Após uma forte tempestade, um homem achou pedaços de livros, dentre eles, uns trechos do que era o Evangelho dos cristãos.
Juntou-os, e assim os leu:
"Olhais os lírios do campo, este é o meu corpo.
Lançai vossas redes ao mar, este é o meu sangue"
E então, o homem, que vivia junto à sua aldeia no interior da floresta, imediatamente ajoelhou-se e vertendo lágrimas louvou o seu Deus por ter encontrado escritura tão bela, tão verdadeira.
Joseph Vibhuti
quinta-feira, 17 de março de 2016
terça-feira, 8 de março de 2016
Mais um dia para amar.
Sair de casa e deixar a mulher amada.
Para viajar ao encontro das turmas de estudantes no Instituto de Educa ção
Pessoas em processo profundo de transformação
De mudança de vida, de expansão de saber, de consciência e de emoção,
Professor de educadoras... hoje é dia de encontrar as minhas turmas na faculdade de pedagogia,
em sua imensa maioria mulheres
mulheres já por essa trilha transformadas
que bom que temos universidades públicas de qualidade
que bom que temos esse espaço coletivo e gratuito que amplia oportunidades
os pais de minhas alunas, em sua maioria não foram a faculdade, muitos permanecem analfabetos
Há uma conquista muito grande em estar aqui
e há uma imensa responsabilidade em meu trabalho
pois há, certamente, muito a ser feito
Cada vez que penso nas crianças
e na violência subjetiva que sofrem em seu processo de adaptação (subjugação) a uma sociedade doente e perversa, excludente e insensivelmente covarde com os mais fracos...
há muito o que fazer nessa alquimia
de dentro para fora
para uma nova sociedade, um novo modelo de família, uma nova forma de viver a escola (quem sabe sem escolas?)
e hoje é o dia que se lembra das lutas das mulheres
e hoje é o dia semanal do meu amor por cada uma delas
fazendo o melhor do meu trabalho
aquarela, canto, flauta, teatro, movimento dançante...
pretextos artísticos para o despertar do sensível
cabeça, sim
mas coração e mãos também...
educação do ser completo
para que se conquiste a experiência do ser
integrado em si e com o todo...
uma transcendência
Minhas aulas são espirituais
Minhas aulas são encontros de seres emocionais, espirituais
Pessoas em vias de completude, de encontro, de encanto, de sonhos...
Meu maior presente ao dia internacional de luta das mulheres
é chegar aqui e dar a minha melhor aula de todos os tempos
que já descobri que acontece na simplicidade do nosso encontro
do nosso amor
Dou aula como um amante
Cheio de paixão
E assim creio que se deva viver a vida
Tem muita coisa errada no mundo pra gente ficar na mesmice
A vida precisa de amor.
É isso que eu venho ensinar.
E estou adorando que me chamem assim:
Professor do amor.
Feliz dia!
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
sábado, 16 de janeiro de 2016
Diante de uma pessoa com dor
Tudo que uma pessoa doente precisa é de uma presença humana que segure a sua mão.
Alguém que se sente ao seu lado e fique em silêncio.
E, quando sentir que é o momento, que afague seus cabelos num tradicional e inocente cafuné.
E, se for um dia de verdadeira bênção, que a pessoa além disso tudo, diga poucas palavras como essas: “vai passar, vai passar” e transmita o frescor da sua paz.
Alguém que respire fundo, olhe nos olhos e encontre como verdade do seu coração, a seguinte afirmação: “tudo passa, essa dor também vai passar.”
E se não houver tamanha inspiração, que siga a intuição do seu afeto e possa dizer algo como: “estou aqui com você.” Porque o afeto precisa de palavras simples para ser tocado.
Tudo que uma pessoa precisa é de presença humana.
E como é difícil para as pessoas o simples ato de tocar e segurar a mão por mais de dois segundos! Ou afagar os cabelos ou afagar o peito! Ou abraçar de corpo inteiro!
Um famoso psicólogo dizia que a grande doença da humanidade é essa dificuldade de contato com o corpo. E é uma doença tão grande, mas tão grande, que é mais que uma epidemia, ele a chamou de uma peste: a peste emocional da humanidade. E tocar ficou proibido.
Carregam-se os animaizinhos de estimação no colo acariciando seus pelos, mas se esquece de aprender com os mamíferos a importância do tocar, do calor da presença de outro ser humano.
E aí tudo que você não precisa fazer, é o que as pessoas mais fazem: falam à distância, perguntam se está tudo bem, se você está melhor, e dizem: se precisar de alguma coisa é só falar. Sim, solícitas, mas distantes.
