sábado, 12 de junho de 2021

O que colore a minha alma?

A experiência de Ser.

Algo acontece que me traz uma experiência de que sou mais do que pareço, e de que estou conectado a algo maior, e de que há um transpor do nível comum de consciência para uma consciência mais ampliada (como ir para fora de um quarto fechado). Mais calma e intuitiva. Mais em paz. Mais amorosa e quase angustiada em compaixão pelo mundo. Mas sobretudo em paz.

Como pode minha mente produzir um pensamento que me arrepia? Que é isso?

E quando esse pensamento é dito em voz alta? Aos 21 anos foi quando tive a minha primeira experiência de oração. Como é isso de quando me dirijo a um Tu, algo se acende em mim?

De onde vêm as lágrimas de emoção ao meditar no amor? Sentir-se absolutamente amado. Graça e misericórdia.

Que são essas coisas? Quem somos?

Que tipo de ligação é essa entre o interior (pensamento) e algo mais (a vida, o todo, o sentido, o doador de sentido)?

Uma vez uma lágrima desceu-me dos olhos ao comer um bolo de Natal.

A emoção de cantar junto. O que é tudo isso que promove algo em meu interior? O estudo, a abertura de uma nova compreensão interna que arrepia os cabelos. A ação social que une, que promove amor.

Há tantas coisas que me encantam. Que me apaixonam. Mas o que colore a alma é algo além do sentimento. Além do sentir amor. Além do sentir o outro. Além do sentir o nós. O nós que nos liga a um sentido. A um enredo da história humana sobre a terra. 

O humano, a casca da árvore. O tronco cascudo da árvore é só uma casca de árvore. Mas o que é a casca da árvore quando eu a chamo Deus? E me dirijo a um Tu.

Será tudo isso um auto engano? Será tudo isso um mistério científico a ser estudado? Ou será tudo isso um mistério a ser adorado?

A abertura ao desconhecido.

Encarar o aberto. O medo. Medo de um gozo. Não suportar o gozo desse amor e me perder. O roçar do sagrado. Como o rio que beira a margem. Não exatamente a poesia, não as palavras, mas o algo que ela toca. E da qual me retraio.    

E então a própria melancolia dramática de não me submergir nesse mar. A melancolia de não ser esse amor. 

A falta, não de um amor comum, mas de não me reconhecer o próprio amor maior. A angústia da ausência de paz. A paz que se insinua, que vem de visita, que me desafoga por instantes.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Conversas diante do altar

"Revela-te a mim.

Quem és?

Para além desse corpo, dessa aparência, quem és? Mostra-me quem és de verdade?"


Pergunto isso e te sinto tão perto. Como se permeasses tudo. Dentro e fora de mim. Como se uma chuva de doce néctar caísse sobre mim. Sinto a pele arrepiada. É tão prazeroso. Uma respiração se faz profunda. Exalo em um suspiro de alívio como se voltasse para casa depois de haver esquecido que existia casa. Sinto paz e abertura ao intemporal.


"Mostra-me quem sou. 

 Quem sou eu?"


Pergunto isso e me sinto tão unido a ti, sinto nossa identidade. 


"Quem és tu? quem sou eu?"


Te olho.


"Quem és tu? quem sou eu?"


Te olho e uma neblina turva o olhar.


"Quem és tu? quem sou eu?"


Te olho e te sinto como as raízes profundas em minha natureza, no tempo e no espaço de onde habito. Como se fosses minha verdade ancestral, abismal.


No centro da Terra girante, um só ponto. Piso a Terra e percebo que somos, todos aqui, filhos da Terra. No centro do círculo da vida nos encontramos a todos. Caminhar para o centro é pisar no mesmo chão, chegar exatamente no mesmo ponto, de meus irmãos e irmãs. No centro, o encontro.


Encarno em um irmão. De dentro dele abro um rosário de orações. Procuro a divindade e peço: olha por mim (ou melhor, por ele, ou melhor, por nós).


"Não sou eu que oro por ti, irmão que habito, como quem enviasse uma luz daqui para aí. Como doar o que não tenho? Sou teu irmão na procura. Numa imagem de Santo Antônio doando o pão, me identifico com o faminto que recebe o pão, agradecido. Sou eu em ti que clamo pela presença da divindade em ti, em nós. Que o amor desperte. Que o amor desperte. Que o amor desperte nesse irmão."


Será essa uma forma de orar pelo outro, de ajudar?


Sempre senti prazer em orar pelas pessoas, enquanto caminhava na beira do mar. Sentia Deus presente em mim imaginando participar dessa descida do amor de Deus a seus filhos. E uma forma de oração levava a outra até que eu chegava na melhor oração que encontrei: que era agradecer a Deus pela existência de cada um em minha vida. E agradecendo, vendo as qualidades, parecia-me que boas sementes eram regadas. 


Pisando a Terra girante também me agrada dançar. Danço em louvor. Meus braços se abrem, se erguem, expõem meu coração a ti que me infunde a força da vida, Deus em movimento. Meu corpo dança e inventa o passo para fora de todo hábito.

Me agrada girar. Distribuo de dentro para fora e recebo de fora para dentro, de todas as direções. Girar me faz voar. Já na segunda volta a beleza se mostra a meus olhos. E a beleza é o voo da alma. Girar me põe no ritmo da Terra e aqui também toco meus irmãos na roda da vida. 


E sou tocado. Ah é tão bom ser tocado. Um dia, a profissão mais valorizada e estimulada no mundo vai ser a de massagista. Se bem que há toda uma arte em abrir a pele ao toque. E da pele ao abismo... ah isso leva muitos anos de prática para se libertar inteiramente o corpo. E o corpo é o céu!


"Podes me levar até o Mestre? Abrir a estrada que me leva a Ele? Mostra-me o Mestre."


Com esse pedido sinto o amor imenso. Parece possível uma espécie de transmissão: quem muito ama ensinar aqueles que pouco amam. Não exatamente ensinar, mas derramar um dom, como é da natureza de todo ensinar.


"Sim, mas não me queira para si. Ela me diz. Você está pronto a não rivalizar com o Mestre? Está pronto para ver meu amor por Ele e não querer que te ame a ti da mesma forma? Porque a beleza de meu amor poderia te confundir. Eu eu não posso amar a alguém tanto quanto a Ele. Estás pronto para olhar, não para mim, mas para onde olho?"


Lembro-me de Buda dizendo para as pessoas olharem para a lua e não para o dedo que a aponta.


Quero dizer sim.


