sábado, 20 de junho de 2020

Nem egoísmo, nem altruísmo.


Sento para meditar.

Observo a respiração.

Vem pensamentos. Alguns ignoro e volto a respiração.

Alguns olho, desenvolvo, descubro a polaridade, olho ambos em mim. Respiro.

A mente esvazia, volto para a respiração.

Assim vai, respiração, pensamento, respiração, integração, respiração.

Até que me chega um momento, sem planejar, se esperar, me pego sentindo uma brisa fria e gostosa em minhas mãos.

Esqueço a respiração, esqueço os pensamentos, fico ali no friozinho visitante.

Quem é você?

O vazio, o frio, a mão, o agora.

* * *

O grupo da jornada finalmente pode se encontrar. Num lugar sem tempo e sem espaço, Ana convidou o grupo para fazer uma trilha na floresta cujo destino seria o alto de um monte. "Vamos olhar a vista lá de cima" ela propôs.

Éramos mais de cem. Ao longo da jornada vinhamos aquecendo esse vínculo e o trabalho coletivo criou campo para esse encontro. Estávamos todos felizes, entusiasmados. Alegria e bate papo durante o início da caminhada. O sol, o céu, o frescor da mata a nossa volta. Íamos chegando a uma parte da trilha mais fechada. "Uma espécie de labirinto, Ana revelou, se viéssemos antes eu tenho certeza de que não conseguríamos achar o caminho. Mas agora eu tô sentindo que a gente está preparado. Mas estar preparado não é garantia. Para onde vamos não há planejamento que nos garanta o sucesso. Vamos ter que atualizar constantemente."

Dizendo isso deu aquele senso de aventura e mistério, que ela costuma dar criando campo para uma abertura no grupo, abrir mão das respostas prontas. Uma trilha sem mapa. Vamos precisar ler nossos instintos. Farejar o caminho. Perceber o movimento da emoção.

Movimento conceitual.

Movimento da emoção.

Quando seguimos o movimento conceitual, é o caminho da razão, da matemática. Isso tem sua graça. Uma boa partida de xadrez é um embate matemático. O equilíbrio das peças, as regras dos movimentos, o que pode, o que não pode, e o jogo vai se estabelecendo num equilíbrio de ataque e defesa, de disputa equilibrada por posições. Até que um dos oponentes vence uma batalha. Toma uma peça de valor. Desequilibra o jogo e daí em diante a tendência é ganhar. Num jogo de mestres, assim que perde uma peça importante, o adversário já desiste. Não é fraqueza. É que matematicamente o jogo está ganho. Não tem distrações. O jogo está definido.

Levamos a vida no movimento mental. Estamos acostumados a ele. Mas isso não nos garante a vitória sobre a confusão, a desconexão, a doença, a ignorância, o sofrimento. Porque o movimento emocional tem suas próprias leis e quando nos deludimos com o atraente jogo mental, nos esquecemos dos caminhos do sentir. Deixamos as sensações, o corpo, e os sentimentos em segundo plano e seguimos mentalmente em busca das segundas intenções, já que as primeiras estão escondidas para nós mesmos.

Então o convite da jornada tem sido seguir, ver de perto, olhar, para os movimentos da emoção.

E quando a Ana nos convidou para essa trilha disse que teríamos de acessar esse movimento, farejar o caminho, permitir-se sentir. Essa coragem envolve admitir coisas que não estaríamos prontos para admitir nem para nós mesmos. Ainda mais ali, no meio de cem pessoas. Deu medo. Mas deu alegria também. E a alegria foi maior do que o medo. Seguimos.

Chegamos a uma bifurcação. Um caminho da esquerda e um caminho à direita. O grupo parou. Cada um consultou sua intuição. Fomos pelo caminho da esquerda. Caminhamos, caminhamos, caminhamos. E a trilha nos levou a um paredão rochoso. A pedra que leva ao topo do montanha. Dava para ver o topo. Mas não tínhamos equipamento para escalar. Não era por ali. Tentemos a trilha da direita.

Voltamos e seguimos o outro caminho. Caminhamos, caminhamos, caminhamos. a trilha chegou ao fim num imenso precipício. Olhando para trás, dava para ver lá no alto o topo do monte. Mas ali era o fim da linha. Caso contrário a queda era certa.

Voltamos à bifurcação e meditamos. Fomos integrar as emoções que nos surgiram durante a caminhada nas duas trilhas.

Cada um fez o seu execrício de olhar as emoções.

Eu, que estava perto de pessoas que tinham filhos ou eram educadores, olhei para essa relação com as crianças.

Quero que a criança não passe pelas dores que passei. Isso me leva a um movimento de proteção. Essa é a trilha da esquerda. Tento ser bom para elas. Lembrei de uma cena que vi na infância que ficou marcada na memória. Foi a perda da inocência. Não quero que as crianças percam a inocência. Ajo marcado por esse medo. Minha bondade não é boa, é medrosa. Bato contra a parede.

Volto e trilho o caminho oposto. Quero que a criança faça o meu caminho. Aprenda o que aprendi. Passe pelo que passei. Na base de minhas ações tem uma emoção de raiva. Se sofri, que sofram também. Me vejo numa emoção de despeito. Reproduzo exatamente a violência que me fizeram passar. Isso é sem querer. Mas é esse o movimento da emoção. Eu não faço fisicamente. Mas minha garganta se entope, a mágoa aparece. E não consigo fingir. As crianças sentem. Caio no precipício.

Volto. Nem um nem outro. Medo caminha junto com abandono. Proteção com frieza.

Vi a criança numa relação em que ela era subjugada pelas mais velhas. Sofri com isso. Depois a vi com uma criança da mesma idade, de certa forma, mandando na brincadeira. Minha mente disse que isso também não era certo. Mas minha emoção me denunciou, sentindo uma alegria. Uma pequena vingança. Minha mente é Descartes. Meu coração é Shakespeare.

Uma vontade fraca. Uma vontade forte. O meu caminho, o outro caminho. De um polo a outro.

Estou ali com o grupo, diante dos dois caminhos. Nenhum dos dois nos levou ao alto do monte. Acho que era isso que Ana estava querendo nos mostrar com essa caminhada. Eu não sabia o que se passava dentro de cada um dos participantes ali. Mas a meditação foi ganhando um nível de silêncio maior, estava mais fácil concentrar e esvaziar.

Então me veio mais um pensamento. Na base de minha emoção está: eu quero ajudar. Quero que sigam meus conselhos, que minha intervenções sejam úteis. Quero um mapa. Um método. Bastaria repetir. Quero fazer o outro ver. Na base dessa emoção tem uma crença: Eu vejo, mas o outro não vê. Volto para mim: eu vejo e não vejo.

O que está escondido? O que me trouxe aqui?

Sigo a meditação, respiração, pensamentos, a montanha, atualiza, nem espontâneo, nem controlado, nem egoísmo, nem altruísmo.

Quero ajudar. Tenho medo de atrapalhar. Se atrapalho... Não sou legítimo . Pai é aquele que ajuda. Quando ajudo eu adquiro legitimidade. Revelou -se:

Eu busco legitimidade. Eu busco me tornar legítimo.

* * *

Marisa Monte gostou de ouvir uma pessoa desafinada. Ampliou-lhe as possibilidades musicais.

Desafinado. Afinado. Só conhecemos o canto afinado. O desafinado se cala. Outras tonalidades. Não conceitual. Não dá pra saber. Não dá pra explicar. Não dá pra traçar roteiro. Nada fazer. Fazer livre. Mas não um livre oposto ao padronizado. Um fazer. Não dá pra explicar. O jeito é confundir.

O mundo doente. Se estou bem estou mal. Se estou mal estou mal. Não há saída.

Escola. Fora dela sou louco. Dentro dela sou louco. Se a critico sou louco. Que fazer?

Não resolve. Dissolve.

Brisa fria em minhas mãos.

Acho que tenho poder. Rezo pelo outro como se fosse fazer alguma diferença. Não tenho poder. Me rendo. Rezo pelo outro e contemplo o poder inerente a vida. E os pássaros cantam. E a brisa das mãos penetra a perna.

E assim todo o corpo... vou sentindo o mundo sub atômico.

E, não sei como estava o processo de cada um ali na floresta, mas o fato é que todos ao mesmo tempo abrimos os olhos. À nossa frente já não havia mais floresta. Nem trilha da esquerda, nem trilha da direita. A floresta se abriu. Era um campo aberto. A montanha desapareceu! Caminhamos. Ocupamos o lugar onde antes era a montanha, olhamos para o alto e vimos as paredes da montanha. Entramos! Estávamos dentro da montanha! Que surreal!

Ali dentro a mesma pergunta nos contagiava: para que subir a montanha se podemos estar dentro dela?

E assim ficamos, contemplando o lugar que chegamos juntos.

No xadrez das emoções, a grande figura é o cavalo. Os bispos cercam a montanha pelas diagonais. Torres pelos lados. Rainha protege as peças. Os peões avançam. O rei fica resguardado. Mas só o cavalo pula. A peça que não anda reto. Salta para frente e para o lado. Nenhum trilha nos levaria até lá enquanto andássemos pelo caminho reto. O cavalo desorienta. Por isso cheque mate de cavalo é a maior elegância na tradição do xadrez. É o menos óbvio. E assim nosso grupo experimentou um elegante cheque mate. A travessia se completou. Estamos dentro da montanha. Para onde iríamos então?

quinta-feira, 18 de junho de 2020

A terceira mão


Seguimos na jornada da travessia.