Ou ainda aquelas que fazem piadas procurando trazer bom humor... e repetem a mesma piada todas as vezes que te encontram... mas não abrem os braços para um abraço e uma pergunta ao pé do ouvido: como você está?
Ou ainda aquelas que fazem uma hipótese psicológica e emocional da sua doença e falam para você (o que também tem um tom de piada) mas que no fundo não as faz entrar em contato com a sua dor.
Ou, os piores de todos os cuidadores de doente: os autoritários. Eles te perguntam o que você quer, mas estão o tempo todo achando que sabem o que é melhor para você, ou mesmo, o que você na realidade quer. Impõem um tom autoritário na voz e querem te tratar como um inválido. Vemos muito esse tratamento com idosos e crianças: as classes sem valor econômico em nossa cultura centrada no dinheiro.
Essa é a forma como muitas pessoas conseguem dar o seu amor, o seu cuidado. Fazem coisas, mas não conseguem estar presentes. A alma está dormindo.
É. É o melhor que podem fazer no momento. Mas sei que dentro delas existe algo mais. E por isso esse texto. Para ajudar a retirar as pedras que cobrem a fogueira onde lá no meio há uma chama ainda acesa: calor humano, irmandade, afeto, olhos nos olhos, mãos dadas, palavras de reconforto, alento, canção.
Tudo que uma pessoa sentindo dor precisa é de uma presença humana que segure a sua mão.
Que se sente ao seu lado em sua cama, segure sua mão e fique ali o tempo que for preciso e possível. Que saiba ouvir, que respeite sua liberdade, que sugira sem impor, que penetre na sua dor e arranque de lá um pouco do peso que você carrega sozinho, que conduza uma meditação, que saiba te deixar sozinho e que saiba chegar de mansinho para um chá e um carinho, que lhe traga um copo d'água, uma flor e lhe faça um cafuné ou uma massagem no pé.
Ah... nos momentos de dor, tudo o que o mundo precisa é de amor.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Dança de afetos
Sou um homem profundamente marcado pelos meus afetos.
Por aqueles que derramam sobre mim sua ternura.
Sua acolhida, seu amor, sua compreensão.
Aqueles que no convívio humano parecem saber de mim até mesmo mais do que sei.
Aqueles que me adivinham com o olhar.
E sou igualmente marcado por aqueles que me afetam à distância,
meus mestres, meus líderes,
expoentes de ideais e criadores de artes que me tocam, me sensibilizam
que se comunicam diretamente a minha alma
mesmo sem nos conhecermos pessoalmente
despertam em mim as paixões de seus sentidos de vida
de seu olhar poético e transformador
seu amor pelo trabalho a que dedicam suas vidas.
Ah... que me dera me dedicar a vida inteira a um tema, uma arte, uma luta!
Meus desejos são profundamente marcados pelos seus desejos
Sonhos em comum
Minha história de vida é uma miscelânea de heranças
Pais, amigos, amores, professores, mestres...
Santos, mártires, filósofos, poetas, músicos...
Trago em minha fonte de vida
Suas obras, desejos, sonhos, sangue e encantos...
Cada um que passa por mim, me redireciona
E eu escolho me deixar levar por cada um deles
E vou escolhendo a cada etapa
O passo dessa dança de afetos que me faço a cada dia.
Não sou sozinho.
E há sempre lugar para algo novo
Há sempre lugar para retomar o passado
Sonharei amanhã, o sonho de meus ancestrais
E deixo a porta aberta para que os novos afetos
saibam daquilo que ainda não me sei.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Um menino diante do muro
Hoje andando pelas ruas do bairro encontrei um menino. Um menino muito lindo, bem pequeno. Ele estava olhando um muro alto, cheio de cacos de vidro em cima. Nos olhamos. Eu sorri. Ele estava espantado e me perguntou:
O que é isso?
Isso? - apontei - isso é um muro.
Um muro? E pra que serve?
Serve para cercar a casa.
Cercar?
Sim. Atrás do muro tem uma casa. O muro impede as pessoas de entrarem na casa.
E então ele concluiu: Esses adultos são realmente muito estranhos... eu sempre adorei brincar com meus amigos, quanto mais amigos melhor. Mas os adultos criam divisões estranhas.
E assim ele seguiu para outro planeta.
O que é isso?
Isso? - apontei - isso é um muro.
Um muro? E pra que serve?
Serve para cercar a casa.
Cercar?
Sim. Atrás do muro tem uma casa. O muro impede as pessoas de entrarem na casa.
E então ele concluiu: Esses adultos são realmente muito estranhos... eu sempre adorei brincar com meus amigos, quanto mais amigos melhor. Mas os adultos criam divisões estranhas.
