sexta-feira, 8 de junho de 2018

Na praça outra vez

Dessa vez fomos a uma praça com grama, árvores, mais afastada do centro comercial.
Um lugar reservado.
Ainda assim, as vezes passavam pessoas e eu me perguntava o que impactaria nelas, ver um grupo de cerca de 30 pessoas, na sua maioria jovens, sentados em roda ali.
Nesses tempos de medo.
Pontos positivos, na minha percpectiva, ou seja, o que para mim trouxe aprendizados, insights, alegria.
Pudemos cozinhar juntos: Ana Claudia, Dayane e eu. Foi um momento em que me trouxe a sensação de que já somos amigos há muito tempo. Ali cortando cebola, botando água para ferver, preparando as salsichas e cenoura... o tempo transcorreu com leveza. E pude alongar meu tempo de vínculo com elas, já que tivemos que começar antes do horario da aula normal. Um vínculo extra-classe.
A lua e o céu estavam muito lindos nesse dia.
A grama estava molhada, então meio que de improviso, fui até a UFF buscar esteiras para nos sentarmos com mais conforto.
Apesar de não ter planejado fazer uma roda sentados. Parece que era o que se desenhava no início. Um pic-nic.
E assim nos sentamos em círculo e esperamos que o alimento fosse trazido para o centro.
E em roda ficamos um tempo em conversas informais até que veio a ideia: vamos brincar?
Então pensaram em telefone sem fio.
Incrível como sempre que se brinca de telefone sem fio, o grupo ganha uma coesão e todos ficamos muito atentos a todo o processo. Não é só escutar e falar na sua vez. Todos acompanham o caminhar ao longo do fio da mensagem e ficam especulando se a mensagem já se transformou ou não.
Depois a-do-le-ta.
Algumas pessoas conheciam uma letra maior da música e foram cantando e o grupo aceitou e pode se abrir para aprender o que seria a "música completa". Me chamou a atenção a atitude impaciente das pessoas com as pessoas que erravam, ou faziam errado. e de como ali em roda estávamos numa brincadeira, rindo e a impaciencia (desejo de controle) se via obrigada a ceder ali e a pessoa a rir de si mesma. Um aprendizado em lidar com a emoção e com as dinâmica naturais dos grupos grandes e com o imprevisível. Dessa vez eu estava achando tudo engraçado. Mas sei bem o que é estar nesse lugar impaciente, querendo ensinar (eu sei o que é certo!), querendo que dê certo (vamos controlar o grupo). E fiquei curioso para conhecer o processo dessas pessoas que dessa vez ficaram nesse lugar emocional.
Depois a brincadeira de galinha choca. Me chamou a atenção que as pessoas corriam para valer. A toda velocidade. Entraram mesmo no espírito da brincadeira. E gostei das transgressões criativas da regra que algumas pessoa propuseram: a Laila e a Cristiana.
Então comemos. Bebemos sucos. E pudemos estar ali nesse momento integrativo.
Depois propus 20 minutos onde eu ia expor uma reflexão sobre Simone Weil.
Acabei usando essa citação: "O poeta produz o belo pela atenção fixada no real. Do mesmo modo o ato de amor. Saber que este homem, que tem fome e sede, existe realmente tanto quanto eu – isso basta, o resto vem por si."
Percebi que não entenderam de imediato. Então sugeri que olhássemos a árvore, que a contemplássemos um pouco. E que daí, da atenção, poderia nascer em nós a sensação de beleza, o encantamento. E então assim seria com o amor. Uma analogia. Porém senti que a analogia também não foi entendida de imediato. Então expliquei que para amar é preciso olhar as pessoas, dedicar atenção, para reconhecer que o outro existe. E que esse reconhecimento do outro como legítimo outro, é o início do amor. Inclusive, essa é a definição de Humberto Maturana (um biólogo).
daí segui para a outra citação sobre o não julgamento (entendi que seria uma continuidade natural):
"Devemos ser indiferentes ao bem e ao mal, mas, sendo indiferentes, isto é, projetando igualmente sobre um e outro a luz da atenção, o bem leva a melhor graças a um fenômeno automático. Essa é a graça essencial. E é a definição, o critério do bem." Também senti necessidade de destrinchar parte a parte. E, evidentemente, a ideia de ser indiferente ao bem e ao mal sempre traz dúvidas nos grupos. Então conversamos sobre exemplo que foi trazido por uma participante do grupo: uma criança que morde a outra na escola. Então fomos intendendo que ficar indiferente ao bem e ao mal, inclui se posicionar diante das ações dos outros, mas com as emoções neutras, sem tomar partido, etc. O tempo dos 20 minutos acabou. A conversa queria continuar viva em assuntos de cotidiano escolar, questões de transtornos mentais, comportamento, etc. 

E então começamos a nos organizar para a brincadeira que estava sendo desejada por parte da turma: pique bandeira.

Ali a turma se dividiu: uma parte ficou num cantinho conversando e comprando bijuterias. Outra parte se envolveu com o jogo.
Uma coisa que me impactou no jogo foi quando meu time foi "invadido" pelo adversário que veio tomar nossa bandeira. Foi tão rápido. Fiquei atônito. Sem tempo para pensar. Invadiram nosso campo ao mesmo tempo, por todos os lados. Tive uma sensação muito forte de acontecimentos semelhantes como deve ser em uma guerra, um ataque surpresa. Foi tudo muito rápido dentro de mim, mas foi um insight desse nível.

Ao terminar o encontro pedi que nos aproximassemos. Eu estava com a sensação de que faltava algo. Mas não me vinha nada que pudesse "salvar" uma sensação de que nos dispersamos, de que de alguma maneira perdeu o sentido a atividade ali. Então a ideia salvadora foi passar uma tarefa para a proxima aula: que escrevessem uma avaliação sobre o que vivemos. Então acho que foi uma ideia boa para amarrar a experiencia ao proximo encontro, para trazer a reflexão ao que foi sentido, vivido, etc.

E assim terminamos. Resolvi escrever esse texto para fazer a minha tarefa de casa.

Se eu pudesse escolher um ponto positivo: viver a invasão no pique bandeira. foi o que me trouxe o maior insight da noite. O que isso tem a ver com educação?fala de como os jogos podem ser educativos para a experiencia humana. Ali, pude viver uma experiencia de guerra (humana e que graças a Deus eu nunca precisei viver)
Um ponto negativo: a roda de "aula" em que eu centralizei demais a fala.  Oque eu faria diferente? Eu teria lido o texto todo da Simone Weil antes de começar a falar. A leitura poderia ter dado um espírito comum ao grupo, focado a atenção das pessoas, e traria mais conteúdo que poderia seguir um bate papo com base no que interessou mais as pessoas no texto.






domingo, 27 de maio de 2018

Yoga de Rua - entrevista com Ana Poubel

Estamos iniciando uma serie de conversas, entrevistas com os voluntarios do Yoga de Rua. O objetivo é aproveitar um tempo de reflexão mais calmo e individual para pensarmos o projeto. Quem somos? Para onde vamos? Qual o significado de estar ali, indo as praças, praticando com as pessoas que ainda fazem das ruas seu lugar de moradia.
Essa iniciativa visa arejar ideias, fazer pensar e co-criar caminhos. Percebendo a fecunda diversidade que há entre os voluntários, visa também conhecer um pouquinho os caminhos e pontos de vista de cada um. Ampliando a diversidade de visões, num projeto que, por natureza, tem se feito tão plural.


1) Quem é você? A proposta desta primeira questão é conhecê-la, expresse o que vive em sua alma, seus sonhos, sua trajetória, experiências, enfim o que desejar nos contar, combinado!

As vezes me sinto como o oceano, na maioria do tempo acho que sou uma pequena onda.
Forte vocês começarem por essa pergunta, pois ela é a prática do jñana yoga - o yoga do conhecimento da essência – que basicamente vai na raiz dessa questão, como que descascando uma cebola e identificando (ou desidentificando) as personagens, os papéis, trajetórias, hábitos e personalidades. Ou seja, ao invés de falar aqui das minhas cascas, vou meditar um pouco pra encontrar com que eu sou.

2) O que significa yoga? E de que forma o yoga chegou a sua vida e permaneceu? Conte-nos quais foram as trilhas desta transformação pessoal?

Bom, pela definição do dicionário (Amara Kosha), yoga é sangati (conectar: em última instância jivatma com paramatma); yoga é upayam (veículo: que nos conduz de dukha a sukha); yoga é kavacam (proteção); yoga é dhyanam (meditação);e yoga é yukti (consciência superior).
Não sei ao certo se teve um exato momento em que o yoga surgiu na minha vida, me recordo de fragmentos. Me lembro de seguir algumas indicações de um livro do Hermógenes. Não sei se antes ou depois disso, cursei a Formação Holística de Base da Unipaz, e nela havia a orientação de fazer práticas de exercícios, respiração e concentração todos os dias pela manhã. Eu criava minha própria prática e ela parecia uma prática de yoga, descobri depois. Eu estudava e trabalhava com música, então me afeiçoei imediatamente aos mantras, kirtans e bhajans que me foram apresentados pela minha mestra das artes vocais, Alba Lirio. Depois outras influências foram surgindo. Lembro que decidi me dedicar ao estudo e ensino do yoga durante uma viagem à Chapada Diamantina - BA. Já praticava a alguns anos sozinha e durante essa viagem conduzi algumas práticas para meus amigos, e então decidi que faria aquilo.
Fica difícil falar sobre as trilhas de transformação pessoal, pois não é muito linear, e quando olhamos para traz as memórias estão meio embaralhadas, a cronologia sabe-se lá como. Mas me lembro de um grande despertar, que me parece ter sido o começo da trilha, também durante uma viagem, desta vez à Chapada dos Veadeiros – GO com dois amigos da faculdade. Pra resumir, minha experiência sensível mais marcante durante essa viagem foi virar a noite em silêncio olhando o céu. Estávamos jogando sinuca no único barzinho do vilarejo e em determinado momento achamos que estava movimentado e iluminado demais. Saímos caminhando pela estrada de terra, era lua nova, mas havia muita luz… das estrelas! A luz das estrelas refletida numas pedras brancas criava uma trilha muito convidativa. Seguimos, e quando já não havia nenhuma luz artificial que atrapalhasse a luz natural, sentamos a observar o céu. Nunca antes o universo tinha se despido pra nós daquela forma, nós três sentíamos e víamos uma mesma coisa. No começo a cada estrela cadente que passava fazíamos algum som de surpresa, eram tantas, tantas, tantas. Continuávamos estarrecidos e o som se transformou numa respiração profunda que gerava um pequeno movimento do tronco a cada vez que uma estrela bailava pra nós. Deitamos bem juntinhos um do outro para ficarmos aquecidos. E ali ficamos tendo uma aula de consciência universal, de dança cósmica, de pequenez e grandeza, do que é essencial ou não na vida. As estrelas nos ensinavam enquanto permanecíamos em completo silêncio. A manhã chegou, nos abraçamos agradecidos por tudo aquilo, e chamamos aquela experiência de “centrinho do mundo”.
A partir daquela noite foi desencadeado um processo de autoconhecimento, de busca pela essência. Eu decidi que nada iria me fazer desistir de ser feliz, de buscar inteireza, de ser uma com o universo. E acredito que essa firme decisão foi abrindo portas, janelas e trilhas para tudo que veio e virá.
3) Na atualidade é possível observar diversas linhas do yoga, compartilhe conosco sobre as semelhanças e distinções? 
Eu vejo apenas duas “linhas”, o yoga para a saúde e o yoga para a transcendência. O primeiro é o mais difundido hoje em dia, voltado para o bem-estar físico, emocional e mental, para que o indivíduo viva melhor a sua vida cotidiana. O segundo é o yoga que visa ir além desse nosso plano cotidiano de experiências, que transcende sukha-dukha, vai além da personalidade. 

