quarta-feira, 13 de maio de 2020

Dentro e Fora


Caminhamos, caminhamos e vimos passar por nós três meninas correndo. Elas iam com muita alegria, balançando os braços, quase que dançando, mas ao mesmo tempo com muita pressa.

"Onde vocês estão indo, meninas?"

"Estamos indo atrás do vento, queremos ver até onde ele vai."

Entraram por uma trilha que subia a montanha... então resolvemos ir também. Perdemos as meninas de vista, certamente fomos mais lentos que o vento. Caminhamos pela floresta e lá pelas tantas comecei a ficar em dúvida se as meninas eram reais ou frutos da imaginação. Passadas algumas horas chegamos ao topo. Ao fim da trilha, estávamos numa imensa pedra sobre a qual andamos até acharmos um bom lugar para sentar e descansar. À nossa volta a floresta, o penhasco e a vista de um horizonte que parecia infinito, o céu límpido e azul. Pássaros destemidos voavam na imensidão do céu. Aqui, um silêncio profundo permeado pelo som de grilos, pássaros e algum ruído da cidade que ainda chegava até nós. Mas o silêncio era mais alto.

Então ficamos ouvindo o silêncio e resolvemos praticar um pequeno exercício meditativo, proposto pela Ana.

Já fizemos isso da outra vez. Com base na respiração... fomos nos conectando com a terra e os demais elementos da natureza, estabelecendo uma conexão com nossas próprias raízes da vida.

Nesse momento da Jornada ainda precisamos um pouco mais desse respiro.

Estamos olhando para processos muito profundos, virando nossas perspectivas de cabeça para baixo, é natural que fiquemos desestabilizados. Olhamos para nossa história de vida e as doenças que tivemos. Estamos investigando de diversas formas as relações entre os sintomas, as partes do corpo onde se manifestam e como tudo isso tem a ver com nossa vida emocional.

E cada um a sua maneira, abrindo mão das soluções de rotina e investindo na observação.

Observação de toda a complexidade do campo que envolve nossa vida. As relações, a forma como nos abrimos e nos defendemos, observando as polaridades que permeiam nossa mente em conflito, a afetividade e a sua falta, desde o útero, passando pela infância, temos conversado sobre nossa relação com o morte, nascimento e morte e o que somos nisso tudo, sempre retomando as sensações do aqui e agora.

Meditar é importante para ir e voltar... voltar e ir...

E à medida que vamos tomando consciência dos nossos jogos internos e, em alguma medida integrando, aceitando, observando de novo, "coisas" acontecem a nossa volta, pequenos milagres acontecem... e também algumas relações estabilizadas se tencionam. E precisamos observar mais e mais. E ir vivendo com o que surge nesse processo.

Autoconhecimento é muito mais trabalhoso do que ir a médicos e tomar remédios. Muito mais trabalhoso do que culpar as pessoas e as circunstâncias externas pelos nossos males. Mais trabalhoso também do que aderir a um grupo, uma ideologia que descreve o mundo de uma tal maneira que define os amigos e os inimigos e também a projeção das culpas para fora de nós.

E a jornada da travessia está sendo uma caminhada em grupo e ao mesmo tempo um caminho muito pessoal, muito singular. Cada um em sua investigação, com apoio de algumas pistas... mas entendendo que quando falamos em nossa relação com a saúde, não estamos simplesmente buscando curas dos sintomas.

Não é uma busca de mais uma estratégia de poder, controle e garantia contra as doenças. Mas sim "conseguir entrar em contato com o caminho singular de cada um entre sintoma, doença, desequilíbrio, herança e integração e sair do conhecido e se aventurar na criação. E isso não vamos encontrar em nenhum livro, nem curso, nem doutor. Está dentro de cada um de nós." (texto da Ana em mensagem no grupo)

Por isso vamos reestabelecer esse contato com a gente e exercitar esse movimento de ir e vir... ir ao mundo e voltar para, então, ir de novo.

Dessa vez o exercício vai ser assim:

Vamos fazer de olhos fechados. Mas como você precisa ler aqui a condução, vai fazendo pausas. Lendo e praticando um pouquinho de cada vez. Vai funcionar. Ao final se você quiser faz tudo de novo de olhos fechados.

Comece observando a respiração. Perceba um pouco como está sua respiração.

Em seguida perceba seu corpo.

Sentindo a moldura do corpo. Sinta especialmente a fronteira entre o dentro do que você normalmente entende como você e o que está fora, o que deixa de ser você.

Perceba agora o ambiente onde você está. E sempre volte a sentir seu corpo.

Amplia a percepção do seu ambiente para toda a sua casa. E depois, volte a sentir você.

Daí sinta o bairro onde sua casa se localiza. E volte para você.

A cidade onde você está. Você.

Amplie agora para o estado. E então, você.

Perceba o país. Você

O continente. E você e suas sensações internas.

O hemisfério onde esse país se encontra. E quando perceber o hemisfério, continue também sentindo o seu interior.

Perceba agora todo o planeta Terra. E volte a sentir dentro de você.

O sistema solar, perceba o sol e os planetas do sistema solar. Você

O universo infinito. perceba o infinito.

Fique um pouco nessa percepção.

Então perceba você e vem retornando passo a passo.

O sistema solar. A Terra. O hemisfério. O continente. O país. O estado. A cidade. o bairro. A casa. o ambiente onde você está.

E, com a presença da sua respiração aí, perceba essa relação entre você e o que está fora. Entre o que você sente que é dentro e o que você sente fora...

Quando olhamos para fora percebemos as coisas da nossa maneira, uma maneira muito particular. E é comum a gente querer que o que está fora nos veja como nos vemos. Mas além dos elogios, surgem críticas, perspectivas diferentes.

Nesse momento perceba que o que vem de fora não define o que você faz. Críticas ou elogios não mudam sua natureza. Há uma integridade em você. Uma marca, um direito, uma legitimidade de nascença. Você está em relação, mas não é moldado de fora.

Não se deixe determinar pelo que vem de fora.

Você é.
Eu sou.

E assim... aos poucos abrimos os olhos. Voltando a observar a respiração olhamos a nossa volta e novamente aquela paisagem: a rocha sob nossos pés, a floresta, o penhasco, o infinito. Sentimos que fomos ao infinito, um movimento como o vento que as três meninas lá em baixo buscavam. Abraçar o mundo como o vento. Mas ao mesmo tempo sem sair do lugar: pedra.

Então me levantei e fui até o penhasco. A altura me encheu de temor e coragem. Pensei nas três meninas... para onde teriam ido?

Cheguei a pensar que, em sua ânsia de seguir o vento, transformaram-se em vento e foram para além do penhasco...

Dentro de mim uma voz dizia: Vai! Tente!

Olhei para o alto e percebi que agora o céu tinha nuvens. Três. Três lindos flocos de nuvem.

De que matéria são feitos nossos sonhos? Quem somos nós nessa imensidão?

Ali diante da imensidão e do penhasco e das nuvens e do céu e da rocha e da água que vi sair pela rocha formando um rio caudaloso lá embaixo contornado pela floresta... senti o calor do sol que a tudo iluminava e tocava também minha pele. Meu coração ficou tão aquecido que eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser em minha filha e na conversa que tivemos mais cedo. Eu contando de uma histórias que vivi anos atrás, antes mesmo de conhecer sua mãe e ela: "Papai, onde eu estava?"... "Eu não sei".

