domingo, 22 de julho de 2018

Uma meditação guiada

Essa é uma meditação guiada. Você pode ler permitindo uma pausa que achar adequada entre uma linha e outra. 

Procure sentar-se de forma confortável com a coluna alinhada.
Deixe os braços e as mãos na posição que você preferir.
Feche os olhos e, em silêncio, comece observando a sua respiração.
O ar entrando.
O ar saindo.
Então leve sua atenção para o lado direito do seu corpo. Perceba todo o lado direito.
Agora leve a atenção para a região à direita do seu corpo, a 30 cm de distância... perceba toda essa região que está além do corpo, nessa distância de 30 cm.
Então expanda mais ainda, levando a atenção à direita até 1 quilômetro..
Então expanda mais a atenção numa distância de 10 mil quilômetros.
Fique aí por um tempo com uma sensação de quase infinito indo em direção a direita. Você quase abraça a Terra com a expansão da atenção.
Então conecte-se com a respiração e recomece pelo lado esquerdo, observando o lado esquerdo do corpo.
Expanda a atenção para a região além do corpo, à 30 cm do lado esquerdo.
Então expanda ainda mais alcançando 1 km.
E agora 10 mil quilômetros a sua esquerda.
Agora perceba a união da esquerda com a direita e você abraça todo o planeta.
A Terra possui mais de 12 mil quilômetros de diâmetro. Nesse momento seu pensamento abraça e envolve todo o planeta. Emita pensamentos de paz, desejo de harmonia para todos os seres. Atraia com seu pensamento amoroso toda força divina para todos que vivem aqui, em cada uma das regiões do planeta.
Agora leve sua atenção ao topo da cabeça.
Então, fazendo o mesmo exercício, conduza a atenção a uma distância de 30 centímetros acima da cabeça.
Expanda agora para 1 km acima de você.
E então 1000 kms.
Acima de mil quilômetros você chega no espaço.
Leve seu pensamento para o espaço infinto. Observe as estrelas no espaço infinito.
Medite no infinito e no vazio que há entre os astros.
Então afirme internamente a sua unidade com o infinito, com o Ser. [por exemplo, você pode dizer]: Eu sou o Ser. Eu sou infinito. Eu o Pai somos um. Sou feito(a) da Mãe do Universo.
Tome consciência que, mesmo que na vida cotidiana você mantenha uma personalidade e uma mente limitada, você pode retomar, a qualquer momento, essa lembrança de sua natureza infinita.
Perceba o vazio e o espaço vazio que há em seu próprio corpo.
Leve sua atenção para o seu corpo e perceba-o igualmente composto de estrelas e de vazio.
Uma divindade egípcia chamada Nut, conhecida como a Mãe dos deuses, era representada formando o arco da abóboda celeste com seu corpo repleto de estrelas.
Traga essa imagem para o seu próprio corpo. E perceba a luz de estrela em cada átomo de seu corpo. E perceba o vazio aí em você.
Medite no vazio.

Antes de terminar a meditação, volte a observar a respiração. E agradeça.
Lembre-se que mesmo voltando a experiência cotidiana, de personalidade limitada, você pode manter a consciência de sua real natureza.



sábado, 14 de julho de 2018

Yoga de Rua visitando o Yoga na Maré

Não tem como relatar essa experiência.
Cada um teve vivências muito profundas e de amplitude.
Passear pela cidade, metrô, ônibus, olhar a cidade com outros olhos, junto a equipe do yoga de rua...
Visitar uma favela, uma região desconhecida, famosa e misteriosa, ver de perto, ouvir os sons, caminhar pelas ruas, ver um pouquinho os diferentes mundos que convivem ali no mesmo espaço.
Conviver, conversar, passar tempo junto, ver gente nova, ver o velho ao lado de gente nova, comer junto, sentir medo junto, dar risada junto, silenciar junto e depois voltar diferente do que foi.
O galpão, a prática, quase 50 pessoas num círculo, a meditação, os desafios das posturas, os sons ao redor, o relaxamento, a música calma de fundo, a vibração de amor emanada por todos.
Yoga de rua: um oásis no deserto.
Yoga na maré: uma clareira na floresta.
Os antigos sábios da Índia que, se afastando da correria da cidade, iam a um lugar à parte para mergulhar na sutileza, no silêncio, e desvendar a ciência que observa o corpo e a mente em profundidade. Anseio de libertação, amor, paz, integração. Meio: retirar-se, simplicidade, observação, dedicação.
Estamos no caminho.
Alguém quer falar algo após a aula? De repente um senhor se levanta e vai agradecer... e inicia uma linda oração pedindo, emocionado, bênçãos a todos... a religião dele? Ninguém perguntou. Só agradecemos. O jeito de orar lembra o pentecostalismo cristão. Após uma aula de yoga!!!! Isso é absolutamente coerente com o ecumenismo natural do yoga. A expressão espontânea de uma devoção sincera! Isso é uma aula para todos. Yoga vem da Índia. Sim. Seus praticantes no ocidente, ao longo do caminho de prática, vão conectar-se com seus sentimentos. E não precisam necessariamente aderir às religiões e rituais indianos. Isso é uma bela quebra de paradigma para a forma convencional como a penetração do yoga costuma se fazer aqui. Que maravilhoso poder viver, ali numa favela carioca, essa potência da presença do Yoga em diálogo com a expressão da cultura popular! Que outras formas de expressão e potencialização de nosso povo o yoga poderá nos proporcionar! Despertar! Despertar não é copiar. É deixar vir o que tem dentro. E assim vamos.
Humanidade: mesa de café da manhã abundante após a prática. Partilha de alimentos. Oferenda de amor, comida, roupas, vontade de conversar e aconselhar os meninos que moram na rua. Um deles, antigo morador da Maré!
Yoga na Maré é um projeto lindo! As aulas são abertas, gratuitas, quartas e sextas. Sexta-feira, especialmente, as 9:30 no galpão das artes da Maré, recebe muitos visitantes, o que é maravilhoso nesse intento de aproximar as pessoas da cidade.
Depois da comilança a Ana Olívia, professora responsável pelo projeto, nos levou para conhecer outros espaços de aula e fomos sentindo as ruas, a movimentação, a inspiração de tantos projetos que se destacam pela inclusão social com consciência crítica. Gente que promove ações de profissionalização e expressão artística e que pensa a sua realidade, o protagonismo histórico das mulheres, as causas evidentes da guerra particular entre polícia e tráfico, a estética da mulher negra, etc.
É muito emocionante ouvir (num dia sem tiroteios), os relatos do que ocorre quando ocorrem os confrontos e de como essas instituições ao invés de fechar, abrem suas portas para acolher as pessoas que passam na rua e encontram ali proteção. E de como as aulas podem continuar, mesmo com a guerra lá fora.
E assim o Yoga na Maré vai construindo e somando com outros projetos locais, uma presença territorial. Juntamente com as pessoas que tem ali seu espaço de vida, de trabalho, e que encontram, naquelas horinhas ali na "clareira da floresta", horas de bem estar, de paz interior, de afetos... vai-se construindo um lugar-referência, concreto e simbólico para a Maré. Algo vai se formando juntamente com as pessoas.
Nossos alunos tiveram sorte e pegaram uma festa de encerramento de uma turma do curso de espanhol. E mais festa e mais comilança. E seus olhos brilhavam porque viam ali naqueles jovens, naqueles projetos, perspectivas de investimento na vida que eles, uma vez na rua, perderam. E, quem sabe, ali, nesse encontro podem redescobrir projetos de vida. Um dos meninos, revisitando a favela onde morou, pode entrar em prédios que nunca havia entrado. Viu a favela por um ângulo que ele não viveu. Viu que tem um outro mundo possível, paralelo ao que ele viveu antes de ir pra rua. (Quem saberá os frutos que esses passeios do Yoga de Rua vão dar? Estamos querendo passear mais. Dia 22 vamos estar juntos de novo na Praia Vermelha num aulão do Yoga na Maré...)
'Que possam existir mais Olívias nesse mundo, espalhando amor e fomentando esse amor na gente", disse uma das participantes.
Uma linda frase que expressa a gratidão e a amizade que está se formando ali entre aqueles alunos e sua professora. Uma frase que se repete há milênios no universo do Yoga. No Katha Upanishad, no famoso diálogo entre Naciketas e Yama, o deus da morte, este lhe diz:
“A verdade sobre o Ser não pode obter-se através de alguém que não percebeu o Ser como sua própria natureza essencial. A mente não pode revelar o Ser. Para além das dualidades, aqueles que percebem a si mesmos em todos os seres e a todos os seres em si mesmos, auxiliam os demais a terem a revelação do Ser”.
E termina elogiando a escolha de renúncia do jovem, que abriu mão de muitos prazeres efêmeros que lhe foram oferecidos em troca de uma felicidade perene que sentiu poder encontrar ali naquele ensinamento:
"Sábio eres, Naciketas, pois estás em busca do Ser. Que possa haver mais buscadores como tu!”
E assim, o que aquela senhora, interpretando o sentimento de todos nós, está dizendo à professora é: "Obrigada por estares sinceramente em busca do Ser. E a sua busca te trouxe aqui. E a Sua busca nos inspira também. Que isso se multiplique!"

domingo, 8 de julho de 2018

A Universidade e as exigências das novas gerações

"Se desejardes escutar verdadeiramente, escutai não só o que diz o orador, mas também os barulhos do mundo; escutai os clamores do coração humano, escutai o caos, escutai vossa própria aflição, vossa incerteza, vosso desespero. Se soubésseis escutar, serieis então capaz de resolver o problema. Se escutardes vossas agonias — se as tendes, como a maioria dos entes humanos — encontrareis a solução, estareis livre delas. Mas não sereis capaz de escutar nada, se disserdes: "A solução deve corresponder ao meu prazer, ao meu desejo" — pois nesse caso só estareis escutando a voz de vossos próprios desejos e de vosso prazer." J. Krishnamurti

Nova geração de estudantes 

Com a chegada de um novo perfil de estudantes na Universidade, vejo-me, como professor, mobilizado a um verdadeiro renascimento em minha profissão. Num momento em que achei que estaria estabilizado no meu perfil de formação, uma turma nova me trouxe um conjunto de exigências que me fez voltar a estudar e a pesquisar e dialogar com colegas, formas novas de trabalhar.