4) Hoje qual a linha do yoga que você trabalha e se inspira como filosofia de vida e porque?
Me inspiro e busco para mim a segunda “linha” que citei acima, mas obviamente faço uso e aproveito a primeira “linha”, pois é através desse instrumento corpo-mente que posso trabalhar/viver neste plano que estamos agora. Minhas inspirações principais são Sri Ramakrishna, Sri Sarada Devi e Swami Vivekananda. Esses três mestres indianos viveram (séc XIX, XX) yoga em tudo em suas vidas, em cada gesto, palavra ou silêncio, e ensinaram que pessoas são mais importantes que métodos. Também busco base na tradição de yoga de Tirumalai Krishnamacharya, um dos representantes mais importantes do yoga como conhecemos hoje em dia.
5) Adoraríamos saber sobre sua trajetória de formação no yoga, quais foram os cursos, vivências e até mesmo viagens que lhe proporcionaram esta formação? 
Estudei com meu primeiro professor até que ele me disse: “você vai dar aula tal dia, tal horário”. Fiz dois cursos de formação, não concluí nenhum. O primeiro eu chamaria mais de “deformação”, pois tinha foco em tudo, técnicas, entulhamento de teorias, performances físicas, mas não em ajudar o ser humano a se desfazer de seus obstáculos internos e se tornar melhor para si e para o mundo. O segundo é o único curso que recomendo atualmente no Brasil, que foi o da tradição de Krishnamacharya, mas no meio do curso tive oportunidade de ir morar na India e nem pensei duas vezes. Acredito que mais importante do que acumular cursos, vivências e formações, é ter um professor ou professores que me acompanhem, que me conheçam, com os quais eu desenvolva uma relação de confiança. Assim dá pra ir mais longe e mais profundo, acredito.

6) Atualmente realizou alguma nova formação? Para o yoga assim como qualquer outra formação torna-se necessária atualização? Ou deveríamos compreender o yoga como uma filosofia de vida?
Tenho orientação regular de três professores. Na minha opinião a prática e o estudo são constantes pra quem quer levar o caminho do yoga a sério. Mas o caminhar é pessoal, exclusivo de cada indivíduo. 

7) Um dos grandes mestres do yoga no Brasil foi o Professor Hermogenes, gostaríamos que você dividisse conosco quais foram os mestres nacionais ou internacionais que lhe inspiraram a trajetória? Citamos o Professor Hermogenes como exemplo, caso tenha conhecido este mestre ou sua filosofia de vida e puder também compartilhar agradecemos! Ah! Conte-nos também quais as diferenças e semelhanças destes mestres que lhe influenciaram o caminho? 
Acho que disse em alguma outra pergunta que comecei a praticar através de um dos livros do Professor Hermógenes, mas meu contato com ele se restringiu a isso e a algumas leituras. Sri Ramakrishna e Swami Vivekananda entraram no meu caminho logo que comecei a praticar yoga, mas eu não tinha a mente preparada para compreender seus ensinamentos com profundidade. Então, ambos ficaram como uma referência longínqua durante algum tempo. Havia uma identificação, mas que só foi encontrar campo fértil vários anos depois. Mais tempo ainda levou para que eu pudesse começar a perceber a grandeza de Sri Sarada Devi, minha maior fonte de inspiração atualmente. Aurobindo e Mira Alfassa também me inspiraram algumas reflexões numa determinada época. E não seria justo deixar de citar meus professores, que exerceram grande influência no meu caminho. Cito-os em ordem de aparecimento em minha vida: Alba Lirio, Swami Nirmalatmananda, Jorge Luis Knak, Pravrajika Vivekaprana e Diego Koury. Sem eles provavelmente gastaria muito mais tempo batendo a cabeça e levando tombo. 

8) Yoga é uma filosofia de vida? De alguma forma possui uma direção espiritual ou religiosa? Yoga é uma atividade física? O yoga influencia em novos hábitos como alimentação e pensamento? E por fim se pudesse resumir yoga em única palavra qual seria e porque? Agradecemos!
 
Cada indivíduo vai definir a extensão da importância do yoga em sua própria vida. Então, ele pode ou não ser uma filosofia de vida para tal indivíduo, pode ou não influenciar novos hábitos. Podemos ter uma relação superficial ou profunda com tudo em nossa vida, não é mesmo? Com yoga não é diferente. Yoga é a melhor palavra para resumir o que seja yoga. Lembra na questão 2 quando citei os significados dessa palavra dados pelo dicionário? Imagino que os rishis (sábios antigos) devem ter penado pra encontrar uma palavra que abarcasse tanto! Não acho que eu consiga fazer melhor do que eles fizeram. 

9) Quais orientações você transmitiria a uma pessoa que deseja iniciar os estudos e formação em yoga? 
Pratique, encontre um professor que possa te orientar e pratique. Reflita sobre o que está praticando, reflita sobre sua vida, purifique sua mente e seu coração. Se liberte dos certificados e dos prazos. Mergulhe na autodescoberta, se lá dentro tiver um professor, ele virá à tona.
10) Ana, você conhece a Índia? 
Sim, já fui à India. Dizer que a conheço aí talvez já seja demais. 
Compartilhe conosco sobre a cultura, como o yoga e seus princípios atuam no dia a dia das pessoas localmente? Existe uma aceitação maior para a desigualdade social? 
Essas são perguntas bastante complexas, são várias culturas entrelaçadas na India, várias correntes de pensamento. Se a gente parar pra pensar, são milênios de culturas, filosofias e pensamentos, e parte disso preservado nos nossos dias atuais. E essa pequena parte já é tanta coisa, tão profunda e rica. Talvez isso já nos fale bastante da cultura, né? Há uma preservação, um princípio de manutenção da cultura, do conhecimento, das tradições, ao mesmo tempo que recebe o novo e o diferente. Sempre penso que lá nada deixa de existir pra surgir algo novo, só vai acumulando e sobrepondo e dialogando ou não (creio que o não-diálogo é também uma forma de diálogo). Não pesquisei a influência do yoga na vida dos indianos e suas sociedades. 
Qual a diferença entre aceitar e acomodar-se baseada na filosofia do yoga? 
Tem um amigo que diz que “se é um problema, tem uma solução; se não tem solução, não é um problema, é uma característica”. Acho que podemos pensar por aí pra responder sua questão. O que puder fazer para contribuir para si mesmo e para o mundo, faça. Não podendo fazer nada, o melhor é não atrapalhar. O que não tem jeito mesmo de fazer algo, melhor aceitar do que ficar se debatendo ainda por cima. Mas não creio que haja um entendimento único no yoga do que seja aceitação ou acomodação. Sempre vai depender de quem, quando e em que circunstâncias.
12) Qual seria o propósito maior do yoga entre as civilizações e suas transformações sociais e individuais? 
Não conheço referências que apontem o yoga como uma metodologia voltada para transformações sociais na sua origem. É um darshana, uma forma de compreender as experiências do indivíduo nos mundos externo e interno. Seu propósito é aproximar o indivíduo de sua verdadeira natureza, de sua essência. Naturalmente essa busca e realização geram impactos no entorno ou até além dele. Temos os exemplos de grandes mestres que fizeram isso, que geraram revoluções a partir de sua realização pessoal. Mas repare nas histórias deles (Buddha, Gandhi, Vivekananda, Nivedita, Aurobindo entre outros) que em primeiro lugar teve de haver um caminho de des-coberta pessoal, que depois desabrochou numa generosa contribuição para a humanidade.
13) Ao direcionarmos a filosofia para o Brasil do que se diferencia e ou associa da Índia em seus princípios, cultura local e desigualdade social? 
Não sei se compreendi essa pergunta. 
Na Índia, por exemplo, existem pessoas em situação de rua como em nosso país? 
Sim, existem muitas pessoas em situação de rua. E muitos saddhus também, monges itnerantes que sobrevivem de doações de alimentos, roupa e etc, conforme a tradição monástica antiga.
14) Em nosso país cresce anualmente a população em situação de rua, entretanto, pouco se faz para mudar esta realidade. Porém no Rio de Janeiro o Projeto Yoga de Rua tem se tornado um divisor na vida de muitas pessoas em situação de Rua e você é uma dessas pessoas especiais! Conte-nos por gentileza de que forma o convite do Projeto chegou ao seu coração e quais são as ações que você tem realizado e a quanto tempo? 
Conheci o Yoga de Rua no ano passado através das redes sociais. Comecei a acompanhar os relatos das práticas e as entrevistas publicadas, me tocaram a beleza e espontaneidade com que o projeto acontece. Algum tempo depois, um voluntário me escreveu com o convite de ir um dia dar uma aula e fui. 
Quais foram as motivações para atuar no projeto Yoga de Rua como voluntária? 
Há tempos me perguntava sobre como me aproximar das pessoas em situação de rua. Não me sentia bem apenas passando pelas pessoas cotidianamente, passando na “casa” delas, sem estabelecer qualquer tipo de comunicação. Mas também sou um bocado tímida e sem jeito e não fazia ideia de como me aproximar. Aí o projeto me colocou diante de uma oportunidade que tem como linguagem, como forma de se comunicar o yoga. Pensei, ufa! Assim de repente fica mais fácil pra mim. Ficou mais fácil coisa nenhuma (rs)! Mas abriu um caminho e um campo de trabalho interno e externo muito bonito e verdadeiramente feito com o coração.
15) Hoje o projeto Yoga de Rua possui outros educadores voluntários? Estes educadores possuem diferentes linhas do yoga? Se positivo como é conviver com esta equipe na condução do yoga para os moradores em situação de rua? 
Sabe que o Yoga de Rua é tão aberto, dinâmico e espontâneo que nem sei quantos professores-voluntários temos no momento!? Acho que algo em torno de 12 professores, 5 cozinheiras e mais alguns amigos que contribuem no suporte presencial e online, que ajudam as cozinheiras no preparo e transporte do alimento, na lavagem dos tapetinhos de prática, na realização do nosso site (que já vem por aí!) e etc.
Quanto aos professores, cada um tem uma formação e um percurso próprios. Cada um contribui de acordo com seu processo pessoal e aquilo que observa na relação com as turmas. Também conversamos regularmente sobre as questões que surgem no desenrolar dos encontros. Essa troca tem sido muito rica para todos nós. Falo por todos nós nesse momento, pois é o que surge em nossas conversas. Tanto participantes quanto voluntários tem vivido processos intensos de descoberta, experiências, reflexões e crescimento, e nos damos suporte mútuo quando necessário.  
16) O projeto atualmente possui diversos dias, horários e locais para a prática de yoga nas ruas, conte-nos por favor como são os trabalhos das equipes de voluntários e de que forma vocês se organizam internamente?
Atualmente o Yoga de Rua acontece às segundas, quartas e quintas das 10h às 11h30, seguido de um almoço vegetariano. Segunda é no Aterro do Flamengo (posto 2), quarta no Parque Guinle - Laranjeiras e quinta na Praça Paris – Glória. Para cada dia da semana temos um coordenador que agiliza as necessidades do dia e se comunica com os demais contribuidores daquele dia. Mas nada é rígido, esse formato apenas tem facilitado a organização. E assim temos feito: se precisa colocar mais ordem pra facilitar o processo, utilizamos métodos; se o excesso de ordem está bloqueando os processos mais profundos e espontâneos prioritários, aí basta jogar a estrutura fora e fazer outras escolhas em grupo. Bom, assim é como eu percebo. Acho que cada voluntário vai perceber nossa organização de maneira diferente, e está tudo bem!
Além das aulas regulares, temos participado de eventos extras como visitas a escolas de ensino fundamental, eventos em comunidades e etc. Recentemente nossas cozinheiras participaram como chefs no Gastromotiva e na semana que vem estaremos em parceria com o Dois pães e um pingado na Virada Sustentável.
17) Os alunos praticantes de yoga em sua grande maioria pessoas em situação de rua? 
Sim, o projeto tem as pessoas em situação de rua e a prática de yoga como centro. Mas temos diversos participantes e visitantes que não vivem na rua. É muito positiva essa interação entre 'pessoas de rua' e 'pessoas de apartamento'. Todos se nutrem de humanidade e respeito mútuo nesse encontro.
18) De que forma acontece a receptividade destes alunos com a prática do yoga e quais as transformações pessoais na vida de cada aluno que você acompanha? Existem evoluções? Quais? 
Imagino que cada um recebe o trabalho de sua própria maneira. Vai ser sempre assim, o processo do yoga é tão pessoal, que é melhor deixar os prazos e expectativas de lado e degustar o processo. Mas as turmas em geral recebem muito bem as práticas, as conversas filosófico-sociais que temos volta e meia, as participações musicais que por vezes aparecem. Tudo isso é muito bem-vindo por quem se aproxima desse grupo. Depois de um tempo no grupo, uma família vai se formando, eles mesmos que nos dizem. Alguns comentam de mudança de temperamento, de forma de se comunicar com as pessoas e ver o mundo. Já soubemos de alunos que conseguiram se reaproximar da família e voltar pra casa. Um senhor relatou que abriu um espaço no seu coração durante uma prática e ele sentiu alívio e perdão e ia procurar a família. Alguns dizem que se sentem acolhidos e parte da sociedade por serem “tratados como iguais no grupo do yoga”. São tantos relatos lindos! Pois a prática nossa com eles é essa mesmo, através da metodologia yogi ir se tornando mais consciente de si mesmo, clareando gradualmente a mente e podendo fazer escolhas mais conscientes. É claro que não tem ninguém aqui dizendo que esse processo é simples, rápido e fácil. Mas mesmo num nível menos profundo, esse trabalho tem trazido mais saúde, disposição e integração aos participantes.
19) O que é karma segundo a filosofia da Índia e quais as influências no yoga? Como entender este princípio sem que nos inclinássemos para a religião? De alguma forma este e outros princípios também são estudados junto ao alunos? 
Karma significa ação. No nosso plano de experiências existe uma lei que é a de causa-efeito. Não é algo muito difícil de entender, basta olhar para a natureza e para nossas experiências cotidianas pra ver essa lei em tudo. Isso é karma. Da mesma maneira que podemos observar a atuação dessa lei no mundo externo, podemos observá-la no mundo interno. Então, minhas ações físicas ou mentais, vão gerar registros em mim, a soma e intensidade desses registros vão alimentar meus hábitos e consequentemente minha personalidade. Tudo neste plano é karma, tudo neste plano gera karma. Podemos apenas olhar pra isso e fazer nossas opções de quais sementes queremos ou não regar no nosso jardim. É apenas isso, é um convite para estar atento.
20) Quais são seus sonhos junto a equipe do projeto Yoga de Rua? 
Meu único sonho agora é que o projeto continue caminhando com harmonia, amizade e amor. 
21) O que você deseja para os alunos e o que espera que alcancem com a prática do yoga? 
O mesmo que desejo pra mim mesma quando me dedico à prática: clareza, perseverança e amor.
22) Como você vê o futuro do Yoga de Rua daqui a 5 anos? 
Não tenho a menor ideia.
23) Com o objetivo de inspirarmos outros projetos de yoga nas ruas de todo o Brasil qual a mensagem que você deixaria para as pessoas que desejam potencializar propósitos para um mundo melhor em sociedade? 
Faça aquilo que de melhor pode fazer dentro das suas possibilidades com amor. Não espere nada em retorno. Essa é a essência do Karma Yoga. 