Já uma mês e meio se passou. E nos últimos dias o foco lá em casa foi arrumar as coisas para viajar para Piracaia.

Sim, a travessia para nós foi também uma travessia de casa, de estrada, de amigos, de cidade, de paisagem, do virtual para o presencial.

A gente começou com a rotina de três vezes por semana ir pro cantinho lá da nossa casa e ouvir o encontro com a Ana pelas manhãs. Ao longo dos dias íamos vivenciando, experienciando os processos... 

E aqui esse livro vai sendo escrito com essas vivências e criações. Escrever como ato!

Enquanto escrevo sou. Quem sou? Que força é essa que sinto quando entro aqui em processo nessa arte de criar pensamentos? Hoje em dia, usando teclado do computador uso duas mãos para escrever. Mas sinto que existe uma terceira mão. A que me impulsiona a um pulsar, contemplar, criar... tudo isso ao mesmo tempo. Será essa a mesma terceira mão que nos empurrou para cá?

Em nós, já desde antes, estava a vontade de estar lá, ou melhor, aqui. Especialmente quando Ana e Fábio abriram as conversas sobre a Vila XI, um espaço de moradia, convívio e... principalmente: serviço.

Serviço à terra. 

Tudo que estamos trabalhando na jornada tem a ver com a arte de escutar. Escutar o outro, escutar a si, escutar a vida.

Escutar os velhos padrões da mente, dos sistemas, dos enredos que ficamos mestres em contar enquanto nos enredamos em ciclos de sofrimento e esquecemos de olhar o real.

E qual o fazer emerge da escuta?

Foi então que ouvi Ana e Fábio falando sobre a necessidade do serviço.

Tão simples, tão antigo, e tão original nas conversas... (a gente quase nunca ouve a Ana falar disso. É claro, a toda parte há gente falando em servir, mas acaba que o serviço nasce de uma motivação moralista, dualista, cheio de segundos interesses... quando é que o serviço nasce genuíno?)

Desconstrói, olha o conflito, integra, olha a dor, integra, desconstrói, desfaz certezas, esvazia, desilude, esvazia... e o que fica? 

Servir.

Servir a quem? 

Qual o serviço que não entra na roda do sofrimento e termina por servir a manutenção do sistema de opressão? São questões que me tocam nesse momento de crise com a profissão.

Como saber?

Não é questão de saber... é questão de ouvir... ou melhor de se deixar empurrar pela terceira mão.

Nessa semana ouvi a história da iluminação de Kuan Yin.

Quando jovem, Miao Chan, contraria a vontade de seu pai, um rei cruel, e consegue evitar o casamento e adentrar num monastério. No entanto, o rei faz de tudo para prejudicar seu caminho: pediu que dessem a ela os piores serviços. Quando o pai soube pela superiora do convento que uma força divina ajudava sua filha a manter a diligência no serviço, ele ficou furioso e mandou incendiar o mosteiro com as monjas dentro. Porém, uma tempestade debelou o fogo. Depois mandou executar a jovem, mas no momento da execução a espada do algoz se partiu ao meio. E outras armas também ruíram. Até que um tigre celestial leva o corpo inanimado da moça e a leva ao interior da floresta onde é recebida por um ser celestial, vestido de azul. Juntos fizeram uma jornada aos infernos para que os espíritos em sofrimento pudessem ouvir as orações da jovem. E o inferno se transformou num paraíso de alegria. Instrumentos de tortura se transmutaram em flores. Por fim a alma da jovem volta ao corpo na floresta e o Buda aparece para ela e a convida a um mosteiro antigo numa ilha, habitada por imortais. Após 9 anos ela atingiu sua meta e foi entronizada para que o mundo pudesse se beneficiar de sua iluminação. Proclamada soberana do céu e da terra, e um Buda, recebeu seu novo nome: Kuan Yin. Com seu poder de devoção e propensão ao sacrifício ela transformou seu pai, de um rei tirano a um homem compassivo. E sua mãe também se tornou sábia.

Essa história tem muito detalhes, aqui é só um resumo.

Mas um deles me marcou muito.  

Quando jovem, ao recusar o pedido de seu pai para se casar ela disse:

"Meu desejo é curar a humanidade de todos os seus males, por meio da bondade."

A terceira mão.

As duas mãos calculam, pesam, conversam, analisam. Agem, colhem os frutos. Vêem as polaridades. E até se juntam trazendo um vazio criativo no centro. Mas existe uma terceira mão. Em mim, sinto que ela me empurra mais ou menos no meio das costas. Impulsiona meu tronco ligeiramente a frente ao passo que sustenta a coluna. Sutilmente abre o coração que se ilumina de uma alegria quente como o sol no fim de tarde. Me faz acreditar no amor ou algo que tenha um nome para isso. Me faz confiar na vida e que tudo vai dar certo. Me empurra em direção a bondade. Pelo menos até aqui ela nos trouxe. Vamos ver até onde vamos.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Liberdade, radicalidade, amor e vacuidade na educação


Há alguns anos venho observando as conversas sobre liberdade.

A luta de classes: adultos versus crianças.

A luta nas classes.

Luta no interior do adulto diante da luta das crianças.

Quanta luta!

"Bota na aula de luta que resolve!"

Quando comecei a gostar do imenso desafio que é estar à frente de um grupo de crianças e estar, de algum modo, ajudando-as...

Desde lá, já me encantavam ideias revolucionárias sobre educação.

Um dos primeiros revolucionários que li, foi um que criou uma escola onde as crianças e os jovens tinham a liberdade de escolher o que fazer. Inclusive a liberdade de nada fazer. E ele mostrava os maravilhosos resultados. Mesmo que não estivesse em busca desses resultados.

Ele dizia assim: gostaria antes de ver a escola produzir um varredor de ruas feliz do que um erudito neurótico.

Liberdade sem medo.

Depois conheci vários outros revolucionários. Cada um com um tom. Mas o certo é que dá pra fazer diferente no campo da educação. E dá pra ver com clareza que não fazemos diferente, enquanto sociedade, porque... bem... porque aí tem coisa... é complexo demais isso... multidimensional.

Se a gente não se pre-ocupa, cria um bom ambiente, um bom adulto preparado pra não atrapalhar, as crianças vão, por seu próprio interesse, fazer suas buscas, trilhar seus caminhos.

Quem somos nós, adultos? Preparados ou não. E como nos vinculamos na relação com as crianças?

No último encontro da jornada vi que a radicalidade poderia ir mais longe do que eu jamais havia pensado. E é por isso que me animei a escrever. Pra trazer as lacunas abertas de meu corpo.

Radical.

Radicalismo não é extremismo, nem fanatismo. É ir lá na conexão com as raízes.

Sempre busquei as raízes das coisas.

Quando comecei a pensar achava que, ao ver as causas históricas das contradições da vida social, eu estava indo às raízes. Bom, então temos que fazer uma mudança nas estruturas que compõe a história... depois fui indo às raízes das raízes... e a raiz de toda a raiz é viver com raízes nesse real. Isso é uma jornada e tanto.

Mas no encontro de ontem ouvi uma radicalidade que me pareceu ainda mais profunda, mais anterior.

Ouvi uma conversa assim:

O que você deseja para a seu filho?

Que ele seja feliz.

Ótimo, pensei eu. Mais um do time. Já abriu mão de querer escolher a profissão do filho. Já abriu mão de escolher e tentar pre-definir tanta coisa pro filho. Tá resolvido.

Mas não tá.

Você consegue abrir mão de desejar alguma coisa pra ele? Inclusive abrir mão que ele seja feliz?

Essa pergunta... nos pegou. E fez ver que as atitudes de uma criança estão presas nesse campo de demonstrar a felicidade ou a infelicidade para os pais... conflito. A raiz da raiz do conflito está no desejo.

E a pergunta me trouxe ainda outra:

Abro mão de ser pai? De tê-la e vê-la como filha?

"Vossos filhos não são vossos filhos, lembra a poesia de Gibran, são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma"

O poema já foi escrito. Resta-nos vivê-lo.

O que significa pensar em termos de pai e filho?

O que está pre-determinado nessa relação?

O que vem implícito nisso?

Que jogo de poder?

O que o inferior tem que fazer para agradar o outro, para obter o reconhecimento do superior?

As sensações corporais agradáveis de ter sido reconhecido, acolhido, visto por ele (ao agradar ou ao desagradar, o que é diferente mas é o mesmo)... são essas as sensações que buscamos em tudo que fazemos vida a fora, tanto quanto evitar as sensações que vieram de não ter sido reconhecido, acolhido ou visto...

"Está na cara que o medo está na medula..."

As buscas "inconscientes"...

E aí a gente fala de liberdade na educação mas nunca se perguntou sobre as coisas que estão nas raízes dos vínculos, nunca olhamos pra isso.

Ana nos fez ver o esforço que a criança passa a ter que fazer para ser feliz para atender o desejo do pai. Mas felicidade não vem com esforço.

E nem a amplitude genérica embutida no desejo dele ser feliz... garante a liberdade para o outro, a liberdade para a relação, a liberdade para mim.

Preciso abdicar de qualquer intenção.

Inclusive da intenção de ter a garantia de que abdicando da intenção isso trará qualquer grau maior de liberdade.

Abdicar das intenções por princípio.

Quando desinvisto de querer que minha filha seja feliz, libero-a para ser o que for que ela possa ser, e que já é, ao invés de desenhar um caminho para ela trilhar seja para me agradar ou desagradar, sendo feliz ou não.

