terça-feira, 14 de julho de 2020
Conversa sobre vacuidade
Um professor veio até a Vila XI muito curioso em busca de um aprendizado que jamais encontrara em suas andanças por universidades e laboratórios.
Teve a sorte de encontrar todos reunidos pois era quase a hora do almoço.
Sentou-se e começou uma conversa com uma alegre senhora que passa os seus dias estudando e praticando os ensinamentos da vacuidade.
- Qual o seu nome? - O professor perguntou.
- Aqui as pessoas me chama de Cuca. Mas veja, esse é apenas um modo de chamar, uma noção comum, uma expressão corrente, um simples nome. Sob esse nome não há um indivíduo.
O professor ficou encantado com aquela maneira analítica de falar e continuou o debate:
- Vocês estão ouvindo o mesmo que eu? Se posso compreender bem, ela está dizendo que não há indivíduos. Ora se for assim, quem está ali dentro da cozinha preparando o almoço que em breve vamos desfrutar? Quem plantou, colheu, transportou os deliciosos legumes que irão nos nutrir, se não há indivíduos?
Enquanto todos pensavam sobre suas perguntas ele continuou:
- Não há quem faça o bem, nem quem faça mal, não haverá quem colha os frutos da virtude ou do pecado. Sendo assim: quem pratica meditação? Se o que está dizendo é verdade não há ninguém vivendo aqui na Vila XI. Portanto, o que você está dizendo é um engano.
Então Cuca perguntou a ele:
- Professor, como o senhor chegou até aqui? A pé ou através de algum veículo?
- Eu vim de carro até a pousada. Cheguei ontem a noite. E hoje de manhã resolvi me exercitar e tomar um ar puro e vim de bicicleta.
- Ah... então aquela bicicleta ali é sua?
- Sim, disse o professor.
Cuca perguntou se o pessoal poderia mexer em sua bicicleta, já que na Vila XI o pessoal adora desconstruir e reconstruir as coisas. Ele concordou.
Tiraram o assento. E Cuca perguntou:
- O assento é a bicicleta?
- Não. O assento não é a bicicleta.
Tiraram os pedais e a correia.
- Os pedais e a correia são a bicicleta?
- Não, não são a bicicleta.
Tiraram a roda dianteira.
- A roda dianteira é a bicicleta?
- Não, tampouco a traseira.
E assim foram tirando parte a parte a bicicleta. O guidão, os freios... e Cuca ia perguntando uma a uma se aquela parte era a bicicleta e o professor sempre dizendo a mesma coisa: não, isso não é a bicicleta. Por fim não restava mais nada e Cuca disse:
- Professor, não vejo nenhuma bicicleta! Todos vocês aqui ouviram o professor dizer: "eu vim de bicicleta." Mas quando convidado a definir o que era a bicicleta não conseguiu demonstrar a existência da bicicleta.
Então todos se voltaram ao professor e perguntaram:
- E agora, o que o senhor tem a dizer?
- É verdade. É por causa do agrupamento das partes, do nome e da utilidade que a chamamos bicicleta. Mas isso é só uma noção comum, uma expressão corrente, um simples nome.
- Muito bem, professor. O senhor sabe o que é uma bicicleta. Da mesma forma é por causa dos cabelos, das unhas, da carne, dos dentes, dos ossos, dos pulmões, dos intestinos, do sangue, do suor, das lágrimas, da gordura e dos demais elementos do corpo, bem como dos agregados da mente que se forma a designação, a noção comum, a expressão corrente, que recebe o nome de "Cuca". Mas na realidade não existe aí um indivíduo.
O professor ficou maravilhado com a explicação. O almoço foi servido, todos se deliciaram e o professor ainda ganhou uma maçã de sobremesa que foi saborear enquanto caminhava sozinho pelo gramado.
Enquanto caminhava com a maçã o professor se perguntou se a maçã e tudo aquilo era real. Em seu coração sentiu que ali havia um aprendizado muito importante para sua vida pessoal bem como para toda a humanidade. Era estranho. Ele via a maçã e ela lhe parecia real. Ao mesmo tempo olhava e via que a maçã não era nem a casa, nem a parte interna, nem as sementes... não havia maçã! Havia e não havia... era como um sonho. Essa dupla realidade das coisas ainda iria lhe abrir uma nova visão das coisas.
domingo, 12 de julho de 2020
Passatempo amoroso
Vento.
Som das folhagens.
Vozes ao fundo. Criança, senhora, pássaros.
Vento.
Bailar das hastes.
Pássaro voa.
Montanha parada. Céu parado. Nuvens paradas. Corpo sentado.
Sol ameno.
Corpo na paisagem.
Venta.
Não há nada a fazer.
Nada a acrescentar.
Estabilidade no mundo material e no mundo espiritual.
Minha mente. Palavras.
Será possível pensar sem palavras?
Lanço palavras como o vento lança o ar.
Palavras inúteis.
Qual a utilidade do vento?
Penso isso e as palavras ficam plenas de uma legitimidade, não por terem uma utilidade a priori, mas porque elas vão. Seguirão seu curso, chegarão a algum corpo.
O mundo das palavras é diferente do mundo sem palavras.
Imagina o mundo sem vento, sem os deslocamentos das grandes massas de ar.
O vento leva o pólen e o mundo já não é o mesmo.
Para o gavião, o vento é plataforma de um voo sem sair do lugar. Será um passatempo? Um ato de amor entre o gavião e o vento?
Onde as palavras tocarão?
Que parte do corpo elas alcançam? O que deslocam?
Onde chega em você essa palavra?
Sua mente. Seu corpo. Seu mundo. Seus ventos.
O amor. O nosso amor. O nosso ato de amor.
E, apesar da distância que nos separa, por causa da nossa distância: esta carta de amor.
Não há nada a fazer. Sentir o amor. Pensar, desejar, sentir, nutrir-se de amor.
Preenchamos nossas vidas com passatempos amorosos.
Eu te escrevo esta carta e te peço um gesto de amor.
Um gesto. Seja qual for. Que seja nascido em ti no mesmo lugar de onde nasce esta carta em mim.
Não há nada que possa ser feito a não ser isso.
Tomada de consciência, introspecção, mergulho no presente.
Unidade da vida humana: emoções, pensamentos, necessidades corporais e desejos.
Sem sacrifício, sem esforço, sem compensação... unidade.
Penso a emoção da ação do desejo.
Sinto o desejo do corpo e digo a palavra: amor.
Fazemos justiça a nós mesmos?
Estou me dando aquilo que mereço?
Em nosso mundo de instituições, o Estado, o emprego, o chefe fazem nascer o castigo, a culpa, a vigilância, a vergonha.
Em nosso mundo de vergonha, vigilância, culpa e castigo, faço nascer o chefe, o emprego, o Estado e todo o mundo institucional.
Vento. O vento desloca e por isso uma das primeiras medidas dos governos é fazer parar o vento. Por isso trabalha-se em locais onde o vento não possa atrapalhar.
O vento desfaz cidades, escritórios, governos.
Vento.
Cada ser pode ser aquilo que é.
Ação desprovida de intenções subjetivas.
Justiça perfeita.
É tempo de amar.
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Quem sou eu?
Sou a profundidade e a beleza.
O conhecimento intuitivo e a alegria da vida.
Estou além da definição, além das palavras e das descrições.
Sou o vinho, o néctar, a fonte.
Sem alarde, faço-me presente na suavidade da respiração.
Sou o frescor: minha pele é tão sutil quanto o ar.
Meus olhos brilham como estrelas.
Meus cabelos formam-se da aura de uma sabedoria talhada no sofrimento.
Meu coração é a pura compaixão.
De minha boca, podeis encontrar a doçura de minhas expressões.
Sou o amor, a ternura, a inocência, a pureza, a poesia.
Habito o coração da vida.
Podeis me encontrar nas altas montanhas tanto quanto nas casas simples da humildade.
Resguardo-me em meu próprio mistério.
Sou o silêncio em meio ao vozerio.
Não falo, insinuo-me.
Conheço meu poder de encanto, de sedução.
Sou a própria paixão e o fascínio.
Sou a obscuridade, a intuição.
Relaciono-me a partir do sentir.
Uso a linguagem arquetípica.
A simpatia.
Podeis ouvir meus pensamentos como sussurros levados pelo vento.
Sou a luz inacessível do interior.
Mais e mais para dentro...Vinde, vinde... e jamais ireis me atingir, jamais ireis me possuir.
Eu sou o oposto complementar
Da ação eu sou recolhimento
Do recolhimento eu sou a força
Se sois casa, sou templo
Se sois rua, sou abrigo
Se sois semente, sou a terra fértil
Se sois chão, sou o céu infinito
Se sois a claridade do dia, sou o frio da noite
Se sois movimento, sou repouso
Se sois repouso, sou a ação
Eu tenho a qualidade de reerguer o que está caído.
Por minha influência aglutinam-se as forças, trago de volta à vida quando se está à beira da morte.