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Simone Weil

“nenhuma poesia sobre o povo é autêntica se a fadiga não estiver presente nela, assim como a fome e a sede nascidas da fadiga

num estado físico miserável, entrei nessa pequena aldeia portuguesa – que era, ai! tão miserável também – sozinha à noite, sob a lua cheia, no dia da festa do padroeiro. As mulheres dos pescadores faziam a volta aos barcos em procissão, levando círios e cantando cânticos certamente muito antigos e de uma tristeza dilacerante… Ali tive de repente a certeza de que o cristianismo é, por excelência, a religião dos escravos, que os escravos não podem não aderir a ela, e eu entre os outros

estando só na capelinha românica do século XII de Santa Maria dos Anjos, incomparável maravilha de pureza onde São Francisco rezou muitas vezes, alguma coisa mais forte do que eu me obrigou, pela primeira vez na vida, a me por de joelhos

Senti, sem estar de maneira alguma preparada, porque nunca tinha lido os místicos, uma presença mais pessoal, mais certa, mais real que a de um ser humano… No instante em que Cristo se apoderou de mim, nem os sentidos, nem a imaginação tiveram parte alguma; senti somente através do sofrimento a presença de um amor semelhante ao que se lê no sorriso de um rosto amado

Penso que a vida intelectual, longe de dar direito a privilégios, é em si mesma um privilégio quase terrível que exige, em contrapartida, responsabilidades terríveis

só uma coisa de Deus podemos saber: que Ele é o que nós não somos. Apenas nossa miséria é a imagem disso. Quanto mais a contemplamos, tanto mais O contemplamos

é difícil para o rico, para o poderoso, porque ele é quase invencivelmente levado a crer que é alguma coisa. É igualmente difícil para o miserável porque ele é quase invencivelmente levado a crer que o rico, o poderoso, é alguma coisa

Eu não me lembro de um dia em que o espírito de pobreza não tenha estado em mim.

Esse obstáculo ( o cansaço) não tem nenhuma importancia. A verdade ilumina a alma na proporção de sua pureza e não de alguma especie de quantidade. Se um operario em um ano de esforços ávidos e perseverantes aprender alguns teoremas de geometria, em sua alma entrará tanta verdade quanta na de um estudante que durante o mesmo ano terá posto o mesmo fervor em assimilar uma parte da matematica superior. (...) Não tomar as verdades, já bastante pobres, contidas na cultura dos intelectuais, para degradá-las, mutilá-las, esvaziá-las de seu sabor; mas simplesmente exprimi-las na sua plenitude, por meio de uma linguagem que, segundo palavra de Pascal, as torne sensíveis ao coração, para pessoas cuja sensibilidade foi moldada pela condição operária."

Minha utopia: oficinas espalhadas. Operários ao mesmo tempo desenhistas, controladores, mantenedores...
Camponeses instruídos na mecânica. Máquinas simples em suas casas, para os meses de inverno.
Participação dos operários nos trabalhos dos campos, nos meses de verão.
Corpo de professores tendo praticado um e outro...

Uma fábrica... lugar onde a gente se chica duramente, dolorosamente, mas mesmo assim alegremente com a verdadeira vida.

esse contato com a infelicidade matara a minha juventude... sabia bem que havia muita infelicidade no mundo., era obcecada por isso, mas eu não tinha jamais constatado por um contato mais longo. Estando na fábrica... a infelicidade dos outros entrou na minha carne e na minha alma. Nada me separava dela (...) O que eu lá suportei me marcou de uma maneira tão duradoura, que ainda hoje, quando um ser humano, que quer que ele seja, não importa em que circunstâncias, me fala, sem brutalidade, não posso deixar de ter a impressão de que deve haver algum engano, e de que o engano vai sem dúvida, infelizmente, se dissipar. Eu recebi de uma vez por todas a marca da escravidão.

A violência às vezes é necessária, mas a meus olhos não há grandeza senão na doçura.

as fadigas de meu corpo e de minha alma se transformam em nutrição para um povo que tem fome

às vezes, durante essa recitação (do Pai Nosso) ou em outros momento, o Cristo está presente me pessoa, mas com uma presença infinitamente mais real, mais pungente, mais clara e mais cheia de amor que na primeira vez que ele me tomou.

Alguma coisa misteriosa nesse universo é cúmplice dos que só amam o bem.

Todas as vezes que um homem invocou com o coração puro Osíris, Dioniso, Krishna, Buda, o Tao, etc. o Filho de Deus respondeu enviando-lhe o Espírito Santo. E o Espírito agiu sobre sua alma, não o incitando a abandonar sua tradição religiosa, mas dando-lhe a luz - e no melhor dos casos a plenitude da luz - no interior dessa tradição.

A atenção, no seu mais alto grau, é a mesma coisa que a oração. Supõe implicitamente fé e amor. A atenção absolutamente sem mistura é oração.

Se voltarmos a inteligência para o bem, é impossível que pouco a pouco toda a alma não seja atraída nessa direção, mesmo sem querer.

Devemos ser indiferentes ao bem e ao mal, mas, sendo indiferentes, isto é, projetando igualmente sobre um e outro a luz da atenção, o bem leva a melhor graças a um fenômeno automático. Essa é a graça essencial. E é a definição, o critério do bem.

Desde que se tenha na alma um ponto de eternidade, não há mais nada a fazer senão preservá-lo, pois ele cresce por si só, como uma semente.

O poeta produz o belo pela atenção fixada no real. Do mesmo, modo o ato de amor. Saber que este homem, que tem fome e sede, existe realmente tanto quanto eu – isso basta, o resto vem por si.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Existe vida após o Casamento (Partilhando uma experiência pessoal)



Já fazia um tempo que eu estava com vontade de escrever algumas reflexões sobre a delicada questão do fim de um casamento e, nesses dias, encontrei-me com um casal de amigos que estavam expondo, na mesa do almoço, a crise que eles estão passando (e não é a primeira). Então depois da conversa falei pra mim mesmo: vou escrever!

