domingo, 19 de abril de 2026

Romance astral ou virtual: um mês de mensagens de texto.

A gente se conheceu num curso de meditação.

Nos falamos só uma vez, bem na hora de ir embora. Ela disse uma coisa muito diferente a respeito da camiseta que eu estava usando e fiquei muito curioso sobre ela: que tipo de pessoa tem uma visão assim tão original?

Ela era bem mais jovem e tomei a decisão de suportar o interesse calado e torcer pra que ela entrasse em contato. Pegaria mal um velho indo atrás de uma jovem, um homem atrás de uma mulher (especialmente nos dias de hoje, não sei se você me acha muito radical, mas pelo menos no Brasil, a iniciativa precisa vir das mulheres).

Por sorte, ou por poderes do invisível, 45 dias depois, recebo uma mensagem dela: oi, você é o homem da camiseta pintada pelos alunos, certo? 

E assim começou uma troca de mensagens entre nós. Não vou contar os detalhes. Mas vou narrar um fio da nossa história. 

Ela me contou de um livro que estava lendo. Aí três dias depois eu sonhei e no meu sonho alguém falava o nome do livro. Contei pra ela e ela revelou que tinha comprado um exemplar extra e por eu ter sonhado, ela entendeu como um sinal de que era pra mim. Aceitei, com alegria. Vocês conhecem esse momento dos encontros entre pessoas que as coisas vão fluindo de maneira muito fácil. Isso é legal demais. E acho que a gente precisa ir dando sim. Como forma de dizer sim à vida. Será que é isso mesmo? 

Foi muito bom ter tido essa troca de mensagens com ela. Música, literatura, surrealismo espiritualidade, natureza, e a possibilidade de uma entrega mútua, uma abertura pra ser sincero, espontâneo, em falar das coisas da vida e dos sentimentos. É o tipo de conversa que me alimenta. Não falamos de relacionamento amoroso. Na minha cabeça ela não estava me procurando pra isso e fiquei até mesmo com a hipótese de que ela não tinha esse tipo de interesse na vida. Parecia ter outros focos. Fui lendo o livro que ela me enviou e sentindo também no invisível (ou no imaginário, como queira) a presença dela na minha vida. 

É dificil falar, na realidade é dificil entender, ou ainda, difícil mesmo é ter certeza do que está acontecendo. Nosso mundo interno, as subjetividades, nossas projeções, imaginações... especialmente porque ela é uma pessoa que tem facilidade em sentir à distância e também de dizer coisas boas. Então havendo sintonia de pensamentos, a gente parece estar presente um pro outro. Nesse mundo tão árido, em meio a tantas crises, é bom ter uma pessoa amiga com quem contar. É bom ter alguém com quem você, nos momentos difíceis, possa ao menos querer que esteja ao seu lado. O que é real? Nesse começo de amizade virtual, havendo essa pitada de mediunidade, podemos entender que nós dois vivemos num plano de realidade sutil? Ou estávamos sendo dois idiotas, ou mesmo fingidores, criando o outro a imagem e semelhança de nossas idealizações? De qualquer forma só conversar à distância pode mesmo confundir, então marcamos de nos encontrar. 

Mas antes que isso pudesse acontecer, e exatamente um mês depois da primeira mensagem recebo uma série de mensagens dela dizendo que estava sentindo que eu estava distorcendo as coisas, que sentia que eu não estava numa energia boa com ela e ela não tem vontade de viver jogos de ego, manipulações, controle, possessividade. Eu recebi aquilo com surpresa. Como Josef K, em O processo, você acorda acusado de um crime que não sabe qual foi. Conseguimos conversar um pouco e ela estava muito convicta do que se passava.

Sem nenhuma base nas mensagens, apenas nas percepções sutis, ela estava sentindo essa energia masculina, cercando sorrateiramente, essa sombra do masculino, uma coisa que é ancestral e que continua viva no nosso dna e que reaparece (para ser curada). Uma coisa que acontece mesmo que a pessoa tenha bom coração e boas intenções. Falou do sagrado masculino mas que é uma coisa muito rara de se encontrar e que perdeu a confiança em mim. A mim só me coube aceitar. Dar esse espaço e aceitar sair da vida dela, sem insistência. 

