sua abertura amorosa pelo mundo, essa constante aventura de quem descobriu que “casa mesmo é dentro da gente”, seu amor é esse estado de alma: de gozo pelo mundo, que exige esse outro tempo, o tempo poético, o tempo do sentir...

É nesse outro tempo que Rita vive e elabora sua poesia. E, por vezes, se pergunta (e nos denuncia) sobre a vida corrida do mundo:

“Tem horas que me pergunto sobre a pressa. Vivemosandamoscomemosolhamoslemos na pressa instantânea das criaturas dos calçadões apinhados das grandes cidades, nem mesmo nos olhamos direito, ao outro então, mal sobra espaço. Moramos empilhados em apartamentos verticais  imensos e nem conhecemos nossos vizinhos de cimabaixoladofrente (...) Progressão em aritmética, somam-se, subtraem-se, mas não amam-se, não trocam, não destrocam, não permitem.”

O mesmo vazio de sensibilidade diante das coisas é o vazio de afeto e de encontro. Creio que Rita expressa a angústia humana da falta do amor num mundo de relações superficiais. Rita busca o amor.

“Se existe algo, este algo é passível de amor”

E como já sabe que o amor nasce de dentro... eis o seu caminho.Vive radicalmente uma busca de si mesma, que é uma busca pelo viver a partir de si mesma:  “Eu me recuso a não ser-me”

“Me perdoem, mas não posso ignorar a urgência de ser-me (...) não tenho mais para onde ir, a não ser para dentro.”

Palavra é barro, poesia é arquitetura: assim se faz a casa interior de Rita

“Se é nas saias da poesia que eu me escondo, é somente nela que eu consigo contar a verdade” diz ela no poema Toca.

E assim, recolhe-se e acolhe a propria solidão como algo bom.

“Tudo para mim tem um sentido íntimo que não precisa ser expresso, é uma paz minha, sentida e que transborda nas coisas que eu faço”

E aprende nesse mundo interior a lidar com tudo que lá existe incluindo o medo:

“O medo? Ele está lá sussurrando. Sempre esteve.”

 e a própria sombra:

“Abraço minha sombra, deixo que ela chore porque selvagem é o vento que assopra e anima o ser.”

Rita descobre através da poesia esse caminho da mestre de si mesma. O tema do medo já apareceu no poema “Gente” onde ela diz:

 “Não é possível lutar contra o medo, contra a escuridão, mas é possível amar e acender a luz: simples, difícil e corajoso.”

E em “Medo assumido” Rita faz sua poesia do cotidiano de um jeito bem humorado

“Quer saber? Se o Medo resolveu alugar uma água furtada no meu telhado e morar lá, que seja um inquilino muito bem vindo, pague as contas em dia e faça silêncio. Porque eu... estou morando no andar de baixo (...) o nome dele vem na conta de luz, vejo ele subir e descer as escadas do saguão quando vai tomar café da manhã. Tenho que viver ali, todos os dias com a rotina dele e com a minha.”

E completa:

“Nós dois nos ajustamos bem”.

E na solidão encontra uma relação íntima com o mundo natural, e a paisagem interior, a arquitetura interior, é repleta de elementos da natureza:

“Tem dias... em que se escorre... no estar só (...) chove e é de mim que as gotas se fazem a oceano livre, inundo o quarto com o meu ser... sou. E o mundo me é, piso nas poças pelas ruas de mim, aspiro essências de terra e ando descalça pelo vento.”

Poesia que acontece no corpo, na pele.

“Quero carne e não palavras, quero olhos e não visões, quero o suor real e não o perfume ilusório”

Dentro de si Rita descobre o prazer. E é o prazer, especialmente o prazer na pele, o que vai lhe reconectar ao mundo, ao Outro. E nesse caminho andam juntos o seu tempo poético, sua interioridade, o universo do sentimento, e um sentir que é próprio do corpo, que lhe conecta com os elementos da  natureza, e o desejo de um romance com um humano que esteja à altura de entrar nessa vinculação de profundidade, que é seu alimento.