E assim ele seguiu para outro planeta.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
A Casa Redonda e a essencialidade do Brincar
Hoje conheci a Casa Redonda, uma escola para crianças de 3 a 6 anos de idade, localizada em Carapicuíba, município vizinho à capital paulista. Fiquei tão tocado com a prática dessa escola que meu deu vontade de dizer a todos os meus ex-alunos, a todos os estudantes de pedagogia, a todos os aspirantes a educadores de crianças o seguinte: "vai lá, pode deixar de lado essa faculdade, ela é praticamente inútil, ela não te ensina praticamente nada para lidar com crianças, mas vai lá nessa escola, faz uma visita, pede um estágio lá, tenta fazer uma formação lá, escute o que aquela senhora fundadora dessa escola tem a dizer sobre a infância, sobre o brincar, sobre o Brasil, sobre a vida... lá você vai encontrar uma verdadeira formação!
O lugar é belíssimo! Uma casa com árvores e muitos passarinhos, uma boa área gramada, brinquedos ao ar livre. Tudo pensado e organizado para as crianças serem crianças. Brinquedos ao alcance dos pequeninos, tudo feito com material simples que eles montam, desmontam e criam à luz da imaginação. Há muito material e muitos espaços à disposição. Tudo simples: a mesa, por exemplo, é feita com um compensado que se coloca em cima de caixas de feira. Tudo pintadinho de verde. Bem bonito, bem bonito. A arquitetura das construções são inspiradoras, redondas, criativas, divertidas. Brinquedos antigos, muitos de madeira, materiais diversos, instrumentos musicais e... o mais importante: a natureza à disposição para andar, correr, interagir com os amigos e explorar o mundo do jeito sensorial e corporal como todas as pedagogias inteligentes falam que deve ser mas que raros educadores tem a coragem de fazer acontecer. Aqui na Casa Redonda brincadeira é coisa séria. E, pelo que pude sentir, o trabalho dos adultos é o de proteger esse espaço para que a criança tenha a liberdade de expressar sua vitalidade na interação social e se desenvolver a partir de si mesmas.
As crianças chegam por volta das 8:30 e começam a brincar. E ali passam a manhã inteira brincando até às 12:30. Hoje estava chovendo e todos me diziam: "hoje é um dia atípico. Você precisa vir num dia de sol para ver as crianças brincando ao ar livre." Mas foi bom perceber como eles lidam em dias atípicos. E foi maravilhoso. Debaixo da tenda e dentro da casa os educadores criaram algumas opções para as crianças iniciarem sua exploração pelo brincar. Um cantinho da argila, outro das velas, uma mesa virou autódromo de carrinhos, e um outro cantinho, muito interessante, o jogo de areia: sandplay (usado como instrumento terapêutico por psicólogos, são caixas de areia onde as crianças brincam de modelar a areia, fazer e desfazer). E lá dentro da casa, os caixotes viraram paredes das "casinhas" e cangas se transformaram em "coleiras" com as quais a "mamãe" levava os "cachorrinhos" para passear...
E assim as crianças brincavam, conversavam entre si (a maioria são filhos únicos), percebiam seus limites e davam asas à criatividade. Tudo sob o olhar dos educadores e da Peo, a diretora, com quem pude conversar um pouco mais. Creio que o olhar de um adulto como a Peo faz toda a diferença. Não é um olhar qualquer. Conversando com ela pode-se perceber uma pessoa com enorme admiração e senso de mistério diante de cada criança e suas brincadeiras. Uma pesquisadora da mente e dos gestos das crianças que expressam, através da brincadeira, algo do conhecido, mas algo do misterioso, do simbólico, daquilo que é universal mas que se revela originalmente em cada criança. A sabedoria do corpo. Senti ali ao lado dela que os bons educadores partem desse pressuposto de abertura a uma epifania: "a criança pode me revelar algo". O sentido de vida, o drama humano, o lugar do homem no cosmos é revelado através dos gestos das crianças quando brincam espontaneamente.
E assim ela me contou que passou anos observando as crianças soltando pipa. Toda a seriedade, a interação, a concentração das crianças, fez com que ela percebesse o simbólico, o elemento sagrado e reverente no ato de brincar. Uma vez, no Japão, um homem que assistia sua apresentação das fotos da crianças soltando pipa concluiu assim: "play is pray" (brincar é orar). E ela hoje diz assim: "aqui praticamos a pedagogia da pipa: os pés no chão e os olhos no céu". E é assim há 30 anos.