Sou o influxo à destreza, ao aprimoramento, à excelência, mas não estipulo nenhuma meta nem recompensa. Apenas atraio, irradio minhas perfeições.
Quando me tocais, sentis que sou feita dos elementos da natureza.
Se abris vossos olhos, sou invisível.
Se me procurais nas formas, sou além de toda forma.
Se abandonais a forma e me procurais na vacuidade, apareço-vos como uma excelsa divindade.
Eu sou a beleza da forma.
A procura inatingível dos sonhadores e dos amantes.
Sou a transparência ofuscante da verdade.
Sou o amor: a mais perigosa, desconhecida e incompreendida potência humana.
terça-feira, 7 de julho de 2020
Encontro com um velho sábio
Eu conheci um velho sábio.
Um velho sábio eu conheci.
Um velho sábio não me falou de silêncio nem de som.
Mas do intervalo.
Um velho sábio ouvia o tempo, o ritmo, a vida.
A seu lado fui criança e adulto.
Aos seus olhos, nascimento e morte.
A seu lado, o prazer e a gravidade.
Em seus olhos vi o mundo.
Um velho sábio eu vi.
Eu vi um velho sábio.
Um velho sábio me lembrou do meu amor pelo saber, pelo domínio das artes.
A vida tem sua métrica, seus ritmos...
No intervalo pude escutar o galo, o pássaro e a enxada do homem ao longe. A sinfonia das coisas.
E o vento soprava.
E o sol cálido da manhã, o sol quente do meio dia, o sol fresco do fim da tarde. Variações em torno da pele.
A passagem do tempo.
O velho sábio mal respira. Não se nota. Mal se move. Ele olha e a respiração me vem.
O velho sábio está além da passagem do tempo.
O conhecimento íntimo das coisas. Uma intuição mística, uma intuição científica... Não sabemos de onde vem, nem quando, nem como... chega a nos angustiar...
No meio de nossa conversa ele me disse que tinha um grande baú em sua casa, com todos os seus escritos guardados.
Mas tudo passa como o vento. Ele me diz.
Preciso ler. Pensei. Apesar do risco de não mais conseguir escrever. Uma simples formalidade.
Não preciso ler. O velho sábio é a completude de todos os textos inacabados. Para que ler o passado, o morto, se tenho aqui diante de meus olhos o presente vivo?
Finalmente encontrei alguém que era a feição bela e verdadeira de seus pensamentos. Por toda parte encontrei pensamentos belos desencontrados da vida de seus autores. Agora não. Um homem era a expressão não só de seu pensamento mas que o ultrapassou.
A seu lado adormeci e sonhei.
Sonhei minhas vidas inacabadas.
O amor pela escola em minha província natal. Estudar, estudar, aprender, conhecer.
Minha curiosidade pelo segredo das coisas. Aprimorar meus talentos. Cultivo das artes, despertar do dom.
As escolas me deram caminhos. Nas áreas do saber, caminhei, caminhei. Por anos a fio.
Quando cheguei a algum lugar vi que era lugar nenhum. Fiquei perdido entre os saberes sem chegar ao saber.
Jamais me deparei com a chave de compreensão íntima de que a matemática não é só matemática.
O velho me fez ver que a toda a natureza é matemática.
O jogo, a dança, a música, a enxada, o galo, o pássaro. O intervalo.
O céu, a estrela, o sapo, o frio, o sono. O intervalo.
O medo, o pai, a mãe, o gozo, a lentidão.
Derivadas e integrais.
Integral. Todas as somas. Num átimo, o elã.
Uma intuição da vida. O velho destelhou a casa de meu pensamento simplório.
Celestiou-me com as coisas simples a minha volta.
Nascemos para a excelência. Seja em uma arte, seja em todas.
Nascemos para o amor. Quer pelas multidões, como na política ou na história, quer por uma pequena família.
Relação, expressão, comunicar-se. A matemática das coisas também está nas palavras e seus intervalos.
O encanto, a magia, a arte de falar para ver além do óbvio. Sentir a matéria.
Ora! Como sentir a matéria?
Sim. A palavra preenche o vazio entre os átomos. O amor, o vazio das tristezas. O poema, o corpo.
Me empenho em aprender. Não desisto.
Mas saber o quê?
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender...
O velho contém em si todas as áreas do conhecimento.
Um velho interdisciplinar.
Ele me riu da definição que lhe dei.
Por que estudei tanto?
Desde jovem senti o lapso entre o não saber e o saber. O domínio de uma arte é uma jornada, a travessia de uma ponte de um ser limitado a um ser ilimitado.
Por onde me perdi?
Pelo lapso entre a submissão à arrogância escolar e a coragem de ver.
A escola, e depois as escolas, me deram visões compartimentadas do saber.
Minha era moderna tecno-científica produziu a pobreza e a riqueza da especialização.
E o conhecimento final (temporário) perdia-se dos princípios unificadores.
E na escola, e nas escolas, havia uma autoridade dizendo: excelente! Nota 10! Chegou ao final. E eu acreditava. Quando na verdade aquilo poderia ser um bom começo.
O maior pecado de um mestre é aprovar um aprendiz. Como se houvesse uma linha de chegada.
A maior virtude é mostrar o tanto de estradas a percorrer. Mostrar as novas linhas de partida.
A busca de reconhecimento é uma linha paralela que compete com o empenho pessoal. Quando nos damos conta estamos buscando falsos alvos. Nos esquecemos do infinito.
A desejo de aprovação é uma triste senhora que tenta a todo custo submeter a curiosidade inocente, o desejo primordial. Deixamos de olhar pra fonte do desejo e seu mistério.
E a beleza? E o real? E o amor?
O que é a vida? O que é a história humana? O que fazer nesta vida? Onde chegar sem sair do lugar?
Saber parar. A calma do velho falou-me por si.
As notas azuis ou vermelhas não dizem nada aos fios brancos da barba do sábio.
Que caminhos terá feito o velho? Que caminhos terá abandonado?
Ele saiu para pegar seus escritos, de tanto que insisti.
Fiquei ali, diante da vastidão do lugar, morros e terra e céu e galinhas e os pequenos vermes brancos no chão, com os meus antigos escritos na bolsa, ansioso também para mostrar-lhe e quem sabe presenteá-lo.
Enquanto aguardava, no intervalo da solitude, lembrei-me de que, há muitos anos, trilhei aquela jornada da travessia. E pude rever toda a minha vida, inclusive as vidas possíveis que não tive, as artes cultivadas até então. E me lembrei de como no final da jornada e nos anos que se seguiram fui abandonando todas as áreas do saber e inventando meus próprios caminhos nas coisas simples e nos amores próximos. E como depois de tanto tempo acontecia esse encontro com o velho.
O velho sábio me fez ver tudo isso naqueles breves momentos que eu o aguardava.
Olhei para os textos escritos na minha velha bolsa.
Percebi o vento.
E já não havia mais nada que eu não quisesse ver.
Eu conheci um velho sábio.
Um velho sábio eu conheci.
sábado, 4 de julho de 2020
Pingue-pongue de emoções
Quando decidi que durante minha participação na Jornada eu
escreveria um livro, assumi um compromisso pessoal de relatar os processos que
estariam vivos em mim.
Por isso, lá nos primeiros textos que compõem essa coleção,
deixei claro que eu não iria fazer resumos das falas dos encontros, e que por
vezes traria para cá alguns temas, de certa forma, independentes.
De todo modo, tive a certeza de que estaríamos sempre em
diálogo. Mesmo que eu não participasse de um encontro, e nem o assistisse
depois, algo invisível estaria nos ligando. E os temas estariam relacionados.
Mesmo que eu não explicitasse as correlações, mesmo que eu
mesmo nem soubesse conscientemente essas relações, algo oculto estaria sendo
lido, afinal você que está lendo é autor/autora do que você está pensando
agora. Então tem sua própria criação acontecendo junto.
E um dos processos que estão muito vivos aqui em mim é minha
relação com o pingue-pongue.
Aqui na Vila XI tem uma mesa e temos jogado com frequência.
Uma frequência crescente nos últimos dias.
Meus amigos aqui são bastante competitivos no jogo. É uma
batalha muito feroz. Nos envolvemos intensamente nas partidas de 21. Às vezes
jogamos 3 sets. E depois ficam aquelas provocações e brincadeiras gostosas de
quem ganhou e quem perdeu. Essas coisas muito humanas e que a gente vai aproveitando
pra olhar também pras emoções que nos envolvem.
Como é perder? Como é ganhar? Como é errar?
Como é o medo de perder? Como é o medo de ganhar e estremecer
a amizade?
Uma das coisas fascinantes do jogo é que ele se alimenta na
relação.
Quando um joga bem, estimula o outro a jogar bem também.
E aqui um de nós começou inclusive a ver uns vídeos e a
estudar. E tem treinado cortadas e o jogo de todos foi ficando melhor.
Nos últimos dias começamos a conversar e filosofar um pouco
sobre o jogo.
Existe uma dimensão meditativa do jogo. Exige muita
concentração. Uma distração e você erra a raquetada. Bola fora, bola na rede.