Saio das camadas da superfície e desço mais e mais para perto do desejo original.


Digo sim.


Toco a pedra e sinto a fonte do Ser, de tudo, de Deus e do que sou. O mesmo Eu sou.


"Oh grandiosa fonte do Ser".


Finalmente olho o Mestre.


"Eu e Tu somos um."


Silencio. E amo. E sou. 


E é tudo tão rápido até que eu volte ao grande véu.


Passou. 


Ah minha vida seria um desespero sem o conhecimento de que, além do eterno amor, és a própria impermanência de tudo que não és.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Conversa com minha mãe na igreja

 Conversei com minha mãe no interior de uma igreja.

Ela me ajudou a silenciar um pouco e então me falava do André e de todos nós. 

Somos uma espécie de compressão do Todo na esfera do indivíduo.

E cada um é uma manifestação particular do que somos em essência.

Quando voltamos nossa percepção à Fonte vemos com clareza e assombro: somos um! O grande todo, oceano em movimento.

"Tudo é o meu eu."

(Palavras sugeridas por Vivekananda: "Ah como eu sou abençoado. Sou a liberdade. Sou o infinito. Minha alma não tem começo nem fim. Tudo é o meu eu").

E eis que o Todo vem à vida como André. 

Com seus limites, suas heranças genealógicas, seu corpo. O Ser vem aqui e vai atuar no e a partir do André. 

Só pela luz de sua presença já será uma purificação e uma evolução na estrutura da matéria.

E assim o ser se manifesta em incontáveis indivíduos. E em diferentes épocas. Começos e recomeços em ascensão.

E eu sou todos!

Um laço de fraternidade universal. O amor.

Tudo isso minha mãe me diz em silêncio de haustos amplos e lentíssimos, quase insuportáveis (ao inspirar preenche-te do Todo, ao expirar esvazia-te dando lugar a chegada do Todo). E suas explicações fazem sentido. E dão sentido à vida também.

Aceitar incondicionalmente o que se apresenta, com amor às próprias limitações, e fazer o que pode ser feito a partir de onde estou, de onde posso atuar. 

Minha mãe também me mostra como ela mesma está em diversas formas, em diversos tempos. 

E ela se faz tão bonita que me comove o coração a tal ponto que já não sei se busco a mãe para que me ajude a chegar ao filho ou se procuro no filho a brecha que revele o segredo da mãe oculta por trás de tudo o que diz e faz.

Uma visão que com certeza seria insuportavelmente arrebatadora a meus olhos tão pequenos, a meu peito tão apertado.

Fiquei com essa fala de minha mãe, essa sua explicação. Contemplei seu pensamento ao longo do dia, depois de já termos nos despedido lá na igreja.

Até que um outro pensamento surgiu como uma indagação. 

E o milagre da transmutação? E se André morrer inteiramente para essa vida? O que virá?

O problema que parecia resolvido, o espirito consolado, ressurgiu em uma nova agitação. Não é um gradual processo de evolução na aceitação dos fluxos evolutivos de cada estrutura. 

É uma inquietação por um salto, uma morte, uma simplificação extrema da estrutura. 

Viver não é só viver. É também morrer.

Queria levar esse pensamento a minha mãe numa próxima conversa.

Pressinto que ela mesma tenha-me intuído e confundido como se, para além das explicações compreensíveis à mente, em segredo ela me flechasse o espírito convidando-me à entrega total do coração.

Que força de atração!

Orar sem cessar.

"Levante, desperte e não se detenha até que a meta tenha sido alcançada" (ainda Vivekananda).

E afinal somos mãe e filho também um na fonte? Como requerer essa herança total?

Isso é coisa grande demais a se pensar e dizer. Não é coisa que caiba em palavras e permaneça imaculada. Minha mãe não o diria. Ela me sorriria isso.

Morrer não é só morrer. É também viver.

Onde estás?

 Ontem perguntei: "onde estás?"

E a pergunta soou sem sentido.

Como se Ele mesmo, em mim, fosse o autor da pergunta. Ele em busca de si mesmo? Realmente não faria muito sentido. 

E a falta mesmo de sentido da pergunta foi um estremecimento, uma suspensão de toda a forma de pensar.

É isso o Ser? Uma suspensão do pensar?

Nem faria sentido Ele dizer: "estou aqui, mais perto de ti que a tua veia jugular. Estou aqui dentro."

Não. Não. 

É tão sem sentido que é como se Ele dissesse: "sou tu, tua voz é a minha, as palavras proferidas pela tua boca são as minhas."

Estranho pensar que sendo tudo é quase como se Ele não existisse. Ao mesmo tempo eleva e sacraliza tudo o que há. E Ele é.

"Sou também todo som que ouves... a voz da cigarra e do grilo e do sapo."

(Ah feliz encontro do entardecer e da noite!)

Lembrei de um poema do Rumi: "estava batendo numa porta, ela se abriu, percebi que estava batendo pelo lado de dentro."

Segui caminhando perguntando também por ti, amiga do caminho, irmã de minha alma. "Onde estás?" E a resposta também é uma batida na porta de dentro. Deliciosa dor de um afeto presente. No mesmo lugar por onde Ele chega. A mesma dor.

A meus olhos também estás em toda parte.

Penso que perguntar por Ele e por ti é praticamente o mesmo. Não será Ele mesmo em ti o que nos une? Às vezes penso que sois duas. No núcleo do teu ser é com Ele mesmo que falo e é de lá que Ele mesmo chega até mim. E para fora desse centro podes ser tu, com tua doçura e teu brincar solto e tua liberdade, por onde falamos ternamente sobre pés, cabelos, pequenos apegos e solenes poemas. 

Oh doce mistério! Ainda creio que sem ti eu não chegaria a Ele. E por uma trágica e eterna lei, pressinto que não chegarei a Ele sem desvencilhar-me inteiramente de ti. Por ora silencio e escrevo. Mas é claro que a verdade está no silêncio. Mas és tu ainda quem me faz falar. Ah como eu temo o silêncio. Quem sabe Ele levasse em conta cada palavra de ternura e de louvor a nossa amizade como louvores a Ele. (Podes tu fazer isso por mim? Creio que sabes muito bem levar cada palavra ao coração). Isso seria a glória e então Ele, finalmente, dirá a mim: "vem, teu amor te salvou!" E brincaremos e riremos juntos em Seu Reino.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Já posso te olhar

Vens e vais

Por que não ficas?

Quando vens já não sou eu.

Já não há mais eu ou Tu.