Liberdade para que ela componha totalmente a sua história de vida. Que é na verdade o que vai acontecer, quer eu faça ou não exercícios aqui. Cada um comporá sua própria história. Aqui a gente só está se alinhando ao fato.

Posso olhar essa pessoa que aqui está... não com o filtro que me faz ver uma filha? Mas uma pessoa a mais que está aqui com a gente? Vivendo, assim como nós, adultos... vivendo.

Não estou contradizendo Hellinger... ainda vamos integrá-lo nisso. Mas é preciso antes fazer desabar a torre das visões estabelecidas.

Só posso ver o outro como pessoa se abro mão de qualquer expectativa sobre ele... mesmo que seja a mais nobre e a mais livre... abro mão de desejar que ela seja livre para ser ela mesma... isso vai dando um nó na cabeça... vai trazendo a percepção da vacuidade.

Não sou. Não és.

Para onde vai o emocionar encantado, aquele encanto de ver "minha" filhinha fazendo isso ou aquilo? Posso viver sem essa emoção? E ainda assim amar o outro? Será que o amor não é o que virá justamente quando me desfizer dessa emoção que tem posessividade em seu fundo?

O ato educativo de uma vacuidade em relação a outra vacuidade.

Isso é revolucionário demais?

domingo, 14 de junho de 2020

Aquietar e falar


Silêncio. Silêncio. Silêncio.
Pulsar. O pulsar e o silêncio. O silêncio e o pulsar.

Silêncio ruim, silêncio duro, “Cala a boca!”
Quanta palavra presa... Quanta ferida aberta...
Silenciamento. Invisibilidade.
"Ninguém veio ao mundo para ocultar-se."
Fala que cura, fala que liberta. Explosões de fala.
Fala, fala, fala.
Se abre, se mostra, se ama.

Silêncio. Silêncio. Silêncio.
Ouço o som do silêncio.
Silêncio bom, silêncio em paz. “Fica mais um pouco, não precisa dizer nada, só fica.”
Quanta presença boa. A natureza. A pessoa amada. Eu comigo mesmo.
Silêncio que cura, que organiza, que recomeça.
Palavras são tangentes. O centro é silencioso.
Se olha, se cuida, se ama.

Fala atenta. Nobre palavra. Nobre silêncio. Presença.
Fala dispersa. Tagarelice. Mente agitada. Fugas.

Tento o silêncio e ouço a profusão de pensamentos agitados.
Não existe silêncio!
Eckhart Tolle: tem sempre um ruído, como um rádio ligado. Você pode fazer silêncio, mas tem sempre um ruído no fundo.
Percebo em desespero: não existe silêncio! A tagarelice não para!
Os ruídos são as interferências do mundo ambiente no mundo próprio.
Ouço vozes. Quantas vozes insisto em carregar? 
Biopoder, biopolítica. Servidão.

“Vai ao coração. Lá reside tua mente.”
Olha as crianças! Como brincam silenciosas.
Como de repente explodem.
Como de repente riem.
Como de repente conversam.
Como de repente calam... mudança... mudança... mudança.
Sem transições.
Qual o segredo?
Em mim, percebo as mudanças, mas há uma força que não se rende ao fato. E fico remoendo, ressentindo, recriando, antecipando... ruído, ruído, ruído... o drama, a história, a imaginação, a ficção, a projeção... eis o alimento da mente dispersa.

Inibir a ação mental que não se rende ao fato. Render-se ao fato. Como simplesmente esquecer a ficção, a imaginação, o roteiro, o sentido, as explicações e repousar no fato? É tão arriscado perder todo o drama... nele sou o protagonista de um épico, onde as maldades são justificáveis, os atos heroicos são exaltados... Será que nunca vai acabar esse drama?

Uma história: Vem alguém. Vem alguém. Alguém concreto vem. A mente inteiramente atordoada, perdida em si mesma, em meio a seus próprios fantasmas. Mas alguém vem. Quantas vezes um encontro concreto já me tirou do infinito de confusões? O encontro. O real. O concreto. A diferença. O conflito, o incômodo. O espelho, o incômodo, a revelação. Sim, está em mim também. Sim sou eu. E de novo volto para mim: olho, afino, decanto. Trabalho, reconheço, libero-me. Surge um espaço de criação, uma brecha de pensamento livre, um vazio para uma ação. A liberdade num lampejo. Mas e o outro? A mente insiste. Deixe o outro em seu caminho próprio. E de tudo isso, algo vai se processando, os fantasmas da mente, a concretude das ações, das falas, das leituras, dos encontros, até que nova brecha vai se abrindo. Uma nova revelação. Um novo estado. Um novo vínculo com o mundo. (Se não tivesse o encontro, o conflito, a fala, mesmo que tagarela, não haveria esse deslocamento e essa revinculação com o mundo. O outro me abre portas de vinculação com o mundo, com o território do sistema mais próximo a ele, mais presente em seu cotidiano. E me aproximo. Dói a dor de dar-me conta de meu pequeno mundo de outrora. Dói e me move). E de novo o silêncio. A calma. Momentânea eu sei. Mas um respiro de calma. Contemplo, escrevo, converso. Escuto melhor agora. Vem alguém? Não tenho pressa que venha agora. Porque agora que aqui cheguei já não preciso de alguém. Se vier, sorte. Se não vier, sorte também. Agora me sinto em comunicação com o mundo inteiro. Comunicação: muni é silêncio em sânscrito. Comunicação é silêncio em comum. Estou pronto para o amor.

A mente no coração é silenciosa.

A escuta do silêncio. A escuta do som. O ritmo.

Quem não tem ritmo é porque não sabe escutar.

Escuto. Mesmo o silêncio escondido no gesto verbal do outro. Escuto.

Postura de aprendiz: primeiro e último asana.

Encontro no silêncio. Encontro silencioso. Como amantes:

“Teresa, quando você entra em oração o que você fala com Deus?”
“Eu não falo. Eu escuto.”
“Ah é? E o que ele te fala?”
“Ele não fala, ele escuta. Não sei se você consegue entender. Mas é o máximo que consigo explicar.”

Neste silêncio em que escrevo ouço as vozes do mundo. Não mais perturbam minha mente. Ouço a beleza e a tranquilidade do mundo não humano. Ouço o amor dos humanos (they are really saying: I love you). É o que move cada um. Ouço a bondade, sem ruído. Percebo e recebo o amor de todos. Eu honro todos os seus ancestrais. Eu honro a sua existência. E assim, e só agora, estou pronto para falar.

Falar como expressão de uma presença. Aqui estou. Junto a essas palavras.

A fala presente. Assim como ando, ando. Assim como respiro, respiro. Assim como falo, falo.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

"Não tem como dar errado"


"Não tem como dar errado."

Se ao invés de me colocar como alguém que está criando algo eu me coloco como alguém que está criando a si mesmo não tem como dar errado.

Nove de copas: "Aquilo que já foi vivido é eliminado."

Por que fala?

"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como a minha sombra."

A realidade existencial da sombra...

Primeira história: Acordou de manhã e não era mais a pessoa, mas a sombra. Não decide, não fala, nem mesmo procura a luz ou o escuro, surge e desaparece sem escolha. Ao fim do dia descobre em sua própria realidade existencial a única liberdade possível. Adormece feliz.

"Sacrificar os sentimentos que nos agrilhoam e que nos nutriram."

O que nutre, aprisiona.

Segunda história: Não queria desperdiçar a existência. Passou a vida de forma muito construtiva. Tanto construiu que, ao final da vida, postou-se na torre mais alta que erguera, o lhe valeu grande orgulho, e, lá do alto, foi contemplar o todo de sua obra. Perplexo, deparou-se com os muros de sua própria prisão. Sentiu fundamente o desperdício de sua vida, realizando justo aquilo que tinha mais medo.

O I Ching fala: desintegração.

"Quando o fruto apodrece a semente se desenvolve."

Conservar é não desenvolver.

Terceira história: Após o almoço foi levar as cascas e os restos de comida na composteira do terreno ao lado. Retirou a terra com a enxada, abriu espaço para o lixo orgânico. Tomado de curiosidade, no entanto, quis olhar como andava o que havia deixado na semana anterior. Retirou a terra e as folhas de cima. Estava quente. O alimento apodrecia. Saía fumaça. Pequenos seres ali faziam seu banquete e cresciam. Quis chegar mais perto. Cheirar. Mais perto... e algo extraordinário aconteceu. Lembrou-se do mesmo cheiro do dia do enterro de sua mãe. Chorou a dupla morte: de sua mãe e de suas ilusões. Olhou para o lado e vinha chegando uma serpente que lhe beijou sentidamente o rosto. Ali ficou, o tempo necessário até a troca de pele. Seguiu rastejando com sua mãe, que lhe mostrava, por debaixo das folhas secas das árvores, o segredo da vida. "Partiram em direção a dimensões emocionais mais amplas."

"Queria sentir isso sem achar que vou morrer"

Intensidade! Para além das motivações.

Quarta história: Ator, prestes a entrar em cena. Sente todas as reações orgânicas de seu pânico de público, o mesmo temor e tremor de sempre. Não consegue se acostumar ao hábito. Vai sozinho a um canto atrás do palco, acende uma vela e reza: que dessa vez seja diferente. O anjo vem e lhe pergunta: quer viver sem medo? Sim, é tudo que mais quero. O anjo lhe diz: que assim seja. O ator vai. Sente uma estranha liberdade. A ausência de medo. Porém, não consegue atuar. Está sem vida. Corre de volta a ver se pega o anjo ainda na coxia. Ele está lá, e sorrindo sugere: desfazemos o feito? O ator de olhos baixos concorda: se for dessa vez, que eu vá inteiro. O anjo lhe diz: que assim seja. Sorri, olha nos olhos e o ator não vê o anjo, mas a morte. É você? Sempre fui eu. E o jovem ator diz sem pensar: Fica comigo? Sempre estarei. O ator vai e brilha o seu melhor brilho.