Fiquei ali diante da imensidão me lembrando do olhar de mistério de minha filha que, de tão jovem, está mais ligada ao mistério do antes do que do depois... insondável para ela o que para mim era simplesmente vida... e as nuvens, ali no alto, testemunhando o meu olhar de mistério e a minha pergunta íntima... "para onde eu vou?"

Então, das nuvens, choveram sementes.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Interexistência


Quero convidar você a respirar.

É assim: observe a respiração. O ar que entra, o ar que sai.
E só depois de observar um pouco, continue a ler as linhas abaixo...
Deixa que o ar entre e saia. Não precisa sugar o ar.
O que muda se você faz isso?
Veja, a respiração não acontece pelo nariz, ele é só passagem.
Quantos padrões de emoções aflitivas quebramos pelo simples fato de parar de sugar o ar...
Perceba os músculos, a pele e a caixa de ossos que envolvem os pulmões... você pode tirar o foco do nariz e respirar por aí.
Que partes de cada pulmão você percebe que preenche?
Há quem diga que quanto mais para baixo respirarmos, mais natural e profunda...
Respire pelas costelas que se abrem para as laterais...
Respire pelo umbigo...
Respire pelos quadris...
Respire pelas mãos...
Respire pelos pés...

E aqui uma sugestão trazida pela Érica, uma meditação guiada da Roshi Joan Halifax que você pode praticar algumas vezes antes de prosseguir a leitura:

Uma meditação para soltar o medo...

"Na inalação, reúna sua atenção.
Na exalação, leve sua atenção à sensação de seus pés no chão.
Sinta a segurança e a estabilidade de estar aterrado.
Relembrando a verdade da impermanência
Repouse com abertura e destemor."

A terra é o que nos sustenta. Lembrou Ana no nosso último encontro da Jornada.
E lembrou dos outros dois elementos fontes de vida.
O ar... que estamos agora mais atentos ao seu fluxo e que nos conecta inevitavelmente a todos os seres da Terra.
O sol... que clareia e aquece, a todos indistinta e abundantemente: o grande mestre da equanimidade.

A partir desses elementos surge a água.
Com os três mais a água, os vegetais.
Com os três, mais a água, mais o vegetais, surgem os animais.
Com os três, mais a água, mais os vegetais, mais os animais, vem o ser humano.
Após o ser humano... o que virá?

De qualquer forma sabemos sobre nós. Quanto mais complexo, maior a potência, mas igualmente maior a dependência dos demais, maior a fragilidade e vulnerabilidade.

Aqui estamos no mar da vida, percebendo nossa vulnerabilidade.
O medo, a confusão nos desatinam e criamos mecanismos de proteção, defesa.
E, se de um lado, desejamos a abertura do amor e liberdade. De outro nos fechamos na solidão e visão acanhada.

Só há caminho na aceitação da vulnerabilidade. Que é a decorrência de vivermos sob a lei universal da impermanência.
Só há caminho na confiança da interconexão. "Relembrando a verdade da impermanência, repouse com abertura e destemor."

Por isso retomamos a conexão original com o três elementos. E estamos meditando com eles. E antes de sair fazendo coisas, procurando soluções aos problemas, estamos aprendendo a observar.

A Caroline disse assim: "sempre que não sei o que fazer paro na direção do sol e fico fazendo nada."

Um belo exercício, não é mesmo? É a arte de parar, de observar sem dar soluções, sem intelectualizar, sem buscar finalidades, sem seguir os impulsos... e assim mergulhar no mar de si, a profundidade que os conflitos podem nos trazer.

No Livro verdadeiro da fonte original, Yang Dschu diz:

"Quem faz o bem talvez não o faça visando a fama, no entanto esta o acompanhará. A fama nada tem a ver com o lucro, mas este seguirá seus passos. O lucro nada tem a ver com o conflito, mas este surgirá seja como for. Portanto, que o grande honorável os proteja de fazer o bem."

No automático estamos sempre dirigidos àquilo que acreditamos ser o melhor.
Mas já nos decepcionamos demais e também já ferimos demais.
Tem algo errado e a vida já nos sinalizou isso (os sintomas no corpo e os conflitos nas relações)
Antes do fazer no modo automático, a escuta, a observação de si mesmo.

A Silmara, uma amiga querida, que encontramos no meio do caminho aqui desses nossos passos da travessia, anda lendo junto com você esses nossos textos, disse que estava se lembrando do poema de Clarice Lispector que se chama "Se eu fosse eu" (clique aqui para ouvir o poema inteiro).

"Se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais."

Nos abrimos ao desconhecido e chegamos a experiência do mundo, a dor do mundo, agora que voltamos a sentir.

Sabe? Eu gostaria que a gente pudesse agora ouvir aquela música do Dorival Caymmi "Vamos chamar o vento" (clique aqui para ouvir a Canção de Dorival Caymmi)

Nessa canção ele mostra a interconexão, mundo natural e humano... o vento, a vela, o barco, a gente, o peixe... e a interconexão com as necessidades da subsistência econômica... peixe que dá dinheiro...
O curimã lambaio (taínha) peixe que dá dinheiro...
No entanto, na voz de Caymmi, a atmosfera da música ganha um ar solene, misterioso, sagrado... a evocação do vento... o assobio... o Curimã Lambaio parece uma entidade espiritual... uma divindade...

Com olhos de ver a interconexão das coisas, tudo leva-nos ao sagrado...
O Sagrado...
O Natural...
O verdadeiro segredo é o sagrado escondido no natural.
E aqui quando respiramos, sentimos a terra, também sentimos o vento, e o barco, e o pescador em sua jornada, e a todos os pescadores de outros mares em suas jornadas por dinheiro e em sua jornada por amor, diversão, paciência, entrega... Estamos juntos.

Como a menina da história de ninar que a Gabriela foi criando e contando ontem. A menina vinha remando o barco no mar. Até que ficou com muito sono. Resolveu parar para descansar, entrou numa concha que se fechou e a levou para o fundo. E o sono foi aumentando e ela começou a ouvir os sons do mar e de todos os seres do mar, ouviu o som do peixe, do tubarão, da baleia, do golfinho... e os sons foram se misturando em seus ouvidos, em seus sonhos...

Quando acordou do sono voltou a terra. Onde respirou profunda e sentidamente o ar. O dia estava ensolarado e percebeu um enorme campo de milho. E ali estava um camponês em seu trabalho, e o milho... ambos sob o sol. E ali, no meio deles, um pintor que pintava toda a cena. A menina chegou perto dele e perguntou... qual o seu nome? O que você está fazendo? Por que está pintando assim de uma forma tão diferente da realidade?