Esse texto pretende iniciar uma reflexão. Não é a palavra final, até porque os novos tempos exigem movimentos em direção a um campo de diálogo que ainda está por ser criado. Conceitos antigos para o mundo antigo. Conceitos novos para o mundo novo. Os impasses atuais estão nos exigindo a busca por novos paradigmas.

Penso em destacar dois grandes grupos de transformação da nova geração e a partir daí repensar a nossa atividade na universidade. O encontro com esses novos jovens de 17 a 20 anos que têm chegado a universidade traz-nos uma interpelação a partir de uma dupla perspectiva: uma nova militância política (novas bandeiras, novo sentimento, nova exigência de coerência, novas estratégias de ação militante) e uma nova visão do ser no mundo (nova relação entre o pensamento e a realidade, nova exigência de coerência no sentido da profissão, novas necessidades de busca de sentido, nova compreensão do seu mundo psíquico).

100% Militante

A nova militância política é marcada pelas bandeiras do multiculturalismo e a concepção da valorização da diferença. Em nosso caso, a questão negra (a afirmação do ser negro), a questão da mulher (e toda a nova sensibilidade para que a sociedade se dê conta da onipresença da violência contra a mulher) e a questão lgbt (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros e todo um universo de definições das possibilidades de identidade e opção sexual). 

Os inimigos: o racismo, o machismo e a homofobia. Ou seja, ainda que se reconheça os determinantes econômico-estruturais das desigualdades, o inimigo é um fenômeno da cultura, a questão do preconceito, que aparece no discurso, no comportamento, não só na elite econômica, mas em todos. Essa militância ganha um novo sentimento de combate que se faz 24hs por dia. Há uma exigência de coerência. Todo o cuidado com a fala (o politicamente correto) é pouco. Qualquer deslize pode revelar o seu racismo, o seu machismo, a sua homofobia que estava escondida. "Não passará!" é a atitude guerreira permanente dessa nova geração. 


Toda hora é hora de luta: "Por mim e por meus irmãos." Esse sentimento de pertencimento que faz de um negro porta voz de seus irmãos negros na luta cotidiana contra os grandes e pequenos atos de racismo, de uma mulher porta voz de todas as mulheres violentadas ("um contra todas") e o mesmo para o lgbt que atacará qualquer ato homofóbico em nome de seus companheiros, no país que mais mata travestis e transexuais em todo o mundo.


E então essa geração chega a universidade e se depara com possíveis inimigos entre os colegas, entre os professores e mesmo a própria instituição. Isso não era assim há tempos atrás. Quando a militância era de classe, a universidade e o professor eram parceiros na luta anti-capitalista. Na universidade em que eu me formei nos anos 90, e certamente antes disso, os professores de esquerda eram porta-vozes da nossa indignação contra o sistema. Ainda que eles fossem da classe média, nossos inimigos eram os grandes empresários, as multinacionais, os latifundiários, a direita conservadora. Com a emergência dessa nova militância, o inimigo está em toda parte. Porque o preconceito é uma ignorância que  brota em todas as classes. 


"Você precisa rever seus conceitos". Estou aprendendo que preciso rever meus conceitos. Para poder chegar ao meu aluno. Precisamos rever nossa bibliografia (hoje os estudantes questionam se na ementa só tem autores homens e brancos), rever o que é e o que não é passível de debate intelectual em sala. E essa é, creio eu, uma questão que precisa ser aprofundada.


Debate intelectual ou Escuta ativa?


Os tempos atuais exigem o abandono do que se acreditava ser o uso livre da razão. Antes, se num debate intelectual, defendíamos pontos de vista diferentes, eu poderia te acusar de conservador, você me acusar de ingênuo, e tudo não passava de uma disputa intelectual muitas vezes saudável para a produção acadêmica. Hoje, no entanto, a defesa dos argumentos está intimamente imbricada com um sentimento profundo de muita dor. Então não há espaço para diálogo, para debates, para relativizações, problematizações das atitudes. Quando um militante dessa nova geração fala, o que ele espera é ser ouvido. É uma dor, dele e de seus irmãos, que precisa ser ouvida. A fala, mais do que um argumento intelectual, é um desabafo. Nessa fala, desabafam gerações, multidões. Contra-argumentar seria indelicado, no mínimo. É portanto uma fala, que pertence só a ele (pertencimento do grupo minoritário) e a mim cabe tão somente o lugar de escuta. Um lugar que pode ser melhor compreendido.


Na minha sala, quando estávamos em um debate sobre essas violências todas da contemporaneidade (metade de uma turma de primeiro período teve um familiar morto violentamente), eu trouxe a perspectiva gandhiana de um movimento de resistência pela não-violência. Eu achei que poderia somar. "Olha, lá na Índia, eles passaram pelas mesmas situações. Perseguição, violência racial, disputa nacional. E houve um grupo que, apesar de sofrer essas mesmas dores que você está me falando que seu grupo sente, optou por uma estratégia de não violência". Senti que ali na sala a gente estaria vivendo o debate Luther King versus Malcom X. Poderia ser um bom debate. Só que não. Além de não saberem nada sobre Luther King ou Malcom X, eu havia pulado uma etapa. No sentimento dos meus alunos, eu não estava ouvindo a dor deles. Eles não conseguiriam ouvir nada do que eu dissesse. Eu me tornei um inimigo. 


Lugar de fala. Cada um precisa reconhecer que fala, não de uma perspectiva universal (a Razão como acreditávamos antes), mas a partir de um lugar social. Muitos militantes trazem o clamor que só quem pode falar é quem vive na pele a dor da violência sentida até aqui. Me lembro anos atrás uma discussão em sala de aula terminar com um estudante me perguntando: "professor, o senhor já passou fome?" Situações assim são muito delicadas. E onde e como construir diálogos assim? Entendamos com a Djamila Ribeiro, autora do livro "O que é lugar de fala?" que um homem branco não pode representar a causa negra ou o coletivo de mulheres, ainda que possa e deva discutir a questão da sociedade patriarcal que é machista e racista, e procurar fazer a reflexão de como é estar como homem branco nessa cultura. Vai ser muito bom, por exemplo, que as mulheres ouçam os homens dizendo como é ser homem nessa sociedade, seus privilégios e também suas dores. Esse documentário, por exemplo, me representa: "A máscara em que você vive". E de outro lado vai ser revelador de uma face oculta da realidade que os grupos minoritários possam ser ouvidos a partir de suas vivências. Creio que assim, num espaço de partilha, as escutas possam se tornar potentes.


Nos movimentos atuais, as rodas de conversa são centradas na metodologia da partilha. O bastão da fala, é uma herança dos nativos americanos. Quem segura o bastão fala. O grupo acolhe. Não há debate. O pré-requisito é que quem vá em direção ao bastão, vá seguindo a voz de seu coração. Que a fala seja realmente significativa e que venha do coração. Assim conversam os sábios povos ancestrais que sobrevivem há milênios. Assim, criando espaços de escuta, de acolhimento e partilha de sentimentos, os novos movimentos militantes estão fortalecendo seus laços, na sinceridade e na sensibilidade da escuta da dor do outro que, de alguma forma, ressoa em todos na roda.


Será que além de rever nossas bibliografias (eu pessoalmente cheguei à filósofa Simone Weil graças a essa turma) precisaremos ampliar a escuta em sala de aula? Creio que precisamos rever as necessidades de nossos estudantes. Não é só um debate intelectual. É um olhar sobre o mundo no qual nossas vidas estão intensamente envolvidas. Alguém pode defender que sempre foi assim. E, de fato, os militantes de esquerda do passado não entendiam como as pessoas estavam passivamente caladas diante das ditaduras e do totalitarismo do capital. Mas hoje creio que a tensão está mais acentuada pela proximidade do inimigo.


Outra estratégia que podemos utilizar nas universidades é convidar os novos militantes a ampliar sua agenda de lutas. Aqui onde eu trabalho os professores vem atuando junto aos povos indígenas, aos grupos quilombolas e caiçaras. São outras identidades. Há outras minorias vítimas do sistema. Penso que as crianças sejam um desses grupos. Janusz Korczak no gueto de Varsóvia e no campo de concentração que o diga. Ele que escreveu: "Quando eu voltar a ser criança", foi um sensível pediatra e educador que levou a vida a lembrar aos adultos que se tornassem mais sensíveis para escutar as crianças. E soube morrer ao lado delas.

Novo paradigma para o psiquismo


A segunda novidade dessa nova geração de estudantes é que eles, jovens de 17 a 20 anos, estão relatando cotidianamente um mal estar psíquico digno de atenção. Sejam trabalhadores ou estudantes que se dediquem em tempo integral a faculdade: são diversos sintomas físicos, aliados ao cansaço, e a situações emocionais de tristeza e insatisfação nas relações. São eles os sobreviventes da medicalização da infância, e de uma forte tendência de diagnosticação da angústia por parte da medicina da mente. Nossos alunos nos contam de história de tda, tdah, depressão, pânico, crises de ansiedade, surtos, sem falar em tentativas, antigas e atuais, de suicídio. Nossos estudantes vivem esse mal estar, chegam a Universidade e precisam encontrar aqui a inspiração para seus projetos de vida e de carreira, o que poderá ser objeto de seus investimentos libidinais nos próximos anos. 