"Não somos meras partes do todo na Natureza, tomamos parte, participamos da atividade infinita."

Liberdade: eu sou a causa de mim. Dos desejos, imagens, paixões, ideias que aqui dentro tomam aparência.

Servidão: deixo-me habitar pela exterioridade, deixo-me governar por ela, e pior, imaginando estar governando-a. Ilusão de força na fraqueza.

Quinta história: ouvia vozes. Aniquilou-se.

Sexta história: nasceu, cresceu, se desenvolveu, se reproduziu e morreu na guerra contra a facção inimiga. Deixou livros, hinos e filhos.

"Sob pressão não tem criação. Pode ter produção. Para criar preciso estar relaxado."

Sétima história: Amou. Silenciosamente. E foi amado.

"Não tem como dar errado."


* * *


Citações em ordem fractal:

Max Antunes
Mariana Amaral
Franz Kafka
I Ching
Ana Thomaz
Tokkou
Tarot de Marselha
Benedito Espinosa
Alejandro Jodorowski
Hélder Câmara
Eve Idrissi

Ilustração: mão direita enquanto os olhos e os ouvidos assistiam o encontro.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Palavras rabiscadas no papel: medo


Medo
Medo do mal, da fome, da guerra, dos meninos mais velhos, da minha irmã mais velha.
Medo da violência estúpida, do carro, do avião, do barulho.
Do trovão.
Medo de sair daqui, de ir pra lugar nenhum.
Medo da angústia, do sentido. E se a vida não tem nenhum sentido mesmo?
O passarinho, a cigarra cantam uma música sem sentido.
Só o bicho homem tenta encontrar respostas pro seu medo. E mente. E mente tantas vezes que começa a acreditar em sua própria mentira.

E se faltar comida?
E se vier mesmo o inimigo em guerra e nos violentar e às nossas mulheres e às nossas crianças, a nossa inocência.
Eu passarinho, eu cigarra.
Ouvi e contei histórias para justificar a presença do medo brutal.
A dor.
Dói, dói o braço, dói o dente, dói o dedo do pé, dói na gente.
Medo de me machucar. Medo de machucar.
Minha mão marcada nas costas do menino. Primeira e última briga.
Medo de escada, da espada, da picada da abelha.
Medo da mentira. Da mentira ser descoberta.
Segredo.
Medo de fracassar.
Medo de ganhar (e meu amigo ter tanta raiva - melhor perder)
Frágil, frágil. Vulnerável.
O tempo. O tempo não tem medo de nada.

Harari, Krenak.
Guerra, mito, guerras por mitos, ficções, nação, ideal, religião, deus, dinheiro, propriedade.
Vazou.
Escorreu toda a ficção pelo ralo.
Só ficou o que posso sentir e observar.
Não estamos no centro do universo.
Medo, medo, medo do rato.
Quem me ensinou a odiar os ratos? Somos tão parecidos. Gostamos de cama quente e comida fácil.
Eu os amo.
Medo da fome.
Nem isso, nem aquilo.
Nem mesmo o sonho do indivíduo livre.
Não escolho. A cadeia de pensamentos escolhe por mim.
Pensamento, prisão, sofrimento.
Democracia é prisão.
Fascismo é prisão.
Prisão. Parece nome de bicho. Bisão. Pisão. Bicho que pisa e esmaga.
Preso. Beijo.
Nem o sonho romântico é real.
Amada divinizada. Deus amado.
Medo da tristeza que sinto.
Medo do desânimo. Des-alma.
Anima, animus. Amor, o outro, alguém. A beleza, a perfeição.
Medo da mulher extremamente bela que é a minha eterna busca/ilusão.
Hocus pocus.
Tudo invenção.
Tudo, tudo desceu pelo ralo.
E agora?

Fiquei sem direção.
Não sei quem sou.
Antes já não sabia, mas acreditava poder saber.
Sentido de encontrar o amor, verdade, deus, felicidade.
O sonho acabou. Acabou. Acabou.
Deus morreu. O sonho morreu. O amor morreu. O sentido morreu.
Eu não tinha medo da morte pois tinha fé no sentido.
Agora que o sentido morreu o que me resta?

O passarinho, a montanha, o quente, a luz do sol.
Krenak.
A resistência da vida.
Vida des-pro-vida de toda e qualquer usurpação de sentido.
Vida, vida, vida.
Medo, medo, medo.
Vida, vi da me
Dá-me, dá-me, dá-me
Dou, dou, dou.
Vi, vi, vi.
Eu vi a vida dando.
Dou, disse a vida.
Dou-me à vida.
Aqui está. Está. Está.
Bilhões de átomos.

Onde está o sofrimento?
Onde está o medo?
Onde está o sentido?
Onde está o eu?

On de
Om de estar aqui.
Om, om, om.
Não sei nada sobre o som.
O silêncio.
É o som.
Krenak silencia. Silencia-nos.
Não posso me calar.
Sou o passarinho, sou a cigarra, sou aquele que canta. Sou o canto.
Por que canto?

Escrevo, escrevo, escrevo
E vou viver.
E entro no mato, as árvores, o ritual.
O ritual sem sentido.
O sonho. O ritual no sonho. Faço o ritual que vi no sonho.
Volto, pego a vela.
Por quê? Pra quem?
Não importa, não pergunta.
Só faz o que fez no sonho.
Entro na mata.
Acendo a vela.
Corpo, frêmito, acordo.
O esquilo.
O esquilo vem até mim.
O canto do esquilo.
O ritual, o esquilo, eu cumpro.
O ritual nasce do corpo e não tem nenhum significado.
Só depois os pensadores vão dar sentido.
Eu vivi o meu primeiro ritual.
A mata, a vela, o esquilo, o corpo.

sábado, 6 de junho de 2020

Nosso ato político



Olhando para essa foto, eu menino, 10 anos, ao lado do Lula. Vejo a expressão de cansaço físico. O esgotamento das forças físicas num dia, lembro bem, de muita caminhada, comício, conversa... campanha eleitoral é um dia atrás do outro de muito movimento, pouco descanso, muitas trocas, muita energia. Muito esforço, muito sonho. A alegria da alma de entrar numa luta que vale a pena. Dentro de nós existe esse lugar: a boa briga.

10 anos.
20 anos.
30 anos.
40 anos: fui com um grupo do Yoga de Rua participar do retiro de silêncio, meditação e técnica Alexander no M.U.D.A, em Piracaia - SP. Uma semana juntos com outras pessoas de diferentes lugares. E ali, misturados, eu e o nosso grupinho de 5 pessoas incríveis que tinham em comum a experiência de viver na rua.

Para mim, organizar essa ida do grupo para aquela vivência, que alguma coisa produziria em sua jornada de vida, era o mais potente ato político que estava em minhas mãos realizar. Valeria todo o cansaço.

Um dos participantes era o Fênix (nome ficctício).

Lembro dele nos grupos do café da manhã ali do Flamengo - RJ. Depois lembro dele numa meditação que a Ivana conduzia semanalmente às seis da manhã no Aterro do Flamengo, perto do aeroporto (cartão postal do Rio). Ali conversamos e fui com ele até a casa da ex-mulher ver as filhas, e até a casa da mãe e da irmã. Fomos ficando amigos...

Que história é essa de meditar e fazer yoga com as pessoas na rua? É onde chegou a minha história com a política. Desde 1989... eu segui um caminho de fazer política. O Lula seguiu o dele. Ambos temos uma coisa em comum. O gosto de entrar em boas brigas. A minha briga foi com a falsa verdade estabelecida de que as pessoas que moram nas ruas não são pessoas. Não parariam para meditar e fazer yoga, por exemplo.

Outra verdade até então aceita é que yoga é coisa de ricos, no Brasil. Eu não tentei convencer ninguém. Não fiz nenhuma manifestação, nenhuma pressão parlamentar, nenhuma reunião com ninguém influente. Não fiz parcerias com empresas, nem governos, nem fundei nenhuma ong. Fui lá e vi que era possível fazer. Tinha grama, nem tapetinho precisava. E não fiz porque queria ensinar nada, nem provar nada. Eu estava praticando yoga diariamente e estava vinculado a essas pessoas numa atividade em comum que era o café. Daí, desse vínculo e da minha cabeça vazia e das minhas angústias de que o que estávamos fazendo ali era pouco, nasceu a ideia. Ofereci partilhar o que eu sabia, convidei-os a praticar comigo, mesmo eu não sendo professor.

Essa foi a potência política completamente fora do que eu esperava quando comecei esse caminho lá atrás, sonhando em mudar o mundo, aos 10 anos. Eu fui caminhando pela vida, buscando saber e descobrindo o não saber, entrando e saindo de ideologias e crenças, me esvaziando de expectativas e de presunção e fui ver que eu já não era mais um professor dando aulas, mas o amigo querendo ter práticas em grupo. Juntos, tivemos ótimos professores. De graça. E até hoje eu não sou professor. É maravilhoso não precisar ser professor.