O jovem pintor respondeu:

Eu me chamo Alexandre. E o que estou fazendo é muito simples. Os campos que fazem o milho crescer, a água que corre pela ravina, o suco da uva e a vida de uma pessoa constituem uma só e a mesma coisa. A unidade exclusiva da vida é a unidade do ritmo. Um ritmo pelo qual todos dançamos, humanos, maçãs, ravinas, campos arados, carroças no milharal, casas, cavalos e o sol. O que existe em você, menina, passará por uma uva amanhã, porque você e uma uva são a mesma coisa. Quando pinto um camponês trabalhando no campo, quero que as pessoas sintam o camponês fluindo para o solo, assim como acontece com o milho. E da mesma forma como o solo flui para o camponês. Quero que sintam o sol se despejando sobre o camponês, o campo, o milho, o arado e os cavalos, assim como todos se despejam de volta no sol. Quando se começa a sentir o ritmo universal em que tudo na terra se move, começa-se a compreender a vida. (adaptado da conversa de Van Gogh para Gauguin).

sábado, 9 de maio de 2020

Renda-se se for capaz


Saí de lá e chorei. Foi tão maravilhoso olhar as coisas sob a perspectiva simples e sábia de Dona Lucyla... aquilo tudo me tocou e trouxe uma luz que inevitavelmente mostrou as sombras aqui de dentro.

Caminhei um pouco pensando: tudo que eu quero nesse momento é descarregar o peso da mochila que venho carregando. Um fardo pesado... a vida se tornou pesada... por que é tão difícil simplesmente ser? Por que tanta busca, tanta finalidade, tanto pensamento, tanta crítica, tanto controle, tanto esforço, tanta adequação?

Eu estava realmente insatisfeito comigo mesmo.
Depois de ter sentido tanta alegria na simplicidade, confiança na vida e uma certeza de que as coisas seriam mais leves...
Fui novamente tomado pelo labirinto de meus pensamentos.
Na tela da mente iam surgindo: pessoas com quem tenho dificuldade de me relacionar, ressentimentos, situações que quero controlar, parece que eu mesmo que estava antes me sentindo como um sol brilhando para todas as direções, de repente construí um muro novamente, me tranquei de volta num lugar velho conhecido meu de crítica e auto-cobrança. Então pensei: acho que nunca serei capaz de mudar.

Fui andando assim num torvelinho de pensamentos e memórias... decepcionado e desanimado.

De repente comecei a ouvir uma música gostosa e me dei conta que uma artista de rua estava começando a cantar uma canção (clique se quiser ouvir) Naquele momento sem perspectivas, resolvi parar para ouvir. A música foi me envolvendo num sentimento de paz... a letra falou diretamente ao meu coração. Era algo assim:

Vai! Paciência, direção, levados pela impermanência...
Vai! Paciência, diversão, levados pela impermanência...

Parece que pensar é perecível
a mente é cabível
mas eu não caibo aqui

sentido é só sentindo que se sente
eu sou possível
já tô aqui

se a gente solta colhe o imprevisível
presente disponível
do vento do devir

love, love, love, surrender, surrender
surrender just to be

(amor, amor, amor, entregue-se, entregue-se
entregue-se a simplesmente ser).

A cada verso a música ia me tocando. Fazendo sentido. Falando comigo.
Fiquei ali impressionado com a sincronicidade do momento.
Não podia ser mais perfeita essa música, o encontro com essa artista que brotou na minha frente justo quando eu mais precisava.
Era como a aparição de um anjo. Até porque estávamos só nós dois ali naquele momento. Provavelmente ninguém mais a ouviu. Ninguém filmou esse momento. Até agora não sei exatamente se existiu.

A moça me olhou e sorriu.
Um sorriso feliz e cúmplice como se ela se visse no meu lugar quando também em sua vez saiu a caminhar e chorar.

Sem dizer uma palavra estendeu uma caneca na minha direção
Eu me vi levado a aceitar.
Provei: gengibre e cravo... foi o que consegui identificar do forte aroma daquela bebida quente.
Acalentou o estômago e o coração.

"Que música linda!, eu falei. Ela é muito cheia de significado".
"Sim. É tudo que a gente precisa na vida. Amor e entrega".

E eu completei sorrindo: "e paciência".

E rimos.

"Ah sim. Paciência..." ela comentou; e continuou me dando sua perspectiva sobre a música:
"Isso de viver é um caminho.
Que precisa ser caminhado: Vai! Direção... A gente precisa fazer, agir, interagir, para que as coisas aconteçam e a gente vá aprendendo com os próprios erros. Tem gente que fica parado, esperando ser perfeito pra viver, esperando aprender a amar pra se relacionar, esperando mais aquele curso, mais aquela formação... é muito medo, na verdade, medo de se expor, medo de sofrer, medo de não agradar... na base disso tem uma finalidade imatura de ser reconhecido. Ora, andar se aprende andando, cantar, cantando, sentir, sentindo e amar, amando.

Mas vai com paciência consigo mesmo, não se cobre tanto... traga um tanto de humor e diversão na estrada: desfrute a vida.
Altos e baixos são justo parte da impermanência...

Tudo passa, tudo é tão passageiro, perecível...
O próprio pensar é perecível. Creio ter um pensamento certo, mas o certo para um é errado para o outro e vice versa... o certo hoje é errado amanhã... impermanência...

A mente é cabível, eu sinto tanta coerência em meus pensamentos, tanta lógica, tanta certeza...
Constrói sentido, lindos sentidos de vida,  mas eu me aperto pra caber nesses sentidos que no fundo não são tão meus.

Definir é limitar. Não me cabe. Tem algo em mim que não cabe nesse ordem de certezas da mente inteligente, a experiência é mais que o pensamento.

Transbordo a prisão de meus pensamentos e encontro a mim mesma, eu sou possível, já estou aqui.
Não é nada que precisa ser feito para chegar em parte alguma. Eu sou possível.

Já estou aqui. É como um pouso. Percebo que estava viajando, perdida num filme... e volto e percebo: estou aqui. Até a respiração volta a ficar consciente.

Plantando se colhe, as sabedorias falam muito disso. Mas o que amo nessa música é essa inversão... ao invés de plantar, soltar.
Soltando colhemos o imprevisível
Abrir-se à imprevisibilidade...
Presente disponível... o momento presente torna-se disponível para mim... eu me torno totalmente disponível para o que está presente
E para o que o vento conduzirá

O amor, o amor para além das caixas de certezas é uma entrega
Entrega ao desconhecido...
Entrega a simplesmente ser...
Abandone todo esforço... só seja..."

Eu amei ouvir aquelas palavras todas e a naturalidade com que fluíam de uma pessoa muito integrada com o que dizia. Cantava com amor e entrega. E me acolheu ali naquele momento me olhando sem julgamentos. E falou do que sentia, sem querer me convencer mas apenas expressando sua forma de ver as coisas. Havia um tipo de leveza em seu jeito de falar que eu não sabia exatamente de onde vinha.

E eu estava mesmo querendo te contar tudo isso que vivi e o que andei pensando. Você, que ainda está comigo aqui nesse texto, lendo e refletindo comigo, sabe-se lá por quais caminhos a vida te trouxe até aqui... o que esses textos têm feito você pensar e repensar em seus processos e sua vida... o que essa música te faz pensar, sentir... gostaria muito de ouvir você. Como anda sua jornada de transformação.

Sabe? No último encontro a Ana chegou a dizer:
"Amar é se transformar."