Pretendo fazer reflexões sobre a vida de relação, o que se passa no casamento e o que pode acontecer com as pessoas em casos de divórcio. E pretendo também contar um pouco da minha experiência, porque no fundo no fundo, acredito que a gente estuda, observa, pesquisa as relações, ouve as histórias dos amigos, mas na verdade a gente só pode falar a partir do que viveu. Então tudo o que eu vou falar aqui, reflete meus processos, tem esse filtro: a minha própria experiencia. E que fique claro que se trata da minha leitura do passado a partir do momento atual. Se eu fosse escrever ontem seria outra leitura. Se eu escrever amanhã será outra. Que fique claro, então, que existem infinitos passados, infinitas as possibilidade de dar significado às coisas que acontecem na vida da gente.

A conversa com o casal de amigos foi durante um almoço. Papo vai, papo vem eles começam a falar dos processos deles. De como se relacionar tem suas complexidades no encontro dos padrões de um e de outro. E de como, na junção, acabam acontecendo brigas, perda de desejo, irritação de quem convive cotidianamente um com o outro. Entre eles há diálogo, verdade, carinho e compreensão mútuas (quando a luz está brilhando), todos os requisitos básicos de quem está (como todos nós) aprendendo a se relacionar e investindo na relação como processo de crescimento pessoal. Mas igualmente têm suas sombras e aí as brigas, a irritação, a perda de vontade de estar junto. Surgem dúvidas, projetos pessoais não realizados, o que o outro vai pensar se eu fizer essa viagem sozinho? Coisas assim, muito comuns em muitas relações. Coisas que se passam com todo mundo.

Ambos partilham esse ideal: de que estamos na vida para alcançar um nível de autorrealização e o caminho tem a ver com olhar para si mesmo, e as relações podem ajudar porque, em intimidade, vamos vendo quem somos sem véus. E, claro, nesse meio de jornada vivem essas fases mais ou menos longas de crise. E as pessoas sempre se perguntam nas crises: será que é hora de terminar? Ou essa vontade de me separar tem origem no sentimento de fuga de mim mesmo?

Crises a gente vive nos casamentos e fora deles. É parte do caminho humano.

Mas eu sei que lá pelas tantas, enquanto eu os ouvia, me lembrava da terapia do Victor Frankl, o psicólogo que criou as bases da logoterapia (terapia do sentido de vida) na situação extrema de um campo de concentração. Era comum em seu consultório, quando a pessoa contava para ele suas questões, ele perguntar: "me diga, por que você ainda não se matou?" Sim, uma pergunta extrema e, aparentemente de pouco tato. Na verdade ele queria que a pessoa percebesse o que é que dava sentido para a vida dela. Um filho, a realização de um trabalho, um senso de dever, algo que lhe dava sentido para viver.

Então eu pedi a palavra, falei do Frankl para eles e perguntei: "no caso de vocês, porque vocês não se separaram ainda?"

Qual o sentido de se estar juntos?

Ambos têm feito um trabalho de autoconhecimento e partem do princípio de que se separar não é solução para suas transformações pessoais. Atualmente vai ficando sabido que depois que você se separa, se você não faz as transformações internas, vai encontrar lá na frente uma outra pessoa que vai te colocar diante das mesmas questões. Então separação não é solução. A transformação pessoal é que é o caminho. E as questões da relação são bons motivos pra gente se olhar no espelho e ver o que precisa ser transformado.

A conversa terminou e eu fiquei pensando, pensando...

Às vezes um casal chega a um limite. Já não estão crescendo juntos. Já criaram raízes de sofrimento demais, e mesmo que façam suas autodescobertas, pode ser uma boa oportunidade começar algo do zero. Desde que façam, de fato, essas transformações. Às vezes acontece de um estar num processo de transformação e o outro não. As frequências ficam muito diferentes. A separação pode ser um bom caminho, quando se está sofrendo demais junto. Então é preciso avaliar se não tem um peso da cultura que herdamos que olhava o divórcio com um certo tabu. O casamento que era para ajudar a evoluir, está atrasando o caminho dos dois. Juntos, estão se afundando em processos de mais dor.

Cada caso é um caso.
Perceber que um ciclo se encerrou e se separar é sábio. Mas a durabilidade das relações é que as aprofunda. Permanecer juntos é sábio também.
Cada um vai ter que olhar pra si, em profundidade. Terapias, terapias, terapias.

Vou contar (um pouco) do que eu vivi.

Meu primeiro casamento foi muito bom. Fui muito feliz. Percebo que cresci muito como pessoa. Aprendi o amor, o cuidado com o outro, o respeito e a compreensão, no convívio, com o jeito do outro, as necessidades do outro. Desfrutamos do prazer que é estar junto, a cumplicidade, a parceira, os carinhos, amar e ser amado. Aprendemos a dialogar muito e a resolver nossas crises juntos (não íamos dormir sem resolver nossas questões), fazíamos rituais de diálogo em torno de uma flor para ter as necessárias DRs, discutir a relação. Depois de 12 anos juntos, entramos numa crise que fomos tentando resolver, curar, mas nada resolvia.

É difícil explicar as causas das crises. Mas eu posso falar por mim que havia muita confusão na minha escuta dos meus desejos e anseios. É a confusão eu-outro. Eu não sabia bem diferenciar o que eu queria daquilo que eu só queria porque era o querer do outro. Ou ainda: o que eu supunha ser o querer do outro. Isso é a desgraça de qualquer relação humana. Você não sabe o que quer; de tão desconectado que você está de si mesmo. Isso é comum. E se intensifica nas relações mais íntimas. Então sim, havia coisas a seres escutadas, por exemplo o tal desejo de viajar que eu não realizava "por causa" dela. Boa mentira que eu contava pra mim mesmo. A atração proibida por outras pessoas, que eu não contava pra ela. Nessa confusão de sentimentos eu comecei a ver nela, a causa da minha prisão. E isso provocou um tremendo mal estar. Lembro de um dia ir deitar na cama e sentir ódio. Opa! Isso não está legal, pensei. Hoje eu vejo que pra tudo isso tem cura. Mas na época eu precisava passar por uns processos pra entender tudo isso, para estar à vontade com meus sentimentos, para ser eu mesmo, me conectar comigo. Ou seja, a relação chegou num nível que eu já tinha evoluído muito... mas o tanto que eu ainda precisava aprender... só passando por uma ruptura.

Foi aí que ela, dentro dos processos dela que só ela vai saber contar, pediu pra se separar.

Foi duro. Sempre é. Como disse minha psicanalista na época: "não há separação sem dor, como não há encontro sem ansiedade." Mas sempre tem dois lados. Um misto da dor do abandono, com a sensação de liberdade e o alívio por ter terminado um período que realmente não estava bom.

Fizemos uma separação em paz, amigável. No início a gente saía para tomar um café e ouvir como estava sendo para o outro.  Era um gesto de cuidado com o outro. Isso foi proposto por ela e foi muito bom para mim. Ela estava irredutível a qualquer tentativa de volta, ao mesmo tempo estava de coração aberto para cuidar dos sentimentos da gente. Muito sábia. Depois se tornou psicóloga e tem cuidado dos sentimentos de tanta gente!

Eu fui buscar meu caminho, compreender, ressignificar o que eu estava vivendo e encontrar novos rumos. Juntos frequentávamos o centro espírita. Conheci Kardec através dela e lá fiquei. Foi meu início de caminhada espiritual. Então quando relatei no centro que frequentávamos sobre a nossa separação a reação foi de tristeza. Entendi que lá o pessoal via a nossa separação como uma espécie de derrota. E a proposta tácita do grupo era de que nos reconciliássemos, que fizéssemos orações para esse reencontro.

Sim, nosso encontro nessa vida foi muito divino. Era muito bonito para as pessoas nos verem juntos. Onde há amor... há também essa expectativa de que vai ser pra sempre.

Bom, o fato é que não fiquei muito satisfeito com a abordagem do pessoal lá. Eu não estava nos vendo como derrotados. Então fui num outro centro que nos era também muito querido. Ele é todo organizado por psicólogos, fazia estudos de autoconhecimento. Então fui lá num domingo à noite porque sabia que era a reunião da coordenação. Eu me sentia querido por eles também. E queria ouvir a perspectiva deles. Quando eu falei, ainda com a dor embargada na garganta, "nos separamos", a reação foi completamente outra Foi uma espécie de celebração misturada com acolhimento, todos se levantaram para me abraçar com uma certa alegria dizendo: "êêê, agora vocês vão passar por uma etapa de muito crescimento". Estavam celebrando não o fim, mas o começo de uma nova etapa. E claro podiam compreender a minha dor, mas com uma outra perspectiva. Encontrei ali pessoas que já tinham vivido o que eu vivi, e que estavam felizes com o desfecho de suas próprias histórias: um olhar mais maduro sobre a biografia humana.

Fui também ver uma senhora, muito querida nossa. Uma pessoa de muito amor, que também trabalhava num centro espírita, e era conhecida por seu amor incondicional e por sua mediunidade. Encontrei com ela no corredor e contei da nossa separação. Ela parou, respirou, fechou um pouco os olhos e então olhou pra mim e falou, fazendo um gesto com as mãos. "Vocês estavam aqui." E erguendo os braços, como indicando a subida de um degrau. "Vocês precisam passar por isso para chegarem aqui. Depois vocês se reencontram, num outro nível."

Suas palavras, sua vibração, sua presença, foi muito confortadora. Me deixou diante de um novo horizonte.

E ela tinha razão.

Passei dois anos sozinho. Eu senti que precisava olhar para a forma como eu me relacionava. As questões da sexualidade que ainda existiam como certos fantasmas para mim. Tentei sair com umas mulheres e foi um fracasso. Fracasso sexual, fracasso emocional. Frustração, aprisionamento.