Que impacto esse tipo de política pode ter no mundo? Não sei. É o que esteve nas minhas mãos fazer. Foi o meu caminho. Claro que, para mim, não era só fazer yoga com as pessoas. Era, de algum jeito, dentro da minha leitura do mundo, ir lá na ferida social, e atuar a partir dali. Diante do imenso... fazer algo que esteja ao meu alcance. De outro jeito que não só o assistencial. E escrevi e falei sobre isso ao longo de tempo. (Não tenho planetas na casa do voluntariado, estão todos na casa da ação no mundo... ainda vou entender melhor o sentido astrológico disso)

Quando o presidente dos Estados Unidos se encontrou com Teresa de Calcutá a conversa foi assim:

"Madre! Que trabalho maravilhoso a senhora faz. Eu gostaria de fazer o que a senhora faz."

E ela respondeu:

"Você não pode fazer o que eu faço. Mas eu também não posso fazer o que o senhor faz. Se o senhor for um bom presidente, o mundo se beneficiará imensamente."

Ali no retiro, cada um com sua individualidade... foi maravilhoso poder ter essa troca. Adoraria falar de cada um aqui. Quem sabe numa conversa futura. Voltemos ao Fênix.

Num dos dias do nosso retiro, o grupo estava todo na Redonda (sala de práticas) e com as conversas e os processos acontecendo, o Fênix demonstra estar bem contrariado e fala: "o problema de vocês é que vocês estudam demais." Ele quase sai da sala mas a Ana conseguiu continuar a conversa, e foi contando de sua história, da relação que ela tem com a escolarização, da admiração que tem pelo Sr Antonio, do Cariri, que não sabe ler etc. E fomos chegando a um trabalho coletivo das emoções ali presentes.

No dia seguinte, ao amanhecer pude ter uma conversa com o Fênix onde ele me contou um pouco mais de sua história (depois ele contou essa história na Redonda). As violências que ele e a família sofriam do pai, o caminho que ele fez no tráfico de drogas, as situações em que quase morreu, as situações em que pode salvar vidas, como foi poderoso ali naquela cultura do crime na favela e depois como foi saindo e como foi parar na rua, e as filhas que teve, e o fato de nunca ter batido em nenhuma delas... e todo aquele universo das periferias das grandes cidades, na voz de quem vive aquilo tudo na pele.

Aquele história não só foi ouvida. Mas fez parte dos processos de integração de todos os participantes sob a condução da Ana, e das meditações da vacuidade e da interexistência, com a Cuca e a Guida. Muitos de nós tivemos pesadelos, mergulhamos nesse mal estar contemporâneo, nossas estruturas, nossa cultura...

Como é fazer parte desse mundo num lugar de privilégio? Como, mesmo assim, integrar e voltar a si e se abrir ao que surge como ação?

Como é sentir-se impotente para mudar os rumos dos acontecimentos? O que se faz depois disso que não nasça da impotência nem da busca pelo poder, mas da integração da polaridade?

Quais as ações políticas que nos cabem?

Nessa jornada da travessia estou lembrando de tudo isso e sentindo que estou num caminho de volta à política. Uma volta de onde eu nunca saí. Mas tem algo mudando... não sei o quê?

Estou processando aqui dentro, tudo isso.

Diante de tantas notícias recentes, trazendo à tona nossas cotidianas opressões e estruturas racistas, machistas, nossa devastação das florestas e dos ambientes naturais, nossa invasão das terras indígenas, nosso descaso com a guerra civil contra as pessoas das favelas, o descaso diante da desigualdade faraônica onde vivemos, o medo e o silêncio ante às questões de saúde  mental, a homofobia, a gordofobia e tantas outras xenofobias...

(Li que a travessia do povo judeu no deserto tinha como ponto de partida a intolerância ao nível de desigualdade e opressão política sofridas nas grandes cidades de então. O índice de desigualdade naquele tempo era semelhante aos índices brasileiros...)

Comecei a meditar através dos livros de um monge que, durante a Guerra do Vietnã, propunha uma espécie de budismo engajado. Em resumo: meditar, sim, indo para dentro, mas sem perder o vínculo com o mundo fora. Meditar como uma forma de integração entre eu e o mundo.

Lá no nosso retiro lemos um poema do Thich Nhat Hanh que vou transcrever aqui para vocês. Ele escreveu esse poema depois de ler uma notícia muito devastadora, um momento de grande horror, um pirata que estuprou uma menina que, com a família num barco, assim como muitos outros barcos, tentavam fugir de um campo de refugiados na Tailândia, e se arriscavam não só a naufragar como a sofrerem esses ataques piratas. A menina tinha só doze anos, jogou-se no mar e morreu.

Ele diz que a tendência é tomarmos partido contra o pirata e ficar do lado da vítima. Mas, meditando viu mais profundamente que se tivesse nascido na mesma aldeia que o pirata, vivido sob as mesmas condições que ele, ele também muito provavelmente se tornaria um pirata. E que se nada for feito, daqui a alguns anos as crianças que nascem lá poderão se tornar piratas também. Simplesmente atirar no pirata não resolve o problema, é atirar sobre nós mesmos.

Lemos esse poema, lá no retiro, pensando nos policiais e traficantes do Rio de Janeiro. E cada um ali, a seu modo, ampliando e pensando nos atores desse estranho drama que vivemos, com suas vítimas e seus culpados.

O poema se chama, "Por favor me chame pelos meus verdadeiros nomes" (clique aqui para ler o capítulo completo do livro onde aparece o poema)

Chamem-me pelos meus verdadeiros nomes
Não digam que parto amanhã
Porque hoje estou ainda chegando.
Olhe bem, a cada instante estou chegando
Para vir a ser botão de flor em ramo de primavera
Para ser passarinho de asas frágeis
Aprendendo a cantar em meu novo ninho,
Para ser lagarta na corola da flor,
Para ser gema oculta na pedra.
Estou ainda chegando para rir e chorar,
Para sentir medo e esperança
O ritmo do meu coração é o nascimento e morte
De tudo o que vive.
Sou a libélula em metamorfose
Em vôo sobre as águas do rio
E sou pássaro que se lança ao ar para engolir a libélula.
Sou rã que nada descuidada
Nas águas claras da lagoa
E cobra que em silêncio se alimenta da rã.
Sou a criança em Uganda, só pele e osso
Minhas pernas como gravetos
E sou o traficante que vende armas para Uganda.
Sou a jovem púbere
Que escapa em uma balsa
E que, violentada por um pirata, lança-se ao mar
Mas sou o pirata ainda incapaz de sentir e de amar
Minha alegria é como a cálida primavera
Que faz florescer toda a Terra.
Minha dor é como um rio de lágrimas,
Tão vasto que enche os quatro oceanos.
Chamem-me pelos meus verdadeiros nomes,
Para que eu possa despertar e enfim escancarar
Em meu coração as portas da compaixão.
Meditar é um ato político.

É um ato político escrever o poema.

Qual ato político nascerá do seu mergulho interior?

Olhando aqui para meus processos, vi meus sentimentos de impotência diante das coisas do mundo, vi que, em mim, a polaridade da impotência era o poder. Qual o bom de se sentir impotente? Me exime de uma certa responsabilidade, bem deixa livre para "viver minha vida". Qual o ruim de adquirir poder? Ter que assumir as consequências, o poder traz limites. Vendo o bom da impotência e o ruim do poder... pude abrir mão do poder. "Eu abro mão do poder". Volto-me para a política do corpo. Meus pés se energizam, assim como minha cabeça. Daí o que me vem?

Me lembrei da leitura que fiz de um livro do Swami Vivekananda, Karma-yoga: o caminho da ação, no capítulo Liberdade:

"Os grandes seres humanos morreram incógnitos.

Os Budas e os Cristos que conhecemos são apenas heróis de segunda classe quando comparados com os grandes seres humanos de quem o mundo nada sabe. (!!!)

Centenas desses heróis viveram em todas as nações, trabalhando em silêncio.

Silenciosamente vivem e silenciosamente morrem; e a seu tempo, seus pensamentos encontram expressões em Budas e Cristos, e são esses os que mais tarde se tornam conhecidos para nós. (...)

Eles, os puros sattvikas, jamais criam alvoroço e se derretem no amor.

Conheci um yogi assim em uma caverna na Índia. Ele é uma das pessoas mais maravilhosas que conheci. Perdeu tão completamente o senso de sua própria individualidade, a ponto de podermos dizer que a pessoa que havia nele se foi por completo (...) se um animal morde seu braço, ele está pronto a lhe oferecer também o seu outro braço (...) Ele não se mostra às pessoas e, ainda assim, é um repositório de amor e de ideias delicadas e verdadeiras. (...)

Os seres humanos superiores são calmos, silenciosos e desconhecidos. São os que realmente conhecem o poder do pensamento; estão certos de que, mesmo se entrarem em uma caverna, ali se fecharem, e simplesmente pensarem cinco pensamentos verdadeiros e então morrerem, esses seus cinco pensamentos viverão por toda a eternidade.

Na verdade, esses pensamentos penetrarão montanhas, atravessarão oceanos e viajarão pelo mundo. Entrarão profundamente nos corações e cérebros humanos, despertando homens e mulheres que lhes darão expressão prática nas ações da vida humana."

Ouço isso... olho para a foto lá de cima e me pergunto se o que estamos, aqui e agora, fazendo é política.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Uma conversa sobre sexo


Vamos conversar sobre sexo?