Senão só entro em relação com as projeções que faço no outro
E as projeções já são marcadas pela velha mente

O amor só é possível quando eu desisto de sustentar as opiniões, as crenças, a própria mente que opera por dualidade. Para amar precisamos mudar a forma de funcionar da mente.

Se eu sou uma pessoa muito consciente, o outro é uma pessoa muito inconsciente.
Uma polaridade está aí.
Veja quantas polaridades sustentamos!
Se eu sou uma pessoa honesta o outro aparece como desonesto. Se sou generoso, o outro é mesquinho. Se sou inteligente o outro é ignorante. Se sou cuidadoso o outro é relapso. Se sou trabalhador o outro é preguiçoso. Se sou caridoso o outro é indiferente. Todo julgamento que fazemos do outro é porque estamos reforçando o outro lado da polaridade em nós. Queremos sustentar isso. Passamos a vida tentando ser o melhor possível. Mas com uma base ilusória. E isso não se sustenta. A vida sempre vem e traz conflito. A vida é perfeita para trazer aquilo que precisamos olhar. Surge o sintoma. No corpo, ou nas relações.

Às vezes a gente fica de uma polaridade a outra. Ah... cansei de ser bom, agora vou ser mau... cansei de ser igual minha mãe, agora vou ser o oposto... mas na verdade não saímos do lugar. O que a Ana vem sugerindo em nosso jornada é que o caminho está na integração das polaridades... ativar uma mente que seja paradoxal.

Ela usou aquelas figuras que aparecem formas que ou se vê uma coisa ou outra. Aquela conhecida do vaso e dos rostos. Aquela da jovem e da velha. Ou você vê uma imagem, ou outra... então o convite é ver as duas ao mesmo tempo. Isso ativa essa capacidade, nos traz uma abertura. Para ver ambas ao mesmo tempo.

Sou generoso e mesquinho. Ao mesmo tempo. E mesmo nos atos mais generosos, trago a mesquinhez em mim. E não demoro a julgar quem faz um pouco diferente de mim como uma pessoa mesquinha.  Mas não consigo ver os meus pequenos atos de mesquinhez. Mas se me olho com verdade... estão aqui... ambas, a generosidade e a mesquinhez.

Daí o que posso fazer? Um exercício que a Ana ensina é assim: Vai... respira, relaxa, se abre para fazer um processo. Pode ser sentado, deitado na posição semi-supina ou como preferir. Então perceba a generosidade (ou qualquer qualidade que você valorize) em você. Perceba que a mesquinhez (ou a qualidade oposta da que você está trabalhando) também está em você. Agora veja que ambas estão juntas, atuando constantemente em você. Traga consciência para isso. Então... agora... nesse estado com a mente calma e atenta abra mão de ser generoso. Diga assim, em voz alta se for preciso: eu abro mão de ser generoso.

Pode parecer loucura abrir mão de uma qualidade tão cara a você. Mas abra mão porque ela não tem sido para você uma totalidade. Quando você afirmar isso, perceba o que surge. Quando abro mão de ser generoso não quer dizer que opto por ser mesquinho. Abro mão de ambos. Saio da polaridade e minha mente entra num vazio. Num mar de possibilidades.  Pode ser que daqui em diante eu pratique atos que podem ser vistos, avaliados pelas pessoas, como algo generoso, ou mesquinho, mas para mim será algo que as circunstâncias me trouxeram e que sinto como natural fazer. Sem pensar em prêmios e recompensas emocionais. Abrir mão de um dos polos me libera da polaridade e me liberta para uma criação. Se a gente solta colhe o imprevisível...

Quando fiz isso, a pessoa que eu via como mesquinha... mudou. Já não é mais mesquinha. É até bem generosa. Isso ampliou minha perspectiva. E me aproximou dela de novo. Olhar e pensar "mesquinha"... me afastava dela. Fui, sentei, reconheci em mim a polaridade, soltei, voltei e olhei para ela... sem julgamentos... pude ver.

E o resultado disso é amor. Olhar o outro.

Esses são processos que a Ana faz e está nos convidando nessa jornada da travessia.

Podemos passar a vida em conflito, reclamando e criticando a todos a nossa volta... ou podemos começar a integrar em nós as polaridades... essa mente que integra é que a Ana tem chamado de mente paradoxal. Porque eu sou honesto e desonesto. Carrego a desonestidade comigo quando procuro ser honesto. Ver e aceitar isso precisa de muita sutileza e precisa se vulnerabilizar.

Só vivo amor se eu me vulnerabilizo a esse ponto.

O outro é a chave para olhar em mim o que está na sombra daquilo que valorizo como luz.
O conflito é a chave para a integração de luz e sombra.

E agora ao invés de reclamar o dia inteiro, passo o dia olhando o que se passa em mim quando me vêm os conflitos e usando tudo como exercício. É uma arte de viver.

E o amor é o resultado de quando nos liberamos e nos desfazemos das projeções.

O amor não é um cultivo. É o que surge após a liberação.

Se a semente morre não nasce a árvore.
Quando a cera se extingue a chama se apaga.

Lembro da Ana falar a uma participante que fez um processo desses no encontro: o grande risco de você se liberar dessas emoções que te colocam em conflito com o outro, o grande risco de todo esse processo é você amar o outro. Poderíamos dizer também: amar essa pessoa contra quem você vem sustentando tanto mal estar: você mesma.

Antes de terminar esse texto que escrevi relaxado e cansado, gostaria de te presentear com um papelzinho que a artista me deu antes de nos despedirmos. Ela tirou um pedaço de papel do bolso e antes de me entregar, leu para mim com sua leveza de alma.

Renda-se se for capaz

Quando o amor vos chamar, segui-o.
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.

Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.

Amor, amor, amor
Entregue-se
Entregue-se a simplesmente ser.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Sobre finalidades, adoecimento e sentido de vida

Nossa travessia continua. Saímos do lago caminhando. Andamos, andamos contemplando as altas montanhas em torno da região até que chegamos à casa de uma senhora humilde, muito amorosa, que é conhecida por todos como uma poderosa benzedeira. Dona Lucyla era seu nome e nos recebeu com grande calor humano, nos convidou até a cozinha e pôs a água do chá para ferver... (sim, espero que nesse encontro possamos tomar um pouco mais de chá, tem nos feito bem).

Foi até o quintal dos fundos de sua casa buscar umas ervas para o chá e nós a acompanhamos com o olhar dali da soleira da porta. Nos sentamos nos degraus da escada que dá para o quintal e ela, toda alegre e cativante nos diz que a doença na verdade não existe. Os sintomas que temos podem ser olhados de uma outra maneira. E que as pessoas ao invés de ficar buscando cura pros sintomas deveriam mesmo dar boas vindas a eles porque eles são os sinais da própria vida indicando os caminhos que precisamos percorrer. "Tem algo fora do lugar, precisa arrumar. Remédio pode enganar. A pessoa acha que está curada, mas logo logo volta a ficar doente de novo. A vida é caminho... não é chegada."