Portanto, concentração é um requisito. A gente tem pensado
na força dos orientais nesse esporte.
Uma concentração de base para que o movimento aconteça para além
do pensar. O corpo, o braço, a mão, a raquete como extensão do corpo, e a bolinha
com a força, direção e efeito, que vem do oponente... não dá tempo de pensar
tudo isso. Se pensar, erra. Pensar é distração. É um jogo que acontece não no pensamento,
mas num fluxo de movimento e integração.
Emoção. Corpo. Presença. Intensidade. Concentração.
Esse tem sido o meu ciclo virtuoso no jogo. Eu sinto muito
medo. Minhas pernas tremem. Minha mão treme um pouco também. Seja no jogo, seja
quando tenho de pegar a bolinha que cai no chão. Respiro. Não acalma
totalmente. Fica o medo. E eu estou afirmando o medo para mim. Reconhecendo
ele. Dando risada para ele. Jogando com ele.
E quando eu começo a ganhar ou faço jogadas incríveis ou as
famosas “casquinhas” de pura sorte (ou às vezes admirando a jogada do outro) me
vem vontade de rir. E estou rindo, expressando alegria. Deixei de lado aquele
jogo de: melhor não rir para não mostrar ao adversário e vai que ele ganha e
depois seu riso fica no chão. Estou aceitando, acolhendo e expressando o riso e
o medo. Hoje, numa das partidas, senti vontade de chorar. Não entendi o motivo.
Achei que meu amigo poderia estar triste, sei lá. Comecei a achar que o jogo
poderia ser um processo de cura, mas não aprofundei. Não dá tempo. Deixei o
choro vir. Ele não veio mas senti a emoção que estava nele. Continuei assim jogando,
assim sentindo. Jogo da integração.
Uma integração com os elementos do jogo, com sua geometria e
com o próprio amigo que está lá do outro lado e como tudo isso que há do lado de cá, nesse infinito
particular.
O pingue-pongue ensina muita coisa. Uma delas é sobre impermanência. Ora a gente tá naquela alegria, acertando as bolas. De repente começa a errar. Ora ganhando, ora perdendo.
A dimensão do mistério começou a se mostrar para mim.
Mistério 1. Numa das partidas tivemos uns rallys tão
intensos e tão disputados que foi uma alegria o simples fato de jogar. Perdi a
partida mas saí absolutamente feliz do jogo. Puxa, valeu! Dissemos um para o
outro. Fiquei assim perplexo comigo mesmo. Entrei no jogo para ganhar. Lutamos
um contra o outro com nosso melhor. Perdi. Mas foi um jogo tão legal que tudo
bem ter perdido. Isso foi uma grande novidade para mim. Toda vez que eu começava
um jogo e dizia: posso perder que tudo bem. Isso era uma frase da boca para
fora. Mas... aconteceu! Foi uma experiência que trouxe esse prazer. Esse, não
vou dizer desapego, mas essa outra perspectiva do jogar.
Mistério 2. Comecei uma partida e tive a percepção de que a
força do meu adversário estava vindo para mim. Isso é muito subjetivo, mas foi
assim que senti. Há um mimetismo. A gente começa a jogar um pouco parecido com
o outro. Senti como se quando entrássemos em jogo houvesse essa troca de forças,
esse partilhar, na verdade. Estamos falando de algo que tem sido dito na
jornada, não é mesmo?
Mistério 3. Hora da meditação. Sentei para meditar. Meditação
silenciosa. De repente minha mente começou a pensar em pingue-pongue. Eu
comecei a achar graça disso. Mas vi que a coisa estava séria. Era como se meu
cérebro estivesse aproveitando o descanso mental para “estudar” o jogo. Qual
ângulo a raquete deve estar para rebater a bola que vem dessa direção, nessa
angulação, com essa intensidade? Eu não pensava essas coisas assim mas vinha
como um desenho na minha mente.
Loucura! Além de achar engraçado o fenômeno, tentei “cortar”
o pensamento trazendo seriedade a meditação: puxa, o que estou buscando aqui?
Eficácia, vitória? Estou meditando para me tornar um bom jogador, ou para
encontrar paz? Estou entrando nessa onda midfullness, medite para obter
sucesso?
Tive uma pequena crise com essa história, mas resolvi
relaxar. Observar. A mente silenciou. Mas fiquei e ainda estou atento ao
processo.
Mais tarde fomos jogar. Comecei a ganhar. Ganhei uma. Ganhei
outra. Não perdi mais. Meu Deus! O que está acontecendo? Quando vi meus amigos
jogando entre si, cortadas fulminantes, jogo forte, eu olhava de fora e pensava,
nossa! Não tenho como ganhar desses caras. Aí quando comecei a jogar, comecei a
ganhar.
Fui percebendo essa força além do pensamento. E falei: isso
vai virar texto para a jornada.
Tem tudo a ver.
A gente não antecipa o futuro. Não sabe como a gente vai atuar quando entrar no "jogo". A gente vive o presente, a
situação como ela se apresenta. E se a gente está inteiro naquilo, com alegria,
com amor, olhando pras emoções a gente alcança um estado muito além do que a
gente imagina sobre nós mesmos. Na verdade, nem posso dizer "eu mesmo". No ato, ultrapassamos o "eu mesmo". Somos algo mais. Eu ganhei.
Mas terá sido eu mesmo? Onde está o eu? Que é o corpo? Que é a força atuando ali no jogo?
Filosofia sobre pingue-pongue. É o texto de hoje. Pingue-pongue
zen.
Mistério 4. Bom, esse quarto mistério eu não quero contar
ainda. É um pequeno segredo. Parece que descobri uma arma secreta. Talvez eu conte
um dia. Deixa eu testar mais um pouquinho para ver seus efeitos.
E que eu me lembre da impermanência. Amanhã é dia de ganhar e perder. E tudo bem.
Agradeço pela partida. Quero dizer, pela leitura.
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Santidade cidadã
Fazendo algumas leituras nesses dias, encontrei umas coisas que ajudam a não sucumbir quando tudo parece ruir. Na interpretação do arcano O Carro, lá pelas tantas uma frase me tocou:
"Quando me encarno em você, os fracassos se convertem em novos pontos de partida, e dez mil razões para renunciar não valem nada diante de uma única razão para continuar."
Estamos falando em mergulhos profundos. E é bom entregar-se de todo sabendo de uma luz capaz de guiar.
É um entregar-se sem se entregar.
Jodorowski diz que depois de muitos caminhos percebeu que quem quer alcançar a sabedoria devia trabalhar na solidão.
"A semente, para germinar, precisa da escuridão das profundezas da terra, da mesma maneira que o feto precisa da escuridão do ventre materno e que a alma, segundo San Juan de la Cruz em "A subida do monte Carmelo", deve, para chegar à união com Deus, passar pela noite escura da fé, pela nudez e pela purgação:
En la noche dichosa,
en secreto, que nadie me veía,
ni yo miraba otra cosa,
sin otra luz ni guía
sino la que en el corazón ardía.
"Na noite ditosa,
em segredo, que ninguém me via,
nem eu olhava outra coisa,
sem outra luz ou guia
senão aquela que o coração ardia".
Que luz é essa?
Os budistas trazem uma teoria de consciência em três camadas:
1- A psique
É a camada mais grosseira e superficial de consciência. Compreende os cinco sentidos físicos, juntamente com os fenômenos mentais conscientes e inconscientes – pensamentos, sentimentos, sensações, e assim por diante. Esta é a nossa mente comum e condicionada. A psique emana de uma camada intermediária mais profunda chamada consciência substrato.
2- A consciência substrato
É o fluxo mental sutil contendo atitudes, hábitos e tendências latentes que remontam a vidas anteriores.
3- A consciência primordial
É a camada mais profunda e mais fundamental. Ela inclui a psique e a consciência substrato, é um nível absoluto de sabedoria pura, onde o “interior” (mente) e “exterior” (mundo fenomênico) são não duais. A realização da consciência primordial é a porta de entrada para a iluminação completa.
A consciência primordial é a luz na noite escura de João da Cruz.
Jodorowski diz que a consciência não é o ato de tomar consciência de alguma coisa.
"A finalidade da Consciência é vir a ser ela mesma para se oferecer em seguida à divindade.
Não se pode tê-la completamente: é uma semente que se desenvolve por mutações sucessivas."
Então descreve os estágios a serem percorridos:
1- Consciência Animal
Vivo para satisfazer as necessidades materiais e sexuais. Não domino meus instintos, ignoro o respeito pelos outros. Sou agressivo como defesa, por medo de perder.
2- Consciência Infantil
Não aceito a velhice ou a morte, vivo de maneira superficial. Me recuso a meditar para me conhecer, coleciono objetos inúteis e distrações, sem nenhum senso de responsabilidade.
3- Consciência Romântica
Não domino os sentimentos, que me invadem. Eterno adolescente, apaixonar-me é o caminho da vida. Crio um ideal amoroso de conto de fadas. Confundo o ser pelo parecer. Depois das desilusões é possível que chegue a fase adulta.
