quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A misteriosa dramaturgia do EnCena 2026 lá em Piracaia

André, pai da Liora



"O coração é um fardo pesado"


Frase do filme Castelo Animado do Miyazaki.


Que bom que existe a arte. A gente pode fazer alguma coisa na vida sem evitar a contradição da existência.


Ser pai me leva a assistir filmes com minha filha, a revisitar minha própria infância, a estar com ela, a ser uma presença adulta para ela. Tudo isso junto e misturado à aventura que é própria de viver a própria vida.


Ser quem sou e estar disponível para ela. 

Essa frase parece resumir a essência dos aprendizados desse campo de vida e experimentações que tem sido pra mim as Vilas, desde que conheci a Ana, que foi lá nos tempos em que eu estava prestes a ser pai.


Uma bela coincidência.


Daí que não morar nas Vilas mas ir de vez em quando nas férias com a Liora tem sido o ótimo da situação atual.


É graças à Liora que me dou bem de assistir filmes infantis que são também para adultos, como as sentimentais jornadas psicodélicas do Miyazaki. É graças à Liora que me dou bem de ir passar uma parte das férias nessas jornadas que não são exatamente psicodélicas (apesar dos rumores de bananas mágicas) mas sempre mergulhos no mundo psíquico.


Viver dentro e fora.


Encena verão em Piracaia 2026. (Nota: a gente chama as “Vilas em Rede” de Piracaia, pois pra gente ir pra Piracaia é ir pra ficar nas Vilas e, eventualmente, ir em bando pra feira na cidade).


Pra começar: o mais legal é que foi Liora quem pediu pra ir. É um lugar que ela gosta de estar. A paisagem natural e a paisagem humana... As relações, a liberdade... Ela poder ficar entre crianças, sem os pais, andar por aí pelas terras, naquela amplidão... e ao mesmo tempo, ter o pai ali de apoio em alguns momentos ao longo do dia e na hora de dormir. É uma boa dinâmica. Liberdade tendo pra onde voltar.


O mais legal dessa vez é que pela primeira vez estivemos juntos na "redonda", nas práticas. Acho legal ela poder ver o pai dela brincando, criando junto, sendo feliz junto. E ela ter de viver também os momentos dela no coletivo ali perto do pai. E eu também adorei estar mais perto das outras crianças. Tudo isso gerou mais conexão entre nós. Na verdade, sempre gera porque é uma boa oportunidade de viagem sem a mãe dela. Nossa ida à Piracaia sempre gera maior encontro entre nós. Num nível que os olhos não veem.


Nós amamos as dinâmicas, os jogos teatrais e sobretudo a elaboração de tudo de uma forma organicamente participativa. Aprendi na prática o que é dramaturgia. E foi incrível participar de uma dramaturgia coletiva…


Isso é o mais difícil de traduzir em palavras, tentar contar pra quem não foi, como que esse processo orgânico de criação coletiva é atravessado por processos pessoais de mergulhos em si mesmo. Então estamos ao mesmo tempo numa vivência de processos pessoais bem profundos, numa brincadeira divertida entre famílias, num espaço muito respeitoso de vínculo entre pais e filhos, numa criação coletiva de um espetáculo teatral (desde a re-invenção da história, passando pela escolha das cenas, a emersão, em cada pessoa, dos possíveis personagens, até o figurino, o pensar o espaço do palco, o ritmo, contando com a participação talentosa de vários músicos e pessoas mais experientes em teatro, culminando numa coragem tranquila de se apresentar. Uau!) Tudo isso acontecendo em ritmos suaves. Um encontro pela manhã, dois encontros à tarde. E o gostoso ritmo da cozinha onde as crianças também são muito felizes de comer juntas. E dormir bem no silêncio bom do sítio. E querer acordar cedo pra começar a brincar logo e aproveitar bem o dia.


Pessoalmente um momento especial do meu processo foi viver um caos no grupo, um dia que as coisas não estavam fluindo, tudo ficou tão sem pé nem cabeça… por fim as crianças acabaram saindo da redonda pra ir brincar lá fora. Para minha observação pessoal foi muito interessante eu ter ficado junto até o final, me sentindo só uma peça a mais no tabuleiro, que não conseguia ajudar muito mas que também não abandonou o coletivo. Pra mim, estar junto, sem que eu tenha nada pra fazer, ou saiba o que fazer, é uma novidade. E pude perceber que ao longo do processo como um todo outras pessoas estavam ali ao longo dos dias, que não entraram em cena, mas não deixaram de estar. Há muitas formas de estar e isso eu estou aprendendo. Então tem muitas camadas tudo isso. (Assim como tem muitas formas de relatar a vivência: no encerramento eu escolhi ler a letra da música do Gilberto Gil: "Eu preciso aprender a só ser"; pra agora eu pensei até em escrever um artigo acadêmico, mas está nascendo esse texto assim desse jeito).


Que semana boa! O tempo voa!

Encantei-me vendo as rodinhas de conversa de crianças, além das brincadeiras super criativas que elas inventam. E me encanta que Liora esteja com outras crianças que se divertem em criar músicas, coreografias, etc que se envolvem de verdade com o fazer artístico e isso se torna um investimento sério da parte delas, quero dizer, um comprometimento muito saudável, com a própria ideia do fazer artístico. 