Olhando para o seu quintal, ela foi nos falando da inteligência das plantas, e da esperteza dos animais, e falou que os grandes alimentos de todos os seres são o ar que respiramos, a terra que nos nutre e o sol que ilumina e aquece. E que isso tudo está dentro da gente também, constantemente em trocas entre o que está dentro e o que está fora. "Quando respiramos... isso fica tão claro, não é mesmo?" Em sua compreensão simples, brotavam palavras de muita sabedoria que nos chegou a confundir:
"O mundo todo fora está dentro da gente. Esse é o grande paradoxo."

Ela me olhou nos olhos e por instantes cheguei a pensar que o mundo fora de mim que, naquele momento, incluía ela própria ali na minha frente, estava dentro de mim e que o que era outro era eu e que eu era o outro... e naquele instante me lembrei que eu, sem a conhecer, havia sonhado com Dona Lucyla naquela noite: seus olhos, sua alegria, seu tônus, sua casa, e tudo aquilo que estávamos conversando... tudo parecia um grande dèjá vu. Ela sorriu pra mim e retirou uma goiaba do pé. E eu estremeci de pensar que ela poderia ter me visitado conscientemente em sonho... tive medo quando ela partiu a goiaba e mostrou as sementes dizendo: "olha só, meu filho, agora me diz: a semente vem antes ou depois da árvore?" Confuso, comi a goiaba que estava doce.

Sentamos à mesa. Ela respirou fundo e como que olhando-nos a partir do coração, fez uma expressão terna e doce, como se visse em nós duas crianças ali em sua casa, ávidos por ouvi-la.
"Olha, vou contar uma história pra vocês. Na verdade é um conto de fadas e eu acho que ele fala tudo sobre isso que a gente está conversando.
Era uma vez duas meninas que haviam perdido o pai. Só tinha ficado a mãe. E a mãe gostava mais da filha feia e preguiçosa do que da outra que era bela e inteligente.

Vejam meus filhos, ela explicou, as histórias antigas falam sempre de nós mesmas. Sempre que tem duas irmãs... está falando de duas tendências que temos dentro da gente. Nesse caso, um lado nosso que caminha com saúde e um outro lado que vive procurando doença. Prestem atenção nessa história que vocês vão ver como que podemos escolher o nosso caminho.

A filha bela e inteligente está na beira do poço tecendo com sua roca de fiar... fere a ponta do dedo e a roca vai parar dentro do poço. Ao tentar pegar a roca ela também cai no poço e, magicamente, vai dar num lindo campo de flores... É como um reino encantado, um mundo paralelo... o mundo primordial... o mundo dos mitos...

E ali ela vai caminhado e passa primeiro pelo pão que estava pedindo que o tirassem do forno. Ela o ajuda. Depois as maçãs que queriam que sacudissem a árvore para que caíssem. Ela também as ajuda. E depois chega na casa de uma velha senhora. No princípio a menina teve muito medo. Mas depois acabou ficando com ela para ajudar. Essa velha era a Mãe Natureza do mundo mitológico. Ela lavava o chão de sua casa, e as águas que escorriam para fora geravam a chuva no mundo. Imaginem o que mais ela fazia que presidia os acontecimentos aqui da Terra...

Na companhia da velha senhora a menina ficou alguns dias. Vivia bem com ela mas começou a sentir saudades e vontade de voltar. Explicou isso à velha que concordou com sua partida. A Mãe Natureza levou-a de volta ao poço e antes, parou num portão, que do alto caiu uma chuva de ouro que deixou a menina repleta de ouro por toda a vida. Chegando em casa, o galo cantou: cocoricó, a donzela de ouro está aqui.

A viúva e a irmã ouviram sua história. Resultado: a irmã feia foi trilhar o mesmo caminho da menina bela. Mas... saiu tudo diferente, mesmo tentando fazer tudo igual. Ela vai ao poço fiar, mas não se machuca por acidente, ao contrário, finca o dedo num espinho, joga a roca no poço e se lança também. Chega no reino encantado. Mas não ajuda o pão a sair do forno, nem ajuda as maçãs a caírem da árvore... não teve medo da velha senhora porque já sabia que era boa e foi trabalhar para ela, com a intenção de receber todo aquele ouro também. Porém os dias se passaram e ela começou a ficar preguiçosa e não trabalhou direito. Aí a velha a despediu. A moça contente achou que ganharia todo aquele ouro. Mas ao invés do ouro o que caiu sobre ela foi piche. Chegando em casa o galo cantou: cocoricó, a donzela suja está aqui. O piche ficou grudado nela e não saiu por toda a vida."

Ouvimos essa história e o chá ficou pronto.
Começamos a tomar o chá mas Dona Lucyla teve que ir atender uma família que trazia uma criança doente para ser benzida. Ela foi pro quarto de reza e ficamos aqui nós dois.

O que você achou da história? Percebeu que curioso que o ouro e o piche ficaram grudados na pele? Na superfície do corpo. Uma fica saudável a vida toda. A outra, doente. Isso me faz pensar que saúde ou doença é uma questão de escolha, uma forma de ver as coisas e uma atitude diante da vida.

A primeira se integra aos processos da vida. Não força as coisas. Vive os acontecimentos como eles aparecem, não age em busca de finalidades. E nessa integração consigo mesma, aparece a integração com os ciclos naturais... o pão que precisa ser tirado do forno no tempo certo para não se queimar...  as maçãs que precisam sair da árvore no tempo da maturidade, antes que apodreçam... o contato com a personificação da Mãe Natureza, que nos causa medo de início... mas é boa para nós, se a servimos como deve. Além disso, na história a moça entra em contato com seu próprio medo. E fez dos seus sentimentos seu caminho.

A segunda vive a desconexão de si, e dos ciclos naturais. Não se percebe e não percebe seu entorno, obcecada que está com a idealização do prêmio. Age em busca de fins e não escuta os chamados do caminho. Não serve a natureza mas só objetiva os lucros que pode obter dela.
Essa história é uma bela metáfora sobre nossa travessia.

Nesse assunto de doença, nossas conversas com a Ana têm feito esse convite: todo sintoma é uma pista de um caminho para reequilibrar. Mudança de paradigma. Não se ver mais doente. O que está doente, diz Ana, é nossa relação primordial. Ora! Somos natureza, não há falta! O que há é uma ilusão de falta. Então partimos em busca de preencher essa falta ilusória. E do lugar de potência natural da conexão básica da vida, nos desconectamos e nos sentimos impotentes. Para compensar a sensação de impotência, buscamos a sua polaridade que é o poder. Poder nos mais diferentes sentidos. Não só o poder sobre o outro, o poder de dominar que já é tão denunciado. Mas o próprio poder de ajudar, de curar, poder do conhecimento, poder de ser uma pessoa melhor, a vontade de ter uma experiencia que me tire da impotência. E assim, Ana completa: criamos uma vida falsa.

Esse foi o caminho da segunda filha. Agir por finalidades é agir com uma espécie de segunda natureza. Eu vou me perdendo de mim. E aí sinto que preciso me encontrar. Então encontro algo que me dê sentido. O sentido de vida surge aqui também como uma forma de falseamento da existência. "Por que precisamos dar um sentido a vida?" E daí o reforço de uma identidade, um lugar no mundo, e criamos problemas e conflitos para alimentar todo essa auto-imagem

Diante de tudo isso, Ana continua, o que precisamos, não é resolver os problemas humanos, mas precisamos de um outro ser humano. Que não vai viver pairando acima das nuvens, vai viver as vicissitudes da vida, encontrar o jogo de atrito e conflito que vai gerar um fluxo... um caminho... e nesse caminho encontrar a diferenciação... o caminho que, ao ser percorrido, vai desvelar do dom!