Somos um. E a vida é um jardim de delícias.

E quando vais a solidão me agita e minha alma é lançada a um transpor de si. 

Não tenho controle e perco os limites do eu e do calmo e do normal e do "todas as coisas em seus lugares."

Tua presença é doce e calma. 

Tua ausência um turbilhão.

Escrevo-te com a pena da saudade. Como estás?

Saudade desponta quando nasce o entre.

O entre não é o Tu, nem o eu. É o que nos aconteceu. E o que nos permanece. É o amor.

E não era para ser calmo o amor? Não é isso que dizem os mais experimentados no caminho?

Eis que o furacão de tua ausência se aproxima. Estou afundando enquanto segues andando sobre as águas. 

Já não há escolhas. 

Uma voz diz: "Precisas passar por isso. Vai!" 

E vou! 

Já não sou mais o mesmo

Perco as referências.

O céu já não é o mesmo céu 

E nessas horas meu corpo chora e geme.

Gemido: comoção que me toma e transborda em som. Tua existência se insinua em algo, uma nuvem, uma joaninha, uma palavra, uma lembrança. Como quando vemos a primeira aparição da lua no céu ainda claro.

Assim sou atacado por gemidos estranhos quando algo teu penetra meu sentir. Gemo como um louco vendo assombrações.  Que pensarão se me virem nesse estado? Andando na rua e de repente soltando gritos abdominais? 

Algo me fala de ti e subitamente sou jogado ao êxtase de prazer e agonia. Uma expiração que não se explica de onde sai tanto ar.

Amor e saudade.

O Amado penetrou meu quarto íntimo. 

Suspiro um mantra

Me lanço ao Tu

O gemido é de um transpor de todo o conhecido.

Não há palavras.

É como a língua dos bebês, dos animais e dos monstros.

É minha alma animal dizendo: vem! Ou: recebe-me!

E é desejo, tem a força daquelas paixões que aprisionam. E me sinto livre. Tu me convidas ao voo. Tuas palavras são doces.

Não é um eu que floresce e se abre silenciosamente ao infinito.

Quem me dera essa passagem fosse serena, suave.

Desde que Tu chegaste minha agonia cresce

E cada vez que vens deleito-me em Tua presença.

E o tempo é sem tempo e o mundo é feito de matéria e alegria.

E Tu vais e entre nós fica o vazio da plenitude e eu já não caibo em mim e não me basto. 

Tenho o desejo de estarmos em comunhão o tempo todo.

Tem horas que olhar o céu é  insuportável.

E eis que algo de novo acontece.

Uma caminhada.

Um céu.

Um instante.

Tua inocência vem, derrama sobre a minha mente uma gota de tuas vitórias e me diz: "Eu estou aí. Entre o céu e teus olhos não há distância. Tu também estás no céu, a minha paz é também a tua. Eu lhe disse que ainda hoje estarias comigo nesse paraíso. Vê, tua sede passou, assim como a minha."

Sim, sim. Posso agora olhar o céu e dizer: posso te ver.

Posso te ver.

A agonia passou, o gemido acalmou e, guiado por uma borboleta, fiz morada em teu castelo infinito.

Existe a paz.

Que bom que estás aqui comigo em todas as formas e nomes.

Ah! Como eu te amo!

Faça-se em mim conforme o amor.

Trem de palavras com destino ao silêncio

 Vou iniciar uma jornada criativa em minha vida. 

De agora em diante caminharei com meus próprios pés.

Vou olhar mais o caminho e a paisagem do que os mapas.

De agora em diante me abro ao sentir e darei tempo ao sentir.

A verdade será percebida por mim mesmo. 

Vou abrir mão das soluções e das verdades prontas.

Vou silenciar mais.

Aberto ao amor vou até onde for preciso para descobrir a fonte da felicidade.

Aberto aos mistérios vou fazer amizade com o tempo.

Vivo, observarei as transformações. 

O que muda quando mudo o meu olhar?

De onde vêm, verdadeiramente, os bebês? E a visão poética das coisas, a beleza, a amizade?  

Qual o tamanho da semente  da flor da bondade? 

De que cidade distante chega a convicção? 

Qual trem de palavras tem como destino o silêncio supremo? 

Em que toca de árvore se esconde a paz? O que ela come?

Qual a cor das nuvens de onde descem as chuvas de plenitude? 

Em que pedaço de cor do céu mora a saudade de cada amigo? 

O que me dizem essas paredes a minha volta?

Quem é o visitante que me chega pelo ar em cada respiração? 

Quem é essa pessoa que, vez ou outra, invade minha casa, rouba meus sentidos e arrebata minha alma?

O que eu ouço para além das palavras?

domingo, 20 de setembro de 2020

Notas

A gente não precisa ter medo de deixar de ser quem é pq o que vc é  já é.

Vivekananda disse: pq eu te amo.

Arjuna disse: eu quero vc do meu lado.

I choose you

 Há tantos caminhos para Deus quantas almas existem na terra.

 Somente os que não estão enamorados veem sua imagem no espelho.

 Quem tem fé nunca vai se perder.

Caminhar caminhar. Achar meu caminho.

Cap 2 VERSO 7: Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi toda a compostura devido à reles fraqueza. Nesta condição estou Lhe pedindo que me diga com certeza o que é melhor para mim. Aqui estou, Seu discípulo e uma alma rendida a Você. Por favor, instrua-me.

Eterna calma em meio à ação intensa.

In the morning I bathe my intellect in the stupendous and cosmogonal philosophy of the Bhagvat Geeta, since whose composition years of the gods have elapsed, and in comparison with which our modern world and its literature seem puny and trivial; and I doubt if that philosophy is not to be referred to a previous state of existence, so remote is its sublimity from our conceptions. I lay down the book and go to my well for water, and lo! there I meet the servant of the Bramin, priest of Brahma and Vishnu and Indra, who still sits in his temple on the Ganges reading the Vedas, or dwells at the root of a tree with his crust and water jug. I meet his servant come to draw water for his master, and our buckets as it were grate together in the same well. The pure Walden water is mingled with the sacred water of the Ganges.


Henry David Thoreau, Walden

 Vc é isso.

 O corpo pertence à Terra. Vc pertence a Deus.

Um iluminado não sofre pelos outros

Concepção védica de infinito. 

Sem limitações.

Quais três limitações? Espaço tempo e limitação por objeto.

Espaço. Estar aqui é não estar ali.

Tempo: surge e desaparece.

Objeto se é isso não é aquilo.

O que é sem limitação?