4- Consciência Adulta
Pela primeira vez, o outro existe.Em vez de exigir devo investir. Há o risco de ganhar sede pelo poder, como fazem os "exploradores, tiranos, industriais sem escrúpulos, escroques de toda sorte. Egoísmo que tem sua antítese: pessoas que, por se sentirem nobres, passam o tempo a ajudar os outros por preguiça de ajudarem a si mesmas. Se isso se torna, na verdade, uma ajuda para as pessoas, abre-se o nível da consciência social."
5- Consciência Social
Luto pela felicidade de todos os seres humanos, mas também pela saúde das plantas, dos animais, do planeta. Mais tarde se abre à Consciência cósmica.
6- Consciência Cósmica
Pertencendo a um mundo infinito e eterno me abro a uma mutação constante. Descarto os sistemas vigentes e vou além dos limites geracionais preparando o terreno para o advento do novo ser.
7- Consciência Divina
"No centro obscuro do inconsciente, há um ponto brilhante de lucidez total, aliado poderoso que, se bem utilizado, se manifesta como deus interior ou, se mal utilizado, como demônio interior. Esse nível é aquele que conhecem os gênios, os profetas e os magos."
A consciência divina é a luz na noite escura de João da Cruz.
Esses são alguns mapas.
Voltamos-nos para nossas paisagens e o que vemos?
Defendemos nossas limitações, com as quais nos identificamos.
Rejeitamos a fé de que possuímos as forças para nos curar.
Trazemos o coração cheio de rancor, embora dizemos que ele está vazio.
Perdemos a fé em nossa criatividade e nutrimos vergonha por nossos desejos.
Atrofiamos os movimentos de nosso corpo, enrijecido com a moral.
Aceitamos a culpa como ação de uma justiça soberana.
Justificamos nossos erros sem tentar mudar.
E desejamos mudar, amar, criar, mas estacionamos no primeiro impulso.
Queremos nos vingar dos que nos fazem mal.
Nos jogamos num sexo possessivo.
Buscamos drogas ou fama e giramos em torno de nós mesmos.
Fincamos raízes na árvores da crítica e não enxergamos o valor dos outros.
Não reconhecemos que habitamos um cosmos e temos um limite muito estreito de moradia.
Aceitamos que somos uma parte, mas não que somos o todo.
E conclui: "Quanto maior é a separação dos outros, menor é a consciência. Vítima de ideias abusivas, o consulente nega sua capacidade de realizar milagres (entendemos aqui "realizar" como o fato de se dar conta de que a realidade não se comporta segundo um modelo preestabelecido, mas de uma maneira incompreensível para uma mentalidade prisioneira de um sistema lógico) e, desamparado, pensa viver sozinho, sem desconfiar que o universo - "o inconsciente" - é seu aliado."
Daí ele propõe, no seio da atividade de ler cartas para um consulente, uma atitude muito amorosa.
"Enquanto a pessoa embaralha as cartas, o leitor fica imóvel, serenamente. A voz que ele emprega não deve ressoar no crânio, mas no peito, uma voz suave, a voz que usamos para falar com uma criança, vinda do coração, não do intelecto. É um tom de bondade, muito difícil de obter ... Para chegar aí, o tarólogo deve se aproximar de um estado de santidade..."
Pode soar estranho se falar em santidade aqui.
Mas ele diz:
"Não falo do aspecto exterior, estereotipado de um santo de almanaque, mas de um sentimento verdadeiro, poético e sublime. Diversas religiões dominaram o conceito de santidade, dando-lhe significados que o limitam. Entre esses limites, existe a negação da sexualidade, da reprodução, da família, conjugada à exaltação do martírio, à rejeição do mundo real por um além mítico. Fala-se de santos católicos, muçulmanos, budistas, judaicos (os justos) etc., mas não se concebe uma santidade cidadã."
Então vejo aqui um texto muito inspirador. Faz acender em nós algo que podemos ser.
Santidade cidadã
"O cidadão santo pode amar um ser do sexo oposto, ter filhos, formar uma família, levar uma vida sadia, não pertencer a seitas, não adotar doutrinas ditadas por um deus com figura e nome, e praticar uma moral que não seja fundada sobre as interdições mas sobre o conceito de atos úteis para a humanidade.
O leitor do Tarot, se não é um santo, deve imitar a santidade.
Em algumas culturas orientais, papagaios, macacos e cães são descritos como animais sagrados que representam o ego individual, pois são capazes de imitar seus donos.
Como aprender a imitar um santo? A santidade não é inata, nem tampouco é um dom vindo do exterior, mas é obtida pouco a pouco. Para ser forte nas grandes coisas, é preciso sê-lo nas pequenas, no cotidiano, dando sem esperar nada em troca, nem agradecimento, nem dinheiro, nem admiração, nem submissão ...
Sem nos compararmos, sem rivalizarmos, aceitando com humildade os valores dos outros. Não colocando nosso ponto de vista como unidade de medida do mundo, aceitando de bom grado as diferenças.
Aprendendo, entre muitas outras coisas, a:
concentrar nossa atenção, controlar durante a leitura nosso pensamento, nosso desejo, nossas emoções;
vencer nossa preguiça, terminar sempre aquilo que começamos, não ficarmos nervosos se o consulente recusa a tomada de Consciência, fazer o melhor possível naquilo que estamos fazendo;
eliminar vícios e manias,
realizar atos de generosidade sem testemunhas,
purificar o espírito eliminando interesses supérfluos sem cair em uma autocrítica excessiva nem na autoindulgência,
agradecer conscientemente cada dádiva,
meditar, a rezar para o deus interior,
contemplar, conversar sozinho sobre temas profundos,
desenvolver os sentidos,
parar de ficar se definindo a si mesmo,
saber escutar,
não mentir para os outros e nem para si mesmo, não nos comprazermos com a dor ou com a angústia,
ajudar o próximo sem torná-lo dependente,
não querermos mais ser imitados,
e empregar o tempo de maneira lúcida,
fazer planos de trabalho e a realizá-los,
não ocupar muito espaço,
não dilapidar,
não fazer barulhos inúteis,
não comer alimentos insalubres só pelo próprio prazer,
responder da maneira mais honesta possível cada pergunta,
vencer o medo da existência e da morte,
não viver apenas no aqui e no agora mas também no algures, no além e no depois,
não abandonar jamais as crianças e velar por elas desde a infância,
não ser dono de nada nem de ninguém,
dividir igualmente,
não nos enfeitarmos com roupas e objetos por vaidade,
não enganar,
dormir o estritamente necessário,
não seguir as modas,
não nos prostituir,
respeitar escrupulosamente todo contrato assinado e toda promessa feita,
ser pontual,
não invejar o sucesso alheio,
falar somente o que for preciso,
não pensar nos benefícios de uma obra, mas a amar a obra por si mesma,
jamais ameaçar ou maldizer,
nos colocar no lugar do outro,
fazer de cada instante um mestre,
desejar e admitir que os filhos nos superem,
ensinar os consulentes a aprenderem por si mesmos,
vencer o orgulho transformando-o em dignidade, a cólera em criatividade, a avareza em sabedoria, a inveja em admiração pela beleza, o ódio em generosidade, a falta de fé em amor universal;
não aplaudir a si mesmo e nem se insultar,
não se queixar,
não dar ordens por prazer de nos vermos sendo obedecidos,
não contrair dívidas,
jamais falar mal de alguém,
não conservar objetos inúteis e, sobretudo,
jamais agir por interesse próprio, mas em nome do deus interior.
Rejeitamos a fé de que possuímos as forças para nos curar.
Trazemos o coração cheio de rancor, embora dizemos que ele está vazio.
Perdemos a fé em nossa criatividade e nutrimos vergonha por nossos desejos.
Atrofiamos os movimentos de nosso corpo, enrijecido com a moral.
Aceitamos a culpa como ação de uma justiça soberana.
Justificamos nossos erros sem tentar mudar.
E desejamos mudar, amar, criar, mas estacionamos no primeiro impulso.
Queremos nos vingar dos que nos fazem mal.
Nos jogamos num sexo possessivo.
Buscamos drogas ou fama e giramos em torno de nós mesmos.
Fincamos raízes na árvores da crítica e não enxergamos o valor dos outros.
Não reconhecemos que habitamos um cosmos e temos um limite muito estreito de moradia.
Aceitamos que somos uma parte, mas não que somos o todo.
E conclui: "Quanto maior é a separação dos outros, menor é a consciência. Vítima de ideias abusivas, o consulente nega sua capacidade de realizar milagres (entendemos aqui "realizar" como o fato de se dar conta de que a realidade não se comporta segundo um modelo preestabelecido, mas de uma maneira incompreensível para uma mentalidade prisioneira de um sistema lógico) e, desamparado, pensa viver sozinho, sem desconfiar que o universo - "o inconsciente" - é seu aliado."
Daí ele propõe, no seio da atividade de ler cartas para um consulente, uma atitude muito amorosa.