Nos dias que seguem eu venho obervando e me perguntando: que energia é essa que ela sentiu vinda de mim? Está sendo muito interessante me observar com esse ponto de atenção. Vamos ver onde consigo chegar.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Qual a saída para um pai num beco sem saída?

Quando minha filha diz: "não gosto de ficar com vc, ir pra sua casa, se eu pudesse eu viveria só com a mamãe."

Como eu recebo isso?

Primeiro eu me sinto triste.   

Mas ao mesmo tempo sei que ela é criança. E muito provavelmente ela não sente isso de verdade. Eu sei que ela gosta de mim. Profundamente e de verdade. Mas é isso que ela fala. O contrário do que sente. 

Por quê?

A minha primeira hipótese é de que ela está dando voz ao sentimento da mãe. E quando ela diz isso ao lado da mãe, a mãe ouve. Não diz muita coisa.

E eu quando estou perto da mãe dela também não consigo dizer coisas muito sábias. Quando digo verdades do meu sentimento mais bonito elas parecem cair num vazio sem escuta, palavras lançadas num precipício. Quando estou sozinho com ela eu acho que me saio muito melhor. Consigo na hora de dormir deitado no colchão ao lado da cama dela falar coisas que sinto e dizer coisas que acho que podem ser boas pra ela. Mas ao lado da mãe dela é outro ambiente. 

E pra mim é difícil de viver assim. 

E vejo que são consequências das minhas ações no passado. Afinal a vida que tenho é a vida que construí.

Então me pergunto o que posso ainda fazer  para que isso se resolva de uma maneira inimaginável? O que eu ainda preciso perceber que não estou percebendo?

A segunda hipótese é que ela fala isso pra me afetar. Pra ver minha reação. Pra testar meu amor e tb quebrar talvez uma capa de invulnerabilidade.

Quero dizer a ela que fico triste. Mas ao mesmo tempo quero que ela não precise mentir sobre seus sentimentos. Ela não precisa deixar de dizer o que sente só pra me agradar. Prefiro que ela expresse.

Mas retorno ao pensamento de que no fundo ela não sente isso.

Então me vejo sem saber o que fazer. O que uma pessoa de fora veria com facilidade que eu que estou dentro não consigo ver?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A misteriosa dramaturgia do EnCena 2026 lá em Piracaia

André, pai da Liora



"O coração é um fardo pesado"


Frase do filme Castelo Animado do Miyazaki.


Que bom que existe a arte. A gente pode fazer alguma coisa na vida sem evitar a contradição da existência.


Ser pai me leva a assistir filmes com minha filha, a revisitar minha própria infância, a estar com ela, a ser uma presença adulta para ela. Tudo isso junto e misturado à aventura que é própria de viver a própria vida.


Ser quem sou e estar disponível para ela. 

Essa frase parece resumir a essência dos aprendizados desse campo de vida e experimentações que tem sido pra mim as Vilas, desde que conheci a Ana, que foi lá nos tempos em que eu estava prestes a ser pai.


Uma bela coincidência.


Daí que não morar nas Vilas mas ir de vez em quando nas férias com a Liora tem sido o ótimo da situação atual.


É graças à Liora que me dou bem de assistir filmes infantis que são também para adultos, como as sentimentais jornadas psicodélicas do Miyazaki. É graças à Liora que me dou bem de ir passar uma parte das férias nessas jornadas que não são exatamente psicodélicas (apesar dos rumores de bananas mágicas) mas sempre mergulhos no mundo psíquico.


Viver dentro e fora.


Encena verão em Piracaia 2026. (Nota: a gente chama as “Vilas em Rede” de Piracaia, pois pra gente ir pra Piracaia é ir pra ficar nas Vilas e, eventualmente, ir em bando pra feira na cidade).


Pra começar: o mais legal é que foi Liora quem pediu pra ir. É um lugar que ela gosta de estar. A paisagem natural e a paisagem humana... As relações, a liberdade... Ela poder ficar entre crianças, sem os pais, andar por aí pelas terras, naquela amplidão... e ao mesmo tempo, ter o pai ali de apoio em alguns momentos ao longo do dia e na hora de dormir. É uma boa dinâmica. Liberdade tendo pra onde voltar.