Sem limitação de espaço: onipresente.

Sem limitação de tempo: eterno

Sem limitação por objeto: all pervasive... que permeia tudo. 

Não se separa de nenhum objeto. Está em todos.

 Eu já andei por essa terra muitas e muitas vezes.

Não se satisfaça só com uma gota d'água. Vc precisa se jogar no seu rio.

Mantenha seu fôlego ao caminhar. Vc vai precisar dele.

 Todos neste mundo grande tem alguma tarefa a cumprir. O resto não é tão  importante, contanto que vc não se esqueça disso.

Mas se vc se lembrar de tudo, exceto isso, é como se vc não soubesse de nada.

As 3 borboletas. A primeira foi perto da vela e disse: eu sei sobre o amor. A segunda tocou a chama suavemente com suas asas e disse: eu sei como o fogo do amor pode queimar. A terceira jogou-se no coração da chama e foi consumida. Só ela sabe o que é amor verdadeiro.

 Minha alma se abre para receber-te

Revela teus tesouros

Abre teu livro

Dá que eu possa ouvir tua música.

Joanna Macy : World as lover, world as self

Humildade ver a qualidade dos outros

Paciência força de não reagir

Thomas de Kempis

Para obter paz: 

1. Ter menos que os outros.

2. Seja o último e os outros primeiros

3. Procure fazer a vontade do outro ao invés da sua

4. Em todas as situações aprenda a aceitar a vontade de deus

 Sat

Asat

E entre os dois:

Nitya : parece existir, toma emprestado a existência de sat por um tempo. Não existe por si só.

Ex. Fogo e a panela a água a batata. O calor existe no fogo. Mas apenas por um período de tempo na batata panela e água.

Sat sempre existe.

Asat  não existe e nunca aparece.

Nitya: não existe e parece existir por um periodo de tempo. Aparece sem existir. uma categoria de seres: surge e desaparece.

O falso. A aparência. Uma miragem.


Sankara: Tudo o que experienciamos  no mundo é dessa categoria.

Experiencia: objeto + existência.  "Isness"

 Esse senso de existência não vem e vai. Mas permanece. Sat

Se não houver mais objeto, nao posso perceber a existência. Preciso estar em relacao com os objetos para perceber a existência. Mas sem objetos não é que a existência deixa de existir. Só não tenho como perceber.

 Brahma satyam jagat mityam.

A onda não é feita de água. A água se manifesta na forma de onda.

 Mãe divina. Infinita sem limite consciência daquilo que existe (isness).

Jogo de Deus: finge que não é Deus. Agora sao dois. Deus e o universo. Tudo que ele faz é tão perfeito. Finge tão bem que se esqueceu que não era ele. Deus está buscando Deus.

Puro ser existe e o experimentamos através deste mundo de aparências.

Como imagens no lago. Só o lago existe.

Raja 2 17

bhakti 8 22

jnana 9 4

karma 18 46

Eu permeio todas as coisas. Mas elas não estão em mim.

Brahma permeia tudo. Igualmente. Todas as diferenças estão em maya. Alto e baixo. Vivo ou não vivo. Macho e fêmea. Uma ou outra nacionalidade. Humanos e animais. A mesma divindade.

Ou seja... respeito. Harmonia. democracia.

Não sistema casta e opressão da mulher (Vivekananda).

A luz revela as coisas

As coisas manifestam a luz.

A luz da consciência.

Experiências sensoriais e da mente... sao diferentes entre as pessoas. Mas é a mesma consciência por trás de tudo. Eu e tu somos um.

Não há outro sonhador do sonho.

Ramakrishnanada, pq um santo como o Sr sofreu tanto?

Ele respondeu:

O que vc está dizendo?

Minha vida real é infinita. Deixe Deus brincar com essa pequena vida como Ele quiser.

Está além de toda estrutura de conhecimento. Mas é aquilo que permite toda a estrutura de conhecimento. 

Olhos mente... consciência.

Galant  Strossen from austin Texas. O problema não é a consciência. Todos sabemos o que ele é. O problema é a materia. Sub atômico superstrings... O que é a matéria?

Jim Holle why this world exist?...

Emerson, Brahman

If the red slayer think he slays,

Or if the slain think he is slain,

They know not well the subtle ways

I keep, and pass, and turn again.


Far or forgot to me is near;

Shadow and sunlight are the same;

The vanished gods to me appear;

And one to me are shame and fame.


They reckon ill who leave me out;

When me they fly, I am the wings;

I am the doubter and the doubt,

I am the hymn the Brahmin sings.


The strong gods pine for my abode,

And pine in vain the sacred Seven;

But thou, meek lover of the good

Find me, and turn thy back on heaven.


Do lado de ca eu tenho a pergunta e não tenho a resposta. Do lado de la eu tenho a resposta mas não tenho a pergunta.

Por que a ignorância?

Essa é uma pergunta errada. 

Tanto quanto perguntar por que a causalidade?

 Dharma leva a felicidade 

Adharma a sofrimento.

Moralidade, ética...

Tudo isso não altera atman .

Como o filme que passa na tela. A tela não se altera. Mas é a tela que permite que possamos viver o filme da vida.

é satchitananda que permite que tudo isso existe.

Bem bem. Mal mal.

 Vc pensa que pode quebrar uma lei moral. Mas vc só consegue quebrar a si mesmo diante de uma lei moral.

Vc de olhos abertos e olhe para minha mão. Consegue ver? Sim. 

Feche os olhos. Consegue ver? Não.

Mas vc continua aí? Sim.

Vc está consciente que seus olhos estão fechados.

Agora imagine que vc consiga fechar a porta de todos os sentidos. Vc ainda está aí? Mesmo sem ver, sentir, cheirar...

Sim. 

Vamos adiante. Se vc suprimir seus pensamentos. 

Vc ainda está aí?

Intelectualmente vc pode até pensar que não. Mas intuitivamente vc dirá que sim. Ainda estou aqui. 

Quando a mente está vazia. E vc sem sentir , sem emoções.

Vc ainda está aí.

Isso é vc.

Agora inverta. Tire vc e deixe os sentidos e a mente. O que vc pode experienciar? Nada.

Isso é vc. O resto são apps.

Se eu quero saber se vc veio na aula eu olho seu nome na lista de presença.

Se vc quer saber se vc veio, na numa anterior que vc possa ter esquecido, mas nessa agora, vc não vai olhar seu nome na lista. Vc sabe que está aqui. É auto evidente para vc. 

Assim é o self. Vc é.  