Nessa época um amigo me convidou e fui conhecer uma abordagem terapêutica a partir do corpo. E meus dois anos solteiro foram vividos fazendo práticas com esse centro de terapia corporal que tem a ousadia de fazer trabalhos envolvendo a sexualidade. Não é sexo. Mas é um trabalho sobre a sexualidade. É difícil explicar. Mas para dar um exemplo, havia processos que você ficava sentado em meditação, só que ao invés de ficar de olhos fechados, você ficava de olhos abertos. E na sua frente ficava uma pessoa também sentada, e os dois se olhando nos olhos. Não era flerte. Era a possibilidade de se concentrar, de ver o que acontece dentro, quando se está diante do outro. E as vezes esse era um trabalho feito sem roupa! A gente não se tocava, só se olhava. Então aprendi a observar o fluxo da mente. Primeiro vem a vergonha e um turbilhão de pensamentos (o que essa pessoa está vendo em mim? isso é certo? o que estou fazendo aqui?...). Depois vem o encanto (todo ser humano, quando você contempla por um tempo, é incrivelmente belo). Depois vêm as cargas de desejo. Só que ao não realizar o desejo e permanecer no processo, surgem outras coisas. O outro aparece na sua frente com as profundas emoções humanas temor, beleza, raiva, alegria, compaixão... uma viagem através das emoções, o outro sendo espelho para você. Ambos aprendendo a se vulnerabilizar na frente de um outro ser humano. Poder se emocionar na frente do outro. E então aprendi a observar a energia do corpo. E é muita energia! Quando há liberação do corpo você experimenta uma vitalidade impressionante. E depois de navegar por tantas emoções, revisitar conteúdos armazenados na sua história de vida, cada um fechava os olhos e se deitava no seu canto para relaxar. Ao final, um sentimento de integração, de aceitação de si, e o começo de um trabalho de transcender os apegos e vícios sexuais e todas as questões emocionais que trazemos marcadas em nossa história. Uma terapêutica que é uma verdadeira escola de sexualidade e transcendência. A busca de todas as escolas espirituais: tornar-se o senhor de si, de suas forças, ao invés de ser dominado por suas fragilidades.

O tempo passou com intensos trabalhos sobre mim mesmo. Esse foi um exemplo de exercício feito lá. Foram diversos. Um caminho de autodescoberta e de potencialização de si. Tudo acompanhado também com as sessões de análise.

Um dos frutos que alcancei foi a felicidade de estar sozinho. Passar a não precisar do outro.

Só que o que acontece é que quando você está bem consigo mesmo, se ainda tem alguma história pra você viver em relação, a pessoa perfeita aparece na sua vida. Isso é uma lei. A gente atrai e é atraído pela pessoa perfeita. Se você está em sofrimento, vai aparecer alguém que vai alimentar o seu sofrimento. Se você está bem, vai aparecer alguém que vai ser seu parceiro de jornada. E foi assim que aconteceu comigo.

Assim apareceu minha atual companheira. Minha vida de relação com o feminino recomeçou. Parceiros, intensos, felizes juntos... aos 3 meses parecia que estávamos há 3 anos de profundidade e de intimidade. Já temos 30 anos juntos?, brincávamos, tamanha a nossa sintonia. E aconteceu uma coisa extraordinária. Comecei pela primeira vez na vida a desejar ter um filho com ela. Era um desejo que não vinha da mente, nada de planejamento, era algo que vinha de dentro, do instinto. Li depois o Schopenhauer dizer que esse é um desejo da espécie, algo realmente do irracional. Com minha atual companheira houve uma conexão com esses processos mais profundos da terra, estávamos ambos nesse outro nível de escuta interna. E nesse caminho de acreditar no que virá, confiando nessa voz vinda das entranhas. E então lá pelo oitavo mês, engravidamos. Alegria! Sentimos que esse bebê era fruto do amor. Foi um transbordamento do nosso amor. Que é como sempre vai ser num futuro feliz da humanidade.

E agora que sou pai, a vida tem todas as emoções intensas que envolve esse novo amor. Que outro ser eu me tornei?! Não podia imaginar. Parece, realmente, que a vida que tive antes, foi uma outra vida, um passado muito remoto. A vida a dois também passa pelas crises. E estamos hoje numa fase bonita, superamos um onda, sabemos que virão outras... Mas o importante não é se estamos juntos ou não. Porque senão estaríamos ainda orbitando em torno do velho tabu e vamos achando que a separação é sempre uma derrota. O importante é a conexão com seu centro. E vai ficando claro quando você se desconecta.

Pra quem olha pra si, tudo que acontece é oportunidade de aprendizado.

O desenvolvimento humano aqui nessa breve vida (apenas uma bolha no rio, que num instante se cria e num outro se desfaz) precisa ser exponencial. Não podemos perder tempo.

Então, olho pra trás e lembro do dia que a minha primeira mulher disse que havia decidido se separar. Então olho pra todos os frutos que essa decisão trouxe pra minha vida. Pra quem eu pude me tornar. E para a vida que tenho hoje com minha companheira e nossa filha... e só tenho a agradecer.

E é isso que eu faço quando eu e minha primeira mulher nos reencontramos pra tomar um café e falar da vida. E ajudar um ao outro e torcer para que o outro seja feliz e complete seu processo de integração.

Sim, existe vida feliz após o casamento.

Estou escrevendo isso para partilhar.

Esse é o valor da partilha. Você simplesmente falar de você. E ao falar você mesmo se escuta melhor. E isso pode impactar no outro sem você ter pretensão de dar conselhos. Mas... uma partilha enriquece quem ouve... abre portas internas. Então é como o ritual dos nativos americanos: o bastão da fala. Enquanto eu seguro o bastão eu falo daquilo que está verdadeiro para mim, aquilo que vem do coração.

Não quero mesmo que você saia do seu casamento e vá fazer o mesmo caminho que eu fiz.
Nem quero que esse texto seja um manifesto em favor do divórcio. Não é isso.
É só um jeito possível de olhar as coisas.
Eu acho que só uma coisa é necessária nisso tudo que chamamos problemas da vida.

O trabalho interior.

Um trabalho sério de encarar a si mesmo. De iluminar, através da simples observação, as sombras de dentro. De ver também e potencializar as luzes de dentro. E acreditar em si. Um trabalho gradativo de descascar ilusões, que a medida que você descasca, sua vida dá um salto e você se depara com outros desafios e tem a oportunidade de ver cascas mais profundas, sombras mais escuras, e luzes mais brilhantes... indo para o centro.

É um processo gradativo de autoconhecimento. De alinhamento com a escuta dos seus desejos (eu digo escuta porque não é possível realizar todos), a coerência com o que você veio fazer no mundo e aonde você quer chegar e as suas possibilidades de se entregar numa relação e amar o outro, nisso que é um exercício para uma entrega ainda maior, um amor ainda maior, a um Ser ainda maior.

É uma expansão de consciência, de sabedoria.  Hoje vejo nossa filhinha num processo gradativo de desmame. Mamar é a maior fonte de prazer e conforto de um bebê. E aos pouco o que está acontecendo? Ela diz que quer mamar, e chora, mas na verdade ela já não está se contentando, na verdade ela quer um outra coisa. Só que ela não sabe ainda o quê. O peito da mãe é o conhecido. Então ela diz que quer o peito. Só que ela quer algo mais. E o processo dela é viver até encontrar esse algo que possa saciar seu querer. E assim a vida está só começando até chegar na idade que eu estou e você está. A gente quer algo mais, mas não sabe exatamente o que é. Então a gente pensa que é isso que está na nossa mão. Só que não é bem isso. Não é o bastante. Por isso a vida é um mistério, uma jornada em busca do desconhecido. O que saciará minha filha além do peito? O que saciará você, além disso que já não está te satisfazendo? Essa resposta não pode vir da mente porque a mente só pensa o que é conhecido. Você precisa se lançar no desconhecido que é viver. E nesse processo você precisa ouvir o Espírito.

Faça seu trabalho interior.
O resto vem por conta própria.

Isso que o meu Mestre falava quando dizia: busca primeiro o Reino de Deus e todo o resto vem por acréscimo.
Isso que minha psicanalista falava quando meus trabalhos prosperavam de um jeito suave e a vida sorria para mim e tudo dava certo. Ela dizia: "eles acham que você tem sorte. Mas eles não sabem o trabalho que dá." O trabalho interior é trabalhoso sim. Mas é o único trabalho real.

Termino esse texto presenteando os leitores com as palavras inspiradoras de um dos meus atuais mestres do yoga, essa disciplina (sim, gosto de ter disciplinas) na qual venho me aprofundando em busca da unidade por trás desse mundo dual.

“O mundo não é bom nem mau; cada homem constrói seu próprio mundo. Aquele que não enxerga pensa num mundo duro ou macio, frio ou quente. Somos uma mistura de felicidade e sofrimento, como já tivemos ocasião de comprovar centenas de vezes em nossa vida. Em geral os jovens são otimistas e os velhos, pessimistas. Os jovens têm a vida diante de si, os velhos queixam-se de que seu tempo já passou; centenas de desejos insatisfeitos debatem-se em seus corações. Contudo ambos são tolos. A vida é boa ou má de acordo com o estado de espírito com que a contemplamos. Em si mesma, não é nada. O fogo, em si mesmo, não é bom nem mau. Quando somos aquecidos por ele, dizemos: “Como é lindo o fogo!”Ao queimar-nos os dedos, nós o condenamos. De acordo com o uso que fazemos dele, ele nos causa uma sensação boa ou má. O mesmo se dá com o mundo.”
Swami Vivekananda

Eu sou André e assim falei. Hey!


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Yoga de Rua e Amor: preparação para o segundo aniversário.