O mais legal dessa vez é que pela primeira vez estivemos juntos na "redonda", nas práticas. Acho legal ela poder ver o pai dela brincando, criando junto, sendo feliz junto. E ela ter de viver também os momentos dela no coletivo ali perto do pai. E eu também adorei estar mais perto das outras crianças. Tudo isso gerou mais conexão entre nós. Na verdade, sempre gera porque é uma boa oportunidade de viagem sem a mãe dela. Nossa ida à Piracaia sempre gera maior encontro entre nós. Num nível que os olhos não veem.


Nós amamos as dinâmicas, os jogos teatrais e sobretudo a elaboração de tudo de uma forma organicamente participativa. Aprendi na prática o que é dramaturgia. E foi incrível participar de uma dramaturgia coletiva…


Isso é o mais difícil de traduzir em palavras, tentar contar pra quem não foi, como que esse processo orgânico de criação coletiva é atravessado por processos pessoais de mergulhos em si mesmo. Então estamos ao mesmo tempo numa vivência de processos pessoais bem profundos, numa brincadeira divertida entre famílias, num espaço muito respeitoso de vínculo entre pais e filhos, numa criação coletiva de um espetáculo teatral (desde a re-invenção da história, passando pela escolha das cenas, a emersão, em cada pessoa, dos possíveis personagens, até o figurino, o pensar o espaço do palco, o ritmo, contando com a participação talentosa de vários músicos e pessoas mais experientes em teatro, culminando numa coragem tranquila de se apresentar. Uau!) Tudo isso acontecendo em ritmos suaves. Um encontro pela manhã, dois encontros à tarde. E o gostoso ritmo da cozinha onde as crianças também são muito felizes de comer juntas. E dormir bem no silêncio bom do sítio. E querer acordar cedo pra começar a brincar logo e aproveitar bem o dia.


Pessoalmente um momento especial do meu processo foi viver um caos no grupo, um dia que as coisas não estavam fluindo, tudo ficou tão sem pé nem cabeça… por fim as crianças acabaram saindo da redonda pra ir brincar lá fora. Para minha observação pessoal foi muito interessante eu ter ficado junto até o final, me sentindo só uma peça a mais no tabuleiro, que não conseguia ajudar muito mas que também não abandonou o coletivo. Pra mim, estar junto, sem que eu tenha nada pra fazer, ou saiba o que fazer, é uma novidade. E pude perceber que ao longo do processo como um todo outras pessoas estavam ali ao longo dos dias, que não entraram em cena, mas não deixaram de estar. Há muitas formas de estar e isso eu estou aprendendo. Então tem muitas camadas tudo isso. (Assim como tem muitas formas de relatar a vivência: no encerramento eu escolhi ler a letra da música do Gilberto Gil: "Eu preciso aprender a só ser"; pra agora eu pensei até em escrever um artigo acadêmico, mas está nascendo esse texto assim desse jeito).


Que semana boa! O tempo voa!

Encantei-me vendo as rodinhas de conversa de crianças, além das brincadeiras super criativas que elas inventam. E me encanta que Liora esteja com outras crianças que se divertem em criar músicas, coreografias, etc que se envolvem de verdade com o fazer artístico e isso se torna um investimento sério da parte delas, quero dizer, um comprometimento muito saudável, com a própria ideia do fazer artístico. 


Também foi incrível presenciar a condução dos jogos e ensaios quando eram específicos para as crianças. A habilidade em trabalhar com crianças é de tirar o chapéu! Não só dentro da sala, mas também o clima, a dinâmica como um todo de uma pedagogia mais livre de estar na profícua tensão do fio entre a liberdade de: “ninguém é obrigado a nada”, e o gostar de jogar: “isso é legal de fazer e tá ficando bonito”. Deu certo! Mas é muito trabalhoso. Exige algo misterioso.


É verdade também que ao mesmo tempo, nas temporadas com a Liora em Piracaia, experimento situações difíceis porque ela tem uns momentos em que se mostra bem agressiva comigo, quando está só comigo (em especial no fim dos dias). Estando lá me sinto com um bom suporte para receber esses movimentos de mais raiva dela (alma em expansão) então eu sei que tô num lugar bom, e consigo devolver a ela uma presença num estado mental de calma. Não é fácil. Mas me parece um bom processo.