Não é uma questão de crença.

A vida inteira está apontando para a consciência.

Holocromos:

 Eu tenho contato contato direto com o luminoso movimento da vida

Salto quântico: conexão com o coração.

Aceitar ser alto. 

Ter o brilho da conexão.

A energia, o magnetismo.

Aceitar a qualidade apolínia. Sou atravessado por esse arquétipo apolíneo. 

Não há lugar para melancolia, rebaixar-se para ser aceito. Temer ser julgado esnobe.

Apolo. Beleza. Harmonia. Clareza mental. Sensibilidade. Silencio. Espaço.Neutralidade. Sair da polaridade nem escassez nem abundância.

 Processo de auto realização da verdade. 

"Eu sou eterno. Eu sou a realidade que permeia todo o universo". 

Até que essa verdade seja assimilada como realidade. Que se converta em sua realidade cotidiana. Tanto quanto dizemos somos o corpo. 

Sharvana manana nidityasana

1- ouvir o ensinamento

2- pense através disso

perguntas vão surgir ao longo do tempo. Manana. Reflexão. Luta. Prática 

Procure viver sua vida de acordo com o ensinamento.

3- meditação. Nidityasana. Manter o insight em mente.

sábado, 22 de agosto de 2020

Oi Marília. 


Eu estou aqui esses dias vivendo um momento pessoal de transição. Deixando emprego e projeto de anos sem ter ideia do que fazer agora. Abrindo mão pra nascer algo novo ainda imprevisível.


Aí nesse período que eu não faço nada fiquei percebendo como é estranho não pertencer a uma aldeia. Onde as pessoas têm um lugar. Têm um que-fazer conectado a um todo. Isso é dado pela cultura. Se eu soubesse ao menos que preciso ir pescar, ou construir uma casa ou uma canoa, ou rezar, organizar um ritual em grupo... mas não. Estou sem lugar (acho que é a sensação que vc está tendo, apesar de eu não conhecer profundamente nenhuma cultura que me encante). Isso é terrivelmente angustiante. Não sei por quanto tempo se aguenta esse não lugar. Em geral se adoece ou se adere a uma cultura (ou sub-cultura, sub-tribo... dessas que a Ana insiste que não criemos aqui... um lugar de legitimação interna).


Ou seja, não temos saída. 


Então vi que isso não é só um processo de crise pessoal. Essa macro-cultura ocidental moderna nos desligou de qualquer fundamento cósmico e criou necessidades e funções artificiais e desvitalizantes.


Ter um emprego, ser útil, é uma pseudo pertença ao todo da tribo. 

O fato é que não somos uma tribo. Não somos uma aldeia global et cetera e tal.


Não é um novo emprego que vai me dar um pertencimento. Nem oferecer produtos na rede, workshops digitais etc.


Me parece que a delusão é achar que ter um emprego ser um dito cidadão respeitável e ganhar quatro mil cruzeiros por mês é alcançar o nosso lugar cósmico na existência. 


Então, dialogando com suas perguntas, a cultura ocidental moderna do mundo globalizado é uma grande delusão sustentada coletivamente. Sim.


Mas não creio que toda cultura seja uma delusão. Quem me diz isso é meu coração inocente. Acho que nós podemos encontrar um lugar cósmico e fazer isso coletivamente. Acho que é possivel uma criação coletiva de aldeias de lucidez e amor, num contexto de comunidades íntimas, e que podemos começar a achar nosso lugar pessoal (singular) num todo enriquecido.


A forma da cultura não importa tanto. Estar em criação não seria negar as formas culturais mas atuar dentro delas. Senão teríamos, por exemplo, de abolir todas as línguas para recriar uma linguagem natural... Não precisamos disso para estar em criação. Eu acho.


Podemos ver que há culturas vivas e vc mesma pode me responder se as conheceu. Não valeria trazer um discurso secularizado e olhar para culturas que cultuam o sagrado e rotula-las de delusivas.  Não, não. Isso seria exigir que todos pensassem como "nós" modernos e foi esse etnocentrismo  que a antropologia já derrubou há século.

 

E também podemos ver pessoas e, quem sabe, grupos de pessoas que resolveram atuar dentro da própria babilônia como pólo de amor e clareza mental. 


Ou seja, não tem saída, mas tem caminhos. Está difícil mas ainda estamos vivos. E temos razões para estar.


Hj enquanto estava meditando me vi não como uma pessoa mas como um lugar. Um lugar de manifestação do Todo, na grande teia de relações de originação dependente. Se tudo é a manifestação da grande mãe Kali (pra usar uma simbologia que me é cara) o passarinho, a galinha, o ovo, o vento, o sol, a nuvem, o outro ser humano ali a meu lado, se cada coisa é uma condensação em constante transformação do todo, cada coisa é uma parte desse todo em relação... Eu, que me pareço a mim como o grande e auto-centrado espectador  de tudo, eu mesmo sou uma parte do todo, eu sou um lugar de manifestação desse todo, de repente um nó da teia múltipla que se compõe e recompõe continuamente. 

Por um segundo a delusão se foi e senti com clareza de que vazio somos feitos e pela graça da grande deusa negra, que ornamenta sua nudez com um colar de cabeças humanas, pressenti essa comunhão cósmica na unidade. Um belo lugar cósmico para se encontrar não é mesmo? Saio da meditação e me pergunto: tem cultura capaz de conter essa percepção da vida?


Sim e não. Estamos condenados a sofrer. De solidão ou de amor. Não há lugar nesse mundo para uma cultura de tamanho amor como nosso coração anseia.


Mas podemos ter momentos juntos. Como esse agora. E não tem muita cultura humana por detrás da possibilidade de nos comunicarmos assim?


Somos herdeiros de 3 bilhões de anos de vida na Terra. O que vamos fazer com tamanha herança?

domingo, 26 de julho de 2020

O último texto e a passagem

Escrever.

Por que escrever?

Não sei se tem um porquê. Talvez tenha múltiplos. Se sou múltiplo terei múltiplas escritas e infinitos porquês.

Quais assuntos, quais caminhos, quais palavras, quais referências de fundo?

O caminho da escrita. Será como um rio que tem um fluxo definido? Mas... e as múltiplas nascentes, os múltiplos afluentes? Existirá um rio? Ou será o que chamamos rio águas que passam, pedras e terras e peixes... como é o rio percebido pelos diferentes sujeitos que nele habitam ou que por ele passam, navegam, pescam, banham-se, lavam suas roupas?