 Entra em destaque na sua poética a pele.  Antiplatônica assumida, o amor em Rita acontece na pele, no sentir as coisas, e sentir com as mãos, com a boca, as coisas que “escorrem”, sorver os cheiros, muito mais do que com os olhos... Rita é carnal em sua poesia, ao mesmo tempo que misteriosamente suave e transcendente...  e a sua arte alquímica, seu laboratório, é a mistura sui generis da língua portuguesa com um conhecimento místico dos elementos da natureza. Com a língua ela produz inversões de sentido, paradoxos, absurdos, fantasias e neologismos que nos surpreendem e nos reconectam com seu modo próprio de ver o mundo natural, as coisas e suas cores... a Verdade se torna verde, a tristeza se torna passarinho e depois voa como querubim... conhecer os pés é adentrá-los na terra, a sinceridade é como os raios da noite que vêm com o sussurro da lua e, por vezes, Rita se perde no branco...  sua poesia é uma busca de comunhão com a natureza... sua meta talvez seja o silêncio, o absoluto, o simples, que é uma vida bem aventurada e sem palavras que a expresse...  Um mistério, sim.

“Minha poesia me traz para o corpo.” É assim como uma sensibilidade grande demais, quase insuportável, que encontra expressão em palavras e encarna na pele em levezas e sutilezas... e é exatamente através do corpo que ela entra em contato com o mundo, uma relação sensorial. Onde até mesmo acordar de manhã, passa pelos sentidos:

“frestas de luz filtradas na poeira do cobertor em suspensão. Cheiro de café acabado de fazer”. Assim começa uma manhã preguiçosa na cama. “Toco a realidade áspera da torrada com a ponta dos dedos e sinto o seu gosto.” Sensorialidade que a convence de que “É caso de viver.”

O que é o ser humano? Essa gente-poema “vê, come,cheira, saboreia, toca e no seu sexto sentido, o mais belo de todos, faz poemas.” E assim o ser humano sabe do mundo pelos sentidos:
“Vem em mim o estado próprio das coisas e dos seres de não serem. E tudo aquilo que antes eu conhecia, agora desconheço, e por assim ser: toco, sinto, cheiro e como. Saboreio em cada pedaço o prato inteiro.
- Me vê um cafezinho por favor?”

 “Gente-poema sabe sentir o mundo porque é mundo e isso é tudo e isso é só.” Ou seja, o conhecer é um processo que ocorre por simpatia, por comunhão, semelhante que percebe semelhante. Só posso conhecer o mundo por ser, eu mesmo, mundo, em outras palavras, corpo.

A própria angústia e o desejo de liberdade passa pela relação com o corpo:

Acordar “como se tivesse a roupa costurada no corpo, e tudo que quero é o lapso de a arrancar com costuras e botões e tudo... e me ver assim, honesta, nua – Desfeita.”

 O corpo é sobretudo a pele, que dá título ao livro, lugar de carícias, de carinho, lugar onde “escorre afeto sincero”, uma mulher que valoriza “os olhos que temos nas mãos”... Entretanto, por vezes o corpo é prisão, é a pele que sufoca, quando sente que precisa romper... “irromper pelo mundo, romper minha pele, rasgar num resgate íntimo a minha sensibilidade...”  E então o corpo se aprofunda e seu caminho é seguir as “veias solitárias e humanas”, aqui, corpo é já o pulsar das veias, são as tripas que se tornam coração, é o que lhe dá inteireza. E do corpo nasce também o “cordão angelical” de uma poesia que endelicadece a vida... uma espiritualidade que acontece a partir do sentir do corpo.

Notamos em seus textos um corpo inteiro, muito atento, perceptivo, meditativo. E foi o que me aconteceu à medida que ia lendo, ia inspirando em mim mesmo a percepção das coisas ao meu redor e me senti mais centrado, mais meditativo.