Então a primeira qualidade do educador é a contemplação. O olhar contemplativo, de pesquisador e de aprendiz, para o humano e o sagrado que se revela na criança. A segunda qualidade é o jeito de intervir, é a forma de entrar nesse universo dos jogos e das brincadeiras das crianças para intermediar as relações, os conflitos. E é aí, nos conflitos naturais que surgem a partir das brincadeiras, que se constrói a noção do respeito ao outro, tão essencial a uma vida ética em sociedade (cidadania). Aqui aprendi com a Peo a fazer isso sem dar aulas ou lições de moral. Mas no diálogo vivo com as crianças. Por exemplo quando um grupo não quer incluir uma criança no jogo. Então o adulto percebendo a situação entra e leva as crianças a refletirem e exporem as razões. Chama para uma conversa, faz-se uma reunião. E elas, ali, na expressão verdadeira de seus sentimentos vão aprendendo a conviver e a incluir o outro e a lidar com as frustrações.
Não dá para descrever a Casa Redonda em um artigo. Mas fiquei muito interessado ao saber sobre as reuniões onde analisam os desenhos das crianças, através dos pressupostos Junguianos, e de como há frequentes encontros com os pais. E também do trabalho de Calatonia que fazem na escola, uma metodologia de sensibilidade corporal que inclui, por exemplo, massagens suaves com pétalas de flores, gotinhas de água no corpo, relaxamento, toque sutil, silêncio...
E nessa manhã havia mais uma novidade. O dia era realmente atípico. Sorte a minha. Era o dia de visita dos ex-alunos que faziam aniversário. Como estava chovendo, todos foram para dentro da casa e sentaram-se em círculo. No meio, os dois meninos que completavam 7 anos, aguardavam ansiosos o bolo. Era um verdadeiro ritual de passagem. Aos 7 anos de idade as crianças precisam ir para outra escola. Então eles vêm e passam o dia brincando com as outras crianças. E na hora do ritual todos estavam ali no círculo, educadores e crianças sentados juntos. Então uma criança segurava o sininho de meditação conhecido como "pim" e iam cantando um versinho. Quando acabava o versinho a criança tocava o "pim" acima da cabeça de cada um dos integrantes da roda. Nesse clima solene e sagrado, a criança parecia um monge que passava e acalmava um a um que fechava os olhos por um tempo para receber o toque do sino...
Depois de todos receberem o "pim" chegaram os bolos. Cobertura de chocolate! Um para cada um dos dois meninos que então receberam 7 velas. Cada um no seu tempo acendia as 7 velas, com um daqueles fósforos bem compridos que vendem nos supermercados. Não é fácil acender sete velas e deixá-las fincadas no bolo. Mas todo mundo esperou o tempo deles. Todo mundo acompanhava. E nenhum adulto se intrometeu na tarefa de cada um acender as próprias velas.
Eles conseguiram.
Já dominam o fogo.
Creio que esse seja um passo importante no ritual.
No ritual da vida sobretudo.
Com as velas acesas o parabéns.
O sopro que apaga as velas.
Em seguida, cada um com a faca, abriu o bolo no meio à procura do cristal. Isso mesmo, havia um cristal escondido em cada bolo. As crianças ganham esse cristal que os acompanha a vida inteira. E sempre que precisarem pegarão o cristal de novo e tudo o que pedirem ao cristal se realizará.
Os meninos acharam o cristal, seguraram-no junto ao coração com as mãos em prece e fizeram os pedidos. E depois passaram o cristal de mão em mão para que cada uma das pessoas da roda também fizesse seus pedidos.
Depois de passar por diversas crianças o cristal veio se aproximando da minha direção. Comecei a pensar: "o que eu vou pedir?" Mas ao meu lado estava a Peo. Ela pegou o cristal, olhou nos olhos do menino com aquela presença amorosa de sempre e disse assim: "deixa eu ver o que eu vou pedir para você".
Nossa! Que aprendizado!! O cristal é da criança. Vai acompanhar esse ser humano por toda a vida. Nada mais óbvio do que energizar o cristal com votos de felicidade para a própria criança. E eu estava pensando em mim. Aprendi a lição de ser mais generoso e menos egoísta.
Então quando o cristal chegou na minha mão, com amor e emoção, desejei os melhores sentimentos para a vida do menino... que seja feliz, que viva o amor, que encontre a paz, e que a cada revez da vida, ele possa se lembrar de que está aqui para ser feliz e pode alcançar esse estado de paz e harmonia dentro dele mesmo.
E assim pude perceber a vida! A vida vivente! Pulsante e verdadeira...