Rio passagem. Contínuo vir a ser. O devir do rio não é o mar é ser passagem.

Por isso nas histórias do Hesse o rio está lá como um guru. O rio e o velho. Velho é devir rio. Rio é devir velho. Mestre da impermanência, sabedoria dos que chegam ao fim da busca pela outra margem e percebem ali, na passagem, a terceira margem. Nem lá, nem cá. O caminho. Os “meios pelos quais” que a Ana traz com a técnica Alexander como princípio sem fim.

O que você sente com essa pergunta que ela fez: o que você sente se eu te disser que não importa quem você é, mas quem você pode vir a ser?

Não é sobre futuro.

É sobre ser em estado de mudança, de passagem.

Abandono de toda fixidez. O rio, o velho, o velho do rio que vira cobra, quem sabe vira lobisomem, mulher que vira onça... a natureza selvagem, na borda, na margem do rio, na margem do humano... do marulhar das águas tudo é movimento. Como é ser humano visto pela perspectiva do rio?

Abstratamente parece fácil. O intelecto chega à compreensão e se entusiasma com o conceito. Eleva-se, aspira, chega a uma espécie de samadhi, uma compreensão do tipo de quando se entende uma piada. Sim! Faz sentido. Viver no fluxo! As pessoas dizem.

Mas não somos só intelecto.

Vem o corpo e seus sentires. Que trazem o intelecto lá das nuvens da transcendência ao chão onde ainda agarram as raízes de profunda delusão e seus apegos e aversões. Aqui a dor é sentida, o coração trai, a voz trai, a fleuma trai, o humor cai... não gosto, estou oprimido, triste, muito triste, e vingativo, ou conquistativo, preciso vencer! Enraízo em árvore morta e não saímos para dançar quando Ele toca a flauta.

Ou seja, vem uma circunstância, uma pessoa, um barco na direção contrária, e perco a paz. Fecho os olhos e os ouvidos. Confusão. Tristeza. Que tragédia! Que conflito! Vivemos em conflito. Aí vem a Ana e diz: É possível viver sem conflito. E quantas pessoas vem ouvir o que ela tem a dizer? E dizem: oi, meu nome é conflito, me ajuda a sair dessa?

Oposição não é contra. Como posso compor com a força que me toca?

Numa aula da técnica Alexander pude ter uma percepção disso. Era um jogo, uma brincadeira. Uma pessoa tenta levantar e a outra vai tentar, com todas as forças, empurrando-a com as mãos, não deixar que ela se levante. Aí a pessoa de início começa a tentar ir na direção contrária a outra. Uma briga. E corre o risco de sucumbir. Pode até vencer mas terá de fazer muito esforço. Mas quando percebe que ao invés de ir contra pode se apoiar na força do outro... ela vai pra um lado, pro outro e vai compondo com a força do outro que o impulsiona para cima.

É o que ensinam as artes marciais: use a força do outro a seu favor.

Então a conclusão é: não existe contra. Tudo que chega até mim é a favor da vida. Tudo é um presente.

Desde que você encontre as novas sinapses. Novos caminhos neurais, novos caminhos musculares. E que pare de brigar.

Isso não significa que não tem emoção, que não tem desafio, que não tem frio na barriga...

Não é tudo ao simples apertar da tela. O músculo vai tensionar mas você pode perceber a tensão e ir reduzindo. E observando e encontrando outro caminho e outras composições na relação. Nada a fazer. E daí surge uma ação.

Por que isso é revolucionário?

Lao Tsé e Chuang Tzu estão para Confúcio assim como...

O nada a fazer só é revolucionário se ele nasce do distencionamento e não de uma busca de adequação à ordem do céu e da terra segundo a tradição. Em outras palavras, abrir mão do alvo mas não deixar de alegrar-se com o tiro. O arqueiro atira sem alvo nem mira...

Inibir a intenção, a ambição, o propósito maior... o que vem?

Entre o arqueiro e o alvo há muito caminhos. Entre a raquete e o outro lado da mesa a bolinha pode fazer quase infinitas trajetórias. Entre eu e você... entre eu e Deus... ô... tem caminho pra esse trem.

Voltemos a nos perguntar: por que escrever?

Quais assuntos, quais caminhos, quais palavras, quais referências de fundo?

Na famosa história da Chapeuzinho Vermelho aparecem dois caminhos. O que ela faz e o que o Lobo faz para chegar antes. A casa da vovó é um cruzamento de caminhos. Que caminhos outros a história não descreve? No encontro com o Lobo, Chapeuzinho vive uma transformação (a perda da “inocência”), uma nova fase de vida, uma iniciação... e abrem-se ainda outros caminhos a partir dali. 

Quem conheceu uma Chapeuzinho na vida real sabe que ela começou a ir muito mais longe do que a casa da vovó. Quem te viu quem te vê... Tem umas até que começaram a correr com os lobos...

A vida é feita de encontros, de encruzilhadas, de iniciações dentro de iniciações.

Não vou andar. Ando. Não vou sentar. Sento. Não vou escrever...

Comecei essa série de textos no início dessa jornada entusiasmado com a redescoberta da paixão pela escrita e a possibilidade de me dizer: sou escritor.

Depois de 36 textos escritos com o corpo, chego ao final da jornada abrindo mão dessa posição profissional. Não é possível ser escritor, para mim. Ter uma cadeira confortável (dessas que giram) na sede do Jornal do Brasil, beber cafezinho no corredor com os demais jornalistas (que era assim que nasciam para a fama os escritores que eu amava ler) nada disso é possível para mim que abri mão da escrita como um lugar de chegada.

Eu não sou escritor.

Eu só escrevo de passagem.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Da Jornada ao Bardo e de volta à Jornada


Viemos para a Vila XI no meio da Jornada. Com a companheira e a filha, deixei nossa casa de onde assistíamos os encontros com a Ana às segundas, quartas e sextas e viemos para cá nos lançar no desafio de viver aqui, juntos, esses princípios, esse novo modo de vida, bases para um outro ser humano emergir.

Estando aqui a Jornada ganha novas dimensões. Não que ela não ganharia se estivéssemos lá. Mas a nossa realidade agora é aqui. E os elementos que vamos trabalhando em nós vão sendo vivenciados no nosso cotidiano aqui, no convívio e sob as trocas de olhares de outras pessoas que estão vivendo esse processo coletivo.

Ampliação e intensificação das luzes e sombras de mim mesmo.

Falando das sombras, foi ficando claro para mim, uma imensa dificuldade em morrer.