Não sei o que você sente ao ouvir tudo isso. Uma pergunta que nos surge: como então parar de buscar finalidades sem que isso se torne mais uma finalidade? Ana convida a gente a observar as sensações e principiar por delas... do que você sente. Sintomas como caminho... sensações como caminho... o que está presente agora?

O passo aqui é observar. A si mesmo. O que está passando aí em você. Suas sensações corporais mesmo.

Ouvindo um amigo do grupo, o Breno, ele nos lembrou que a própria palavra cura significa "dar atenção a algo especifico" e que o arquétipo do curador significa: prestar atenção. Porque a atenção transforma. Então ao invés de buscar fora as soluções, a gente começa a observar a gente mesmo.

Meu professor de meditação diz isso o tempo todo... observe, só observe. Não julgue o que aparece, só observe as sensações, permaneça equânime diante delas... esse é o caminho para ser livre: consciência e equanimidade.

Aliás nessa nossa conversa sobre saúde me lembrei muito dele que foi fazer seu primeiro curso de meditação depois de percorrer anos a fio, países e médicos, para curar uma terrível enxaqueca. Ele, um industrial bem sucedido, já viciado em morfina chega ao centro de meditação de U Ba Khin, e diz: "Quero aprender a meditar, me disseram que o senhor pode me ensinar." E o renomado professor pergunta: "para quê você quer meditar?" "Para curar-me da enxaqueca. O senhor acha que a meditação pode ajudar?" E recebe a seguinte resposta: "pode ir embora. Curar enxaqueca não é motivo para aprender a meditar. É muito pouco." Assim começou o caminho de meu professor para fora do círculo das finalidades.

Aqui agora em nós estão as moças da história: a bela vive a experiência e inaugura um caminho. É o inicio da vida. Com suas dores e delícias. A feia é a parte da mente que reage: quer evitar as dores e repetir as delicias, são nossos padrões inconscientes. A primeira experimenta... deixa marcas em nós... e depois vamos querer repetir mas não conseguimos. A origem disso se perde no tempo. O que temos hoje é a repetição das ações que causam dor. Mas igualmente temos a chance de atualizar, de vivermos de novo uma experiência original.

Saúde é sentir!

Olha, Dona Lucyla está chegando. Está trazendo linhas e agulhas... o que será que vamos tecer juntos agora? 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Nascimento da Jornada

Começamos oficialmente a Jornada da Travessia.

E eu convido você a fazer essa caminhada junto comigo.
Durante 3 meses vamos ter os encontros com a Ana, com os eixos temáticos, saúde, educação e trabalho. Serão três encontros por semana, segundas, quartas e sextas.
Proponho uma conversa entre nós através de três textos por semana.
Para mim é uma alegria, um momento de verdadeiro amor, poder escrever. Especialmente desse jeito... tendo você aqui comigo. Não é uma escrita individual. É uma conversa. E essa percepção de que, no momento da escrita eu não estou sozinho mas estou na companhia de quem lê, eu a trago há muitos anos, desde que comecei a escrever, e com a leitura dos livros de Machado de Assis e do jeito que ele se dirigia aos leitores, conversando com eles. Para mim, escrever é uma forma de encontro.
Eu escrevo para ser lido... escrevi anos atrás.
Hoje estou diferente de ontem, mas percebo que há uma intuição que permanece intocável. Estamos juntos aqui por intermédio das palavras que nos entrelaçam. E não pode haver a pessoa que escreve sem a pessoa que lê.
Isadora Duncan dizia que nunca dançava sozinha. Sempre teria um "outro" dançando com ela.
Então essas palavras que vão aqui... em um nível muito real, são nossas.

Agora, quero explicar o que vamos fazer aqui, como vai ser esse caminho.
Essa série de textos nascem a partir dos processos que vão surgindo no decorrer da jornada da travessia. Não necessariamente vão conter os pontos que forem falados em cada manhã com a Ana. Essas ligações vão existir. Mas não será um resumo das conversas. São desdobramentos desses encontros e como reverberaram e como transcorreram por aqui.
Portanto, três textos por semana, descrevendo processos, convidando caminhos, criando através da escrita, e da leitura.

Uma outra coisa: não sei exatamente quando você está lendo essas linhas, pode ser inclusive que seja num tempo muito futuro. Não tem problema. Essa travessia acontece a todo momento. Creio que uma das coisas que estamos tocando aqui é essa dimensão da temporalidade e da atemporalidade. E as inversões e paradoxos da esfera do tempo.
Ana lembrou que a molécula de oxigênio que respiramos hoje, é a mesma que aqui está no planeta Terra há milhares de anos...  como é a passagem do tempo para essa molécula que agora entra em seus pulmões, e que por isso passa fazer parte da composição do que você considera o seu corpo? De quantos corpos essa molécula de oxigênio já foi parte? De quantos líquens, bichos, em que águas de rio ela desceu? De quais pessoas ao longo da nossa história humana, de quantas espécies de humanos anteriores e contemporâneos aos sapiens... isso tudo é tão incomensurável... para mim me faz sentir parte de toda essa imensidão e abre comportas libertando-me da sensação reduzida de quem sou e do que sou capaz.

Ontem a Gabriela olhando para a imensa cachoeira nos disse: olha como somos fortes! E olhando para a paisagem de pedras e florestas em que estávamos: olha como somos bonitos! E eu também pude olhar para dois pequenos insetos numa pequena e bela florzinha do mato: dois minúsculos seres ali entre a penugem branca de um núcleo vermelho de uma florzinha do mato à beira do rio... me perguntei o que estavam fazendo ali, se conversavam, se namoravam, e como entendiam dali, a linguagem do rio. Sentei para meditar e ouvir o rio, e ali se misturaram a areia e as pedras, as águas do rio, o ar na presença do céu, a fogueirinha que fizemos para aquecer e para ritualizar o aniversário da Gabi... os quatro elementos se misturavam e o fogo também me consumia... eu já não era eu... e os dois insetos ainda estavam ali... quem são esses dois amigos na penugem da flor? E agora estou aqui com você nesse texto e me pergunto quem é você e quem somos nós senão aqueles dois insetos conversando na pequena flor vermelha e branca.

E as palavras... quantas palavras já foram ditas ao longo da nossa história, quantas construíram, quantas desconstruíram... e essas aqui que estamos usando agora... são apenas uma repetição... são uma recomposição... quem está falando agora? Quem você está, na verdade, ouvindo?