Ao visitar a Casa Redonda pude sentir esse senso sagrado da vida e o vínculo do homem com a natureza e com os processos e ciclos da vida. Soube que valorizam festas e fogueiras aqui. Todos os elementos, entremeados pela cultura brasileira. E me lembrei das reflexões de Rabindranath Tagore sobre sua escola na Índia e me emocionei por estar num lugar com uma vida espiritual tão intensa.
E entendi que há uma enorme perda de tempo nas discussões de religião e ensino religioso...
O que precisamos mesmo é que esse senso profundamente humano esteja vivo em nós e em nossas relações. E isso só pode acontecer em clima de liberdade.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Dá um pedaço desse pão
Dá um pedaço desse pão? Que fome que me deu. Mas não de comida qualquer. Não de qualquer pão. Quero desse pão aí que o sinhô tá comendo...
Mas com tanto pão em volta por que o sinhô foi botar olho logo no meu?
Não sei explicar moço. Não sou versado em teologias. Só sei que esse pão aí é diferente.
E como sabe?
Esse pão aí tem uma coisa diferente. Num é a cor, num é o cheiro, num é o desenho... é uma coisa que vem de dentro...
De dentro do pão? Só tem miolo.
Tô falando de dentro, não do meio.
Acho que o sinhô tem miolo mole.
De dentro do pão... é coisa que só se sabe de dentro de nós.
E o que você sabe desse pão?
Esse é o pão que faz descer a água do rio que nasce lá no alto dos olhos... é o pão que acende a grande fogueira que arde no peito e vai aquecendo até as mãos que logo dão as mãos a outras mãos... é esse pão que faz nascer raiz na sola do pé e ao mesmo tempo faz o pé pisar nas folhas secas das árvores tão de levinho que não as quebra... Esse é o pão que faz o vento descer até o pulmão e de lá abrir as asas para o sopro da voz do homem só cantar música do céu e só dizer poesia de amor... amor que é o chão da liberdade.
Esse pão que eu tô comendo faz tudo isso?
E agora que o sinhô sabe...
Coma, coma também, tome uma parte. Quero distribuir para mais outras pessoas essa dádiva.
Quantos pães o sinhô tem?
Três ou quatro.
Vai dar para uma multidão!
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Ousadia e Inclusão no Cieja Campo Limpo
Simplesmente maravilhado!! Cieja Campo Limpo - SP. Isso é muito mais que uma escola, é uma comunidade!! Quanto humanismo em prática!!!
Ao começar a visita, conduzido pela carinhosa e alegre assistente de direção, Cristina, diante da primeira sala de aula, meus olhos já se encheram de lágrimas. Meu Deus, é possível!
Atrás da porta de vidro que me permitia ver o ambiente bem iluminado, jovens e adultos sentados em volta de mesas para 6 pessoas estavam tranquilos, trabalhando em suas atividades, conversando entre si amigavelmente. Abrimos a porta e nos convidaram para entrar com uma naturalidade que denuncia que era óbvio que ninguém deve ficar do lado de fora. Entra, entra, pode entrar. Dei dois passos de formiguinha, olhei as pessoas. Estavam acostumadas a receber visitantes. Meu Deus, uma escola aberta a receber visitantes, e incorporá-los às aulas... isso já é sinal de uma revolução! Foi o mesmo espírito de acolhimento que senti na Escola da Ponte, em Portugal. A diferença é que aqui eu não conseguia identificar quem eram as duas professoras ali na sala. Estavam sentadas junto aos alunos, tirando dúvidas, falando baixinho... Meu Deus, sim, sim, tem uma revolução acontecendo aqui. E meu coração vibra de alegria com o que vejo.
E foi assim nas outras salas de aula. E esse é o espírito que está no ar em toda a escola. Inclusão, acolhimento, relações amigas, alegria. Sim, estou falando de uma escola. Sim, estou falando de uma escola de EJA (aquelas escolas para jovens e adultos que normalmente só funcionam à noite, são sombrias, regidas pelo desânimo, alunos que faltam e não conseguem aprender). Aqui não. Aqui, é cheio de luz e vida! É um outro paradigma.
O portão fica aberto o dia todo pra quem quiser entrar. De 7:30 as 22:30, uma comunidade de aprendizagem de portas abertas a todas, repito, todas as pessoas.
Inclusive, há moradores de rua que vêm almoçar ou jantar. "São nossos futuros alunos", comentou Cristina. Entendi tudo. O brilho do olhar de uma verdadeira empreendedora social.