No grupo, li o Alexandre usar a metáfora da tábua que ajuda a salvar o náufrago, mas que com o tempo fica difícil abandoná-la, mesmo depois que a tempestade passa.

Até porque, há um núcleo de defesa, de resistência, que cria as tempestades.

Tenho observado essas tempestades em mim. Minha mente cria monstros (Goya). Começo a desconfiar: será que há consistência mesmo nesse trabalho aqui? Será que não é tudo mais uma grande e velha inconsistência numa roupagem nova? Posso confiar nessas pessoas?

E, como a Ana diz, não tem guru. Onde então o critério, a luz do discernimento? Que horas que a tempestade passa? Eu me sinto muito perdido nessas horas.

Quando a última tempestade passou me veio que a pergunta relevante é: posso confiar em mim mesmo? Por que olhar tanto para fora nas horas de desconfiança? Posso acreditar nas fontes de alegria e de poder de transformação que existem em mim? Onde está o guerreiro que não pode se permitir ficar tímido?

Hoje isso está mais claro, mas uns dias atrás estava mergulhado na tempestade.

Um dos caminhos que trilhei aqui que me ajudaram no processo de abertura foi a leitura do Bardo Thödol, o livro tibetano dos mortos. Depois pude fazer uma sessão de holocromos e esse diálogo simbólico está dando clareza a caminhos internos.

Nesse momento quero contar pra vocês um pouco sobre a riqueza desse livro que estava na estante aqui da biblioteca da Vila XI.

Certamente as sessões de meditação com a Cuca diante do altar estão sendo um caminho para esse universo tibetano, que é novo para mim. Causas e condições para esse livro parar na minha mão. Ou melhor, se insinuar aos meus olhos, enquanto eu falava ao telefone... com meus pais! Muitas causas e condições, não é mesmo?

O livro tibetano dos mortos é, sob uma primeira perspectiva, um guia para a condução no estado após a morte até o momento de renascimento. O Bardo Thödol (Bardo = transição entre as vidas; thödol = libertação) guiará aquele que vai guiar o morto. O oficiante encontra no livro as palavras a serem sussurradas no ouvido do moribundo e, depois, para o cadáver, dia a dia, como tentativa última de sua compreensão da Verdade Mãe.

Uma possibilidade de iluminação e libertação do círculo do samsara desde os momentos finais da vida até a hora de seu renascimento, 49 dias após sua passagem. É um livro que contém instruções para lembrar dos ensinamentos recebidos ao longo da vida. Que sirvam, senão para a libertação definitiva, ao menos para se obter um bom renascimento já que o último pensamento (ou digamos, o estado mental no período do Bardo), torna-se a semente de seu próximo nascimento.

No livro há passagens assim: no dia tal você irá encontrar determinada divindade que emanará uma luz de determinada cor. Você irá sentir medo e vontade de fugir, mas acredite, reúna sua fé e abra-se para essa luz. Nesse momento você também perceberá uma luz opaca, e se sentirá atraído por ela, sentirá vontade de segui-la, mas resista, pois essa luz te conduzirá ao sofrimento do renascimento.

Este verdadeiro guia para alma pode ser lido e ser um guia para a vida, e não só para preparar para a morte, mas para seguir o caminho luminoso na própria vida.

Em que dilemas nos encontramos? Eu que estava aqui em meio a tempestade: confio e desconfio, creio e descreio, ora as pessoas parecem ser dignas de confiança, ora entram em descrédito ao meu juízo. Estou aqui buscando um caminho que parece luminoso e em seguida tenho medo dele. Prefiro o caminho da luz opaca da dualidade e não percebo que construo meu próprio destino de sofrimento.

Assim o livro trouxe essa clareza, me fez ver com clareza. Mais tarde lembrei as primeiras palavras espirituais que chegaram até mim, 20 anos atrás: Ore e confie!

Num dos prefácios do livro, o psicanalista Carl G. Jung diz que o livro é um processo de iniciação cujo propósito é o de restaurar na alma a divindade que ela perdeu ao nascer.



O que é alma? Quem somos? O que é a vida?

No alemão, diferentemente no sentido de soul em inglês, Seele significa a Realidade Última, a shakti, a psique coletiva, matriz de tudo, o Dharmakaya, o oceânico corpo primordial.

E assim, diz Jung:

“A alma certamente não é pequena, pois é o próprio Deus. O ocidente considera esta afirmação bastante perigosa, quando não francamente blasfema, ou mesmo aceita-a impensadamente e, assim, cai no mal da retórica teosófica vazia. Mas, se pudermos controlar-nos o suficiente para nos prevenirmos de nosso erro principal, de sempre querer fazer algo com as coisas e dar a elas um uso prático, poderemos talvez ser bem sucedidos em aprender uma importante lição a partir desses ensinamentos; ou, pelo menos, sermos capazes de apreciar a grandeza do Bardo Thödol, que confere ao morto a verdade última  e suprema, ou seja, que mesmo os deuses são o resplendor e a reflexão de nossas próprias almas. Por conseguinte, nenhum sol é eclipsado para o oriental como o seria para o cristão, que sentir-se-á roubado por seu Deus; pelo contrário, sua alma é a luz do próprio Deus, e o próprio Deus é a alma.

Estamos tão oprimidos, condicionados e obstruídos pelas coisas, que nunca temos uma oportunidade, em meio a todas essas coisas "dadas", de perguntar quem as "deu". É deste mundo das coisas "dadas", que o morto se liberta; e o propósito da instrução é o de ajudá-lo no sentido dessa libertação. Se nos colocarmos em seu lugar, obteremos uma recompensa não menor, já que aprendemos que o "doador" de todas as coisas "dadas" habita dentro de nós mesmos.

É necessária uma reestruturação radical do ponto de vista, à custa de muito sacrifício, antes que possamos ver o mundo como coisa "dada" pela própria natureza da alma. Trata-se de algo muito mais direto, mais vívido, mais impressionante e, por conseguinte, mais convincente ver que as coisas acontecem para mim do que observar como eu as faço acontecer. De fato, a natureza animal do ser humano faz com que ele resista em enxergar a si mesmo como o autor de suas circunstâncias.

Bardo Thödol é, então, um processo de iniciação cujo propósito é o de restaurar na alma a divindade que ela perdeu ao nascer."

Do mundo das coisas dadas ao mundo onde somos os criadores de nossas próprias circunstâncias. Esse livro me colocou de volta aos caminhos da nossa jornada.