Não sabemos exatamente ainda qual a relação eles tiveram com a filosofia e a poesia na escola. Mas quando chegam nos cursos de humanas na universidade, muitos vão ter contato pela primeira vez com a metáfora da caverna de Platão. E com o olhar dos poetas. O que é o real? E começam a se questionar. E relativizam o senso comum do que é doença mental, o que é sanidade. E começam a rever suas próprias histórias de vida. 


Alguns alunos que se achavam loucos (e guardavam em segredo isso) começam a ver a realidade com outros olhos e estão investindo na potência de sua própria sensibilidade "diferente" dos demais. Com o tempo, e em negociação com seus psicólogos e psiquiatras estão deixando os medicamentos. A universidade está, de alguma forma, sendo terapêutica para eles. A troca que fazem com os colegas os fazem perceber que o que antes era visto como sintoma de doença psíquica, pode ser lido como um despertar espiritual. E começam a investir em práticas de equilíbrio físico-psíquico, e sobretudo, em filosofia, porque passam a refletir sobre a realidade e encontrar novos nichos de pessoas "diferentes": "seus olhos dizem que é uma cadeira mas a física quântica já mostrou que é vazio." O vazio, que até ontem era temido pelo antigo paradigma ("cabeça vazia oficina...", ou o vazio como vazio existencial) agora é percebido como lugar de criação e de infinitas possibilidades.


Profissão? Quantas?

Essa geração chega a universidade com a perspectiva de que além da carreira que estão buscando se formar ainda podem ter duas outras formações, ou mais. Nada é fixo em suas perspectivas de futuro, apesar da inevitável angústia que lhes traz essa incerteza. No entanto, não é só pela crise e incerteza econômica que estão incertos. É que já se deram conta realmente da impermanência das coisas e, uma vez que essa geração vai buscar uma coerência interna-externa para ser feliz, já pressente que na medida em que a jornada da vida for trazendo as transformações dentro de si, eles precisarão reconstruir suas vidas exteriores para estar alinhados consigo e com a vida. Cá entre nós, o modelo de universidade que temos já não serve mais. A ideia de formar para uma profissão, e para uma profissão só, está absolutamente obsoleta.

Na verdade essa nova geração está construindo espaços não escolarizados de saber, formação e economia solidária. Para atender a essa nova geração seria preciso mudar muito. O que não vamos conseguir fazer. A universidade seria nos moldes dos novos modelos que vem surgindo em ambientes não acadêmicos: espaço de vida e convívio (quem lava a louça do almoço hoje é você, professor?) destronando, na prática, toda forma de hierarquização que não cabe na cabeça dessa nova geração, estudos interdisciplinares (a matemática junto com a dança, com as constelações das estrelas, com as células do corpo humano e das plantas), participativos e lúdicos, ênfase na criação, muita arte e mística, muita sensibilidade, muita criação colaborativa, conexão com a natureza, conexão com a comunidade no entorno, etc.

De qualquer forma, vamos seguindo. Diante de desafios impossíveis ampliando a nossa escuta, de nossos estudantes e de nossas próprias impossibilidades. Creio que vamos ser melhores do que já fomos na medida em que assumirmos nossas responsabilidades. "Penso que a vida intelectual, longe de dar direito a privilégios, é em si mesma um privilégio quase terrível que exige, em contrapartida, responsabilidades terríveis." (Simone Weil)

Enquanto escrevia esse texto me lembrei de dois textos antigos. Um de um Carlos que falava de um tal de Paulo. E um de um Paulo que falou da escola mas bem que vale pra universidade também. Termino com a leitura deles, desejando que possamos nos inspirar para co-criar nossas formas de convívio.

"Paulo tinha fama de mentiroso. 
Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. 
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. 
Desta vez, Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pala chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. 
Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: 
-Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia". 
Carlos Drummond de Andrade


"Escola é ... o lugar que se faz amigos. 

Não se trata só de prédios, salas, quadros, 
Programas, horários, conceitos... 
Escola é sobretudo, gente 
Gente que trabalha, que estuda 
Que alegra, se conhece, se estima. 
O Diretor é gente, 
O coordenador é gente, 
O professor é gente, 
O aluno é gente, 
Cada funcionário é gente. 
E a escola será cada vez melhor 
Na medida em que cada um se comporte como colega, amigo, irmão. 
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados” 
Nada de conviver com as pessoas e depois, 
Descobrir que não tem amizade a ninguém. 
Nada de ser como tijolo que forma a parede,
Indiferente, frio, só. 
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar, 
É também criar laços de amizade,
É criar ambiente de camaradagem, 
É conviver, é se “amarrar nela”! 
Ora é lógico... 
Numa escola assim vai ser fácil!
Estudar, trabalhar, crescer, 
Fazer amigos, educar-se, ser feliz.
É por aqui que podemos começar a melhorar o mundo."

                                                          Paulo Freire

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Krishnamurti - texto para nossa prática nesse mês de julho

Que é ação?

Esta é a ultima palestra deste ano. A meu ver, quanto mais se observam as condições do mundo, tanto mais evidente se torna a necessidade de uma ação diferente. Observa-se no mundo, inclusive na Índia, tanta confusão, sofrimento, aflição, fome, um declínio geral. Estamos bem cônscios desse fato e também o conhecemos pela leitura dos jornais, revistas e livros. Mas tudo fica no nível intelectual, porque não parecemos capazes de fazer coisa alguma em relação a ele. Os entes humanos se veem no desespero, ha neles muito sofrimento e frustração e ao redor deles, caos. Quanto mais se observa e penetra esse fato — não intelectual nem verbalmente, porem estudando, observando, agindo, investigando, examinando — tanto melhor se pode ver como estão confusos os entes humanos. Estão completamente desorientados. Muitos julgam que não estão desorientados porque pertencem a determinado grupo ou circulo. Quanto mais se preparam, quanto mais executam certas coisas, quanto mais se entregam a atividades sociais, a isto ou aquilo, tanto maior a sua certeza de que o mundo será transformado gracas a sua insignificante ação.

O mundo se acha em guerra; e acredita-se que, pelo poder de uma certa prece, uns poucos indivíduos, reunidos e pronunciando determinadas palavras, serão capazes de resolver esta imensa questão que ha mais de 5 mil anos permanece sem solução. E continuam a repetir-se tais palavras, embora se saiba que jamais se porá fim a guerra dessa maneira. Cada um, pois, pertence a um certo grupo, a um certo partido politico, a uma seita religiosa, etc., e ai se deixa ficar, aferrado ao passado, ao que foi; nessa rede fica aprisionado. Podemos admitir — quando no-lo mostram — existe caos, declínio geral, deterioração, interior e exteriormente, e perceber que, com efeito, o homem esta desorientado. E sem procurarmos descobrir por que ele se acha nesse estado, por que há tanto caos e aflição, sem nos darmos ao trabalho de examinar profundamente esta questão, respondemos superficialmente, alegando que não estamos seguindo os mandamentos de Deus, ou que não amamos; damos respostas superficiais, perfeitamente banais, sem valor nenhum.

E, no decorrer destas palestras — se as estivestes escutando verdadeiramente — deve ter-vos ocorrido a pergunta: Por que tanta desordem, por que tanta confusão? Se investigardes bem profundamente, verificareis que o homem é indolente. O caos se originou da preguiça, da indiferença, da inércia do homem, do seu espírito de aceitação. Esta é a maneira mais fácil de viver: aceitar tudo, ajustar-se ao ambiente, as condições, a cultura em que se está vivendo; aceitar, pura e simplesmente. Essa aceitação gera uma tremenda indolência. Muito importa compreendermos que, como entes humanos, somos bem indolentes. Pensamos ter resolvido o problema do viver quando temos uma crença e dizemos: eu creio nisto ou naquilo. Tal crença se baseia essencialmente no medo e na incapacidade de resolvermos o problema do medo, fato esse indicativo de uma uma indolência de raízes muito profundas.

Observai-vos. Caímos num padrão de pensamento e de ação, onde nos deixamos ficar por ser muito mais comodo, pois já não temos necessidade de pensar; antes, talvez tenhamos refletido um pouco, mas agora não ha mais necessidade de fazê-lo. Isso proporciona ao individuo uma enorme satisfação como fazê-lo pensar que esta realizando um ótimo trabalho; ele não ousa questionar nada, porque isso e muito incomodo e perturbador. Não ousais questionar vossa religião, vossa comunidade, vossa crença, a estrutura social, o nacionalismo, a guerra; aceitais tudo. Observai-vos interiormente. Vede como sois indolente. O caos atual é devido a vossa indolência, porque desististes de questionar, desististes de duvidar; porque aceitais. Conscientes da terrível desordem existente tanto externa como internamente, esperamos que algum acontecimento exterior venha estabelecer a ordem, ou que algum líder ou guru possa ajudar-nos a sair dela (da desordem). Dessa maneira vivemos há seculos e séculos, sempre a contar que outro resolva os nossos problemas. Seguir outra pessoa é a essência da indolência. Chega uma certa pessoa que provavelmente refletiu um pouco, teve tais visões, e sabe fazer isto ou aquilo. Essa pessoa vos ensina o que deveis fazer e ficais plenamente satisfeito. O que desejamos verdadeiramente, neste mundo, é conforto, satisfação; queremos que outro nos mostre o que devemos fazer. Tudo isso revela a nossa indolência; não queremos pensar a fundo em nossos problemas, olha-los, dissipar todas as dificuldades. Esta indolência não só nos impede de questionar, de investigar e examinar, mas também de aplicar-nos a uma questão muito mais profunda: descobrir o que é ação. O mundo se acha num estado de caos, e nós numa grande aflição. Nenhuma das soluções, das doutrinas, das crenças, das "exibições" conhecidas pelo nome de meditação — nenhuma dessas coisas resolveu nada. E se tivéssemos a possibilidade de descobrir por nos mesmos o que é ação, trataríamos de agir, de fazer alguma coisa de vital, de enérgico, de dinâmico, para instituir uma mentalidade diferente, uma existência de diferente natureza.