Também foi incrível presenciar a condução dos jogos e ensaios quando eram específicos para as crianças. A habilidade em trabalhar com crianças é de tirar o chapéu! Não só dentro da sala, mas também o clima, a dinâmica como um todo de uma pedagogia mais livre de estar na profícua tensão do fio entre a liberdade de: “ninguém é obrigado a nada”, e o gostar de jogar: “isso é legal de fazer e tá ficando bonito”. Deu certo! Mas é muito trabalhoso. Exige algo misterioso.


É verdade também que ao mesmo tempo, nas temporadas com a Liora em Piracaia, experimento situações difíceis porque ela tem uns momentos em que se mostra bem agressiva comigo, quando está só comigo (em especial no fim dos dias). Estando lá me sinto com um bom suporte para receber esses movimentos de mais raiva dela (alma em expansão) então eu sei que tô num lugar bom, e consigo devolver a ela uma presença num estado mental de calma. Não é fácil. Mas me parece um bom processo.


De todos os jogos o que mais me marcou foi o que só podia dizer sim. Na verdade, não podia negar o que a outra pessoa trazia. Estando em roda alguém poderia dizer: André, e aquele dinheiro que você tava me devendo?” Daí eu teria que entrar na brincadeira e não podia negar, não podia dizer: “não, você deve estar enganado, você não me emprestou…” Teria que continuar com o que a pessoa trazia, por exemplo: “pois é, sabe como é…” Esse jogo a gente quase não jogou quando foi apresentado mas a ideia dele percorreu durante os dias. Imagina que no palco alguém falasse ou fizesse algo diferente do combinado, não pode parar tudo, interromper a apresentação… precisa improvisar algo a partir dali. Isso foi ficando vivo no grupo, e também em mim, de perceber os micromovimentos mentais de negação ou defesa, nas relações fora das atividades. Isso eu levei comigo, mesmo depois de ir embora. Convite a dizer sim ao que o outro está dizendo sobre mim, dizer sim ao outro em sua expressão no mundo… nossa! Isso está me ajudando muito. Estou vendo as pessoas com outros olhos. E me sinto mais leve.


O produto é o processo. 


Os acontecimentos são mágicos. Pensa só: de repente, na história dos Saltimbancos, não sei bem como surgiu a ideia de que uma banana mágica poderia levar a todos a uma viagem astral que poria fim ao conflito não só entre cães e gatos, como entre os humanos-barões-malvados e os animais cansados de serem explorados. E nessa história de banana, lá nos intervalos, não sei bem porque veio lá da minha memória um samba-enredo sobre a chegada da banana no Brasil, e isso me remeteu a minha infância. E aproveitei e coloquei ali em ação, uma contação da história em que pude nomear minha mãe: Angela e meu pai: Benedito, que me proporcionavam a leitura, e decorar letras de música era meu prazer… e isso na mesma idade em que a Liora estava agora… Fechar essa gestalt ali, trazendo o meu luto recente pela morte do meu pai foi muito, muito interessante. Acessar essa emoção, contar pras pessoas do meu pai, agora eu pai, Liora ali… depois, isso não precisou entrar na cena (pude desapegar) mas foi talvez o maior produto do meu processo pessoal. Não é incrível? Imagina o que foi se processando na vivência de cada participante durante essa semana mágica?


Agora deixa eu dar um zoom. Foco nesse pequeno instante: estou lá na cozinha e me lembro do samba-enredo. Fico cantarolando ele. Comento por alto com alguém como quem não quer nada. E em algum momento a Babi teve a “divina loucura” de dar corda pra história. Me convida pra cantar, pra fazer o personagem. Eu só estava lembrando de uma música que decorei na infância. O que fez ela olhar aquela situação e perceber que ali teria algo a mais? Algo que no meu momento de vida (escondido no inconsciente), se articula na dramaturgia (que pelo que estou entendendo melhor agora é a “liturgia do drama”) daquele jogo que está acontecendo em rede e se ancora, não num texto pronto, mas no que está sendo sinalizado no íntimo das pessoas que foram ali para um acampamento de famílias e batem papo na hora das refeições. Isso é muito interessante! Me encanta essa escuta, essa antena ligada, isso também é mistério.


Dramaturgia-coletiva-orgânica-psico-mágico-xamânica-do-cotidiano-de-pessoas-que-dizem-sim-ao-sagrado-presente-no-outro…

Lembro dos músicos em roda compondo juntos as canções extras do espetáculo… e eu aqui brincando de tentar nomear essa beleza!


Agradeço. Sigo com o coração aqui dentro. Perto, longe. Vinculado e livre. Confiante e morrendo de medo do futuro, esse incerto alguém. Sem ter a menor ideia de qual vai ser o texto final dessa história. Nem se, apesar da vontade, vamos voltar a Piracaia. Por isso que é bom escrever. Porque pelo menos no coração de quem me lê, aí eu estou. Escritor.


Nenhum comentário:

Postar um comentário