"Enquanto a pessoa embaralha as cartas, o leitor fica imóvel, serenamente. A voz que ele emprega não deve ressoar no crânio, mas no peito, uma voz suave, a voz que usamos para falar com uma criança, vinda do coração, não do intelecto. É um tom de bondade, muito difícil de obter ... Para chegar aí, o tarólogo deve se aproximar de um estado de santidade..."
Pode soar estranho se falar em santidade aqui.
Mas ele diz:
"Não falo do aspecto exterior, estereotipado de um santo de almanaque, mas de um sentimento verdadeiro, poético e sublime. Diversas religiões dominaram o conceito de santidade, dando-lhe significados que o limitam. Entre esses limites, existe a negação da sexualidade, da reprodução, da família, conjugada à exaltação do martírio, à rejeição do mundo real por um além mítico. Fala-se de santos católicos, muçulmanos, budistas, judaicos (os justos) etc., mas não se concebe uma santidade cidadã."
Então vejo aqui um texto muito inspirador. Faz acender em nós algo que podemos ser.
Santidade cidadã
"O cidadão santo pode amar um ser do sexo oposto, ter filhos, formar uma família, levar uma vida sadia, não pertencer a seitas, não adotar doutrinas ditadas por um deus com figura e nome, e praticar uma moral que não seja fundada sobre as interdições mas sobre o conceito de atos úteis para a humanidade.
O leitor do Tarot, se não é um santo, deve imitar a santidade.
Em algumas culturas orientais, papagaios, macacos e cães são descritos como animais sagrados que representam o ego individual, pois são capazes de imitar seus donos.
Como aprender a imitar um santo? A santidade não é inata, nem tampouco é um dom vindo do exterior, mas é obtida pouco a pouco. Para ser forte nas grandes coisas, é preciso sê-lo nas pequenas, no cotidiano, dando sem esperar nada em troca, nem agradecimento, nem dinheiro, nem admiração, nem submissão ...
Sem nos compararmos, sem rivalizarmos, aceitando com humildade os valores dos outros. Não colocando nosso ponto de vista como unidade de medida do mundo, aceitando de bom grado as diferenças.
Aprendendo, entre muitas outras coisas, a:
concentrar nossa atenção, controlar durante a leitura nosso pensamento, nosso desejo, nossas emoções;
vencer nossa preguiça, terminar sempre aquilo que começamos, não ficarmos nervosos se o consulente recusa a tomada de Consciência, fazer o melhor possível naquilo que estamos fazendo;
eliminar vícios e manias,
realizar atos de generosidade sem testemunhas,
purificar o espírito eliminando interesses supérfluos sem cair em uma autocrítica excessiva nem na autoindulgência,
agradecer conscientemente cada dádiva,
meditar, a rezar para o deus interior,
contemplar, conversar sozinho sobre temas profundos,
desenvolver os sentidos,
parar de ficar se definindo a si mesmo,
saber escutar,
não mentir para os outros e nem para si mesmo, não nos comprazermos com a dor ou com a angústia,
ajudar o próximo sem torná-lo dependente,
não querermos mais ser imitados,
e empregar o tempo de maneira lúcida,
fazer planos de trabalho e a realizá-los,
não ocupar muito espaço,
não dilapidar,
não fazer barulhos inúteis,
não comer alimentos insalubres só pelo próprio prazer,
responder da maneira mais honesta possível cada pergunta,
vencer o medo da existência e da morte,
não viver apenas no aqui e no agora mas também no algures, no além e no depois,
não abandonar jamais as crianças e velar por elas desde a infância,
não ser dono de nada nem de ninguém,
dividir igualmente,
não nos enfeitarmos com roupas e objetos por vaidade,
não enganar,
dormir o estritamente necessário,
não seguir as modas,
não nos prostituir,
respeitar escrupulosamente todo contrato assinado e toda promessa feita,
ser pontual,
não invejar o sucesso alheio,
falar somente o que for preciso,
não pensar nos benefícios de uma obra, mas a amar a obra por si mesma,
jamais ameaçar ou maldizer,
nos colocar no lugar do outro,
fazer de cada instante um mestre,
desejar e admitir que os filhos nos superem,
ensinar os consulentes a aprenderem por si mesmos,
vencer o orgulho transformando-o em dignidade, a cólera em criatividade, a avareza em sabedoria, a inveja em admiração pela beleza, o ódio em generosidade, a falta de fé em amor universal;
não aplaudir a si mesmo e nem se insultar,
não se queixar,
não dar ordens por prazer de nos vermos sendo obedecidos,
não contrair dívidas,
jamais falar mal de alguém,
não conservar objetos inúteis e, sobretudo,
jamais agir por interesse próprio, mas em nome do deus interior.
terça-feira, 30 de junho de 2020
Geração coca-cola delirante
É tudo um sonho.
Espelho, espelho meu...
Existe alguém, no mundo, mais bonito do que eu?
Olhei no espelho e ele me falou:
Sou forte. Para me enfrentar é preciso ser valente.
Eu sou prepotente, arrogante e tenho orgulho, valor. Superior a todos a minha volta gosto de olhar as fraquezas dos outros
para sustentar a minha auto legitimação.
É assim que eu sou.
Existe o certo e o errado. Eu sei o que é certo. Minhas opiniões são absolutas.
O conhecimento é importante para
mim. Sei que sei. E o que não sei, sei que posso saber. Por isso estudo tanto.
Se eu não souber não tenho valor. Não reconheço o valor de quem não sabe. Quem não
sabe, precisa aprender.
Quero saber, quero possuir, quero
ser. Mais, mais, mais. Sempre mais.
Sou crítico. Falo uma coisa e vivo outra. Tenho visão estreita, não me importo. Vejo
com facilidade o que me deixa em meu lugar cômodo. Mas não enxergo o chão da
minha casa.
Não sinto culpa. Culpo a todos os
que não seguem minhas palavras.
Não sou eu que engraxo meus
sapatos.
Falo em aberturas e não vejo minhas
fechaduras.
Não vejo outras culturas e falo em
diversidade. Reduzo tudo a mim.
Falo de amor e sou indelicado.
Sou contra a delicadeza, a ternura,
a bondade, acho isso tudo conversa de gente fraca.
Minha regra oculta é ferir. Meu
ódio sutil se destila ao tempo da propaganda de estar bem.
Sustento a minha doença falando em
saúde. Proponho cura e afundo em sofrimento.
Sou fruto de uma propaganda que
faço de mim mesmo.
Vejo o desleixo do outro, mas não
vejo o meu próprio desleixo, nem o descaso, nem o descuido.
Escudo.
Sustento relações de opressão,
falando em liberdade
Critico os
gurus porque sou o maior dos gurus.
O que critico está em mim. Critico
as religiões e sou cheio de moralidades.
O certo e o errado são um peso para
mim. Nas coisas simples.
No palco sou herói da liberdade, em
casa sou patrão.
Mais um.
Sou a falsa espiritualidade.
Cultivo a indelicadeza, uso as
palavras do outro contra ele. Crio o meu próprio jogo, onde a grande câmera sou
eu mesmo, o Grande Irmão está em meus olhos.
Tento controlar tudo e todos. E se
falo em confiança é para que confiem em mim e entreguem seus segredos para,
quando for a hora, usar como armas contra eles. E assim vivo por cima.
Não consigo estar por baixo. Falo que
não há alto nem baixo, mas assim falando busco o alto. Desprezo o baixo.
Excluo. E sustento o amor restrito
aos seletos que jogam o jogo e permanecem na família.
Minto.
Omito, o que é a versão polida da
mentira.
Sustento tanto esforço falando em abrir
mão de esforço.
Sou a contradição em pessoa.
Aprendi a escutar. Desaprendi a
escutar.
Falo sozinho e acho certo!
Socorro. Um pequeno vírus em mim
pede socorro.
Acendo as luzes mas pressinto os
fantasmas escondidos atrás do armário.
Tormenta.
Tenho medo e falo da falta de medo.
Para ver se despisto o medo. Inutilmente.
Sou um buscador. Não me contento.
Continuo buscando. Esperança é o lema com que me engano.
Não vejo nada nem ninguém acima de
mim.
Destronei Deus e me entronizei no
altar da consciência.
Humildade é palavra que risquei
aqui de casa. Só entra pela porta dos fundos com aqueles que aceitam me servir.
Fiquei na infância filosófica da
crítica prematura.
Não leio nenhuma escritura sagrada.
Creio em mim todo poderoso. Criador
do céu e da terra.
Me vejo livre. Mas sou do tamanho
da tela na qual apareço.
Me orgulho de não ter preço. Mas
pago uma alta conta para sustentar minha empáfia.
Sou coca cola. Sempre coca cola.
domingo, 28 de junho de 2020
Sobre a tristeza
Entristeci-me ao ser lembrado de que há gente com mais facilidades de dizer não.
Lembrei-me dos privilégios sociais que usufruo.
As situações que não precisei passar, e que a maioria das pessoas passa todos os dias.
Nesses meses de jornada muita coisa fui olhando aqui.
Tem uma coisa aberta ainda. Uma "ferida acesa" que trago no coração.
"Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão."
Vejo essa condição social a minha volta e me faço o seguinte exercício: será que eu conseguiria trocar de posição social?
Servir ao doutor? Servir a patroa? Humilhar-me para favorecê-los em seus luxos? Ter de oferecer meu corpo além dos limites de meu consentimento?
"Você morreria de indignação", disse minha companheira.
Será mesmo impossível? Será mesmo que estarei sempre preso ao lugar social, determinado pela cultura e pela história de onde nasci?
Olhei pra isso que chamamos vida social. Sentei no ponto de ônibus. E ali fiquei. E ao longo do dia foram passando pessoas. Homens, mulheres, jovens, idosos... E eu ali sendo visto por cada uma delas. Como me tratam?
Senhor.
Não só pela idade. Mas pelo status que aparece ao nosso imaginário coletivo.
Marilena Chauí diz com Espinosa que não somos uma democracia justamente pela cultura da distinção que marca as aristocracias.
Não tenho como disfarçar. Está no gesto, no jeito de sentar, na angulação do olhar, na roupa, no corte de cabelo, e, se eu abrir a boca então! Está no tom de voz, na melodia da fala, e as palavras denunciam uma escolaridade... doutor, professor, senhor. Essas pessoas não me veem como um igual. Com admiração, desprezo, inveja ou ódio, sou o outro.
Quem são?
Na rua, com o pessoal que mora na rua, gosto de estar de chinelo. Um dia um moço me disse: não adianta disfarçar, irmão. Você vai ser sempre diferente, vai ser sempre o professor. Entendi o recado. Continuei usando chinelo porque gosto. Mas não tento disfarçar. E mesmo na noite que fui dormir na rua pra conhecer seu cotidiano, pude ouvir: "não vai ser igual. Você vai saber como é dormir na rua. Mas não vai saber nunca como é dormir na rua sem ter mesmo pra onde ir, machucado pelo mundo que você teve de deixar pra trás, abatido pela depressão."
Quem sou?
Desde pequeno me sensibilizo com esse recorte social.
"Se tremes de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros."
Por séculos, pensamentos e ações revolucionárias olharam para isso. Não sou o primeiro.
Sofri de TRH (transtorno robin hoodiano)... aquela vontade de distribuir a riqueza... que nos tempos atuais significa entrar no sistema, ter uma profissão legal e fazer algo com impacto, seja na cultura, seja na economia, seja no pensamento: "I have a dream today!"
Meus heróis não morreram de overdose. Morreram assassinados.
Como pode um ser humano mandar no outro?
Lembro do dia que entrei empolgado num mosteiro franciscano para ver de perto a vida dos seguidores de um homem inspirador que abraçou a pobreza para encontrar liberdade. Quando cheguei vi um homem varrendo o chão. Mas ele não era um irmão da Ordem. Até que um irmão veio para me receber e apresentar o mosteiro. Eu perguntei: e aquele moço? É funcionário. Mas porque vocês não varrem? Se eu tivesse que varrer eu não poderia estar aqui conversando com você. Fui embora. Não engoli a justificativa que me fez ver como a Ordem compactuou com a escravidão e o patriarcado em meu país. Não é à toa que se chama Ordem.
Tudo isso está no meu caminho de vida.
Só que agora na jornada tudo isso ganha uma nova perspectiva.
E estamos justamente entrando no tema Trabalho.
Como ser útil e fazer o que gosto? Essa a pergunta dos coachings e aqueles que falam sobre propósito.
Mas vem a Ana e nos convida a abrir mão de ser útil.
Fiquei até sem pergunta.
E abrir mão dos conceitos. E tudo isso que escrevi até agora é um olhar conceitual sobre realidade.
Como se eu tivesse armado todas as peças do jogo de xadrez, me preparado para jogar e a pessoa vem e diz: não, vamos jogar pingue-pongue. Então, não só cai o Rei, mas todas as peças são derrubadas ao chão.
Ela nos convidou a abrir mão das finalidades.
Ter um trabalho para mudar algo? Não! Abra mão das finalidades. E sem medo disso te deixar indiferente. Pelo contrário. Abrir mão dos conceitos, finalidades e até mesmo do sentido de vida vai te abrir caminho para se relacionar.
E o que fazer?
Nada. Observa o sentir. Da pele para dentro.
Meu sentimento é de tristeza quando vejo uma pessoa trabalhando e calando seu cansaço pelo medo do patrão. Sua voz silenciada.
Triste.
Triste. Não vivi os abusos que as mulheres sofreram. E entristeço pelas suas dores e por fazer parte desse sistema.
Triste. A violência racial. O preconceito me entristece. A violência estatal contra os pobres. O silenciamento brutal. O assassinato das crianças negras e pobres.
Triste. O mundo do trabalho ainda é anti-vida.
Triste. "Não me resigno, a fome será vencida."
Triste de ver armas, guerras e soldados treinando em escolas militares.
Tristeza.
Estou aqui te olhando.
Que não seja a tristeza burguesa, conceitual.
Mas a tristeza aqui dentro do corpo.
O que faço com essa tristeza?
Nada.
Hoje bati a enxada com força na terra.
Tinha música de capoeira ao fundo.
O professor de capoeira nos convidou a cuidar da terra.
Não fez nenhuma evocação. Mas não era óbvio que estavam conosco ali nossos ancestrais no terreno simbólico do trabalho na terra?
Tristeza. Bati com força na terra. Não pra tristeza passar. Bati. Cavei. Sonhei com o plantio numa terra cansada de tanto gado, e gado cansado de tanta escravidão.
Renée pediu para Jiddu falar sobre a teoria do big bang para seu livro sobre ciência e meditação. Ele disse: "Se meu filho ou meu irmão acaba de morrer não estou disposto a falar sobre big bang com você. Dê-me mais alguns dias, cara amiga, pois agora estou chorando, estou sofrendo, meu interesse é este, não aquele."
Tristeza. Fui lá na casa da Maria e do Zé e tomei café e pudemos conversar de igual pra igual.
Tristeza, fiz de suas palavras minha poesia.
Tristeza, de meus erros me trouxe até aqui,
Tristeza fonte de meu amor secreto.
Amiga, amigo, escuto toda essa nossa tristeza
Devolvo ao mundo atos de amizade.
"Pra onde eu vim não vou chorar.
Já não quero ir mais embora
Minha gente é essa agora
Se estou aqui, trouxe de lá
Um amor tão longe de mentiras
Quero a quem quiser me amar."
(clique aqui para ouvir musicado)
"Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação.
Um poeta satisfeito não satisfaz."
"O mais triste de um passarinho engaiolado é que ele se sente bem."
citações fora da ordem:
Chico
Mario
Jiddu
Ana
Che
Caetano
Gabriela
Martinho
Herbert
Milton
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Abuso sexual, medo do abandono e o despertar do amor
Onde a gente conseguiria ter uma boa conversa sobre um tema tão delicado como abuso sexual?
Que ambiente é esse capaz de nos deixar a vontade tanto para falar quanto para ouvir sobre as histórias reais de abuso?
Adultos falando de suas memórias. Os contextos, os personagens reais de suas infâncias. Um pai, um tio, um namorado da mãe, uma pessoa da família, uma pessoa de confiança...
A dor calada: "sinto que se eu contasse, meus pais não iriam dar conta."
A dor silenciada: "contei para minha mãe e ela disse: não fale para mais ninguém isso."
A dor do abandono: "meus pais estavam muito distantes e desatentos de mim."
A dor.
Anos e anos lidando com um evento que marca uma vida.
E cada uma, cada um, foi encontrando seus caminhos de cura, de superação, de transformação.
E aí surge a possibilidade da gente falar sobre isso. Não só conceitualmente, mas com as emoções que nos tocaram e nos tocam ainda hoje.
Uma conversa emocional. Uma possibilidade de seguir um processo curativo.
É isso que estamos vivendo, durante essa semana, na jornada. Uma jornada que nos leva a uma mudança em nosso emocionar.
Um processo difícil, forte, duro, delicado. Intenso. Mas ao mesmo tempo muito amoroso, libertador, transmutador e acolhedor graças a esse ambiente de escuta que não é só escuta... é um estar junto, um mergulhar junto num mar muito violento e arriscado para salvar, não uma vida, mas as nossas vidas, de todos nós.
Para mim veio a tarefa de escrever um pouco sobre isso. Vai ser uma escrita entre tantas possíveis.
Temos os relatos das pessoas sobre seus processos de cura. Isso é insubstituível. Adoraria que relatos como esses que ouvi fossem partilhados para públicos mais amplos.
Há pessoas escrevendo também sobre seus processos dizendo onde, em si mesmos, toda essa conversa curativa está tocando.
Aqui vai uma contribuição pequena, mais para organizar o pensamento e trazer um pouco meu coração nesse tanto que estamos vivendo. Adoraria fazer uma junção das palavras que li e ouvi, mas isso não é possível. Cada fala é intraduzível. Então aqui vai uma fala dentre tantas. Nunca é demais. Precisamos falar mais sobre sexo, suas delícias mas também suas dores. Sobre suas dores e também suas delícias. Mas hoje, vamos falar mais das dores.