Para mim esse movimento é como um nascimento. Ana iniciou a jornada falando sobre o nascimento. E da alegria que cada nascimento é, para ela. E de como ela olha hoje para as pessoas e sente a alegria de ver em cada pessoa, uma pessoa que nasceu. E de assim olhar as pessoas com essa emoção alegre. E aqui comigo no momento em que me ponho a essa tarefa de usar a escrita como ferramenta de criação, sinto essa força de um nascimento, com sua originalidade, emoção, transcendência, singularidade, composição com tudo o mais e todos os demais. Portanto quando me sento para escrever abro meu olhar para a vida, me alimento e me comunico como todos, incluindo aqueles que jamais lerão esses pensamentos, é um mistério. E também sou leitor de mim, leitor da vida, e leio essas palavras como quem absorve a seiva da vida, o néctar de um dom.
A escrita é um dom.
O dom de escrever.
Dom não é simplesmente um saber fazer. Mas uma expressão de si.
A escrita não é o dom. As coisas que fazemos... é o como vamos fazer que revela nosso dom, uma particularidade, uma originalidade, um toque sem igual.
Assim como muitas outras ações a escrita é uma ferramenta. E através dela eu caminho transbordando quem sou, através dela eu me desvelo, eu sou.
E comunico algo. Algo muito profundo. Que no corpo humano corresponde às profundezas do mar, o dentro sem nome. E você que lê não é simplesmente a testemunha curiosa lendo sobre alguém. Você sente junto. Mergulha junto. Acessa em si, esse algo que também te move.
Porque toda vez que alguém expressa o dom, o dom em nós desperta e vibra.
Isso não leva a uma homogeneidade, pelo contrário, é o próprio caminho da manifestação da singularidade e da diferença, em sua riqueza abundante e multiforme.

Então a jornada começa como um nascimento.
A escrita em mim... nasce um escritor.
Isso é tão intenso, e real, e verdadeiro que não tenho palavras.
O escritor que se cala diante da alegria de não ter o que dizer e de deixar que o dito seja o não-dito.
O fim da escrita é o silêncio.

A imagem que me vem quando penso esse renascimento é como se eu tivesse tido muitas vidas anteriores e me dedicado a escrita por muitas vezes. E o que faço agora é um recomeço. Com alegria transbordante desse reencaixe.

Na expressão do dom em mim, sou parte da sustentação para que você expresse o dom em você.
Ana fala do eu e o outro. Ou seja, na multiplicidade de criações, interpretações e pontos de vista não é o eu ou outro, como era nos modos competitivos de vida. Se um tem razão, por lógica, o outro estaria errado. Não, não. Tampouco é um pouco do meu e um pouco do outro, como era nos tempos da política de conciliação de interesses. Não. O que ela fala é que agora somos o eu e o outro. Ambos. Numa composição em que um não anula ou outro. Mas formam um jogo de soma infinita. A infinidade de possibilidades das composições que abrem espaço para a manifestação do dom em cada um.

Então, amiga, amigo, aqui nessa conversa através do texto, o convite não é para você divulgar para outras pessoas quando acha legal, ou ficar com raiva quando acha que discorda. Não existem essas possibilidades. O convite é para ler. E o que virá daí é algo absolutamente imprevisível. E será tanto mais imprevisível se ao invés de simplesmente ler com os olhos, você ler com o umbigo, com a barriga e as costas. E guardar-se um tempo no coração. E depois deixar derramar até a ponta dos dedos dos pés e das mãos. Estar aqui agora não só você mas todo o seu passado e seu futuro, trazer todos os seus ancestrais e descendentes e seus amigos e aqueles que você considerava inimigos. Ler de forma a estar com sua inteireza. Até que não seja mais você. Mas o dom. O algo.

Uma vez eu aprendi que para escrever bem um texto é importante ter um foco. Tratar de um assunto mais especificamente. Estou disposto a desaprender isso. Creio que estamos falando de muitas coisas ao mesmo tempo. E inclusive sei que você está pensando coisas que nem estão escritas aqui... então, para mim o texto é simplesmente um pretexto para um outro texto.

Que se apresentará por escrito ou não.

Boa jornada!

sábado, 2 de maio de 2020

Sobre finalidades e conexões



Na última conversa sobre a Vila XI umas ideias ficaram aqui presentes em mim e fiquei pensando, pensando... observando... observando a mim mesmo... e a sentindo a validade dessas ideias. E aí fiquei com vontade de escrever. Primeiro porque amo escrever. E depois com a finalidade um pouco de tentar clarear para mim mesmo esses pensamentos e um tanto para trocar essas ideias com outras pessoas e ouvi-las.

Mas antes de falar sobre o que a Ana disse e sobre o que eu andei pensando, eu gostaria de convidar a você que está lendo essas palavras a não ler de qualquer jeito, a não ler com pressa. Mas a entender que essa leitura que nesse momento você faz é na verdade uma conversa que estamos tendo.

Eu sei que nos tempos atuais as leituras são rápidas, os textos são curtos, mal se lê, mal se entende, e menos ainda se tem tempo de deixar a leitura adentrar os poros do corpo e tocar as fibras do coração e as células todas da cabeça aos pés, e as emoções e os significados mais profundos das palavras e das ideias, dos sentimentos e das intuições que vão acontecendo durante a leitura. Por isso se você está nesse modo acelerado de ser, sugiro que pare aqui. Deixe o texto de lado. Deixe para outra hora.

Mas se você vai continuar, faça isso de forma a se dar esse tempo. E me dar esse tempo. Essa leitura é uma conversa entre nós. É como se estivéssemos sentados juntos tomando chá, sem hora para terminar. Então sente-se, respire, saboreie o seu chá e vamos conversar.

Vamos entender o que estamos fazendo. Enquanto você lê essas palavras é como se você me ouvisse dizendo-as. E ao mesmo tempo é como se você as estivesse pensando. Assim é que acontece a leitura: as ideias do escritor entram na mente de quem as lê como se o leitor fosse o próprio pensador delas.

Com o tempo a pessoa pode desenvolver um potencial de ler e discordar, ou ler e concordar, separando-se como se fossem duas pessoas separadas. Não concordo... essas ideias são "isso e aquilo", e eu penso diferente, eu penso "assim e assado". Ou sim, sim, essas ideias são claras, é assim mesmo que eu penso também, concordo inteiramente, e chegam a dizer: adorei essa pessoa que falou isso.

Outras pessoas conseguem ainda desenvolver uma habilidade toda especial de ler, incorporar as ideias como suas, pensar junto com o escritor e ainda recriar a seu modo o que foi escrito, aceitando partes, rejeitando outras e criando novas. Essas pessoas, como que por um milagre aparentemente confuso, se transformam em autoras do próprio texto que estão lendo. Em um certo ponto de vista foram elas mesmas que escreveram através do escritor que se tornou leitor.

E é assim que me sinto. Um leitor de mim que é outro e que agora é você. A conversa vai ficando boa e, seja pelo efeito do chá ou pro lugar onde as ideias nos levam, já não sabemos quem é você e quem sou eu... e então temos ao mesmo tempo um clarão na mente que diz que na verdade somos leitores de nós. E depois disso nosso coração dá um salto com a certeza de que já não há leitores ou escritores, nem texto, nem ideias, nem pensamentos. Nós simplesmente percebemos que há algo. Ou melhor, algo percebe que há algo. Que nenhum nome pode nomear. E a isso já chegamos no início da conversa. Imagina o que vem depois?