Quando adolescentes ficávamos ávidos por adquirir as informações necessárias para saber o que fazer na hora H. Uma espécie de mapa da mina. Algo que nos desse segurança para poder ter uma boa performance, pras coisas darem certo. E uma das informações valiosas é que tínhamos que dedicar algum tempo às preliminares. Depois das preliminares vinha o sexo (como se as preliminares não fossem sexo), e depois sim vinha o ápice, o orgasmo, a felicidade esperada, ou, em alguns mapas, o orgasmo das mulheres, que era uma certa obrigação que a gente tinha que aprender a dar, antes do nosso. Esse era o esquema tático. Saber disso nunca resolveu nada pra mim, que não conseguia estar a sós com ninguém. Eu só ficava no amor platônico, beijando o espelho, treinando para quando chegasse a hora.

Nessa nossa conversa eu não vou fazer uma palestra sobre sexo. Com definições e teorias e também não vou te dar o mapa da mina. Vou contar alguns momentos da minha história. Mas se eu contar uma história cronológica isso não seria verdadeiro. Os fatos que vou narrar aqui pra você, e os sentimentos que experimentei, vou trazê-los a partir de quem sou hoje. Assim como toda história, é uma história do passado à luz do presente. E nesse momento estou trilhando os passos da jornada da travessia com a Ana e todo o grupo, nos campos saúde, educação e trabalho. Mas apesar dos temas balizadores serem esses, as conversas tocam em dimensões muito profundas e eu gostaria de partilhar com você sobre onde mergulhei no meu passado sexual.

Minhas experiências sexuais. Estou olhando para elas não com o intuito de entender quem eu sou hoje, o que aprendi, como me desenvolvi. Estou olhando para mudar meu olhar, mudar as narrativas. Aquilo que eu via, posso ver diferente. Sair da mente dualista e entrar na mente paradoxal... se esse é o caminho que aparece hoje como integração das polaridades e abertura para o novo, como é olhar para o passado, ver as dualidades que eu sentia à época e integrá-las? Isso abre campo para algo novo, agora, em mim. Sim. Um processo digamos assim: uma cura do passado que cura o presente.

Na verdade não há um passado lá atrás.
São como círculos, um dentro do outro.
Camadas de uma mesma realidade.
O amanhã, o hoje e o ontem coexistem.
Quando eu mudo hoje, muda meu passado e muda meu futuro.
E os círculos não são só meus...
Meus círculos se ligam aos seus e ambos se integram num círculo maior...
que por sua vez se insere e se relaciona com círculos ainda maiores.
No sistema vida, estamos em sistemas comuns, e assim, quando transmuto algo em mim, isso muda também você, e altera o nosso mundo.
E, pra falar a verdade, não sei quando é que eu mudo mudando o mundo ou quando é que eu mudo porque o mundo mudou. Quem saberá?
Por isso qualquer mudança que você possa ter lendo esse texto, não é uma mudança que aconteceu em mim que vai impactar em você. Possivelmente já é algo que aconteceu em você que agora está impactando em mim e nos retroalimentamos de mais e mais abertura e consciência.

Tempo cíclico. Numa dessas manhãs de jornada, comecei o dia fazendo a prática conduzida pela Ana sobre os ciclos. (essa prática está descrita no texto "Transmutações à beira do mar"). Os ciclos da respiração, do tempo, os dias, meses, anos, os setênios, o ciclo de vida e morte, gerações... visualizei o mar e respirei suas ondas... e assim continuei em silêncio, sentado, deixando vir algo. Vieram meus ciclos de estudo e trabalho. E aí depois me perguntei: por que o foco na profissão é o primeiro que me vem?

E aí se abriu um outro tipo de ciclo, as etapas de caminho espiritual e autoconhecimento, os grupos que frequentei, os processos, os aprendizados. Daí resolvi revisitar as relações íntimas. Relembrar todas as pessoas por quem já me apaixonei. Desde a primeira menina que eu quis dançar na festa junina da escola, aos 5 anos de idade,... até minha atual companheira. Todas. Não só aquelas com quem me relacionei, mas as que sentia atração. O que tinham em comum?

E fui vendo esses ciclos da vida. Tanta mudança, tanta repetição. Fiquei vendo a circularidade das coisas. Por que procuro alguém? O que é isso que em alguns de nós nos leva a buscar o outro?

Essa é a preliminar da nossa conversa. Creio que estamos devidamente aquecidos para começar a próxima parte. Topa?

Vou contar pra você alguns momentos que se apresentaram como marcantes e o que foi que fiz, agora, como processo integrador. Estou aqui, aos 41 anos de idade, com uma filha de 4 anos ao meu lado nesses dias. E especialmente nesses processos minha filha foi me dando algumas respostas que me ajudaram a pontuar esse exercício. Acho que não foi nada casual, esse encontro de gerações, de vidas, da possibilidade de estar aqui com essa menina, que veio de um ato de amor... e sexo.

A lembrança mais forte foi lá da adolescência, por volta dos 15 anos, quando eu ia pra casa de uma mulher mais velha, junto com meu amigo que já citei aqui num outro texto. Íamos lá para uma festinha, onde se reuniam algumas pessoas amigas... ela tinha um filho de uns 7 anos, ela devia ter uns 30. Na sua casa, íamos a noite para curtir, ouvir música, beber... e flertar. Ela e meu amigo tiveram um relacionamento longo depois.

Uma vez, numa dessas noites que acabávamos dormindo lá, ou por ficar até bem tarde, nos deitamos nos colchonetes no chão e ela veio se deitar do meu lado. Nossos corpos se tocaram. E ela foi acariciando meu corpo. Era bom sentir o toque suave de seus dedos. Minhas emoções iam às alturas com todo o misto de prazer e ansiedade. E aí, num determinado momento o prazer foi crescendo, crescendo e tive uma ejaculação. O que era bom foi suplantando pelo sentimento de vergonha. No mapa da mina que eu tinha recebido, ejaculação tinha uma hora certa de acontecer. Não contei pra ela. Fui dando um jeito de esconder meu corpo e, por isso, fui me afastando. De algum jeito ela aceitou o fato e se afastou. (Ao longo da vida pude ouvir a dor de tantas mulheres que passam por isso e começam a pensar que não estão sendo suficientemente desejadas, mal sabem elas que, na verdade, são muito desejadas mas é que o homem está inundado de seus fantasmas internos e, por isso, não pode estar com ela ali de igual pra igual. Seria bom que elas soubessem que por trás da recusa de um homem não há desprezo, mas medo. Mas o fato é que as mulheres também estão ali cheias de seus fantasmas. Então, em geral, como ouvi mais tarde, no ato sexual são sempre quatro pessoas: os dois, mais o fantasma de cada um. Interessante como que o que sustenta a desconexão na relação é o mesmo que sustenta a guerra dos sexos: ou eu escondo as minhas fragilidades, ou não vejo a fragilidade do outro, o que é a mesma coisa).

Que me lembre, essa foi a primeira vez. Depois foram inúmeras situações que eu encarava como fracasso. Carreguei isso pela vida. Esse medo da tensão da relação. Minha história sexual foi marcada por essa emoção. Atualmente falamos tanto de abuso. Será que uma mulher mais velha com um menino é uma forma de abuso? Meus pais, eu sei que não gostavam muito que eu fosse lá, alguns amigos deles diziam que ela não era uma boa amizade. Mas acabaram deixando. Afinal, no patriarcado, não é tão grave assim. Se fosse um homem de 30 iniciando sexualmente uma menina de 15 o que sentiríamos? Certamente os pais não deixariam.

Estou aqui com essa memória e começo a olhar o passado trazendo as polaridades que vejo para mim para, então, integrá-las em mim. E vou integrando todas os sistemas: a peste emocional da humanidade, o patriarcado, etc. Olhando para a atitude dela, como eu a julgo? Imatura. O contrário de imaturo: maduro. Então olho para mim e vejo: tem maturidade e imaturidade em mim. E percebo que ambos existem em mim. Atitudes maduras, atitudes imaturas. Ao mesmo tempo sou maduro e imaturo. Afirmo: "abro mão de ser maduro." Sinto arrepio do alto da cabeça até o coração. Sinto um calor no coração. E aí sim olho para ela e o que vejo, o que sinto? Sinto amor, gratidão. Me vem a pergunta: que fragilidades eram as dela que encontraram as minhas? Não sei explicar exatamente. Foi o que foi. E tenho gratidão pelo caminho.

Num outro momento sentei na rede aqui de casa que fica embaixo da casa da árvore. Revisitei a cena e olhei para mim. Olhando para a polaridade fracasso/sucesso, vendo como ao longo da adolescência eu queria colocar minha vida sexual nas mãos de uma pessoa experiente que me ensinasse. Eu, que treinava o primeiro beijo no espelho para saber como é e não passar vergonha, ficava sonhando que alguém viesse e me tirasse daquela vergonha de não saber. Que me ensinasse. E quando isso finalmente aconteceu, na casa dessa mulher, fiquei tão envergonhado que não me abri. Guardei como um segredo meu.

Iniciadores/professores: querem ensinar as pessoas.
Companheiros: seguem junto, admiram o seu processo, deixam você dar os seus passos.

A vida de um iniciador é o inferno de querer fazer com que as pessoas pensem igual a ele, que tenham as mesmas experiências. Se funcionou comigo vai funcionar com você. Querem seguidores.

Como é ser simplesmente você e deixar que o outro siga o caminho dele?

Fiz então o mesmo exercício de integração olhando para mim mesmo nessa polaridade de me sentir imaturo em busca de um iniciador. Sou o imaturo e o inciador... percebi ambos em mim. O que tem vergonha de não saber e o que, impacientemente, quer ensinar. O que me veio dessa integração?

Um sentimento de que não quero ensinar. E de que não preciso que ninguém me ensine.
E um reconhecimento de que também não estamos sós e é bom ter uma presença humana presente em nossos passos.