Convido você que lê essas palavras agora a avaliar se esse é o melhor momento. Se precisar de um outro tempo, volte a ler numa hora em que você esteja mais disponível. Para que você possa fazer seu mergulho também. Nessa nossa história. Nossa história emocional, cultural. Nossa história humana.
Voltando a pergunta inicial: que ambiente é esse de conversa?
No encontro de segunda-feira, Ana foi trazendo elementos de reflexão para que a gente pudesse olhar a questão dos abusos de uma perspectiva que nos ajudasse a olhar as emoções, e o sistema mais amplo onde estamos inseridos. E, é bom que se diga, não foi ela quem trouxe o tema intencionalmente. É que os aprofundamentos nos processos emocionais vão nos trazendo as nossas feridas à flor da pele. E assim os participantes foram trazendo e pedindo ajuda para olharmos para a questão juntos.
A primazia da ética
Em primeiro lugar, Ana lembrou ao grupo de que a criança não é culpada. "Ela não fez nada para que isso acontecesse. Ela não provocou. Não deu mole. Não facilitou" É bom que se diga isso num contexto social que sugere a culpabilização da vítima (argumentos do velho sistema). Portanto compreenda: a criança não é culpada pelo que aconteceu.
E o adulto que abusa sexualmente de uma criança é uma pessoa doente.
É bom partir de um ponto de vista ético que não seja o relativismo. Em nossos processos de liberação emocional, muitas vezes precisamos relativizar certezas, abrir mão de crenças. Mas temos evidência suficiente, ouvindo as histórias do sofrimento que fica para as pessoas, que não há relativização possível nesse caso. Relação sexual com crianças é absolutamente anti-ético.
Um segundo elemento, trazido pela Ana, tem a ver com a forma como lidamos com a sexualidade enquanto adultos. Podemos nos envolver com outro ser humano, amá-lo, admirá-lo, podemos criar intimidade, parceria, mas isso não precisa necessariamente terminar em sexo. Ela deu exemplo do aluno que se apaixona por um professor e o professor pode dizer: "eu sei, eu estou aqui num lugar de destaque, apaixonado pelo que faço, apaixonado pelos meus alunos, cheio de brilho e amor, mas percebo que você está se iludindo. Não precisamos nos relacionar sexualmente." Portanto uma atitude ética é não permitir que esse apaixonamento seja sustentável.
Amigos podem se apaixonar. Especialmente quando "tiramos as interferências (projeções)" e vemos o outro ser humano. "Encontrar o ser humano é sedutor". Mas, imagina, que esses amigos são casados. Então eles podem se perguntar: "onde isso vai me levar se eu entro numa intimidade sexual?"
E assim cada um pode escolher ficar com sua parceira, seu parceiro. Porque do contrário entramos nessa história de amor livre, relações plurais que é um escape. E ao dizer isso Ana pergunta-nos:
"Por que sempre que me apaixonar por alguém isso vai acabar em sexo?"
Ela mesma responde: "É uma infantilidade. Uma falta de maturidade, de percepção mais ampla."
Daí há dois caminhos: a moral ou a ética. Onde há moral não há ética. Onde há ética não há moral. Se entramos na moral, vira uma confusão. A proibição. Os casos escondidos, os segredos, a traição, a opressão, a omissão... Os livros e os filmes sobre vida amorosa do presente e do passado estão repletos disso. Nossa vida está repleta disso. Não é à toa que uma sociedade moralista seja tão anti-ética e, portanto, doente e, portanto, capaz de produzir uma brutalidade desse tamanho que é quando o abuso chega a uma criança.
A opção pela ética é a escolha por uma relação sadia. Um encontro profundo. É não cair na adolescência de achar que tudo precisa terminar num gozo sexual.
Aqui vemos onde está a doença. Lembro do Reich no livro "O Assassinato de Cristo" relacionar a crucificação de Jesus com essa doença emocional que é o mal estar, a repressão e moralismo sexual da humanidade. Mataram Jesus não por motivos políticos ou por questões religiosas. Mas porque ele era um homem capaz de amar.
Um homem potente com um amor potente!
E as pessoas ainda não conseguiam conviver com o amor e a potência humana.
Após ouvir os relatos, as memórias dos abusos, Ana sugeriu que a gente olhasse, sentisse as emoções que nos vinham. E foi conduzindo processos de olhar as emoções descoladas do fato. Elaborasse a partir da emoção e depois revisitamos os fatos. Esse movimento da emoção nos faz ver e tocar nosso passado de um outro modo. Um acolhimento de si que nos levou às lágrimas. Difícil descrever isso aqui.
Antes de tudo, no entanto, sugeriu um artifício:
Recebemos algo como uma herança, que vem não só da pessoa que nos violentou. Mas que vem de nossos antepassados, uma herança ancestral. E o artifício é pensar o seguinte: "isso só aconteceu com a gente porque a gente é capaz de dar conta disso e curar essa herança ancestral." Não deixar passar isso para as gerações seguintes.
Como curar?
É um processo muito pessoal. Muito individual. Mas é coletivo também.
Se olhamos com profundidade vemos que não há um culpado isoladamente. Que a doença de um indivíduo é sustentada por um sistema. Ele vive uma dor tão grande que sua dor transborda e atinge o outro. E isso se torna um círculo vicioso.
Lembro de uma vítima de abuso dizer que depois de anos curando essa ferida chegou a um lugar emocional em que pode dizer que junto do amor profundo que sente por essa pessoa, que é um familiar próximo, sente até mesmo gratidão por ter acontecido isso com ela.
Ela o vê não como culpado. Mas compreende que ele foi a válvula de escape, por onde vazou a dor do sistema, o sintoma de toda essa moral, dessa questão mal resolvida em todo o sistema cultural em que vivemos.
Gratidão e amor.
Claro que nem todo mundo chegou a essa camada profunda de cura.
Em algum momento do encontro Ana disse que todos somos abusadores. Mas encontramos justificativas, através de nosso movimento conceitual. Mas se encararmos nosso emocionar teremos de admitir que geramos sofrimento para nós e para os outros.
Por que abusamos dos outros ou de nós mesmos?
Medo. Medo do abandono. Medo de não ser aceito, de não ser amado. Medo de desaparecer.
E assim, com esse emocionar, permitimos o jogo, de abusadores e abusados.
Só há processo de cura quando o adulto abre mão de ser amado.
Veja um exemplo de um dia na vida sexual de um casal homem-mulher.
Durante o dia os dois se encontram, se abraçam, se beijam. Na intimidade de seu encontro vão tecendo carícias e acendendo o desejo. Quando ambos vão ficar a sós o homem está com muita vontade. Mas, nesse exemplo aqui para nossa didática, imagine que ela não está mais com a vontade que experimentou ao longo do dia. Passou. Mas ele manifesta seu desejo acariciando-a de uma forma íntima. Ela pensa em dizer não. Mas aí pensa também: o que ele vai pensar se eu disser não? Vai ficar frustrado. Vai ficar triste e com raiva. Vai achar que eu não estou correspondendo. Então ela cede. Isso é uma forma de abuso? Quantas pessoas passam por isso na vida adulta?
Veja como essa expectativa sobre o mundo emocional do seu parceiro é o de que ele é uma pessoa infantil. Que não consegue ouvir não. Que acha que um não significa que não é amado. E se a pessoa não se sente amada ela sofre tristeza, raiva. Veja como na visão da mulher, seu companheiro é uma pessoa que se deixa determinar pelo que recebe do outro. Isso é uma embolação. E por que ela se relaciona com alguém infantil?
Um outro desfecho: depois do dia de aproximação ambos sentem desejo e eles fazem sexo. Ela chega ao orgasmo. Ele ainda não. Ela sente vontade de deitar e ficar abraçada. E quem sabe dormir assim, aconchegada. Esse é o seu desejo. Mas ele está cheio de apetite. E ele não sabe lidar com toda essa tensão no corpo. Mas cede, não quer abusar de sua companheira. Mas faz isso de uma forma não integrada. Quando a excitação diminui, como ele não teve orgasmo, não consegue se entregar ao gozo de estar abraçado. Está focado demais em seu prazer genital que é a forma como aprendeu a sentir prazer. O amor, o encontro, a união, nada disso importa agora. São conceitos com os quais ele convenceu parte de sua mente. A outra parte começa a ficar cheia de pensamentos. Não quer estar ali. E começa a ruminar que não ama, que não é amado, que é um infeliz. É dominado pela tristeza, pela frustração. Uma pergunta surge: como eu posso ser feliz sem forçar/convencer/seduzir o outro a fazer o que me apraz? Assim passamos a vida aprendendo a arte de seduzir, de conquistar, de possuir o outro, mas pouco aprendemos da arte de amar.