Gosto de pensar assim - é só um exercício de pensamento pra gente ver como as coisas podem mudar (se as pessoas quiserem). Sabe a sua escola que você conhece bem e que você sabe que não funciona? Pegue um desses dispositivos que existem no Cieja Campo Limpo e aplique lá. Por exemplo: portas abertas, visitante bem vindo, dois professores por sala, morador de rua pode vir almoçar. Pegue um só desses elementos. Implemente na sua escola. Mas implemente de forma inegociável. E veja como todo o resto, feito um caleidoscópio, vai, aos poucos, ter que mudar também. De novo, não estou dizendo que você tem que copiar um desses dispositivos. Mas é uma inspiração. E veja como se há um princípio que você leva a sério do tipo: "quero que minha escola seja inclusiva", isso faz com que você tenha que ir mudando tudo. Porque a escola que você vive é feita para retroalimentar a burocracia que a torna excludente.
Acho que pode ser produtivo pensar assim. E basta começar por uma célula...
As aulas duram 2 horas e 15 minutos. Uma adaptação para as necessidades dos estudantes trabalhadores. E são complementadas por atividades extra-classe. Às sextas não tem aula, é o dia dedicado às reuniões dos professores. Dentre as reuniões, há o planejamento das atividades da semana, já que as salas de aula têm dois professores cada. A turma fica cinco semanas com cada uma das quatro áreas de conhecimento fazendo um rodízio semestral. Ciências é junto com filosofia, português com inglês, história se irmana com geografia e a matemática com as artes... faz muito sentido.
Eu me senti em casa numa aula de CP (Ciências do Pensamento). Na lousa uma frase do Buda para despertar um debate inicial que normalmente dura os 15 primeiros minutos das aulas. Essas frases iniciais acontecem nas outras salas também. Parecem ter um sentido de "pensar a vida" e estão conectadas com o projeto do mês. Nessa, o Buda falava de impermanência: "isso não é meu, isso não sou eu"... os alunos participaram com perguntas e expressaram suas opiniões. Daí seguiu-se uma explicação sobre os ciclos da natureza. Uma abordagem biológica sobre os nutrientes que vêm das plantas, se tornam alimento e depois retornam a terra: e a consciência da interdependência. E depois discutiu-se o tema do consumismo na nossa sociedade, com base no vídeo "Criança, a alma do negócio". Que maravilha! Um ensino com conteúdo e significado existencial, conduzidos com participação... foi notável observar como os professores têm habilidade em acolher as falas dos alunos. Mesmo quando os alunos lançam brincadeiras ou piadas sobre o assunto, o professor conseguia transformá-las em discussão séria e profunda. O resultado é uma transformação na vida das pessoas que relataram as mudanças em seus padrões de consumo, uma nova percepção da realidade. Um senhora disse: "professor, em um mês, sem brincadeira, eu já economizei 700 reais, porque estou pensando duas vezes antes de comprar as coisas no shopping." Todos terminaram o estudo agradecidos e valorizando o benefício do conhecimento em suas vidas.
Inclusão. De fato o Cieja Campo Limpo é referência em inclusão de pessoas com necessidades especiais. Pessoas com síndrome de down estão em diversas salas, há uma sala para deficiências intelectuais com um psicopedagogo, há uma sala para turmas de surdos, outra de cegos, há estudantes que vêm de um antigo manicômio e que moram num aluguel da prefeitura já que não foram acolhidos em suas famílias agora que o manicômio fechou suas portas, ex-alunos circulam pela escola e são referências de sociabilidade, cadeirantes estão presentes (a escola construiu suas rampas... dando o seu jeitinho), todos, todos estão incluídos nessa escola.
Confesso que tive uma emoção especial quando hoje no Encontro Indígena foi feita uma roda no refeitório, com lenhas no meio para simbolizar o fogo, e os representantes dos povos indígenas começaram a falar... e ali ouvindo a voz daquele homem de corpo pintado e cocar na cabeça... de repente um aluno do Cieja que estava sentado no círculo se levanta para ir beber água... e ele vai cambaleando, mancando das duas pernas (algum tipo de paralisia), e eu acompanho seu andar, e vou vendo em volta uma senhora na cadeira de rodas, jovens com síndrome de down, aquele povo todo em volta... pessoas trabalhadoras que em algum momento deixaram a escola e estão ali, no Cieja, participando daquele encontro que fala de inclusão... e ali me veio esse clarão no pensamento... que desceu ao coração... é isso! Essa gente está fazendo inclusão aqui.
Entendi um pouco as razões do sucesso dessa escola. Essas pessoas estão assentadas numa verdade muito profunda dentro de si mesmas. Acreditam de verdade na inclusão, têm verdadeiro sentimento de acolhimento e respeito à liberdade das pessoas e têm muita habilidade na montagem da estrutura institucional que garanta a aplicação desses princípios que há séculos todos sonhamos para a educação.