Cumpre-nos, pois, examinar a questão da ação, não do que é ação correta e ação incorreta, porque se nos abeiramos da ação com essas ideias de "correto" e "incorreto", já estamos no caminho errado. Dir-nos-ão que isto é ação correta, aquilo ação incorreta, e nós, já inclinados a indolência, não trataremos de investigar a fundo a questão. Por exemplo, aceitamos como correta uma dada maneira de agir, porque a pessoa que a preconiza é um brilhante advogado; e portanto a adotamos. Mas o que nós vamos fazer nesta tarde é descobrir o que e ação. Tende em mente que não estamos discriminando entre ação correta e ação incorreta. Só há ação — nem correta, nem incorreta; nem ação em conformidade com a Bíblia, o Gita ou o Alcorão, ou em conformidade com o comunismo o socialismo, etc. Há só ação, ou seja, viver. Temos de descobrir a maneira de viver, o como viver — mas não um método; porque se seguimos um método, um sistema, uma norma, estamos dando mais alento a nossa inata indolência. Portanto, precisamos de uma mente muito esperta para não sermos apanhados nesta armadilha da indolência, na qual de muito bom grado nos deixamos cair.

Tende a bondade de escutar o que se está dizendo. Como o escutais? Quando estais escutando verdadeiramente, vós o fazeis a fim de compreender o que o orador esta tentando transmitir; compreender, e não discordar ou concordar. Para compreenderdes por vós mesmos uma coisa, tendes de escutar, de investigar, de examinar; não podeis aceitar nem dizer: "Espero que ele confirme o meu ponto de vista, que é correto". Tendes de escutar; e, evidentemente, esta é uma das coisas mais difíceis. A maioria de nós gosta de falar, de expressar-se. Andamos cheios de opiniões e ideias que não são nossas, porém de outrem, Aceitamos uma enorme quantidade de frases banais, as quais papagueamos e pensamos ter compreendido a vida. Estais, pois, escutando — não uma explicação, nem vossos preconceitos e idiossincrasias, nem as coisas que já sabeis; estais escutando a fim de compreender.

Para compreender, a mente deve estar perfeitamente quieta. Como já dissemos, para se compreender qualquer coisa dois estados são essenciais: tranqüilidade mental e atenção. Só dessa maneira podemos escutar seja nossa esposa, nossos filhos, nosso patrão, seja o grasnido dos corvos ou o grito de uma ave. É necessária a tranquilidade, é necessária a atenção; nesse estado podemos escutar. Estamos então ativos, já não somos indolentes, libertamo-nos do hábito de escutar parcialmente, de parcialmente concordar, de estar só parcialmente sérios e, portanto, nunca penetrando profundamente o que estamos escutando. Assim, se desejardes escutar verdadeiramente, escutai não só o que diz o orador, mas também os barulhos do mundo; escutai os clamores do coração humano, escutai o caos, escutai vossa própria aflição, vossa incerteza, vosso desespero. Se soubésseis escutar, serieis então capaz de resolver o problema. Se escutardes vossas agonias — se as tendes, como a maioria dos entes humanos — encontrareis a solução, estareis livre delas. Mas não sereis capaz de escutar nada, se disserdes: "A solução deve corresponder ao meu prazer, ao meu desejo" — pois nesse caso só estareis escutando a voz de vossos próprios desejos e de vosso prazer.

Aqui, pelo menos nesta tarde, tratai de escutar para compreender. Porque vamos examinar uma questão que requer abundante atenção, calma investigação, detido exame. Não é caso para dizerdes: "Mostrai-me o que devo fazer, e eu o farei". Visto que em torno de nós tudo está a desmoronar-se, faz-se necessária uma ação de especie totalmente diferente — não ação em concordância com fulano ou sicrano ou mesmo este orador. Vamos averiguar por nós mesmos o que é ação, como viver —  porque viver e agir. Tornamos o nosso viver terrivelmente caótico, cheio de aflições, e tão inane.

Para se descobrir o que e ação necessita-se de um alto grau de maturidade — maturidade independente do tempo e não como o amadurecer de um fruto na árvore, em seis meses. Se precisais de seis meses para amadurecer, já lançastes as sementes da desgraça, já plantastes a árvore do ódio e da violência, que conduzem a guerra. Portanto, tendes de amadurecer imediatamente; e isso acontecera se fordes capaz de escutar e, por conseguinte, aprender, O aprender não constitui um processo de adição. Aprender e adicionar para constituir conhecimento e agir com base nesse conhecimento — é isso o que estamos sempre fazendo. Temos experiências, crenças, pensamentos; e essas experiencias e pensamentos e ideias se convertem em conhecimento, o qual nos serve de base para a ação. Por conseguinte, não estamos aprendendo realmente: estamos apenas a adicionar, e adicionar, a adicionar. Temos adicionado a nós mesmos uma enorme soma de conhecimento nestes 2 milhões de anos; todavia, continuamos a fazer a guerra, a odiar; nunca um momento de paz e tranquilidade; nunca um findar do sofrimento. O conhecimento é necessário no terreno da tecnologia, da capacidade profissional. Mas, quando agis com base no conhecimento, que é ideia, já não estais aprendendo. A maturidade, portanto, nada tem que ver com o tempo e a evolução; vem ela quando há o ato de aprender. Só uma mente amadurecida é capaz de escutar, de estar muito atenta a tranquila. A mente sem madureza e que crê, que diz: "Isto é certo e aquilo errado" e age sem lógica.

Vamos, portanto, aprender juntos a respeito da ação. Vós ides pensar, escutar. Vamos fazê-o juntos, pois trata-se de vossa vida, e não da minha; trata-se de vossa vida, de vossa aflição, de vossa confusão. Tendes de descobrir o que e ação.

Que e ação? É fazer alguma coisa. Toda ação implica uma relação. Não há ação isolada. A açao, como ora a conhecemos, está em relação com a ideia. Decerto, a ideia e a execução dessa ideia é uma coisa excelente no domínio da tecnologia, mas se torna um empecilho quando se trata de compreender as relações. As relações se alteram constantemente. Vossa esposa ou vosso marido não e sempre a mesma pessoa. Mas, por causa de vossa indolência, de vosso desejo de conforto, segurança, dizeis: "Eu o conheço bem ou a conheço bem; ele ou ela é assim". Desse modo "fixastes" a pobre mulher ou o pobre homem. Vossas relações, pois, são de acordo com uma imagem ou ideia, Dessa imagem ou ideia do estado de relação provem a ação. Prestai atenção a isto, por favor. Não conhecemos outra especie de ação: "Eu creio", "Eu tenho princípios", "Isto é correto", "Aquilo é errado", "Assim é que deveria ser" — e agimos nesta conformidade. O homem é violento; sua violência se mostra na ambição, na competição, em brutal agressividade — reações próprias do animal — e também na chamada disciplina, que é repressão, etc. Dessa base é que agimos, e por isso há sempre conflito na ação.

Dizemos que ação deve obedecer a um padrão, distinguir o certo do errado, em conformidade com certos princípios e crenças, com a tradição, as influencias do ambiente e a cultura em que somos criados. A ação, portanto, conforme a vemos, e no que respeita a nossa vida, é regulada por uma determinada imagem, padrão ou fórmula. E tal fórmula, imagem ou ideia até hoje não resolveu nada, neste mundo, nem politica, nem religiosa, nem economicamente. Não resolveu nenhum de nossos problemas fundamentais. Entretanto, continuamos a insistir em que essa é a única maneira certa de agir. Dizemos: "Como podemos agir sem pensar, sem ter uma ideia, sem seguir, dia por dia, uma certa rotina?". E, assim, aceitamos o conflito como a norma da vida — o conflito resultante de nossas ações, de nossa maneira de vida, de nossas relações, de nossas ideias, de nossos pensamentos. Eis um fato incontestável; Tendes uma ideia, um principio, vossa crença no hinduísmo, etc., e estais agindo em conformidade com essa tradição, dentro dessa estrutura; desse modo, não pode deixar de haver conflito. A ideia, "o que deveria ser", difere do fato, o que é. Isto é muito simples. Dessa maneira temos vivido ha milênios. Ora, existe outra maneira de vida — uma vida de ação e de relações, porém sem conflito, ou seja, sem ideia?

 Prestai atenção. Vede primeiramente o problema. "Problema" — que significa esta palavra? Um desafio. Todos os desafios se tornam problemas, porque não sabemos "responder". Aqui está um problema, o problema do mundo, um desafio que vos e lançado, e não conheceis nenhuma outra maneira de "responder" a esse problema, senão a velha maneira: ajustamento, imitação, repetição, firmação de hábitos; e consoante essa maneira de vida repetente, imitativa, habitual, agis. Essa maneira "habitual" de vida é o que chamais "ação", e essa ação tem causado caos e sofrimentos inenarráveis na mente e no coração humanos.