Ouvidos atentos, Rita define sua poética como diurna, do cotidiano, essa atenção desperta para os sons que se transformam em matéria prima para criar e sentir-se no mundo, viva, namorando as coisas, sentindo sua alma. Em muitos momentos Rita faz declarações de amor ao cotidiano: poesia é “ter os olhos de Ver o desconhecido no cotidiano.”

“Quero agora é que o dia brote das minhas mãos e que a noite venha mansa como tem de vir, que música nenhuma ouço, só o barulho da rua, do vento nos vidros e dos vizinhos a lavar a varanda. É de cotidiano que nasce minha arte, é de dia que engravido, pois arte mesmo é aquela que não tem hora nem lugar, não conhece tempo ou destempo ela vem e assim como o sol na manhã cinzenta traz alguma cor pro verde. É de verdar que minha arte respira: verde de folha nova, verdade que namora em baixo do pé de pitanga. É de pássaro desperto que vive minha alma.”

Do sensorial ao êxtase místico

“Que a oração seja verbo e encontre o ser no corpo”

No poema “pássaro-chuva” o leitor pode acompanhar o itinerário desse modo de ser poético de Rita... é algo que acontece de repente, quando a gente se deixa invadir pela dimensão poética à nossa volta. Gosto de pensar que foi assim com Rita nesse dia em que ela desce a rua para tomar banho de chuva e depois é presenteada pelo sol que se torna doce... a sutileza de Rita está na forma como se sentiu convidada a esse banho de chuva.

Primeiro o som da chuva que:  “tanto na minha cabeça que ouvir a chuva forte não foi um convite, foi um apelo.”

Depois o desenho das gotas de chuva numa descrição belíssima e econômica em palavras: “Olhar para a porta velha de madeira vendo as gotas desenharem os degraus, pulando, subindo e descendo. Caminhando, a água vai pela rua enladeirada, e eu desço junto.”

Creio que o mérito da Rita, assim como em todo o viver poético, está no olhar receptivo. É como uma virada de chave interna. Num momento, o mundo cotidiano, sem graça, monótono, superficial... um olhar prosaico. De repente, algo vira a chave... percepção poética. Nesse dia, parece que foi o som da chuva... fico imaginando... a pessoa em seus afazeres, de repente se dá esse tempo de ir ouvir a chuva, e dali a visão das gotinhas, e então a vontade de sair de casa e então a chuva lhe cai sobre o corpo:

“sinto as gotas de chuva lavarem meu suor, gosto de sal”
E então a relação vai ficando mais e mais dionisíaca, o prazer sensorial, a pele entre em cena, o corpo inteiro vai entrando nesse erotismo: “eu me perco, chupo ao lábios e sorvo cada gota...”

Então a surpresa com o fim da chuva, e a abertura de si para sentir o sol:  “a chuva para e o sol fica doce.”

Com a chuva, diz ela, “meu coração se aquietou e foi ninado pela sua música de milhares de gotas”

Uma experiência que, por fim, é uma mística da totalidade: “se sou uma gota só eu já não sei... naquele momento fui todas.”

Do som ao olhar, do olhar ao andar e sentir na pele, daí a entrega, o prazer, e o perder-se no todo... o arroubo místico, um arrebatamento, um êxtase de comunhão, de ser um com todos os pingos de chuva, um conhecer propriamente a chuva...

E ali está a sutileza de nossa poetiza: a chuva que ninou seu coração.

Voar por ter os pés na terra

“Eu sou pássaro-árvore, minhas raízes estão aqui
Na minha casa interior e minhas asas,
Abertas para o temporal do mundo.
Vou e fico, num mesmo segundo.