Nas andanças pela educação uma coisa está ficando clara: conheço muita gente cheia de bons sentimentos humanos nas escolas. E claro que fazem toda a diferença na vida de centenas de crianças. Mas muitas dessas escolas com pessoas amorosas mantém uma estrutura muito desumanizada, uma pedagogia ultrapassada. O diferencial da nova educação é quando a escola é coordenada não só com o sentimento nobre, mas quando conseguem montar uma estrutura institucional humana, aberta, inclusiva, flexível, participativa. Isso ainda é raro, mas essas escolas como o Cieja Campo Limpo mostram que é possível fazer. Precisa de muita coragem e vontade de mudar estruturas. Eis o segredo, eis a cominação necessária: o profundo sentimento de amor pelas pessoas e a inteligência político-pedagógica no desenho da estrutura institucional. Essa é a verdadeira inclusão. Emocionante de ver! É possível!
Amor sem boa gestão não basta.
Gestão sem amor, Deus me livre.
Agora, junte amor com a gestão inteligente... e temos uma nova educação, um novo paradigma, uma perspectiva verdadeiramente inclusiva.
E amanhã ainda vou participar do famoso Café Terapêutico, um encontro quinzenal com familiares das pessoas com deficiência.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Autoeducação com adolescentes
Não vou escrever agora um livro sobre educação de adolescentes. Bem que seria possível. Mas nesse momento vou compartilhar umas reflexões a partir de uma experiência que estou vivendo.
Me interesso por educação porque me interesso pelo mundo interior do ser humano.
Me interesso pelas relações.
E tento entender como que, no encontro, pode haver aprendizado.
Educação é um caminho de desenvolvimento dos nossos potenciais.
É uma caminhada por uma maior integração humana.
Um ser humano integrado, num mundo tão cheio de dualismos, é um verdadeiro milagre.
Somos, como dizia Campbell, o herói na trajetória de busca por si mesmo...
E essa é a nossa busca para sair desse labirinto das contradições humanas...
E é nessa minha caminhada de autoeducação que acompanhar um adolescente está sendo de grande ajuda. Espero que para os dois.
Vamos ao fato.
A mãe está tentando fazer o filho de 11 anos voltar a frequentar a escola e sair do vício do uso do computador.
Ele deixou de ir a escola (uma série de motivos, não cabe aqui entrar no caso completo dele) e passava o dia inteiro trancado no quarto, usando o computador, sem querer ver ninguém.
A mãe desesperada está procurando ajuda profissional e está começando a retomar as rédeas da situação.
Comecei a ficar com ele alguns dias no período em que a mãe determinou que ele teria de ficar sem computador. De quatro as seis da tarde.
Tem sido muito interessante. Um verdadeiro aprendizado.
"O que você está fazendo aqui? Vai embora! Eu não quero ver ninguém! Eu te odeio! Nunca mais saio com você. Nunca mais quero te ver!" Você já ouviu coisas assim? Quem tem filho adolescente sabe que isso é normal.
Mas o que o adolescente precisa é: regras claras. E de uma autoridade que garanta o cumprimento das regras.
As regras são importantes porque são impessoais.
O erro mais comum dos pais ao lidar com adolescentes é não ter regras claras.
E querer mandar.
"Agora você vai fazer isso! Pronto e acabou". São excessivamente autoritários.
Ou, "tá bem, pode, mas só um pouco. Deixa mais um pouco. Não. Só mais um pouquinho. Tá bem." São excessivamente flexíveis.
Tudo que o adolescente precisa (e testam os adultos nisso) é de autoridade coerente. Por isso regras. Elas são impessoais. E muitas regras podem ser combinadas, discutidas, mudadas, adaptadas, após os momentos de diálogo.
Então comecei sendo bem rígido com a regra. Não pode ficar no quarto. Ele aceitou de bom grado. Só vai voltar no horário combinado. Ele concordou. Não pode andar sozinho pela rua. Depois de um atrito a respeito disso, aceitou.
E assim, estabelecendo regras com rigidez, ele se adaptou e pudemos conversar sobre suas dificuldades, seus desafios. Temos comido pizza, ido ao cinema... sinto que ele gosta de ter, junto com a autoridade do disciplinador, a afetividade e o calor de um adulto que se preocupa com ele.
Disciplina e afeto.
Eis o segredo.
É simples.
Mas o aprendizado disso não pode ser meramente teórico, precisa ser vivido.
E por isso é um caminho.
Achar a dose certa.