Tal é o fato obvio. Dai podemos prosseguir. No digais depois que isto não é um fato, não vos iludais a este respeito. Se o analisardes, penetrando bem fundo em vós mesmos, vereis que ele pode ser formulado muito simplesmente: Tendes um prazer e desejais a repetição desse prazer (um prazer sexual ou de outra especie qualquer) e ides levando pela vida esse prazer, na memoria ou no pensamento; e tal prazer, tal pensamento, vos impele a ação; e nessa ação há conflito, há dor, ha aflição; estabeleceu-se o hábito e de acordo com ele agis.

Ora, existe outra maneira de viver, totalmente diferente, ou seja o viver que e ação? Quer dizer, "escutastes" muito cuidadosa e atentamente a maneira como tendes vivido ate hoje e sabeis de tudo o que ela envolve. Escutar integralmente significa ver, ouvir, examinar o problema em seu todo e não apenas em suas linhas gerais. Quando escutais o barulho daqueles corvos com a mente quieta, atenta, sem interpretar, sem condenar, sem resistir, isso significa estardes escutando integralmente. Estais escutando o som total: não o som produzido por um corvo. Do mesmo modo, se souberdes "escutar" integralmente o problema da ação, esse problema com que já estais bem familiarizado; se souberdes "escutar" a maneira como estais vivendo (procedendo da ideia para a ação), tereis então a energia necessária para escutar outras coisas. Mas, se não "escutastes" integralmente vossa atual maneira de agir, não tereis a energia necessária para seguir o que agora se vai dizer.

Afinal, para se compreender qualquer coisa necessita-se de energia, e para investigar uma coisa totalmente nova é necessária uma grande abundancia de energia. Mas para terdes essa energia e preciso que tenhais "escutado" — sem condenar nem aprovar — o velho padrão de vida. Precisais tê-lo "escutado" totalmente, quer dizer, tê-lo compreendido, ter compreendido a futilidade de viver dessa maneira. Após terdes "escutado" a futilidade de tal padrão, estareis livre dele. Tereis então percebido, não intelectualmente, porem profundamente, a inutilidade de viver daquela forma; tereis então a energia necessária ao investigar. Se não tiverdes tal energia, não podereis investigar. Isto é, negando aquilo que causou a presente aflição e conflito, a cujo respeito já falamos, essa própria negação e ação positiva.

A este respeito, vou estender-me um pouco mais. Perguntamos: "Existe outra especie de ação na qual não haja conflito, ação não iterativa, uma forma sempre repetida de prazer?" — Para averiguá-lo, temos de examinar esta questão; Que é o amor? Não vos ponhais num estado sentimental, emocional ou extático! Nós vamos investigar. O amor é, necessariamente, negativo. Ele não é pensamento, O amor nunca é contraditório — mas o pensamento é. O pensamento, que é uma reação da memoria, baseada nos instintos animais — pois esse é o mecanismo do pensar — é sempre contraditório. E sempre que ha uma ação oriunda do pensamento, tal ação, que e contraditória, acarreta conflito e aflição, E, ao investigardes, ao examinardes se existe alguma outra atividade não produtiva de dor, de ansiedade, de conflito, deveis achar-vos num estado de negação. Compreendeis? Para investigar, examinar, cumpre achar-vos num estado de negação; do contrario, não podeis examinar. Deveis achar-vos num estado de "não saber"; do contrario, como examinar?

O modo de vida a que estamos habituados e o que se chama o "modo positivo", porque podemos experimentá-lo, praticá-lo dia após dia, repetidamente, baseados na imitação, no hábito, no seguir, no obedecer, no sermos treinados pela sociedade ou por nós mesmos. Tudo isso é atividade positiva, onde há conflito e aflição. Continuai a escutar, por favor. E quando o negais (o modo de vida positivo), esse mesmo processo de negá-lo, o mesmo "processo" de lhe voltardes as costas, é um estado de negação, porquanto não sabeis o que vem depois. Isso, decerto, não é complicado. Intelectualmente, parecerá complicado; mas não e. Quando voltais as costas a uma coisa, o caso está liquidado.

Dizemos agora que o amor é negação total. Nós não sabemos o que ele significa. Não sabemos o que significa o amor. Sabemos o que é o prazer, o qual confundimos com o amor. Onde está o amor, aí não está o prazer. O prazer, é obvio, resulta do pensamento. Olho uma coisa beta; o pensamento entra em cena e começa a ocupar-se com ela, criando uma imagem. Observai isso em vós mesmos. Essa imagem vos proporciona um. enorme prazer, a proposito daquele espetáculo e do sentimento que provocou; e o pensamento dá a esse prazer nutrição e continuidade. E na vida familiar isso se chama "amor", mas nada tem que ver com o amor. Só se está interessado no prazer; e onde está o desejo de prazer, encontra-se a continuidade no tempo. "Escutai" bem isso. O amor, ao contrario, não tem continuidade, porque o amor não é prazer, E, para se compreender o que é o amor, para nos acharmos nesse estado, a negação é necessária — a rejeição do positivo. Certo? Podemos prosseguir?

Vede, senhores! quando dizeis que amais alguém — vossa esposa, vosso marido, vossos filhos, isso implica o que? Despojai-o de todas as palavras e sentimentos e emocionalismos e considerai objetivamente esse amor. Quando dizeis: "amo minha mulher, meu marido, meus filhos" — que é que isso implica? Essencialmente, prazer e segurança. Isto não é cinismo. São fatos. Se amáasseis deveras vossas esposas e vossos filhos (deveras, e não apenas para fruirdes o prazer de serdes membro de uma família, de um grupo restrito, insignificante, e terdes a possibilidade de vos satisfazerdes sexualmente e de dar largas ao vosso egotismo) — teríeis uma educação diferente; não faríeis vosso filho interessar-se unicamente na aquisição de aptidões técnicas, não o ajudaríeis apenas a passar nuns exames estúpidos, de pouca valia, a fim de obter um bom emprego; haveríeis de educa-lo para compreender o processo do viver em seu todo — não apenas uma parte, um segmento/um fragmento desta imensidade que é a vida. Se amasseis verdadeiramente o vosso filho, nunca haveria guerra; faríeis o necessário a esse respeito. Quer dizer, não teríeis nacionalidades, nem religiões separativas, nem castas — todos esses absurdos deixariam de existir.

Está visto, pois, que o pensamento não pode, em circunstancia alguma, criar um "estado de amor". O pensamento só e capaz de compreender o que é positivo, e não o que é negativo. isto é, como se pode, por meio do pensamento, descobrir o que é o amor? Impossível. Não se pode cultivar o amor. Não podeis dizer: "Exercito-me todos os dias em ser generoso, bondoso, delicado, cortês, em ter consideração para com outrem". isso não cria amor, pois e ainda ação positiva ditada pelo pensamento. Por conseguinte, só com a ausência do pensamento é possível compreender-se o que é "ser negativo"; nunca por meio do pensamento. O pensamento só e capaz de criar um padrão e de agir em conformidade com esse padrão ou formula. Por isso, há conflito. E para se descobrir uma maneira de viver isenta de todo e qualquer conflito, a todas as horas, deveis compreender esse amor que é negação total.

Senhores, como se pode amar, como pode haver amor, quando há atividade egocêntrica, seja na forma de virtude, de complacente respeitabilidade, seja na forma de ambição, de avidez, inveja, competição — tudo isso "processos" positivos de pensamento? Como amar, em tais condições? Impossível. Podeis afetar amor, empregar a palavra "amor", mostrar-vos muito emocional e sentimental, podeis ser muito leal; mas nada disso tem alguma coisa que ver com o amor. Para compreenderdes o que é o amor, tendes de compreender essa coisa positiva que se chama "pensar". Assim, em virtude dessa negação chamada "amor", vem uma ação da mais alta positividade porque não cria conflito. Afinal de contas, é isto o que todos desejamos: Viver num mundo onde não haja conflito, onde haja realmente paz, externa e internamente. Precisais de ter paz, senão sereis destruído, Só na paz pode a bondade florescer. Só na paz se mostra a Beleza. Se vossa mente está sendo torturada, se está ansiosa, se é invejosa, se é um campo de batalha, como podeis ver o que é belo? A beleza não é pensamento. Nenhuma coisa criada pelo pensamento é Beleza.

 Para descobrirdes uma ação não baseada em ideia, conceito, formula, deveis "escutar" toda aquela estrutura, vê-la, compreendê-la integralmente; pois por essa propria compreensão ficareis livre dela. Estará então a vossa mente num estado de negação, que não significa acrimonia ou cinismo; ela estará vendo a futilidade de viver daquela maneira e, portanto, porá fim a ela. Quando se põe fim a uma coisa, começa a surgir o novo. Mas nos temos medo de pôr fim ao velho, porque desejamos traduzir o novo em termos do velho. Percebeis? Se verifico que não amo realmente minha família — e isso significa não ser responsável por ela — estou então livre para conquistar outra mulher ou outro homem; isso, mais uma vez, é "processo" do pensamento. Por conseguinte, o pensamento não é a solução.

A pessoa pode ser muito inteligente e erudita; mas, para descobrir uma maneira de agir totalmente diferente, que traga felicidade a sua vida, ela deve compreender o inteiro mecanismo do pensar. E, pela própria compreensão do que é positivo — o pensamento — a pessoa entra numa dimensão diferente, de ação, a qual é, essencialmente, amor. Quer dizer: Para investigar, a pessoa deve ser livre; de contrario, não pode investigar, não pode examinar. E o caos e a confusão atualmente reinantes no mundo requerem um reexame completo, não segundo as vossas condições, as vossas fantasias, prazeres, idiossincrasias, ou os compromissos que assumistes. Tendes de pensar na questão de maneira inteiramente nova.