No poema que escolhemos para epígrafe desse texto, ela se define esse pássaro-árvore. Sua ligação com a terra, onde finca seus pés. Talvez seja todo esse terreno onde reencontra em si mesma seu pai, sua mãe, sua infância, suas saudades, seu cheiro de casa de avó e sombras de árvores velhas, sua interioridade silenciosa e atenta... de outra parte suas asas abertas para a aventura, suas ousadias, suas viagens, suas rupturas de pele, sua abertura para os riscos do amor, do gozo, sua quebra de paradigmas... e tudo isso, esse ir e esse ficar, ocorrem num mesmo segundo. Essa é a Rita inteira, asas ao céu e pés bem fincados na terra... o que lhe permite ir além dos próprios pássaros.

“Árvore com raiz, voa mais que pássaro com asa. Tem terra pra onde voltar e topo pra ver o primeiro sol tocar nas folhas.”

E assim sua sabedoria de vida:
“Compasso de caminhar com um pé no caminho e o outro no vento.”

A intensidade

“Eu sou isso. Essa não conciliação das possibilidades...”

E, alguns momentos seus poemas falam das sutilezas etéreas, em outros momentos há espaço para uma intensidade quente, um fogo interno, um permitir-se a loucura, que é o que a torna uma pessoa inteira. Guarda em si todos os elementos. Alguns trechos ilustram essa vertente intensa, na sua autodescoberta:

“Hei de beijar cavalos, apalpar flores e devorar as entranhas de um passarinho só pra ver o voo escorrer.”

“Selvagem em meu interior vou me desbravando. Mata brava, monto em meu cavalo branco e me resgato de qualquer ser artificial.”

“Fora de mim sou sombra de outras árvores, e dentro sol. Calor e fogo.”

“Minhas veias ardem por mar”

E essa intensidade aparece também em seu próprio fazer poético, seu jeito de escrever em guardanapos, notas fiscais...

“Eterna obra final
Te recuso pela imortal intensidade dos rascunhos”

O encontro amoroso

“Tem uma fenda aberta na minha mulher”

Encontrei na poesia de Rita um verdadeiro desejo pelo outro, pela presença do outro. E aqui, o ouro aparece numa radical alteridade, ou seja trata-se verdadeiramente de um outro, alguém que o eu não poderia criar, imaginariamente, fantasiar. Não é um personagem idealizado. Há aqui um autêntico desejo de encontro com alguém de carne e osso, que será sentido pela pele. Alguns versos ilustram isso:

“sou breve quando me toco
porque sou longa quando contigo
para que me percorras inteira”

“sentir o outro em mim”

“Sou uma mulher de muitas arestas, justamente porque creio no outro”

“o inteiro meu, já não sabe sem o inteiro teu”

 E o caminho do amor aparece como caminho de entrega intensa, sem reservas:

“Tenho a sorte de ser desavisada do perigo, porque me entrego sim, em totalmentes; meu coração é.”

Entrega que exige reciprocidade. Já que ela sente “a dor de não encontrar um emparelhamento, um outro ser que se dê em totalidades sem exigir.”

Tudo na poesia de Rita é um jogo entre a sutileza da carícia leve e a nervura do encontro real, carnal; uma mistura de verdade espiritual com o gozo do corpo... Rita vive intensamente esse encontro entre o espírito e a paixão do corpo; não é que ela oscile entre esses extremos, mas em sua profundidade de sentimento, ela, em corpo e poesia, ou melhor, habitando poeticamente o corpo, se alimenta desse encontro entre a verdade filosófica e o prazer sensual, despreza o puramente intelectual e não vê graça nos encontros superficiais, mas vive ali, exatamente ali, nesse encontro sutil entre espírito e carne, em estado de graça, no afago sutil, nas carícias em sua pele, num encontro feito de “tensões simples.”

“Pegar o éter tem qualquer coisa de apalpar, não de segurar”

A sutileza da carícia amorosa aparece representada pelo elemento éter.

“Nossos dedos se confundem (...) se banham as almas em prece de saliva...
É aí que a verdade goza.”