Um outro desfecho: ela tem o orgasmo. Quer parar mas continua, por ele. Abre mão do que está querendo, do que está sentindo, do que está escutando de seu corpo. Cede à vontade do outro. Então eles continuam até que ele tenha o ápice do prazer. Mas ela não está tão quente. Está fria, dolorida, incomodada. Terminam sem a união de alma como já viveram em outras vezes. E daí vem de novo a enxurrada de pensamentos: ela não me ama, e fica triste, com raiva, etc. E ela se sente machucada, abusada, e com raiva de si mesma por, mais uma vez, não ter ouvido seu corpo.
Não tem para onde correr.
A vida afetiva não se resolve no sexo. O sexo é que se alimenta da vida afetiva. Mas poucos conseguimos viver isso. É um segredo. Não falamos sobre essas coisas. Demoramos a aprender. E não basta falar e convencer a mente. Se o corpo, a emoção, continua vivendo a limitação do desejo de ser amado, do medo de ser abandonado. E pensar que muitos de nós nascemos de uma relação sexual assim. Que herança recebemos? Temos ou não temos muita ferida para curar?
"O adulto que se liberta da necessidade de ser amado se liberta para amar."
A emoção raiz que trabalhamos nessa semana foi o sentimento de abandono.
Lá pelas tantas Ana lembrou da líder espiritual indiana que há anos abraça milhares de pessoas.
O amor incondicional. O que é esse amor?
"O Namorado" é uma das cartas do Tarot de Marselha que se comunica muito com tudo que falamos aqui. Ana leu esse trecho no último encontro. A carta tem três personagens humanos no centro, um anjo que lança flechas do centro do sol no alto. No livro do Jodorowski quem fala na carta é justo o sol que está acima dos personagens da trama. O sol do amor. O que ele nos diz?
"Sou o sol do arcano, o sol branco: quase invisível, mas iluminando todos os personagens. Sou essa estrela: a alegria de existir, e a alegria de que o outro exista. Vivo no êxtase. Tudo me dá felicidade: a Natureza, o universo inteiro, a existência do outro sob todas as suas formas - esse outro que não é outro senão eu mesmo.
Sou a consciência que brilha como uma estrela de luz viva no centro do seu coração. Eu me renovo a cada instante, a todo momento estou nascendo. A cada batimento do seu coração, eu uno você ao universo inteiro. É de mim que partem os vínculos infinitos que nos unem a toda criação. Ah, o prazer de amar! Ah, o prazer de me unir! Ah, o prazer de fazer aquilo que se ama!
Mensageiro da permanente impermanência, renasço a cada segundo. Sou como um arqueiro recém-nascido que lança flechas em tudo o que os sentidos podem captar.
Não sou a gentileza, não sou a ambição do bem-estar nem do triunfo. Sou o amor incondicional. Eu o ensinarei a viver no alumbramento, no reconhecimento, na alegria.
Quando penetro em você, como nos personagens do arcano, comunico o amor divino até à menor das suas células. Sopro na sua mente como um furacão caloroso que elimina da linguagem a crítica, a agressão, a comparação, o desprezo, e todas as gamas da arrogância que separam o espectador do ator.
Eu me insinuo na sua energia sexual para suavizar toda brutalidade, todo espírito de conquista, de possessão.
Confiro ao prazer a delicadeza sublime de um anjo que exulta.
Quando eu me dissolvo em seu corpo é para separá-lo da ditadura dos espelhos e dos modelos, do olhar dos outros, da dor das comparações. Eu lhe permito viver sua própria vida, assumir sua própria luz e sua beleza.
No coração onde habito, afugento as ilusões da criança mal-amada. Como o sino de uma catedral, verto no sangue a vibração penetrante do amor, desprovido de todo rancor, de toda exigência emocional travestida de ódio, e de todo ciúme, que não passa da sombra do abandono. Eu o inicio no desejo de não obter nada que não seja também para os outros. A ilha do eu se transforma em arquipélago.
Tudo concorre para aumentar minha alegria, mesmo aquilo que você interpreta como circunstâncias negativas: o luto, a dificuldade, a pequenez, os obstáculos ...
Amo as coisas e os seres tal como são, com suas infinitas possibilidades de desenvolvimento.
A cada instante, vejo você e estou disposto a participar de seu desenvolvimento, mas também a aceitar que você continue sendo como é."
terça-feira, 23 de junho de 2020
O cachorro, a ursa e serpente
Era uma vez um cachorro.
Domesticado.
Um dia ele saiu da casa onde viveu toda a sua vida e adentrou
a floresta.
Caminhou, caminhou...
E encontrou, em meio às altas árvores e à beira da cachoeira,
uma ursa e uma serpente.
O cachorro sentiu-se amedrontado e encantado. Como eram
livres, selvagens e perigosos! Ao passo que ele era tão inofensivo, tão adestrado.
A ursa o acolheu como uma mãe. Caminhou a seu lado e mostrou
como conseguir alimento, nos diferentes recantos da floresta. De início, ela
teve de caçar para ele. Mas foi mostrando como ele deveria viver de suas
próprias artes.
A serpente, por sua vez, não foi nada simpática. Tampouco o
agrediu ou ameaçou. Silenciosa e compenetrada, mantinha uma aura de mistério
que, de certa forma, encantava o cachorro. Queria ser como ela. Ter sua força,
irradiar aquele respeito.
A ursa e a serpente faziam o cachorro ver a força do amor
próprio.
Mas ele não sabia o que era isso. Só conhecia o amor de seus
donos. Fazia o que lhes agradava. Estava longe demais de seu estado selvagem. Perdera
o rumo de si.
Por isso, em seus primeiros tempos na floresta não sabia
muito bem como agir. E se sentia inadequado. Temia os olhares reprovadores da
serpente e fazia de tudo para não desagradar a ursa a quem ele já sentia uma
enorme dívida.
Não sabia o que era ser cachorro. A ursa em seus longos
passeios uma vez o levou a um descampado, onde puderam ver a lua se escondendo
no horizonte. Era a primeira aparição da lua nova, delgada e vermelha, que se
mostrou logo após o pôr do sol. E ali tiveram uma conversa.
A ursa lhe dizia:
Escute o que a lua tem a lhe dizer. Eu não posso dizer com
minhas palavras. Precisa ser uma experiência sua. Não adianta você ficar querendo
ser um urso ou uma serpente. Você precisa ser o que você é, mas que se esqueceu.
Precisa agora esquecer o que aprendeu. E voltar a ser o que era antes dos seus
donos estragarem você. Precisa fazer o caminho de volta. Só que isso aconteceu
há tanto tempo e você ainda era muito criança. Então você não tem referências
de como é ser um cão selvagem. Mas precisa... precisa... como que começar de
novo. Eu acredito em você. Mas não posso fazer por você. Nem como te ajudar. Porque
eu não sei como é ser você. Só posso ser ursa. Este é meu destino e minha liberdade.
No dia seguinte o cachorro teve seu encontro com a serpente.
Ficaram um perto do outro, sobre as folhas secas do bambuzal,
num dia quente de céu azul, sem dizer uma só palavra. A serpente não tinha
nenhuma pressa, na verdade nenhuma vontade, de dizer nada para o cachorro. O
cachorro não sabia, mas a serpente também não tinha nenhuma intenção de
mordê-lo. Ela o respeitava. E o cachorro também não sabia, mas ela não o
odiava, e nem tinha pena de sua fraqueza. Ela o via como ele era. As serpentes
são assim. Elas não especulam.
E aquele encontro silencioso foi gerando, no interior do
cachorro, um conjunto de sensações imprevistas e desconhecidas. O medo foi se
transformando em sensações que o cachorro não saberia nomear, um novo calor
dentro de si. Os dias se passaram e o cachorro foi ficando íntimo desse novo
universo de sensações. E a distância dos humanos foi dando espaço para ele
experimentar novas formas de viver, sem procurar o tempo todo estar agradando, buscando
afeto. Ele foi vendo que o amor antigo foi dando lugar a novas percepções e começou
a sentir com mais clareza o frio do chão de terra quando pisado de manhã cedo,
o ar quente nas tardes de sol, o prazer de roçar seu pelos nos espinhos do
morango silvestre e de molhar seu rosto no orvalho perfumado do manacá. Gostava
de mergulhar nas águas do rio para saciar seu impulso à alegria e subia
gostosamente a cachoeira, brincando contra a força das águas e latindo para o
vento.
Ele não sabia dizer o que se passava. Mas algo estava
mudando.
Um dia ele acordou de manhã e, pela primeira vez, olhou a
ursa como ursa. A serpente como serpente. Já não possuíam mais aquela aura
selvagem. Eram comuns. E viu tudo a sua volta como jamais vira antes. E
novamente olhou seus amigos e os viu selvagens como antes. E de novo, comuns.
Eram selvagens, belos, perigosos, encantadores, e ao mesmo tempo eram comuns,
simples, cotidianos amigos com quem gostava de tirar uma soneca depois de uma
farta refeição que caçavam juntos.
E assim seguiu seus dias. Mal conseguia se lembrar do cheiro
de seus antigos donos. Não se detinha nessas memórias. Parecia-lhe uma outra
vida. E, de fato, era.
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