E o novo só pode surgir da negação e não da asserção positiva do que foi. E só pode tornar-se existente o novo quando ha aquele vazio total, que e o amor real. Descobrireis então, por vós mesmos, o que é a ação isenta de conflito em todo e qualquer momento; essa é a renovação de que a mente necessita. Só quando a mente se tiver renovado por meio do amor, o qual é a total negação (isenta de sentimentalismo, devoção ou obediência) da maneira de vida ditada pelo pensamento positivo, só então poderá ela construir um novo mundo, um novo estado de relação. E só então estará capacitada para ultrapassar todas as limitações e ingressar numa dimensão totalmente diferente.

Essa dimensão é uma coisa que não ha palavra, nem pensamento, nem experiencia que seja capaz de descobrir. Só quando se nega totalmente o passado, que é pensamento, só quando o negais totalmente em cada dia de vossa vida de modo que nunca haja um só momento de acumulação — só então podeis descobrir por vós mesmos uma dimensão onde se encontra a suprema felicidade, uma dimensão independente do tempo — uma coisa inatingível pelo pensamento humano.

Bombaim, 2 de marco de 1.966.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Na praça outra vez

Dessa vez fomos a uma praça com grama, árvores, mais afastada do centro comercial.
Um lugar reservado.
Ainda assim, as vezes passavam pessoas e eu me perguntava o que impactaria nelas, ver um grupo de cerca de 30 pessoas, na sua maioria jovens, sentados em roda ali.
Nesses tempos de medo.
Pontos positivos, na minha percpectiva, ou seja, o que para mim trouxe aprendizados, insights, alegria.
Pudemos cozinhar juntos: Ana Claudia, Dayane e eu. Foi um momento em que me trouxe a sensação de que já somos amigos há muito tempo. Ali cortando cebola, botando água para ferver, preparando as salsichas e cenoura... o tempo transcorreu com leveza. E pude alongar meu tempo de vínculo com elas, já que tivemos que começar antes do horario da aula normal. Um vínculo extra-classe.
A lua e o céu estavam muito lindos nesse dia.
A grama estava molhada, então meio que de improviso, fui até a UFF buscar esteiras para nos sentarmos com mais conforto.
Apesar de não ter planejado fazer uma roda sentados. Parece que era o que se desenhava no início. Um pic-nic.
E assim nos sentamos em círculo e esperamos que o alimento fosse trazido para o centro.
E em roda ficamos um tempo em conversas informais até que veio a ideia: vamos brincar?
Então pensaram em telefone sem fio.
Incrível como sempre que se brinca de telefone sem fio, o grupo ganha uma coesão e todos ficamos muito atentos a todo o processo. Não é só escutar e falar na sua vez. Todos acompanham o caminhar ao longo do fio da mensagem e ficam especulando se a mensagem já se transformou ou não.
Depois a-do-le-ta.
Algumas pessoas conheciam uma letra maior da música e foram cantando e o grupo aceitou e pode se abrir para aprender o que seria a "música completa". Me chamou a atenção a atitude impaciente das pessoas com as pessoas que erravam, ou faziam errado. e de como ali em roda estávamos numa brincadeira, rindo e a impaciencia (desejo de controle) se via obrigada a ceder ali e a pessoa a rir de si mesma. Um aprendizado em lidar com a emoção e com as dinâmica naturais dos grupos grandes e com o imprevisível. Dessa vez eu estava achando tudo engraçado. Mas sei bem o que é estar nesse lugar impaciente, querendo ensinar (eu sei o que é certo!), querendo que dê certo (vamos controlar o grupo). E fiquei curioso para conhecer o processo dessas pessoas que dessa vez ficaram nesse lugar emocional.
Depois a brincadeira de galinha choca. Me chamou a atenção que as pessoas corriam para valer. A toda velocidade. Entraram mesmo no espírito da brincadeira. E gostei das transgressões criativas da regra que algumas pessoa propuseram: a Laila e a Cristiana.
Então comemos. Bebemos sucos. E pudemos estar ali nesse momento integrativo.
Depois propus 20 minutos onde eu ia expor uma reflexão sobre Simone Weil.
Acabei usando essa citação: "O poeta produz o belo pela atenção fixada no real. Do mesmo modo o ato de amor. Saber que este homem, que tem fome e sede, existe realmente tanto quanto eu – isso basta, o resto vem por si."
Percebi que não entenderam de imediato. Então sugeri que olhássemos a árvore, que a contemplássemos um pouco. E que daí, da atenção, poderia nascer em nós a sensação de beleza, o encantamento. E então assim seria com o amor. Uma analogia. Porém senti que a analogia também não foi entendida de imediato. Então expliquei que para amar é preciso olhar as pessoas, dedicar atenção, para reconhecer que o outro existe. E que esse reconhecimento do outro como legítimo outro, é o início do amor. Inclusive, essa é a definição de Humberto Maturana (um biólogo).
daí segui para a outra citação sobre o não julgamento (entendi que seria uma continuidade natural):
"Devemos ser indiferentes ao bem e ao mal, mas, sendo indiferentes, isto é, projetando igualmente sobre um e outro a luz da atenção, o bem leva a melhor graças a um fenômeno automático. Essa é a graça essencial. E é a definição, o critério do bem." Também senti necessidade de destrinchar parte a parte. E, evidentemente, a ideia de ser indiferente ao bem e ao mal sempre traz dúvidas nos grupos. Então conversamos sobre exemplo que foi trazido por uma participante do grupo: uma criança que morde a outra na escola. Então fomos intendendo que ficar indiferente ao bem e ao mal, inclui se posicionar diante das ações dos outros, mas com as emoções neutras, sem tomar partido, etc. O tempo dos 20 minutos acabou. A conversa queria continuar viva em assuntos de cotidiano escolar, questões de transtornos mentais, comportamento, etc. 

E então começamos a nos organizar para a brincadeira que estava sendo desejada por parte da turma: pique bandeira.

Ali a turma se dividiu: uma parte ficou num cantinho conversando e comprando bijuterias. Outra parte se envolveu com o jogo.
Uma coisa que me impactou no jogo foi quando meu time foi "invadido" pelo adversário que veio tomar nossa bandeira. Foi tão rápido. Fiquei atônito. Sem tempo para pensar. Invadiram nosso campo ao mesmo tempo, por todos os lados. Tive uma sensação muito forte de acontecimentos semelhantes como deve ser em uma guerra, um ataque surpresa. Foi tudo muito rápido dentro de mim, mas foi um insight desse nível.

Ao terminar o encontro pedi que nos aproximassemos. Eu estava com a sensação de que faltava algo. Mas não me vinha nada que pudesse "salvar" uma sensação de que nos dispersamos, de que de alguma maneira perdeu o sentido a atividade ali. Então a ideia salvadora foi passar uma tarefa para a proxima aula: que escrevessem uma avaliação sobre o que vivemos. Então acho que foi uma ideia boa para amarrar a experiencia ao proximo encontro, para trazer a reflexão ao que foi sentido, vivido, etc.

E assim terminamos. Resolvi escrever esse texto para fazer a minha tarefa de casa.

Se eu pudesse escolher um ponto positivo: viver a invasão no pique bandeira. foi o que me trouxe o maior insight da noite. O que isso tem a ver com educação?fala de como os jogos podem ser educativos para a experiencia humana. Ali, pude viver uma experiencia de guerra (humana e que graças a Deus eu nunca precisei viver)
Um ponto negativo: a roda de "aula" em que eu centralizei demais a fala.  Oque eu faria diferente? Eu teria lido o texto todo da Simone Weil antes de começar a falar. A leitura poderia ter dado um espírito comum ao grupo, focado a atenção das pessoas, e traria mais conteúdo que poderia seguir um bate papo com base no que interessou mais as pessoas no texto.






domingo, 27 de maio de 2018

Yoga de Rua - entrevista com Ana Poubel

Estamos iniciando uma serie de conversas, entrevistas com os voluntarios do Yoga de Rua. O objetivo é aproveitar um tempo de reflexão mais calmo e individual para pensarmos o projeto. Quem somos? Para onde vamos? Qual o significado de estar ali, indo as praças, praticando com as pessoas que ainda fazem das ruas seu lugar de moradia.
Essa iniciativa visa arejar ideias, fazer pensar e co-criar caminhos. Percebendo a fecunda diversidade que há entre os voluntários, visa também conhecer um pouquinho os caminhos e pontos de vista de cada um. Ampliando a diversidade de visões, num projeto que, por natureza, tem se feito tão plural.


1) Quem é você? A proposta desta primeira questão é conhecê-la, expresse o que vive em sua alma, seus sonhos, sua trajetória, experiências, enfim o que desejar nos contar, combinado!

As vezes me sinto como o oceano, na maioria do tempo acho que sou uma pequena onda.
Forte vocês começarem por essa pergunta, pois ela é a prática do jñana yoga - o yoga do conhecimento da essência – que basicamente vai na raiz dessa questão, como que descascando uma cebola e identificando (ou desidentificando) as personagens, os papéis, trajetórias, hábitos e personalidades. Ou seja, ao invés de falar aqui das minhas cascas, vou meditar um pouco pra encontrar com que eu sou.

2) O que significa yoga? E de que forma o yoga chegou a sua vida e permaneceu? Conte-nos quais foram as trilhas desta transformação pessoal?