Uma filosofia do amor: o gozo da verdade! Ou seja, ao invés de habitar o reino intelectual, a verdade vem ao corpo, mas em seu desejo, há que se respeitar a sutileza etérica de sua pele, o que torna a carícia uma sensação transcendente... “Infinita é a sensação de carinho, causa em nós arrepios e lembranças sensoriais – de pele.” E creio mesmo que essa via amorosa para o transcendente encontra a mesma expressão no caminho de sua poesia, no rumo do mundo sem palavras, na expressão do silêncio. Vejamos isso.

Amor e silêncio: a literatura como caminho místico.

“Queria ler a noite toda, todos os livros que me chamam, as palavras todas escritas da humanidade até não restarem mais páginas, só folhas em branco. Só limpidez, pureza. Até não haver mais distância entre os seres.”

Nesse poema, “Ecos de domingo”, Rita também fala da lua cheia, do desejo de fugir com um cigano, e também fala de como lhe agrada a presença do manjericão em sua varanda, contrastando com o veneno da fumaça do cigarro...
Na ambivalência dos desejos: de um lado o desejo carnal de um amor casual com um cigano que fosse embora na manhã seguinte (inspiração de lua cheia, a lua dos amantes), de outro o amor companheiro e fiel do manjericão suave que lhe acarinha. Rita vive essa antinomia entre esses tipos de amor também na sua relação com a literatura... o desejo voraz de ler tudo que há, de possuir todas as palavras.... desejo que se esgota na limpidez e na pureza das páginas em branco, no silêncio... silêncio onde o encontro entre os seres se torna possível...  assim Rita escreve... para limpar a alma... e, só assim purificada... viver o encontro com o Outro... na linguagem silenciosa do encontro:

“Necessidade de língua para quê, quando em um se converte o discurso do olhar?”

“Eu me reconheço em preces de silêncio...”

“Não tenho mais palavras, e não é que não as encontre... É só que já não valem mais o esforço.”

Viver é sustentar a criatividade

Encerro esse artigo, e a leitura desse livro, com a sensação de ter encontrado uma escritora, uma pessoa, muito completa. Nela se harmonizam terra, ar, fogo, água e éter; sombras e luzes; cotidiano e êxtase; espírito e corpo; e, de tudo, fica a impressão de se tratar de um ser humano que aprendeu a aprender com a vida...

Um jeito de encarar a vida sem ter medo do medo (“portas são passagens, porque as tornar em obstáculos?”) e cultivando a paz e se dando o direito de desfrutá-la (poema “Na minha terra” transcrito logo abaixo). E... quando nem a escrita dá conta do tamanho de todo o sentimento, é o corpo que a salva, em movimento, e Rita se convida a dançar. Espero que continue dançando tanta vida por aí afora...

Na minha terra
“Jamais podemos presumir que uma vez alcançada a paz ela se sustentará por si mesma. Não se trata apenas de conquistar uma intensidade, de suspirar em flores, e sim de aprender com a vida a sustentar a criatividade que lhe é inerente. No caminho para me fazer brotar eu aprendi a cultivar a paz. Quando eu alcanço, toco e saboreio o seu fruto, eu sei que é só para não esquecer de que a cada dia que ela me pertence, eu pertenço mais ainda a ela: com gosto e sumo a escorrer pelos cantos da boca, em me entrego e durmo suspensa em seus galhos.”


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Notícia poeticamente verdadeira

Policial prende secretario de governo do Rio.
A prisão ocorreu na manhã desta quinta feira, debaixo do viaduto das Laranjeiras. O secretario ordenou que os policiais recolhessem os pertences de um mendigo que vivia no local, incluindo um cobertor e um casaco. Um dos policiais algemou na hora o secretario. O caso vai para o juri, já que o secretario resolveu processar o policial que alegará insanidade mental: na hora, diz ele, eu enlouqueci, tive uma alucinação... vi Jesus e ouvi sua voz dizendo-me: tive frio e me agasalhaste.
O caso já é o terceiro do ano em que os governos resolveram fechar hoteis e restaurantes populares.