Olá queridos,
quero de coração agradecer por cada um que está aqui envolvido nesse coletivo.
O yoga de rua é um coletivo onde cada um dá o que tem, o que pode, e no fim das contas percebemos que nossos alunos ficam felizes com o resultado. E nós também.
Então eu aqui agradeço pelos benefícios que o yoga de rua traz para mim, um lugar de prática gratuita de yoga, que é como eu gosto de praticar e sinto uma imensa coerencia. Acho que o néctar espiritual, a transmissão dessa fonte mais pura da riqueza eterna que vem de Deus, acontece sempre num contexto outro que o das transações comerciais. Isso é coerente com o que meu coração diz, quando por exemplo, olho para os mestres do passado, todos aqueles que eu considero mestres, como Jesus, Buda, rishis anônimos da floresta, Francisco na Toscana, Teresa em Calcutá, Paramahansa Yogananda e seus mestres, Sri Ramakrishna, Ramana Mararshi... transmitiam seu amor e a sabedoria de seus corações gratuitamente. E não é que não exigiam nada de seus discípulos, mas, a entrega e a seriedade no caminho nada tinha a ver com dinheiro. Até outros mestres que admiro e que souberam usar a relação das pessoas com o dinheiro como parte da exigência na relação, Gurdjeff, Osho, Lacan... transcenderam essa coisa toda e só estavam jogando o jogo na relação com seus seguidores. Então sinto a maravilha de estar num projeto que sobrevive de doações. E fico, internamente, sonhando, com uma forma de viver assim... uma coerencia societal na ecologia do amor... assim como o sol se doa ao brilhar e a lua, e o mar, e as árvores, servem a Vida na Terra sem cobrar nada... quem sabe um dia possamos viver assim como humanos, uma sociedade sem dinheiro? Penso no yoga de rua como um coletivo que possa vibrar na coerência desse tempo possível. Uma outra economia, assim como uma outra política, ou seja, uma outra gestão coletiva.
E quero agradecer também porque através do yoga de rua a gente está conseguindo, de uma maneira mínima que seja, fazer o amor chegar até as pessoas que passam por situações imensas de desamor. Nossos amigos que estão na rua... duro destino!... as condições da rua são de pouco amor, as relações são hostis demais... e, quando olhamos para o passado deles, vemos um histórico de muito desamor. Não que sejam vítimas... mas olhos e vejo pessoas muito traumatizadas nas suas relações afetivas, especialmente familiares. E aí, através do yoga de rua, conseguimos de alguma maneira criar laços, sorrir juntos, saber o nome das pessoas e permitir que essas pessoas que estavam em grande solidão e indiferença, possam conhecer outras pessoas e assim, aos pouquinhos sinto que as feridas podem ir sendo curadas. É maravilhoso quando chego na roda, ou mesmo antes, no café, e as pessoas perguntam pelos professores, se vem, como estão, etc.
Então agradeço, por mim e por eles, que são parte de mim.
E agradeço a parceria porque sozinho eu não poderia ajudá-los, nem uma centésima parte do que em grupo conseguimos.
Se formos falar na presença espiritual que o Divino faz cair como chuva em nós ali nas práticas, aí mesmo só tenho a agradecer porque isso eu não poderia mesmo produzir. Sou, assim como todos, um vaso que tenta receber e perceber a graça. E agradeço ao Divino em nosso nome.
Então eu venho refletindo sobre a natureza do nosso grupo, desse projeto. E de como ele se torna, pelo menos para mim, um lugar de prática espiritual, de exercício mesmo do amor, naquela coisa mais básica que é olhar minhas sombras ao lidar com o diferente e, de alguma maneira, perceber e trabalhar em mim mesmo, a cegueira do meu coração ao ainda acreditar que estamos separados. Isso vale quando olho para as pessoas marcadas pela rua, com seus temperamentos explosivos, magoáveis, sua timidez, seus vícios escancarados e seu aspecto corporal mesmo, seus fortes cheiros, a sujeira de seus pés e suas posturas que tendem a arquear ao chão e isso vale igualmente quando entro em relação com os membros do coletivo, que chegam para servir, que sempre encontram portas abertas e, cada um do seu jeito, traz uma maneira de olhar as coisas, um jeito de ser, um estilo pessoal, um jeito de pensar, uma forma de demonstrar seu comprometimento e tudo isso vai me fazendo perguntar ao meu coração: por que julgar tanto? Por que não simplesmente amar as pessoas?
Então o processo está sendo maravilhoso. E estou descobrindo caminhos de gratidão e de admiração pela riqueza e pelo potencial de cada um. É maravilhoso trabalhar num projeto com parceiros dos quais sou fã, a quem gosto de me colocar como aluno ali e aprender tanto.
Estamos caminhando para dois anos de vida. No dia 14-12-2015 foi a "experiência piloto".
Temos alguns aprendizados. Dá até para abrirmos uma roda para trocar esses aprendizados.
Aqui, nessa pequena carta, quero dizer de um que considero a essência da essência.
Descobrimos que para dar certo precisa de amor.
Esse é um trabalho essencialmente de amor.
O que quero dizer?
Tem que vir pra se doar.
Passo 1 do amor: o amor universal: olhar as pessoas com aceitação incondicional. Ou seja, ter olhos de ver Deus no outro. Esse é o amor que acontece dentro de nós. O sentimento de amor que move uma atitude de abertura e amor por todos os seres. Na verdade, aqui reside o Ser em sua manifestação. Você, aí dentro, é Amor. Então, seja você. Livre da armadura construída na história de vida. Então, bem vindo ao caminho de cura. Deixar a armadura cair e vibrar a essência amorosa que somos todos. E isso nos leva ao passo seguinte...
Passo 2 do amor: o amor concreto, nas relações: criar laços, vínculos de afetividade. Relação de amor. Envolve presença, interesse pelo outro, conhecer o outro. Bem vindo ao campo perfeito para esse exercício. As pessoas que vivem nas ruas estão no fundo do fundo do fundo do poço. A "rua" é o último passo que o sujeito dá na vida após uma longa história de rupturas afetivas. O lugar da solidão é a rua. Então aqui mora o maior desafio do projeto. E aqui você é convidado a amar.
Dar aulas. Amar.
Participar das aulas. Amar.
Conversar com as pessoas. Amar.
Estar ali em silêncio, em paz. Amar.
Fotografar. Amar.
Preparar o alimento. Amar.
Servir o alimento. Amar.
Em casa, meditar em beneficio dos alunos. Amar.
Orar, orar, orar muito pra que a luz possa finalmente se fazer na vida dessas pessoas. Penso nesse momento no jovem C. que tem toda uma questão familiar complicada, veio pra cidade grande, foi preso, saiu, nos encontrou, teve esse caso de amor com a gente, mas agora anda sumido, vem de vez em quando e mal consegue ficar nas aulas, e quando fica, fala muito... qual a situação mental dele nesse momento? Eu não posso desistir de acreditar que através do projeto ele pode tornar-se saudável e feliz. Nós conhecemos a sua essência. Seu coração bom, sua pureza... a polícia conhece a armadura dele. Então o que mais a gente vai fazer por ele?
Tudo que te faça entrar em relação com as pessoas. Amar.
E mesmo num trabalho pelo projeto como divulgação, cuidar das finanças, etc. Você pode fazer isso com envolvimento afetivo, olhar as fotos, ver os alunos, vibrar por eles, acompanhar a evolução de alguns deles. Amar.
Participar das reuniões da equipe e descobrirmos coletivamente formas de "tocar" as pessoas. Amar.
Então acho que esse é o grande aprendizado.
Me lembro que a Bárbara fez um belíssimo trabalho enquanto passou pelo projeto.
Qual a marca da Bárbara? Amor. Ela começou frequentando todos os dias, sempre que podia. Depois  assumiu a turma de segunda-feira. Vinha toda semana. Quando não conduzia a prática estava ali na coordenação.
Eu participei das aulas dela. Excelentes. Era diferente porque tinha mais ênfase em pranayamas. No início me perguntei se isso daria certo, se os alunos acompanhariam tantos exercícios sentados de respiração... o tempo passou e algo aconteceu... a turma sempre perguntando por ela. O que ela fez? Criou laços. Se doou.
Amor.
É disso que essas pessoas mais precisam.
Vem doar. Vem se doar. As pessoas precisam muito do que você tem debaixo da armadura.
Elas não precisam de nada nada nada do que você tem a oferecer a partir da armadura.
Mas se você puder usar a armadura que, nesse momento, é o que te faz caminhar, para vir para cá, e quem sabe mostrar ao menos seus olhos por sob o elmo... talvez a alquimia desse encontro possa te fazer deixar pouco a pouco a armadura de lado e acostumar-se a ser amor.
Assim o Yoga de Rua faz dois anos.
Um convite para o amor.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Yoga de Rua e o Evangelicalismo



Quero trazer algumas reflexões sobre a experiencia de levarmos para a população de rua a filosofia e a prática do yoga, especialmente quando parece acontecer um certo confronto com uma mentalidade marcada pelo fanatismo religioso, do tipo bíblico, "apegado a letra", que é a marca contemporânea do movimento conhecido como "evangelical". O evangelicalismo se define como "protestante", mas sabemos que há diversas variantes do movimento reformista que não são marcadas pela intolerância e pelo fanatismo irracional e moralista que ganhou corpo em nossa sociedade.

É muito comum nas grandes cidades, a mentalidade religiosa das pessoas que vivem na rua estar fortemente marcada pelo fanatismo religioso. A forte noção de pecado, a consciencia de culpa por se sentirem "afastados" e um grande "apego a letra" quando a conversa caminha para assuntos de religião.

No Yoga de Rua temos vivido isso em algumas ocasiões e hoje ocorreu um diálogo que terminou deixando as pessoas cansadas. "Tirando o debate religioso foi tudo bem", disse um dos participantes ao final do encontro, trazendo-nos um feed-back espontâneo.

Queria trazer algumas reflexões.

Estamos estudando o capítulo sobre mantras do livro Meditação e vida espiritual de Swami Yatiswarananda. Ao final da prática, fazemos esse estudo teórico, que fala sobre a prática da recitação do Om, dos nomes divinos, como caminho para a realização espiritual do yogui. Já tivemos três encontros e hoje o tópico falava sobre a prática de japa em diferentes religiões mundiais.

Yatiswarananda é um monge da ordem Ramakrishna, um mestre que é exaltado pelos seus seguidores, dentre outras características, por ter vivido e realizado Deus em diferentes caminhos espirituais. Defensor do pluralismo, dizia que todas as religiões são caminhos que levam a Deus. Assim, hoje estudamos a pratica da repetição do nome de Deus no Cristianismo (oração de Jesus), a prática sufi (Islã) de repetição do nome de Allah, entre os seguidores da escola de Al Ghazali, assim como a repetição do nome de Buda entre seguidores de algumas escolas Mahayana, e da escola Shin, o budismo japonês.

E enquanto líamos um dos nossos alunos foi questionando alguns pontos e nós íamos respondendo na medida do possível. Ao final do texto ele voltou a questionar o fato de que a repetição do nome pode ser uma prática que "aborrece a Deus" ao invés de agradá-lo.

O estudo durou 37 minutos. E grande parte foi ocupado com a participação de nosso companheiro que em determinados momentos encadeava uma citação a outra falando de diversos aspectos da questão da oração de acordo com a "palavra de Deus", indo além do tema que estávamos conversando e ele mesmo percebendo que seu raciocínio estava se perdendo e saindo do foco, falando da oração dos presunçosos, da idolatria do povo quando Moisés subiu no monte, etc.

Fomos contra-argumentando. Tentando mostrar que existe um mundo para além do tipo de interpretação bíblica a qual ele estava ligado. Ele parecia entender. Mas, de repente, ele retomava os mesmos argumentos como se não tivéssemos saído do lugar. E todos fomos ficando cansados, até o ponto em que silenciamos para ele falar sozinho e se escutar.

Esse tipo de conversa sempre me deixa muito inquieto, muito intrigado. Estou numa pesquisa a respeito. Não é a primeira vez que acontece isso no yoga de rua. Estou querendo aprender com as situações. Então aqui vão algumas considerações:

1) algumas palavras parecem "acender" o furor fanático na pessoa. No caso, o texto em questão começava com a seguinte frase: "O mandamento bíblico “não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” e a denúncia de Cristo a vã repetição podem ser interpretadas de diversas maneiras."

Apesar do autor começar já convidando para as "diversas maneiras", nosso companheiro só conseguia ler "o mandamento bíblico". Isso parecia "nublar" a sua mente. Então fazer menção a textos bíblicos em nossos estudos é correr o risco de pisar num verdadeiro "campo minado".

2) ele não sabia o significado da expressão "em vão". Ele disse: "vão significa repetição, não é?" Eu expliquei que vão significa "sem propósito", "à toa"... Eu quis explicar que repetir o nome com o propósito espiritual poderia não ser "em vão". Mas ele parece não ter entendido. Ou seja, sua mente parecia estar "ligada no modo fanático" e ele não conseguia pensar "fora da caixa".

3) Ao que parece, o discurso fanático se instala a partir de certa "maneira de interpretar" das lideranças religiosas e as pessoas repetem e repetem sem refletir a respeito do próprio texto. Nem a literalidade da "palavra" é respeitada, uma vez que se abre mão da "palavra" e se adota uma interpretação particular das lideranças, mesmo em contradição com a "palavra". 