Bom, pela definição do dicionário (Amara Kosha), yoga é sangati (conectar: em última instância jivatma com paramatma); yoga é upayam (veículo: que nos conduz de dukha a sukha); yoga é kavacam (proteção); yoga é dhyanam (meditação);e yoga é yukti (consciência superior).
Não sei ao certo se teve um exato momento em que o yoga surgiu na minha vida, me recordo de fragmentos. Me lembro de seguir algumas indicações de um livro do Hermógenes. Não sei se antes ou depois disso, cursei a Formação Holística de Base da Unipaz, e nela havia a orientação de fazer práticas de exercícios, respiração e concentração todos os dias pela manhã. Eu criava minha própria prática e ela parecia uma prática de yoga, descobri depois. Eu estudava e trabalhava com música, então me afeiçoei imediatamente aos mantras, kirtans e bhajans que me foram apresentados pela minha mestra das artes vocais, Alba Lirio. Depois outras influências foram surgindo. Lembro que decidi me dedicar ao estudo e ensino do yoga durante uma viagem à Chapada Diamantina - BA. Já praticava a alguns anos sozinha e durante essa viagem conduzi algumas práticas para meus amigos, e então decidi que faria aquilo.
Fica difícil falar sobre as trilhas de transformação pessoal, pois não é muito linear, e quando olhamos para traz as memórias estão meio embaralhadas, a cronologia sabe-se lá como. Mas me lembro de um grande despertar, que me parece ter sido o começo da trilha, também durante uma viagem, desta vez à Chapada dos Veadeiros – GO com dois amigos da faculdade. Pra resumir, minha experiência sensível mais marcante durante essa viagem foi virar a noite em silêncio olhando o céu. Estávamos jogando sinuca no único barzinho do vilarejo e em determinado momento achamos que estava movimentado e iluminado demais. Saímos caminhando pela estrada de terra, era lua nova, mas havia muita luz… das estrelas! A luz das estrelas refletida numas pedras brancas criava uma trilha muito convidativa. Seguimos, e quando já não havia nenhuma luz artificial que atrapalhasse a luz natural, sentamos a observar o céu. Nunca antes o universo tinha se despido pra nós daquela forma, nós três sentíamos e víamos uma mesma coisa. No começo a cada estrela cadente que passava fazíamos algum som de surpresa, eram tantas, tantas, tantas. Continuávamos estarrecidos e o som se transformou numa respiração profunda que gerava um pequeno movimento do tronco a cada vez que uma estrela bailava pra nós. Deitamos bem juntinhos um do outro para ficarmos aquecidos. E ali ficamos tendo uma aula de consciência universal, de dança cósmica, de pequenez e grandeza, do que é essencial ou não na vida. As estrelas nos ensinavam enquanto permanecíamos em completo silêncio. A manhã chegou, nos abraçamos agradecidos por tudo aquilo, e chamamos aquela experiência de “centrinho do mundo”.
A partir daquela noite foi desencadeado um processo de autoconhecimento, de busca pela essência. Eu decidi que nada iria me fazer desistir de ser feliz, de buscar inteireza, de ser uma com o universo. E acredito que essa firme decisão foi abrindo portas, janelas e trilhas para tudo que veio e virá.
3) Na atualidade é possível observar diversas linhas do yoga, compartilhe conosco sobre as semelhanças e distinções? 
Eu vejo apenas duas “linhas”, o yoga para a saúde e o yoga para a transcendência. O primeiro é o mais difundido hoje em dia, voltado para o bem-estar físico, emocional e mental, para que o indivíduo viva melhor a sua vida cotidiana. O segundo é o yoga que visa ir além desse nosso plano cotidiano de experiências, que transcende sukha-dukha, vai além da personalidade. 

4) Hoje qual a linha do yoga que você trabalha e se inspira como filosofia de vida e porque?
Me inspiro e busco para mim a segunda “linha” que citei acima, mas obviamente faço uso e aproveito a primeira “linha”, pois é através desse instrumento corpo-mente que posso trabalhar/viver neste plano que estamos agora. Minhas inspirações principais são Sri Ramakrishna, Sri Sarada Devi e Swami Vivekananda. Esses três mestres indianos viveram (séc XIX, XX) yoga em tudo em suas vidas, em cada gesto, palavra ou silêncio, e ensinaram que pessoas são mais importantes que métodos. Também busco base na tradição de yoga de Tirumalai Krishnamacharya, um dos representantes mais importantes do yoga como conhecemos hoje em dia.
5) Adoraríamos saber sobre sua trajetória de formação no yoga, quais foram os cursos, vivências e até mesmo viagens que lhe proporcionaram esta formação? 
Estudei com meu primeiro professor até que ele me disse: “você vai dar aula tal dia, tal horário”. Fiz dois cursos de formação, não concluí nenhum. O primeiro eu chamaria mais de “deformação”, pois tinha foco em tudo, técnicas, entulhamento de teorias, performances físicas, mas não em ajudar o ser humano a se desfazer de seus obstáculos internos e se tornar melhor para si e para o mundo. O segundo é o único curso que recomendo atualmente no Brasil, que foi o da tradição de Krishnamacharya, mas no meio do curso tive oportunidade de ir morar na India e nem pensei duas vezes. Acredito que mais importante do que acumular cursos, vivências e formações, é ter um professor ou professores que me acompanhem, que me conheçam, com os quais eu desenvolva uma relação de confiança. Assim dá pra ir mais longe e mais profundo, acredito.

6) Atualmente realizou alguma nova formação? Para o yoga assim como qualquer outra formação torna-se necessária atualização? Ou deveríamos compreender o yoga como uma filosofia de vida?
Tenho orientação regular de três professores. Na minha opinião a prática e o estudo são constantes pra quem quer levar o caminho do yoga a sério. Mas o caminhar é pessoal, exclusivo de cada indivíduo. 

7) Um dos grandes mestres do yoga no Brasil foi o Professor Hermogenes, gostaríamos que você dividisse conosco quais foram os mestres nacionais ou internacionais que lhe inspiraram a trajetória? Citamos o Professor Hermogenes como exemplo, caso tenha conhecido este mestre ou sua filosofia de vida e puder também compartilhar agradecemos! Ah! Conte-nos também quais as diferenças e semelhanças destes mestres que lhe influenciaram o caminho? 
Acho que disse em alguma outra pergunta que comecei a praticar através de um dos livros do Professor Hermógenes, mas meu contato com ele se restringiu a isso e a algumas leituras. Sri Ramakrishna e Swami Vivekananda entraram no meu caminho logo que comecei a praticar yoga, mas eu não tinha a mente preparada para compreender seus ensinamentos com profundidade. Então, ambos ficaram como uma referência longínqua durante algum tempo. Havia uma identificação, mas que só foi encontrar campo fértil vários anos depois. Mais tempo ainda levou para que eu pudesse começar a perceber a grandeza de Sri Sarada Devi, minha maior fonte de inspiração atualmente. Aurobindo e Mira Alfassa também me inspiraram algumas reflexões numa determinada época. E não seria justo deixar de citar meus professores, que exerceram grande influência no meu caminho. Cito-os em ordem de aparecimento em minha vida: Alba Lirio, Swami Nirmalatmananda, Jorge Luis Knak, Pravrajika Vivekaprana e Diego Koury. Sem eles provavelmente gastaria muito mais tempo batendo a cabeça e levando tombo. 

8) Yoga é uma filosofia de vida? De alguma forma possui uma direção espiritual ou religiosa? Yoga é uma atividade física? O yoga influencia em novos hábitos como alimentação e pensamento? E por fim se pudesse resumir yoga em única palavra qual seria e porque? Agradecemos!
 
Cada indivíduo vai definir a extensão da importância do yoga em sua própria vida. Então, ele pode ou não ser uma filosofia de vida para tal indivíduo, pode ou não influenciar novos hábitos. Podemos ter uma relação superficial ou profunda com tudo em nossa vida, não é mesmo? Com yoga não é diferente. Yoga é a melhor palavra para resumir o que seja yoga. Lembra na questão 2 quando citei os significados dessa palavra dados pelo dicionário? Imagino que os rishis (sábios antigos) devem ter penado pra encontrar uma palavra que abarcasse tanto! Não acho que eu consiga fazer melhor do que eles fizeram. 

