Hoje fui pro yoga de rua, lendo desde ontem a dissertação de mestrado da Lua Fortes. De Terê pro Rio deu pra ler mais um tanto.
Cheguei no aterro do Flamengo e o contraste:
De um lado da ciclovia, no gramado que costumamos usar estavam as meninas: todas com aquele uniforme de roupa de treino. Todas brancas e jovens. A professora ajudava uma a uma a entrar no shirshasana e então tirar aquela fotografia.
Tentei quase chegar pra dar oi e convidar mais uma vez a professora pra vir nos dar aula um dia (faço isso para que um dia ela venha mesmo, yoga de rua é onde todo mundo é bem vindo).
Mas na hora que o Walter, que hoje estava com um belo paletó, perguntou: vai falar com elas?
Achei melhor não.
E ali do outro lado da ciclovia, no outro gramado, também na sombra, a minha turma de diversas cores roupas gêneros idades e condições físicas esperando o professor do dia.
Umas trezes pessoas deitadas ou quase.
Alguns já domiam. Um deles com chikungunya. Uma moça disse que estava muito entupida e resfriada. Ao lado dela um amigo vindo pela primeira vez, que logo logo ia abrir uma latinha.
Todos estavam ou doentes ou cansados.
Essa é a realidade da sociedade do cansaço não é mesmo?
Falei sobre yoga ser feita de pijama (já pensando no vídeo daquela indiana e nas meninas com aquelas roupinhas). Mas sobretudo para refletir a nossa realidade ali. O problema da aula de yoga com hora marcada é que nem sempre é nosso melhor momento.
E então propus começar com um descanso. E que na hora que acordassem faríamos a aula.
Conduzi o grupo com reflexões sobre as estruturas opressoras. Descansar não para ganhar forças para trabalhar mais como funcionário do sistema. Mas para descobrir sua potência de vida, uma vida muito maior do que a das sociedades humanas. E estavam ali para nos ensinar as árvores, o céu, os pássaros, o mar...
Descansar para se perceber livre, potente, vivo.
Deixei o silêncio e fiquei por ali. Cuidando de olhos aberto do espaço.
De vez em quando um olhava e lá estava eu. E voltava a dormir.
Alguns outros alunos foram chegando atrasados e, achando que a turma já estava na tal da postura final, iam deitando tb.
Passou um grupo com som alto fazendo campanha pra deputada estadual de algum partido de direta. Alguns abriram os olhos e pasmem: voltaram a dormir.
Tudo passa. Até mesmo os políticos do momento. Aliás a primeira coisa que ouvi do Walter foi que estava com medo de distribuir santinhos do PT e do PSOL porque poderia perder o bolsa família. Ouviu esse boato e acreditou. Veja só. Respira André. Vamos yogando.
E assim ficamos. Passados 1 hora de sono 3 pessoas sentaram e meditamos em silêncio sem nenhuma condução.
Quando o sono chegou a 1h e meia fui chamando a turma porque já era hora de irmos almoçar.
Repeti as falas do início.
Fizemos alguns alongamentos.
Algumas propostas de pensamentos de auto cuidado: como a que nós mesmos podemos abençoar esta vida que temos tido neste corpo/biografia até aqui.
E lá fomos nós a caminho do restaurante.
Meu PF preferido: omelete com batata frita. Arroz feijão farofa e pimenta. Sentados na mesa com dignidade e litrão!
É isso.
Uma vez um professor visitante disse: yoga de guerrilha.
***
Ainda que você esteja trabalhando neste sistema, eu te acho a pessoa mais anarquista que conheci até agora.
Agradeço sua existência sempre, Dom André.
(Mensagem carinhosa do Gabriel após ler esse relato)
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