Integrei medo e coragem. E pude ver com clareza que a aventura do desconhecido nunca é sem emoção. O surfista não deixa de ter emoção a cada onda, ainda que tenha passado anos surfando. O ator não perde a emoção de subir no palco, especialmente na sessão de estreia, mesmo que tenha anos de experiência. O escritor sente as dores e as delicias de escrever um texto novo, que se cria ao longo da escrita. Com o sexo não vai ser diferente. Haverá sempre a tensão do desconhecido. Assim o amor... a aventura do encontro. Aventurar-se no território do outro. Sempre desconhecido.

Nessa hora, quando estava nessa alegria de olhar a vida como vida... minha filha que estava com as outras crianças ali em cima da casinha me pede ajuda para descer. Ficou com medo de descer a escada. Medo da escada, medo da altura. Ela já tinha descido sozinha outras vezes. Entendi que seu pedido de ajuda tinha a ver com meu processo. Fui lá. Ela me pediu para pegá-la no colo.
Eu falei: estou aqui, posso te ajudar a descer, não precisa ir no colo, você consegue, se precisar te apoio. E ela veio com suas próprias pernas. Só com a qualidade de presença que eu levei.

Minha história de vida seguiu nessas experiências que eu via como insucesso. Fiquei esses dias aqui revisitando algumas delas. Não vai dar pra contar tudo. Lá pelos 20 anos me casei e com a intimidade fui encontrando caminhos de, na parceria, prolongar a relação sexual. Foi o caminho que encontramos. Envolvia controle. Às vezes flui bem, às vezes eu "perdia o controle". Isso não era muito bom, mas era bom também de alguma forma. Esses conflitos também reverberavam na vida de casal e vice versa. Ficamos juntos 12 anos e depois da separação, lá pelos 32 fui conhecer as meditações ativas do Osho num grupo de terapia corporal e aí, foram dois anos de muitas transformações (o termo tântrico é e não é apropriado, imagina que Dalai Lama é tântrico e isso não tem muito a ver com as massagens orgásticas) Me lembro na primeira massagem "tântrica" quando conversei com a terapeuta sobre meus medos de ejacular antes da hora ela, imediatamente, me perguntou: tem hora certa? Fiquei com essa pergunta... 32 anos pra começar a me perguntar que história é essa de certo e errado em matéria de sexo. Foi muito libertador.

Mudei completamente a relação com meu corpo. Muitas pequenas questões iam aparecendo e aos poucos se dissolvendo. Nem dá pra listar tudo.

Isso que falamos sobre observar, sentir, não ficar no controle, nem busca de garantias e finalidades... como é isso tudo ligado ao sexo, às sensações genitais, essas coisas que ninguém falam? A excitação, especialmente a ereção, é, junto a outras funções corporais, algo que está fora do controle da vontade consciente. Alguns homens passam anos aprendendo a controlar. Como é mais fácil e mais potente abrir mão do poder de controle e simplesmente sentir e observar. E como o orgasmo é tanto mais potente e prazeroso quanto mais se observa e menos se controla... Tudo mudou para mim. Só entender não seria suficiente. Os processos corporais foram essenciais no meu caminho.

E a gente começa a ver o mundo com outros olhos. É conhecida a tragédia sexual da vida de Mussolini. Por trás de cada ditador (de cada político em busca de poder) há uma dor de seu fracasso sexual. A noção de disfunção sexual se amplia. A desconexão que vivemos em sociedade aparece lá, no ato. E temos a disfunção política, disfunção social, disfunção econômica... ou você acha que a tragédia social que vivemos não teria ressonância na vida afetiva?

A noção de sexo mudou completamente. Performance é substituída por naturalidade. Eficácia pelo simples sentir. A imaginação cede lugar ao corpo. A velha noção de ativo e passivo deixa de fazer sentido. O ato sexual pode ser vivido com dois passivos, ambos receptivos ao que sentem e movimentando-se a partir de suas naturezas e não por gestos mentais pré-planejados. Ainda assim, mesmo entendendo sobre, não é coisa que se domine, que se elimina a tensão. Mas se vive ela, e o prazer é feito disso. Como a aventura no desconhecido. Por isso olhar a minha sexualidade não é para "resolver" algo.

Aqui estou retomando a pesquisa sobre mim mesmo. Acho que as marcas psíquicas que atuavam em mim lá no início da história ainda estão, de algum modo, presentes. A mesma pressão sexual que senti, sentia e sinto é a pressão que sinto ainda hoje nas relações com os outros. Adquirir alguma experiência não resolve, não garante nada. A tensão permanece. Quanto me deixo determinar pelo que vem de fora? Quanto o outro ainda é grande demais para mim? Estou olhando tudo ao mesmo tempo. Nos ciclos da vida. O retorno. Está retornando aqui pra mim um olhar pra tudo isso. E escrevo porque sei que você tem uma história diferente mas que toca na minha.

O ciclo. O tempo. Em que ciclo e tempo de sua jornada essa história chega pra você?

Antes de terminarmos, quero contar um outro momento que tive aqui. Estava com minha filha em seu quarto e ela estava brincando com um amigo, via internet. Houve um momento que eles continuaram brincando sozinhos, nem se falavam, mas só de saber que o outro estava ali dava o chão para brincarem sozinhos. Então percebi uma calma no ambiente e recomecei a fazer meus processos. Sozinho também, com papel e lápis na mão. Três pessoas juntas e sozinhas. Muito bom.

Olhei de novo para trás e vi o quanto eu me sentia inibido e como essa inibição me atrapalhava. Qual o oposto? Desinibido. Então trouxe pro agora e vi inibição e desinibição ambas em mim. Vi o lado bom de ser inibido (guardar segredo), o lado ruim de ser desinibido (chatear os outros). Então afirmei: "eu abro mão de ser desinibido". E senti muita intensidade e fui olhar para o menino de 15 anos ... o que eu vejo: eu sou mais um cara. Sem julgamento.

Neste exato momento minha filha vira do nada e me diz:

"Dá um medo de morrer, né?
E eu, diante daquela pergunta tive facilidade em simplesmente responder:
"Sim"
"Você também tem medo de morrer? Um medão, né?"
"Sim"

E seguiu com suas brincadeiras.
Fiquei impressionado como a integração de processos são uma forma de morte.

Olhei de novo para minha história. Como eu fiquei sozinho, guardando meus fantasmas pessoais. Que solidão terrível, pesada. Qual o oposto da solidão? Estar com alguém. Vi como estão juntas em mim a solidão e o estar com alguém. Anotei no papel o bom da solidão (poder me singularizar/ser livre) e o ruim de estar com alguém (ficar refém). Daí fiz mais uma degrau. Qual o ruim de me singularizar (sentir a incompreensão) e qual o bom de ser refém (uma certa liberdade, da servidão voluntária, sabe? quando você não é o chefe dá uma liberdade de só cumprir ordens... e ainda poder falar mal do chefe).

Percebi como liberdade aparece nas duas colunas. E estar sozinho e estar com alguém são polaridades que estão na minha vida, e de todos.

Por que procuro estar com alguém?

Que busca é essa que no fluxo da vida gera filhos?

E o que nossos filhos nos trazem?

E o que somos agora?

Em algum momento da meditação da manhã me veio a morte.

E a morte chega minimizando o que parece grande. O que era imenso de repente se torna nada. Corta. Corta. Volta o silêncio. Corta como com uma espada que na mitologia hindu é representada pela história de Kali. Revisitei essa grande integradora de todas as coisas. Comecei a voltar a um passado no tempo histórico da humanidade e quando estava muito lá atrás...

De repente, minha filha acordou no quarto ao lado e veio brincar comigo. Perfeito. A melhor forma de voltar ao presente. Olhando cara a cara para o outro ciclo da vida aqui que estou vivendo com ela.



* * *

Dias depois recebi uma carta. Dirigida ao menino que fui. De autoria anônima. Ela diz assim:

Carta de uma mulher a um menino

não, menino, você não precisa aguentar isso tudo dentro de você. a gente tá criando forças pra falar, pra não ocultar os abusos que sofreu ao longo da vida, mas você segue em silêncio. ser socialmente forçado e por alguém levado a se relacionar com uma mulher quando se é ainda uma criança ou adolescente pode ser um abuso. mas você nem pensa nessa possibilidade porque você é homem, você tem que querer sempre, em qualquer oportunidade. você pensa que foi só uma aventura e vários homens que você conhece já viveram a experiência, então deve ser só a maneira normal de iniciar sua vida sexual. mas é bem provável que ele, em quem você confiou e te levou a esse lugar, também estivesse perdido e escondera um monte de coisas em nome de ser um pretenso homem. um dia o mesmo aconteceu com ele - e eu não sei, mas imagino o quanto isso deve ter doído.
não, menino, você não precisa se agarrar à raiva para se manifestar diante de tanto medo, de tanta dúvida, de tanta, mas tanta tristeza.
não, menino, você não precisa calar seus pensamentos que não param. não precisa se calar se tem tanta coisa na sua mente que ficar sozinho em silêncio é ensurdecedor.
não, menino, você não precisa fingir ser bem resolvido, tentar parecer ter a auto-estima lá em cima se você na verdade não se sente bem consigo. se dê oportunidade de assumir a verdade e entender de onde vem esse medo de não ser suficiente.
não, menino, você não precisa ficar assediando as mulheres que parecem entrar num certo padrão só pra dizer que você tem coragem, que você está sempre pronto.
não, menino, você não precisa tratar as mulheres como um objeto que você pode tocar e tratar como desejar para reproduzir e se vingar daquilo que você viveu sem no fundo querer.
não, menino, você nao precisa provar pra ninguém, e nem pra você mesmo, que você dá conta de tudo sozinho.
não, menino, você não precisa engolir o choro guardado há tanto tempo.
você pode chorar, você pode falar, você pode mostrar a sua vulnerabilidade, você pode sentir o que for. você pode.
você pode se relacionar com seus amigos, com as mulheres, com sua família com sinceridade. você pode acolher o menino dentro de você e ser um homem sem precisar ser nada e podendo ser tudo - preferencialmente exatamente quem você é, uma contenção singular de um vazio de muitas possibilidades. e ser você é suficiente, acredite.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Meditação sem fuga