E as coisas de dentro da gente vão se desvendando.
O meu desafio como educador e adulto é ouvir suas reclamações, seus xingamentos e manter a calma. Entender que sua agressividade é um mecanismo de desenvolvimento de sua identidade. Não levar para o lado pessoal. Está com raiva porque eu sou a autoridade que o está frustrando. Daqui a pouco ele volta a sentir-se meu amigo e a gostar de me ter como apoio para refletir suas questões.
E mesmo quando ele lança sobre mim suas ofensas, posso impor alguns limites, do tipo, não fale assim comigo, não precisa falar palavrão. Mas acho que quando ele diz: eu te odeio!, preciso respeitar porque ele está expressando seu sentimento. Já vi muito adulto se ofendendo por quase nada e discutindo igual criança com os adolescente. Isso não ajuda.
Bom, sinto que se sou um adulto equilibrado, há um bom senso nessa relação de respeito ao outro e o respeito por si mesmo.
Hoje por exemplo, acho que exagerei.
E aprendi algo sobre mim mesmo.
Estávamos caminhando.
Iríamos a uma livraria passar parte do tempo que ele teria que estar na escola. Como saiu mais cedo (fase de adaptação sugerida pela psicóloga da escola) a mãe combinou que ele ficaria comigo até o fim do tempo que ele estaria na aula. Hora de escola é para estudar! - disse a mãe. Adorei! A mãe está sendo ótima, tendo ótimas soluções para essa fase dele.
E no caminho eu propus como desafio que ele achasse o caminho da livraria. Ele já havia estado na livraria outras vezes, mas sempre conduzido pela mãe.
No fundo eu queria que ele pedisse informações às pessoas (para sair do seu casulo).
Então ele achou uma solução muito interessante. Ele se lembrava que a livraria ficava perto da avenida principal do centro da cidade e que esta era a única avenida com prédios altos. Olhou para o alto e viu alguns prédios altos, segui-os e encontrou o caminho. Achei simplesmente genial. Uma solução muito original. E nisso fomos olhando os prédios e ele fazendo comentários sobre a arquitetura, um de seus interesses. Fiquei feliz com a atividade. Estava sendo um sucesso.
Chegamos num ponto bem próximo da livraria.
Mas ele não conseguia chegar.
Comecei a sugerir que ele perguntasse às pessoas, que ele pedisse informações.
Mas ele se recusou.
Disse que não queria. E num momento admitiu que sentia vergonha.
Eu o pressionei (aqui acho que exagerei) sugerindo: "pergunta pra esse moço, pra essa senhora".
No final ele se desequilibrou emocionalmente, e disse que não aguentava mais. Percebi sua angústia.
Eu acabei perguntando às pessoas na rua, na esperança de mostrar para ele que não é nenhum bicho de sete cabeças. E assim, chegamos a livraria, onde estava sua mãe nos esperando.
Mas não sei se ele aproveitou a lição, porque estava com muita raiva de mim.
Claro que nada é perdido. Ele ficou diante do desafio de encarar a frustração. Creio que seja esse um dos temas pelos quais está evitando o convívio.
Mas eu fico pensando que eu poderia ter deixado ele sair vitorioso dessa.
Eu poderia ter mudado a brincadeira.
Refletindo mais tarde concluí que poderia ter feito a brincadeira de quente-frio e terminado o nosso encontro de uma forma amigável. Com vários sucessos.
E aí fiquei pensando onde posso melhorar como educador.
Entendi que ser adulto, e ser educador, é sim lançar desafios, mas que é também perceber quando a criança e o jovem já estão no seu máximo (cognitiva ou emocionalmente) e conduzir as situações de forma que eles sintam-se vitoriosos, sintam- se capazes e estimulados a novos desafios. Acho que fui longe demais e demorei a flexibilizar o jogo, e ele se sentiu desmotivado e, possivelmente, frustrado consigo mesmo.
Fiquei pensando que na raiz da minha atitude estava uma intolerância, um homem irredutível, duro demais. E olhando mais profundamente, um traço infantil de personalidade (criança ferida) de alguém que precisa sempre vencer e para isso fazer os pequenos perderem. Por trás da violência dos adultos na relação com as crianças está esse jogo de poder.
Acho que olhar para isso com mais cuidado pode me fazer um educador melhor nas próximas vezes.
Claro que dessa experiência, como em todas as experiências da vida, o nosso jovem terá os elementos para que possa crescer.
Não há educador perfeito, como não há ser humano perfeito.
Mas, eu cá, preciso admitir meus tropeços e aproveitar o rico contato com eles e aprender sobre mim.
Estou aprendendo.
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