Olhar o mundo não como algo dado, mas como uma co-emergência. Certa vez Ana escreveu:

“Não existe um mundo pronto onde passivamente recebemos informações. O mundo é construído num processo incessante e interativo com cada um de nós singularmente, com cada um de nós em sociedade. Todos os seres vivos estão ativos nessa criação.
Estamos ativos em cada ação que vivemos, sustentando por aliança ou por antagonismo.
Ao transmutarmos nossa percepção, outra "realidade" se faz presente.
Uma quarentena mundial é uma quarentena singular ao mesmo tempo. Todos na mesma situação e cada um tendo uma experiência singular.”

Uma imensa revolução está em nossas mãos! Uma revolução que se dá com a mudança nas nossas percepções.

No Bardo Thödol uma das recomendações é que a pessoa, diante das luzes e divindades, não se perca, mas conscientize-se de que tudo que aparece fora existe, na realidade, dentro. E nessa introspecção concentre-se em sentir, em si mesmo, a luz, o amor, a vacuidade, e que confie, se entregue a essa luz de si mesmo!

Quando assumiremos a autoria de nossos próprios pensamentos?

Quando olharemos os arames farpados que cercam nossos territórios e nos veremos co-responsáveis pela existência de arames farpados? E territórios e propriedades? E identidades e ódios? E guerras e campos de concentração?

E quando olharemos os arames farpados e, por detrás de todos os instrumentos feitos para machucar o outro, colaremos nossa mente num fluxo de amor e compaixão por toda a humanidade, pelos animais e todos os seres vitimados pela ignorância, ódio e apego?

Da dor à compaixão. Da compaixão à libertação.

Se não agora, ao menos na morte. Num momento de intensa atenção e dedicação.

Mergulho na morte sozinho, com intensa energia. Curioso e atento caminho passo a passo. Antes da transição tomo a seguinte resolução:

"Ó, esta é a hora da minha morte. Aproveitando-me desta morte, assim agirei, pelo bem de todos os seres sensíveis que povoam a amplidão ilimitável dos céus, a fim de obter o Perfeito Estado de Buda, dedicando amor e compaixão a eles e dirigindo todos os meus esforços à Única Perfeição. Aparecerei em qualquer forma que beneficiará todos os seres vivos sejam eles quais forem: servirei todos os seres sensíveis infinitos em número como os limites do céu."

Que palavras maravilhosas! Que volição benéfica a ser cultivada em vida e será a melhor possível na hora da morte. Vejo aqui um profundo diálogo com as raízes do cristianismo, que possivelmente passa despercebido aos cristãos. Jesus parte o pão e diz: tomai e comei este é o meu corpo. Qual o significado disso?

A inter-existência. A consciência de completa abnegação fez como que seu corpo agora seja o pão, o alimento, o fruto da terra que alimenta todos os seres. Ele e nós, se o compreendermos bem, estamos presentes em cada ser vivo. Não há divisão, não há separação. Eis o enigma da entrega de Jesus na sua paixão. Eis o convite de Buda a uma vida de compaixão. Não é um sentir amor pelo outro, é sentir-se inseparável do outro: eis o mistério do maha karuna que Thomas Merton foi buscar na Ásia, e o encontrou dias antes de morrer num trágico acidente após sua palestra sobre marxismo e budismo! Mortevidabudacristopãorevolução...

Grande Compaixão, alma do mundo...

Mas não é bem assim que as pessoas entendem. Vamos aos templos em busca do sagrado como quem vai a farmácia em busca de um remédio. E seguimos tomando nossas doses diárias de desconexão. Seja das mãos dos sacerdotes seja dos psiquiatras. O sonho da razão cria monstros.

A humanidade é desumana, mas ainda tempos chance...

No Bardo é dito ao morto:

"Ó nobre filho [fulano], escuta. Agora estás experimentando o Resplendor da Clara Luz da Realidade Pura. Reconhece-a. Ó nobre filho, teu presente intelecto, vazio em sua real natureza, não formado no que respeita a características ou cor, naturalmente vazio, é a verdadeira Realidade, o Todo-Bondoso.

Teu próprio intelecto, que agora é vacuidade, não deve, contudo, ser visto como vazio de nada, mas como sendo o próprio intelecto, desobstruído, claro, vibrante e jubiloso, é a própria consciência, o Todo-Bondoso Buda."

Somos a verdade. A clara luz.

Sem nascimento, nem morte.

Como será para mim e para você viver esta divina iniciação antes da morte?

Como será nossa vida a partir de então? 

Não sei dizer.

Em mim, essa leitura e tudo o que veio depois dela aqui em nosso convívio cotidiano na Vila XI, percebi um renascer de uma disposição para viver que há muito eu não experimentava. Aquela energia que me fazia apaixonadamente preparar uma aula, nos meus primeiros tempos como professor. Aquela paixão de criar projetos novos... me fez olhar aqui para as pessoas, a terra, a família e pensar: vai dar certo! O quê? Minha companheira perguntou. Não sei, qualquer coisa. Tá dando certo. Não importa tanto o conteúdo, os personagens, mas a abertura. Estamos falando de amor.

Por isso, esse sentimento de amor, de convicção que encontrei nesse Bardo, me lembrou dos êxtases de Teresa de Ávila e suas angústias de separação. Em especial esse poema sobre o morrer libertação e o viver em meio a ferros. Analogia para os estados de alma que experimentamos aqui em nossas tempestades e claridades, não é mesmo?


O que dizer para nossas almas quando nos demoramos em nossas tempestades? Que palavras e encantamentos podem ser ditas quando estamos prestes a sucumbir? Seu último pensamento, sua próxima vida. Se aqui morremos e renascemos em vida... qual a próxima vida receberemos na nossa próxima respiração?

Vivo sin vivir en mí
y tan alta vida espero
que muero porque no muero.

Vivo ya fuera de mí
después que muero de amor,
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puso en mí este letrero:
Que muero porque no muero.

Esta divina unión,
y el amor con que yo vivo,
hace a mi Dios mi cautivo
y libre mi corazón;
y causa en mí tal pasión
ver a mi Dios prisionero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué larga es esta vida!
¡Qué duros estos destierros,
esta cárcel y estos hierros
en que está el alma metida!
Sólo esperar la salida
me causa un dolor tan fiero,
que muero porque no muero.


Acaba ya de dejarme,
vida, no me seas molesta;
porque muriendo, ¿qué resta,
sino vivir y gozarme?
No dejes de consolarme,
muerte, que ansí te requiero;
que muero porque no muero.