Começo a nossa conversa com a leitura de Krishnamurti

"Por que as ideias criam raízes na nossa mente?
Por que não se tornam os fatos o mais importante, e não as ideias?
Por que é que as teorias e as ideias se tornam tão importantes ao invés dos fatos?
Será que não conseguimos compreender o fato, ou que não temos capacidade, ou que tememos encarar o fato?
Portanto as ideias, as especulações, as teorias são um meio de fugir do fato.
Podem fugir, podem fazer todo tipo de coisa. Os fatos permanecem lá.
O fato de estarmos zangados
O fato de sermos ambiciosos
O fato de sermos seres sexuais, milhares de coisas...
Podem reprimi-los, podem transmutá-los, o que é uma outra forma de repressão, podem controlá-los, mas eles estarão todos reprimidos, controlados e disciplinados por meio de ideias.
Não é verdade que as ideias nos fazem perder a nossa energia?
Não é verdade que as ideias embotam a mente?
Podemos ser inteligentes quando especulamos, quando citamos alguém, mas como é óbvio, é uma mente embotada que cita, que leu muito e cita.
Acabarão com o conflito dos opostos de uma só vez se forem capazes de viver com o fato e, com isso, libertarem a energia necessária para encarar o fato.
Para a maior parte de nós a contradição é um campo extraordinário no qual a mente se encontra aprisionada.: quero fazer determinada coisa e acabo por fazer algo completamente diferente.
Mas se eu encarar o fato de eu querer fazer determinada coisa, deixa de haver contradição e assim, de uma só vez, anulo por completo o significado da oposição.
Então a minha mente fica inteiramente atenta ao que é, e com a compreensão do que é."

Vamos agora fazer uma meditação juntos para trabalharmos, num outro nível, essa possibilidade da observação direta já que é quase sempre impossível para nós a percepção do fato sem que ele esteja carregado de teoria, de projeções, daquilo que vem na nossa mente.

Observar as coisas como se apresentam. Não só as coisas exteriores, mas as nossas emoções. Sem que a gente fique tentando se livrar delas, nem se melhorar, se transformar. Mas observar o fato. Se encarar. Como ensina a Baixinha, uma curandeira baiana (que Alexandre nos apresentou): o segredo da cura é você encarar a você mesma, centrar em você mesma e firmar nos seus próprios pés.

Então a gente vai respirar. (e a partir daqui, a cada frase pode dedicar uns momento de silêncio e prática)

Traz consciência pro movimento da respiração.

Para o ambiente externo, que te envolve. O que está aí agora, a sua volta. Se quiser pode fechar os olhos e sentir esse ambiente, com outros sentidos além da visão.

As sensações que você experimenta no corpo. Neste momento.

Percebe se muda uma sensação, outra sensação.

Os pensamentos que podem te ocorrer durante essa prática.

Tudo isso está aí presente. Observe o fato da respiração, o fato do ambiente, o fato do corpo e das sensações do corpo, o fato dos pensamentos. Nenhuma teoria ou projeção. Pura observação.

E toda vez que surgir um impulso de ação, de transformação, de julgamento... volta para o fato.

Tem uma frase muito poderosa que é: tudo que existe, existe porque é necessário que exista. Tudo que acontece, acontece porque é necessário. Veja como essa frase nos ajuda a desligar o movimento da mente quando ela começa a julgar, projetar... tudo é necessário.

Simplesmente o fato. O que se apresenta pra você aí.

“O sábio quando tem de governar sabe a maneira de como não fazer nada”.

O sábio, no governo de sua própria vida, sua respiração, seu corpo, seu ambiente, sabe como não fazer nada. É o que estamos fazendo agora. Puro fato, pura observação, não faz nada.

"Ao deixar tudo como está, ele permanece em sua natureza original"

Perceba que quando você não faz nada, você permanece na sua natureza original. Essa aí que você está experimentando agora é a sua natureza original. Toda impulsividade, toda projeção é quando você sai da sua natureza. Perceba essa diferença, vá apurando esse sentir quando você sai, quando você volta.

"Aquele que governar, respeitará o governado, tanto quanto respeita a si próprio. Se ele ama a sua própria pessoa suficientemente para deixá-la permanecer em sua verdade original, governará os outros sem feri-los.”

A gente está aqui na nossa natureza original, puramente observando. Quando o outro chegar até nós, a gente vai estar suficientemente livre para deixar o outro livre.

E a nossa presença na natureza original será a força suficiente e necessária (além da qual não devemos usar) para contagiar o outro na conexão com sua própria natureza original.

"Contenha os fortes impulsos que sente nas profundezas de seu ser, e o impelem a ação. Permaneça tranquilo, sem olhar, sem escutar."

"Fique sentado como um cadáver, com a força de um dragão viva em torno de si." E aqui o símbolo do dragão na cultura chinesa... quando você está na sua natureza original você começa a sentir sua força, dentro e em torno de você.

"Em perfeito silêncio, sua voz será como um trovão."

"Seus movimentos serão invisíveis como os de um espírito mas as forças celestes virão em seu auxílio. Despreocupado, sem nada fazer, verá tudo amadurecer à sua volta. Onde encontrará tempo para governar?”

Tendo lido essas palavras de Chuang Tzu, esse sábio da China Antiga, volta para a observação do que é fato para você agora. Sem ideias. Sem filosofias.

Sem futuro, sem passado. O que é o fato aí? O fato da sua respiração. O fato do ambiente a sua volta. O fato do seu corpo e das sensações do corpo. O fato dos pensamentos que te povoam, que vão e vêm.

O fato de estarmos na nossa natureza original? Não dá para saber. É uma ideia. É uma pergunta:

Essa é a sua natureza original?

Estamos fazendo esse exercício no dia em que começamos a segunda fase da jornada, em que entramos no campo da educação. Ainda vamos conversar bastante sobre esse tema, mas um bom ponto de partida é a nossa própria conexão. E nossa conexão depende de nos livrarmos de tudo que nos leva a fugir do fato. E aqui a nossa escolarização foi mestre em nos dotar de teorias, ideias, julgamentos, ideologias, que se encaixam em nossas projeções pessoais e vamos acumulando conhecimento sobre conhecimento, e nos afastamos mais e mais dos fatos, e ficamos mais e mais desconectados. Como é a educação num ambiente de pessoas conectadas?

Vamos falar nisso em textos futuros.

Agora eu queria aproveitar e te presentear com uma lista de frases, aforismos que a Ana usa nas suas falas e processos e que podem servir aí pra você também. Seja em meditação sentada, seja ao longo do dia. Quando a mente começa a sua velha conhecida enxurrada de pensamentos, essas frases atuam como artifícios de desconstrução, acabam com o conflito dos opostos, retornamos ao fato e a quem somos.

Aqui vão alguns exemplos:

Tudo que acontece é necessário. É necessário para se tornar desnecessário.

Liberdade é não ter escolha.

Liberdade não se referencia.

Não se deixe determinar pelo que vem de fora.

Não tem garantias.

Minha liberdade aumenta na liberdade do outro.

Não adianta melhorar o que está ruim. Tem que transmutar.

Potencializar a potência.

Não é investir, mas desinvestir daquilo que despotencializa.

Tenho toda urgência, mas nenhuma pressa.

Perdão é uma perda grande (perde crenças, perde ressentimentos, perde projeções).

Clareza é qualidade de mente vazia

Agir sem finalidade.

Não é intenção, mas intensidade.

Alinhar o pensar, o sentir e o agir.

Todo processo é o amadurecimento da existência pra gente se tornar a gente mesmo.

Precisamos ser um novo ser humano.

A mudança virá não da aquisição de novos conhecimentos, mas na mudança da forma de se emocionar.

Não adianta sair de onde você está, mudar de emprego, de casamento, de cidade, etc. Para onde você for, se não transmutar, você vai recriar o mesmo.

Amar é estar aberto a se transformar diante do outro.

Cuidar de si é cuidar do todo. Cuidar do todo é cuidar de si.

Mente dualista: isto ou aquilo. Mente paradoxal: isto e aquilo.

Tudo que ouço e vejo está dentro de mim, nunca fora.

É deixando de saber e de fazer que eu entro em contato e sei.

Eu tô te explicando pra te confundir. Tô te confundindo pra te esclarecer. (Tom Zé, clique aqui para ouvir a música)

O mundo não está pronto para você ocupar um lugar. O mundo é construído num processo incessante e interativo com cada um de nós singularmente. Todos os seres vivos estão ativos nessa criação.

Co-emergir.

O meio do caminho não é o caminho do meio.

Contribuição da Helô citando Saramago: "O caos é uma ordem por decifrar."

Contribuição do Alexandre citando o I Ching, "terra embaixo e céu em cima é estagnação. céu embaixo e terra em cima é paz."

Tudo que integra, se desintegra.

Tudo é o oposto do que parece ser. Nada é o oposto do que parece ser.