4) por diversas vezes nós convidamos para a "diversidade", lembramos que há culturas que não (re)conhecem a Bíblia hebraica, e convidamos a uma prática que ele poderia seguir ou não, mas que poderia trazer benefícios se fosse praticada. Acalmar a mente nas tempestades, retomar a conexão com Deus,etc... ele pareceu ouvir... mas em seguida retomou a "metralhadora" de dúvidas e medo de estar "aborrecendo a Deus".

5) Um dos participantes levou a ele a seguinte pergunta: "quando você faz o Om, você sente que está aborrecendo a Deus?" Nessa hora ele parou para pensar. Não respondeu. E aí lembramos a importância do "sentir", da "experiencia pessoal".

6) Uma característica do fanatismo é a fuga do proprio sentimento. Isso parece ter relação com o fato de que a pregação do tipo fanático sempre reprime o sentir humano como fonte do pecado.

7) Ao final da conversa levamos a seguinte pergunta: "como é que a gente pode se entender aqui?". Nosso companheiro respondeu: "ouvindo a consciencia. Minha consciencia está dizendo que eu deveria escutar mais e falar menos." Ficamos espantados ao ouvir isso! Ele mesmo reconhecendo seu exagero. "Eu estou falando muito e ouvindo pouco" E citou a Bíblia: "falar é prata e ouvir é ouro". E perguntamos: "onde está sua consciencia?" "Aqui - apontou para a cabeça - não está no meu coração porque o coração é fonte de erros." E perguntamos: "E você consegue ouvir sua consciência?" E ele respondeu: "a consciência é Deus dentro de mim. Sempre sabe a verdade". E assim ficamos um pouco em silêncio. Depois de disparar sua metralhadora de verbalidades ele expressa uma dos principais verdades do yoga: "a Unidade entre Deus e a interioridade humana". E admite seu proprio erro de ter ficado falando muito. Encerramos o estudo. No entanto, logo em seguida, recomeçou a falar, e a citar a Bíblia, etc.

8) Depois de tudo isso, e do cansaço que a conversa toda nos causou, fico me perguntando se não seria mais produtivo cortar logo de início quando a pessoa entra do "discurso da ideologia fanática bíblica" dizendo assim: "olha, aqui a gente vem aprender com os mestres do Yoga. É diferente do que os pastores que você ouviu na igreja. Se você quiser o saber dos pastores, vai lá. Se quiser ficar aqui, aproveita para ouvir o que os mestres do yoga têm a dizer." E assim tentar evitar falar tantos verbos em vão.

9) A mente fanática para ser um "tipo de mente" se podemos dizer assim, que o sujeito entra em determinado momento, como que numa frequencia de radio. Sabemos que a mente oscila em diferentes níveis, mais ou menos concentrada, amorosa, alegre, triste, raivosa. Podemos usar várias classificações. E aqui parece haver um certo gatilho que põe o sujeito num complexo intelectual-fanático, e costuma demorar-se um tempo ali, até que possa sair e respirar novamente. A pessoa consegue ter conversas inteligentes, consegue ter insights valiosos, então, subitamente entram as nuvens do fanatismo e ela vira um "repetidor" daquela ideologia. Ao que parece o fanatismo é do tipo intelectual, com raciocínios "lógicos", precisos, uma citação que prova o argumento, num sistema racional lógico fechado em si mesmo. Esse tipo de mente deve existir em todos os humanos, mesmo os que não são dominados pelas malhas da patologia religiosa, mas de todos os "teimosos" e "donos da verdade".

10) Estou refletindo sobre a importância do estudo no caminho do yoga. Porque ali no yoga de rua enquanto fazemos o trabalho corporal, as meditações, parece que tudo vai bem. Os alunos saem com a sensação de paz, os corpos vão respondendo ao longo do tempo, percebemos conquistas. E vamos também estudando, e o pessoal começa a falar sobre o yoga, de como traz resultados práticos, de como está mudando a vida deles, estão mais calmos, etc. E aí, parece que "estamos abafando" e de repente, um conversa dessas... parece que "desabamos". Então sinto que o estudo é importante para haver uma trabalho integrador do processo. O corpo vai se abrindo. A mente se expandindo em diversos aspectos. Mas há terrenos ainda nebulosos... e parece que em níveis muito básicos, por exemplo, a capacidade de interpretação de texto. De ler a frase e entender o que está sendo dito. Uma questão que não é típica do yoga mas do "analfabetismo funcional", uma capacidade da potência humana do pensamento, da reflexão. E fico me perguntando: uma vez que o yoga visa elevar as potências do humano ao seu grau máximo, se não temos um trabalho "básico" a fazer aqui na nossa dedicação ao processo do grupo.

11) A pessoa transita bem em diversas situações da vida enquanto não "aciona" a "mente fanática". Ela toma café da manhã com os espíritas, recebe passe, faz oração e respeita as orações católicas, pratica yoga, repete o Om... mas se entra no terreno do debate intelectual... sente-se culpada por tudo isso. É como uma segunda personalidade, que renega a primeira. Mas que passa, assim como todo estado mental.

11) Na condução de um grupo de estudo, saber interromper as verborragias pessoais, convidar a um silêncio coletivo, parar um pouco, se escutar mais.

12) Reconhecer a limitação da discussão intelectual, dos argumentos e contra-argumentos no campo do convencimento... o estudo do yoga visa despertar sementes num nível mais profundo que o intelectual. No entanto, não desprezar a conversa e a possibilidade de, a partir da potência do pensamento, motivar a vontade e o sentir, e tangenciar, nesse diálogo, a consciencia observadora que a tudo assiste impassível.

- Texto e vivência em construção - 


domingo, 8 de outubro de 2017

Aprendizados da paternidade


Queridos, depois de quase 1 ano e meio como pai, aqui vai um primeiro texto.
Alguns me perguntam: “e aí, muitos aprendizados?”
E, no geral, não dá para explicar muito e nem sempre me vem à mente tantos dos aprendizados. Nem sempre dá tempo de conversar.
Então resolvi escrever.
Gabi e eu vamos começar a fazer um movimento aqui de partilhar essas experiências e abrir conversas para trocarmos mais.

Leiam com amor. Porque essas experiências, e reflexões sobre as experiências, nasceram num processo visceral de muito amor, a partir de um enorme encantamento pela graça divina em forma humana e um desejo de que as crianças possam estar cercadas do mesmo nível de pureza que elas trazem ao mundo consigo.
Um amor não só pela minha filha, mas por todas as crianças.
Um amor pelo ser humano.

É difícil resumir em poucas palavras, mas creio que posso dizer assim:
a criança vem ao mundo tão pura (ou seja, tão natural, tão aberta às experiências e descobertas, tão confiante em tudo e todos, tão sem traumas) e entra em relação com adultos tão impuros (ou seja, que perderam a espontaneidade, estão desconectados da natureza, de si mesmos, tão desconfiados e medrosos, tão cheios de marcas de dor e de compulsões) que o grande aprendizado da educação é:

aproveite esse serzinho aí para você se recentrar em si mesmo, conectar-se, começar a estranhar a loucura do mundo social, a insanidade mesmo dos adultos, e aproveite para se redescobrir.

Então, olhando para mim mesmo, para minha relação com esse serzinho de luz que veio morar aqui em casa, ao mesmo tempo olhando para as relações dos adultos com suas crianças nas pracinhas, parques e escolas… não é difícil tirar algumas lições, estar atento aos perigos da desconexão, do desperdício da oportunidade e da cotidiana agressão que fazemos às crianças.

Claro, é dessas agressões que vamos tornando-as adultas como nós mesmos, ao invés de nos convertermos em crianças como elas.

As pessoas falam muito de amor. Mas falam pouco das relações. E há sim um sentimento transbordante de amor pulsando em cada pai e cada mãe, que os faz nunca mais dormirem sem estar atentos ao sonzinho vindo da caminha ao lado… mas quando olhamos as relações, aí que nos pegamos em desconexão total… amamos e odiamos… nos descontrolamos porque queremos controlar absurdamente o outro… na hora mesmo da relação, descobrimos em nós, muitas marcas, emoções estagnadas, condicionamentos que trazemos mais profundamente e… é na relação que nos pegamos contradizendo todo o sentimento de amor. E passamos a cometer, sem perceber, uma série de agressões à infância.

Então esses aprendizados da paternidade/maternidade têm a ver com um processo longo e contínuo de autoconhecimento, coragem para jogar luz nas próprias sombras e o desafio de se transformar.

Agradeço muito os grandes aprendizados que puder ter antes de nossa filha nascer, nas rodas de conversa com as pessoas que estão vivendo esse processo que está sendo chamado Educação Viva e Consciente, em especial Ana Thomaz e Ivana Jauregui. Então muito do que vou falar aqui vem sendo dito por essas pessoas que passei a admirar por me parecerem muito coerentes e autênticas em suas relações com as crianças (e, daí, com adultos também).

Verdade. Verdade. Verdade. Essa parece ser uma palavra chave aqui, para dar conta do processo de construção da autenticidade. Adultos autênticos, crianças autênticas. E como elas são autenticamente puras… possamos assim preservar essa pureza por mais tempo.

Então, aqui estamos Gabi e eu produzindo uma lista, umas dicas por temas que são muito comuns nessa relação adulto-criança. Que possa servir como termômetro, sinais de alerta da desconexão.

  • Jogos de poder/chantagens/ameaças: aparecem em frases como “se você fizer isso, eu vou te levar pra casa”, “se você não emprestar isso para ele, ele não vai te emprestar também” e no geral, as ameaças não são cumpridas, o que é, na verdade, uma mentira. Nós, aqui em casa, estamos optando por uma relação sem chantagens, em que quando tenho que dizer não, eu digo não. E a criança respeita porque confia em mim, na minha autoridade, porque não há histórico de mentiras e negociações com chantagens. Não preciso entrar num jogo de poder, nem criar uma regra em que eu finja transferir a decisão para ela. De que adianta a criança fazer o que você quer por medo das consequências que você mesmo ameaça impor?

  • Comparações/competitividade: “tá vendo, João?, a Maria faz assim…” “A Joana já sabe falar tudo, enquanto o Paulo é muito devagar na fala”. Cada pessoa tem uma singularidade, seus pontos fortes e suas fraquezas. Ser comparado só ajuda a desenvolver inveja, não potencializa. Por trás das comparações passo a mensagem de que não aceito incondicionalmente meu filho, não respeito seus processos internos. Uma boa opção para quando uma criança vier te mostrar um feito dela é você olhar verdadeiramente e apoiá-la, em sua singularidade: “você fez bolas laranjas”, “você fez riscos coloridos”, “Você conseguiu subir no banco”, etc. Apoie, celebre, se surpreenda com ela, mas não a nomeie com adjetivos que irão limitar sua autenticidade.