9) Quais orientações você transmitiria a uma pessoa que deseja iniciar os estudos e formação em yoga? 
Pratique, encontre um professor que possa te orientar e pratique. Reflita sobre o que está praticando, reflita sobre sua vida, purifique sua mente e seu coração. Se liberte dos certificados e dos prazos. Mergulhe na autodescoberta, se lá dentro tiver um professor, ele virá à tona.
10) Ana, você conhece a Índia? 
Sim, já fui à India. Dizer que a conheço aí talvez já seja demais. 
Compartilhe conosco sobre a cultura, como o yoga e seus princípios atuam no dia a dia das pessoas localmente? Existe uma aceitação maior para a desigualdade social? 
Essas são perguntas bastante complexas, são várias culturas entrelaçadas na India, várias correntes de pensamento. Se a gente parar pra pensar, são milênios de culturas, filosofias e pensamentos, e parte disso preservado nos nossos dias atuais. E essa pequena parte já é tanta coisa, tão profunda e rica. Talvez isso já nos fale bastante da cultura, né? Há uma preservação, um princípio de manutenção da cultura, do conhecimento, das tradições, ao mesmo tempo que recebe o novo e o diferente. Sempre penso que lá nada deixa de existir pra surgir algo novo, só vai acumulando e sobrepondo e dialogando ou não (creio que o não-diálogo é também uma forma de diálogo). Não pesquisei a influência do yoga na vida dos indianos e suas sociedades. 
Qual a diferença entre aceitar e acomodar-se baseada na filosofia do yoga? 
Tem um amigo que diz que “se é um problema, tem uma solução; se não tem solução, não é um problema, é uma característica”. Acho que podemos pensar por aí pra responder sua questão. O que puder fazer para contribuir para si mesmo e para o mundo, faça. Não podendo fazer nada, o melhor é não atrapalhar. O que não tem jeito mesmo de fazer algo, melhor aceitar do que ficar se debatendo ainda por cima. Mas não creio que haja um entendimento único no yoga do que seja aceitação ou acomodação. Sempre vai depender de quem, quando e em que circunstâncias.
12) Qual seria o propósito maior do yoga entre as civilizações e suas transformações sociais e individuais? 
Não conheço referências que apontem o yoga como uma metodologia voltada para transformações sociais na sua origem. É um darshana, uma forma de compreender as experiências do indivíduo nos mundos externo e interno. Seu propósito é aproximar o indivíduo de sua verdadeira natureza, de sua essência. Naturalmente essa busca e realização geram impactos no entorno ou até além dele. Temos os exemplos de grandes mestres que fizeram isso, que geraram revoluções a partir de sua realização pessoal. Mas repare nas histórias deles (Buddha, Gandhi, Vivekananda, Nivedita, Aurobindo entre outros) que em primeiro lugar teve de haver um caminho de des-coberta pessoal, que depois desabrochou numa generosa contribuição para a humanidade.
13) Ao direcionarmos a filosofia para o Brasil do que se diferencia e ou associa da Índia em seus princípios, cultura local e desigualdade social? 
Não sei se compreendi essa pergunta. 
Na Índia, por exemplo, existem pessoas em situação de rua como em nosso país? 
Sim, existem muitas pessoas em situação de rua. E muitos saddhus também, monges itnerantes que sobrevivem de doações de alimentos, roupa e etc, conforme a tradição monástica antiga.
14) Em nosso país cresce anualmente a população em situação de rua, entretanto, pouco se faz para mudar esta realidade. Porém no Rio de Janeiro o Projeto Yoga de Rua tem se tornado um divisor na vida de muitas pessoas em situação de Rua e você é uma dessas pessoas especiais! Conte-nos por gentileza de que forma o convite do Projeto chegou ao seu coração e quais são as ações que você tem realizado e a quanto tempo? 
Conheci o Yoga de Rua no ano passado através das redes sociais. Comecei a acompanhar os relatos das práticas e as entrevistas publicadas, me tocaram a beleza e espontaneidade com que o projeto acontece. Algum tempo depois, um voluntário me escreveu com o convite de ir um dia dar uma aula e fui. 
Quais foram as motivações para atuar no projeto Yoga de Rua como voluntária? 
Há tempos me perguntava sobre como me aproximar das pessoas em situação de rua. Não me sentia bem apenas passando pelas pessoas cotidianamente, passando na “casa” delas, sem estabelecer qualquer tipo de comunicação. Mas também sou um bocado tímida e sem jeito e não fazia ideia de como me aproximar. Aí o projeto me colocou diante de uma oportunidade que tem como linguagem, como forma de se comunicar o yoga. Pensei, ufa! Assim de repente fica mais fácil pra mim. Ficou mais fácil coisa nenhuma (rs)! Mas abriu um caminho e um campo de trabalho interno e externo muito bonito e verdadeiramente feito com o coração.
15) Hoje o projeto Yoga de Rua possui outros educadores voluntários? Estes educadores possuem diferentes linhas do yoga? Se positivo como é conviver com esta equipe na condução do yoga para os moradores em situação de rua? 
Sabe que o Yoga de Rua é tão aberto, dinâmico e espontâneo que nem sei quantos professores-voluntários temos no momento!? Acho que algo em torno de 12 professores, 5 cozinheiras e mais alguns amigos que contribuem no suporte presencial e online, que ajudam as cozinheiras no preparo e transporte do alimento, na lavagem dos tapetinhos de prática, na realização do nosso site (que já vem por aí!) e etc.
Quanto aos professores, cada um tem uma formação e um percurso próprios. Cada um contribui de acordo com seu processo pessoal e aquilo que observa na relação com as turmas. Também conversamos regularmente sobre as questões que surgem no desenrolar dos encontros. Essa troca tem sido muito rica para todos nós. Falo por todos nós nesse momento, pois é o que surge em nossas conversas. Tanto participantes quanto voluntários tem vivido processos intensos de descoberta, experiências, reflexões e crescimento, e nos damos suporte mútuo quando necessário.  
16) O projeto atualmente possui diversos dias, horários e locais para a prática de yoga nas ruas, conte-nos por favor como são os trabalhos das equipes de voluntários e de que forma vocês se organizam internamente?
Atualmente o Yoga de Rua acontece às segundas, quartas e quintas das 10h às 11h30, seguido de um almoço vegetariano. Segunda é no Aterro do Flamengo (posto 2), quarta no Parque Guinle - Laranjeiras e quinta na Praça Paris – Glória. Para cada dia da semana temos um coordenador que agiliza as necessidades do dia e se comunica com os demais contribuidores daquele dia. Mas nada é rígido, esse formato apenas tem facilitado a organização. E assim temos feito: se precisa colocar mais ordem pra facilitar o processo, utilizamos métodos; se o excesso de ordem está bloqueando os processos mais profundos e espontâneos prioritários, aí basta jogar a estrutura fora e fazer outras escolhas em grupo. Bom, assim é como eu percebo. Acho que cada voluntário vai perceber nossa organização de maneira diferente, e está tudo bem!
Além das aulas regulares, temos participado de eventos extras como visitas a escolas de ensino fundamental, eventos em comunidades e etc. Recentemente nossas cozinheiras participaram como chefs no Gastromotiva e na semana que vem estaremos em parceria com o Dois pães e um pingado na Virada Sustentável.
17) Os alunos praticantes de yoga em sua grande maioria pessoas em situação de rua? 
Sim, o projeto tem as pessoas em situação de rua e a prática de yoga como centro. Mas temos diversos participantes e visitantes que não vivem na rua. É muito positiva essa interação entre 'pessoas de rua' e 'pessoas de apartamento'. Todos se nutrem de humanidade e respeito mútuo nesse encontro.
18) De que forma acontece a receptividade destes alunos com a prática do yoga e quais as transformações pessoais na vida de cada aluno que você acompanha? Existem evoluções? Quais? 
Imagino que cada um recebe o trabalho de sua própria maneira. Vai ser sempre assim, o processo do yoga é tão pessoal, que é melhor deixar os prazos e expectativas de lado e degustar o processo. Mas as turmas em geral recebem muito bem as práticas, as conversas filosófico-sociais que temos volta e meia, as participações musicais que por vezes aparecem. Tudo isso é muito bem-vindo por quem se aproxima desse grupo. Depois de um tempo no grupo, uma família vai se formando, eles mesmos que nos dizem. Alguns comentam de mudança de temperamento, de forma de se comunicar com as pessoas e ver o mundo. Já soubemos de alunos que conseguiram se reaproximar da família e voltar pra casa. Um senhor relatou que abriu um espaço no seu coração durante uma prática e ele sentiu alívio e perdão e ia procurar a família. Alguns dizem que se sentem acolhidos e parte da sociedade por serem “tratados como iguais no grupo do yoga”. São tantos relatos lindos! Pois a prática nossa com eles é essa mesmo, através da metodologia yogi ir se tornando mais consciente de si mesmo, clareando gradualmente a mente e podendo fazer escolhas mais conscientes. É claro que não tem ninguém aqui dizendo que esse processo é simples, rápido e fácil. Mas mesmo num nível menos profundo, esse trabalho tem trazido mais saúde, disposição e integração aos participantes.
19) O que é karma segundo a filosofia da Índia e quais as influências no yoga? Como entender este princípio sem que nos inclinássemos para a religião? De alguma forma este e outros princípios também são estudados junto ao alunos? 
Karma significa ação. No nosso plano de experiências existe uma lei que é a de causa-efeito. Não é algo muito difícil de entender, basta olhar para a natureza e para nossas experiências cotidianas pra ver essa lei em tudo. Isso é karma. Da mesma maneira que podemos observar a atuação dessa lei no mundo externo, podemos observá-la no mundo interno. Então, minhas ações físicas ou mentais, vão gerar registros em mim, a soma e intensidade desses registros vão alimentar meus hábitos e consequentemente minha personalidade. Tudo neste plano é karma, tudo neste plano gera karma. Podemos apenas olhar pra isso e fazer nossas opções de quais sementes queremos ou não regar no nosso jardim. É apenas isso, é um convite para estar atento.
20) Quais são seus sonhos junto a equipe do projeto Yoga de Rua? 
Meu único sonho agora é que o projeto continue caminhando com harmonia, amizade e amor. 
21) O que você deseja para os alunos e o que espera que alcancem com a prática do yoga? 
O mesmo que desejo pra mim mesma quando me dedico à prática: clareza, perseverança e amor.
22) Como você vê o futuro do Yoga de Rua daqui a 5 anos? 
Não tenho a menor ideia.
23) Com o objetivo de inspirarmos outros projetos de yoga nas ruas de todo o Brasil qual a mensagem que você deixaria para as pessoas que desejam potencializar propósitos para um mundo melhor em sociedade? 
Faça aquilo que de melhor pode fazer dentro das suas possibilidades com amor. Não espere nada em retorno. Essa é a essência do Karma Yoga.