De todos os jogos o que mais me marcou foi o que só podia dizer sim. Na verdade, não podia negar o que a outra pessoa trazia. Estando em roda alguém poderia dizer: André, e aquele dinheiro que você tava me devendo?” Daí eu teria que entrar na brincadeira e não podia negar, não podia dizer: “não, você deve estar enganado, você não me emprestou…” Teria que continuar com o que a pessoa trazia, por exemplo: “pois é, sabe como é…” Esse jogo a gente quase não jogou quando foi apresentado mas a ideia dele percorreu durante os dias. Imagina que no palco alguém falasse ou fizesse algo diferente do combinado, não pode parar tudo, interromper a apresentação… precisa improvisar algo a partir dali. Isso foi ficando vivo no grupo, e também em mim, de perceber os micromovimentos mentais de negação ou defesa, nas relações fora das atividades. Isso eu levei comigo, mesmo depois de ir embora. Convite a dizer sim ao que o outro está dizendo sobre mim, dizer sim ao outro em sua expressão no mundo… nossa! Isso está me ajudando muito. Estou vendo as pessoas com outros olhos. E me sinto mais leve.


O produto é o processo. 


Os acontecimentos são mágicos. Pensa só: de repente, na história dos Saltimbancos, não sei bem como surgiu a ideia de que uma banana mágica poderia levar a todos a uma viagem astral que poria fim ao conflito não só entre cães e gatos, como entre os humanos-barões-malvados e os animais cansados de serem explorados. E nessa história de banana, lá nos intervalos, não sei bem porque veio lá da minha memória um samba-enredo sobre a chegada da banana no Brasil, e isso me remeteu a minha infância. E aproveitei e coloquei ali em ação, uma contação da história em que pude nomear minha mãe: Angela e meu pai: Benedito, que me proporcionavam a leitura, e decorar letras de música era meu prazer… e isso na mesma idade em que a Liora estava agora… Fechar essa gestalt ali, trazendo o meu luto recente pela morte do meu pai foi muito, muito interessante. Acessar essa emoção, contar pras pessoas do meu pai, agora eu pai, Liora ali… depois, isso não precisou entrar na cena (pude desapegar) mas foi talvez o maior produto do meu processo pessoal. Não é incrível? Imagina o que foi se processando na vivência de cada participante durante essa semana mágica?


Agora deixa eu dar um zoom. Foco nesse pequeno instante: estou lá na cozinha e me lembro do samba-enredo. Fico cantarolando ele. Comento por alto com alguém como quem não quer nada. E em algum momento a Babi teve a “divina loucura” de dar corda pra história. Me convida pra cantar, pra fazer o personagem. Eu só estava lembrando de uma música que decorei na infância. O que fez ela olhar aquela situação e perceber que ali teria algo a mais? Algo que no meu momento de vida (escondido no inconsciente), se articula na dramaturgia (que pelo que estou entendendo melhor agora é a “liturgia do drama”) daquele jogo que está acontecendo em rede e se ancora, não num texto pronto, mas no que está sendo sinalizado no íntimo das pessoas que foram ali para um acampamento de famílias e batem papo na hora das refeições. Isso é muito interessante! Me encanta essa escuta, essa antena ligada, isso também é mistério.


Dramaturgia-coletiva-orgânica-psico-mágico-xamânica-do-cotidiano-de-pessoas-que-dizem-sim-ao-sagrado-presente-no-outro…

Lembro dos músicos em roda compondo juntos as canções extras do espetáculo… e eu aqui brincando de tentar nomear essa beleza!


Agradeço. Sigo com o coração aqui dentro. Perto, longe. Vinculado e livre. Confiante e morrendo de medo do futuro, esse incerto alguém. Sem ter a menor ideia de qual vai ser o texto final dessa história. Nem se, apesar da vontade, vamos voltar a Piracaia. Por isso que é bom escrever. Porque pelo menos no coração de quem me lê, aí eu estou. Escritor.