  • Repressão das emoções: "engole o choro!" quantas vezes já ouvimos isso? ou, a criança grita de raiva ou mesmo de alegria, espantada com algo inteiramente novo. O adulto no geral fala: “não grita”. Mas ela está sendo espontânea, e o adulto, em geral, não sabe mais ser espontâneo com suas emoções. E, como o adulto tem ali a autoridade, ela começa a achar que precisa se reprimir mesmo. Procure ver o mundo com um olhar inaugural, assim como fazem os pequenos.

  • Minimização dos sentimentos: quando ela está chorando é comum um adulto dizer: “não foi nada”, ou “já passou”, mas na verdade a criança está sentindo algo, e ainda não passou. Se você tem real empatia talvez você diga: “tá doendo é? diz onde dói.” ou “hum… machucou? tá doendo?” Os sentimentos precisam de acolhimento, não de repressão. Adultos que acolhem seus próprios sentimento vão ter mais facilidade aqui. Mas em geral, a inabilidade em lidar com a dor faz com que os adultos queiram que a criança não chore quando se machuca. Ou se apressem em consolar: “vai passar, vai passar.”

  • Exposição dos sentimentos da criança: isso é muito comum e passa mesmo despercebido, o que mostra como somos insensíveis fazendo com elas o que não admitiríamos que fizessem conosco… “ah, que lindo, ela ficou com ciúme!”, “olhem, ficou com vergonha”.

  • Domesticação/moralização: as crianças são pessoas cheias de potência, intensidade, mas os adultos parecem querê-las domesticadas, num moralismo sem sentido e sem coerência. “empresta, filho. Deixa ele brincar também”, “você já brincou, agora é a vez dele”. Quando a criança está absorta no que faz, claramente não quer emprestar e está num movimento de defesa do seu espaço. E essa exigência de emprestar, dividir traz muita incoerência e desconexão. A criança sente algo como: “estou envolvida e debruçada na exploração desse brinquedo, mas aparece um adulto e me pede que eu interrompa este processo e entregue o brinquedo para outra criança (pois assim ele será bem visto pelos outros adultos)” A criança chora e não quer interromper o seu processo, mas com a repetição desse pedido, ela vai aprendendo a não escutar os seus desejos e cumprir ordens sorrindo”. O mesmo vale para quando os adultos querem resolver os conflitos obrigando que a criança peça desculpas para a outra. “pede desculpas”, “dá um beijnho e um abraço”. Pura convenção sem sentimento real. O que estão ensinando assim? A viver de aparência, a mentir sobre seus sentimentos até que não consigam mais escutá-los. Coisa que a maioria dos adultos faz bem.

  • Exigências e desqualificação: “você já não é mais um bebê”. Temos buscado estar atentos ao tempo, ao desenvolvimento, aos sentimentos. Em geral, quando exigimos mais do que a criança pode dar, isso só tende a trazer frustração, sentimento de rejeição, de inadaptação às expectativas dos pais. Se a criança mais velha está chorando como um bebê, talvez seja mesmo um momento emocional de regressão, numa busca daquele acolhimento perdido, daquele carinho que ela vê as crianças menores receberem. E isso segue vida à fora: já não é mais criança… já não é mais um adolescente… já não é mais um jovenzinho… até que, quem sabe um dia, tarde demais, quando se arrepender da vida de mentiras que teve outra Senhora lhe dirá: “você já não está mais vivo”.

  • Consumismo: excesso de brinquedos, em especial brinquedos com muitas cores fortes,de plástico, pouco naturais ou eletrônicos… nós temos preferido que as crianças inventem seus brinquedos, usem os brinquedos umas das outras,  interajam com a natureza, ela é abundante em brinquedos que as crianças podem explorar e reinventar. Quando as crianças levam muitos brinquedos para as pracinhas, por exemplo, notamos que os choros são mais recorrentes no local. Pracinha é lugar de criança brincar, elas exploram tudo que há por lá, inclusive os brinquedos que as outras crianças levam, mas aí entram num terreno que envolvem as “posses” e os adultos responsáveis não sabem como lidar e vão do extremo de não querer emprestar, porque foi caro e pode estragar ou forçam a criança a emprestar por uma convenção social do que é bem visto pelos outros adultos da pracinha. O resultado é choro na certa. Além disso, brinquedo comprado não se deixa explorar, reinventar, se desfazer e refazer, e essa é a natureza da criança, ela está descobrindo o mundo, precisa mergulhar nele. Se desmontar brinquedo comprado, aparece adulto e fala não.

  • A questão da propriedade privada: “é dele, filho, respeita”, “dá o brinquedo para ele”. Nós optamos por uma relação com os objetos em que não se define a propriedade, mas o respeito por quem está brincando no momento. Então evitamos que a criança aja no impulso de tomar o objeto do outro e, ao mesmo tempo respeitamos o movimento de uma criança defender o objeto com que está brincando quando a outra se aproxima. Dizemos assim: “está com ele, agora”, independente de quem seja o “dono”. Depois de brincar o quanto quiser com o objeto, a criança espontaneamente dará para o outro ou abandonará o brinquedo, ou seja, ela entrega porque verdadeiramente quer dar e, não por uma cobrança dos adultos, algo que é imposto de fora para dentro, hierarquicamente.

  • Desqualificação: “você não sabe isso”, é uma frase normalmente que nasce do medo do adulto, ou da impaciência… outras parecidas: “você não consegue”, “você não é forte pra isso”, "vai cair", "vai se machucar"...

  • Medo: o limite da criança não deve ser o limite do medo do adulto. Mas o limite da sua autorresponsabilidade em construção. Cabe ao adulto zelar pela segurança da criança, mas precisa estar muito atento às habilidades que a criança já desenvolveu e estar atento aos seus próprios medos, cuidando para que a criança possa se desenvolver sem os mesmos medos dos adultos.

  • Rotulações: a mãe com medo do filho machucar a outra criança, o filho ainda está no colo e a mãe vê o menino se agitar para tocar, interagir com a outra criança: "opa, cuidado, você é estabanado, é um ogro, você não sabe controlar sua força..." e por aí vai. Quando a criança cresce mais: "ai, como você é chato!"

  • Importância da clareza: é importante estar claro o que pode e o que não pode, quais os limites, o que o adulto vai deixar e o que não vai deixar de maneira nenhuma… é realmente estranho o jogo de barganha e insistência que as crianças fazem com os adultos que por sua vez vão cedendo, porque no fundo não sabem o que querem, ou o que é importante de verdade.

  • Assepsia, o exagero da limpeza (medo da doença): “não põe a mão na areia”, “não coloca o graveto na boca”, então por que o adulto levou a criança para um lugar de natureza? A lógica da assepsia é uma desconexão total com a nossa própria natureza. Somos seres naturais, desde do início dos tempos co-evoluimos com toda natureza, nosso corpo é adaptado e perfeito para interagir com ela. Quando não estamos nesta relação, adoecemos. Achar que o melhor para as crianças é ficar num local completamente asséptico é uma grande inversão de valores, sintoma de uma sociedade desconectada com sua própria essência. Coloquemos nossas crianças para brincar com a terra, poças, gravetos, folhas, minhocas... sem medo, mas com zelo e afeto.

  • Elogios e recompensas: “muito bem!”, “ai, que lindo!”, por melhor que seja a intenção isso ajuda a criança a fazer as coisas com o interesse de agradar o adulto e começa a ir se desconectando da real fruição autentica da atividade. Quando uma criança faz um desenho e vem te mostrar e você traz adjetivos como lindo, bonito,... a criança passa a sempre querer fazer desenhos que ganhem os seus elogios, ou seja, repetir e procurar os desenhos que esteticamente a fazem ganhar mais atenção e aval dos adultos; perdendo a autenticidade e criatividade de produzir algo inédito a cada instante, independente da estética ou aprovação. Imagine ainda, se você faz esse tipo de elogio na frente de outras crianças (por exemplo, numa escola), rapidamente, as outras crianças também querem receber o mesmo elogio e começam a copiar o desenho que ganhou atenção. Resultado: despotencialização em massa. Se a criança não consegue fazer os desenhos que ganharam elogios, aos poucos, começa a se sentir inferior. 

  • Atitudes diretivas: “faz isso”, “vamos ali”, “olha aqui isso” como se a criança precisasse de um guia para sentir, experimentar o mundo. Muito pelo contrário, se o adulto observar a criança em silêncio vai perceber, através dela, como ele mesmo pode perceber e interagir com as coisas de uma forma nova, original. Nessa repetição de intervenções, aos poucos, a criança vai aprendendo a olhar para o outro (p/ fora) para saber o que ela deve fazer, e vai perdendo a habilidade de olhar pra si mesma (p/ dentro) e sentir o que o seu Ser quer naquele instante. Afinal, sempre intervieram nos processos dela e pediram que ela fizesse coisas que agradasse aos adultos...“bate palminha”, “sorria”, “canta parabéns”.

  • Querer ensinar como faz: calma! O aprendizado tem seu tempo. Não tire da criança a chance de ter o próprio insight. E, ademais, quem disse que o seu jeito é o único jeito de fazer as coisas? Lembra como as crianças se divertem com os embrulhos dos presentes? Um brinquedo de montar não necessariamente precisa ser montado, pode virar um foguete espacial. Espere, silencie e observe a criação da criança.

  • Paixão autêntica: se um adulto tem paixão por algo, que exerça sua paixão próximo da criança, isso é um contágio altamente positivo. As crianças percebem com nitidez quando um adulto está querendo entretê-las ou quando está realmente interessado no que está fazendo. Sua paixão produz uma aura que contagia as crianças. Elas podem se interessar pelo que ele está fazendo e, sobretudo, aprendem a continuar seguindo seus próprios corações.

  • Pressões/conveniências sociais: estar atento ao fato de que a maioria dos impulsos dos adultos tem a ver com o que os outros adultos em volta podem pensar, julgar. Muitas vezes, agimos no impulso de fazer uma “justiça” esperada pelo que eu acho que o outro acha que é certo.

  • Vergonha: a única coisa que deveríamos ter vergonha é de nos envergonharmos. Porque a opinião/o julgamento do outro é importante para mim? Eu não tenho certeza do que eu acredito, desejo, sinto?

Relacionar-se de maneira viva e consciente pode ser uma chave para o autoconhecimento e um caminho de autenticidade.

Esses são alguns dos aprendizados… um processo contínuo. A gente tem muito que conversar.

Esse texto é só pre-texto para uma conversa mais franca, para uma aventura de auto-descobrimento maior.

Estamos sentindo vontade de conversar mais, porque nos dói ver as crianças, tão puras, tão massacradas por tantos estímulos, direcionamentos, faz isso, faz aquilo, não, não, não… num mundo que, com certeza, não se adapta para recebê-las, adultos que estão sofrendo e não sabem o que fazer com elas.

Li uma frase da Ivana no livro dela sobre a Escola Inkiri que dizia assim: "Uma criança não tem que aprender a defender-se ou ser forte neste mundo. O MUNDO TEM QUE APRENDER A VIVER EM PAZ E AMOR."