Já estamos aqui no fluir do chá, e das palavras e vamos então poder entender como tudo isso é diferente de quando estamos em um estado emocional de busca por finalidades. Esse foi o ponto que a Ana, ou na verdade eu, ou melhor nós, ou ainda algo trouxe na conversa sobre a Vila XI: quase tudo que fazemos na vida é para alcançar finalidades. Esse é nosso grande condicionamento. Um aprisionamento. Agimos sem que seja inteiro para nós, sem que estejamos inteiros, fazemos a partir de um cálculo. E na base disso tem a velha expectativa de ser legitimado, de ser aceito, de se adequar a uma auto-imagem e reforçar uma imagem positiva de nós mesmos.

Quando conseguimos parar essa atitude condicionada e olhar para ela, vemos como ela se faz presente em quase tudo o que fazemos. E se deixamos de alimentar os condicionamentos, em fração de segundos ganhamos espaços de liberdade. Espaços em que podemos partir de outro lugar. Esse lugar pode receber muitos nomes... mas o nome não resolve a coisa. Quando nos conectamos com esse lugar, com nós mesmos, as ações partem não com intenções mas com a fluidez, com naturalidade.

Então comecei a pensar em tudo isso que ouvi e que disse para mim mesmo. Ao ouvir a Ana falando dessa forma simples e verdadeira que vivemos para alcançar finalidades, que somos finalistas (amei o duplo sentido), e que, se antes, esperarmos o estabelecimento da conexão consigo mesmo, as ações surgirão como naturais e não forçadas, tudo me pareceu fazer muito sentido. Imagino que o sentido vem não das palavras mas como transmissão da pessoa que fala. Então a primeira conclusão foi: sim, faz sentido. A Ana como que mergulhou no lago e disse vem, pode entrar, é só entrar. Parece simples pra ela, mas pra mim... bom, eu comecei a ver que as buscas por finalidade também fazem sentido.

O primeiro exemplo que pensei foi assim: percebo que estou muito distante de um familiar meu.  E surge um sentimento, uma vontade de estar junto, estar mais próximo, mais presente em sua vida. Então decido convidá-lo para fazermos um programa juntos. Agi em busca de finalidade. Sim. Não vejo problema. O programa que fizemos juntos não é algo dos meus sonhos, sozinho eu não faria, mas fez sentido fazer com ele. E nos divertimos. E pudemos nos aproximar. Claro que eu tive oportunidade de me entregar na atividade. Acho na verdade que esse foi o segredo. Mas o passo inicial partiu de uma certa intencionalidade.

Por que eu me lembrei desse familiar? Não sei. O que me moveu convidá-lo? Não sei. Mas funcionou. O que eu poderia me lembrar agora que seria importante fazer? O que estou esquecendo, negligenciando?

Outros casos: quando tenho sede, bebo água. Não bebo água como um movimento natural, um fluxo natural que me leva até o filtro a buscar água. Tive a intenção de ir até lá, beber água com a finalidade de matar a sede. Qual seria o problema de buscar a finalidade de saciar a sede? E quando o filtro entope preciso consertá-lo. Não faço isso com toda a vocação da minha vida. Faço porque sei que preciso beber água no futuro.

Então, você que lê esses pensamentos há de concordar que tem vezes que a busca por finalidades é uma forma de corromper-se. Em outros casos é uma forma de simplesmente atender a certas necessidades.

Lembro de uma vez que estava procurando emprego e um amigo ia me indicar um amigo de uma empresa para que eu fosse trabalhar lá. Nesse dia ele ligou para seu amigo que lhe disse que iria a um boliche. Então meu amigo perguntou se podia ir junto e levar um amigo para apresentar. O moço disse que sim. Quando meu amigo me falou: vamos ao boliche? Eu disse: pode ser. E quando ele explicou: vai ter um amigo meu lá que quero te apresentar, acho que ele te consegue um emprego. Eu disse: não. Não posso ir a um lugar com segundas intenções. Esse seria um caso que, para mim, a busca por finalidades te corrompe. Meu amigo me chamou de radical.

Há outras corrupções mais simples, mas igualmente corruptoras. Só que eu tenho a impressão que enquanto não entrarmos no lago... vamos seguir sujos com essa poeira da confusão.

Então sentei para meditar.

Qual a finalidade da meditação? Estou sentado para alcançar algo?

Certamente. Se fosse para ter um momento agradável eu não meditaria. Ficaria comendo doces ao sol. Não me disciplinaria. Tem um esforço envolvido, passo por momentos difíceis e meu professor diz: fique na mesma posição, observe as sensações, se é prazer, observe o prazer, se é dor, olhe para a dor, veja como vai mudando, como é impermanente. Observe a impermanência... e assim... fico... mas não é nada fácil, há momentos que é fácil, há momentos que é difícil e isso também é impermanente.

Fui conversar com o Matheus que é um amigo nesse caminho de meditação e ele me disse: sentamos com aspiração sim, mas a questão é: com apego ou sem apego?

Se nossa aspiração é com apego ficamos a elaborar imaginações de como seria maravilhoso ter paz, amar as pessoas, ter a mente calma todo o tempo. Mas não trabalhamos seriamente. Ficamos felizes quando tudo é calmo e sentimos amor mas nos desesperamos quando nos damos conta da agitação e ódio em que estamos. Não observamos as sensações, só ficamos idealizando, gerando mais e mais apego.
Se nossa aspiração é sem apego, faço o trabalho que tem que ser feito agora. Observo. Observo. Mudou. Mudou. Veja, a sensação aqui já não está mais, surgiu outra. E fico ali, mente alerta. Não medito por meditar, claro que tem um objetivo, uma aspiração, mas faço o trabalho como deve ser feito. Momento a momento.

Se quero alcançar algo, e ao longo da vida temos muitos objetivos, e inclinamos nossa mente na concretização de algo, nos dedicamos àquilo. Mas não vamos com rigidez, imaginando que as coisas vão ser do jeito que visualizamos, presos a uma ideia, distantes da realidade como ela vai se  apresentando, vamos sim abertos a perceber momento a momento, e perceber a si ao longo do caminho e ir processando tudo isso isso passo a passo. Assim o caminho vai se fazendo e o trabalho é constante.

Isso trouxe uma nova luz. O objetivo está lá. Alcançar o nibanna.
De onde vem essa vontade de liberdade, de paz, de amor?
Das profundezas.
Um anseio que nos dirige. Quase que com a força de um destino.
É o destino.

O que fazer com essa vontade de nibbana?

Trabalhar aqui. "Sem fantasias, porque da noite pro dia você não vai crescer". Camadas e mais camadas de condicionamento vão emergindo e você vai lidar com elas. Conflitos e mais conflitos vão surgir externamente. E tudo isso vai ser bem vindo: insumos para o processo contínuo de atualização.

Essa nossa conversa está indo longe demais.
Talvez você esteja se dando conta de que estamos aqui nessa mesa de chá falando sobre a possibilidade da co-existência do futuro e do presente, estamos pondo em diálogo o Tao e o Nibbana e tantas outras coisas além da nossa amizade que se cultiva aqui.

Estamos no começo do mês de maio: quando se lembra da iluminação de Gautama, o Buddha.

É dito que buscar a iluminação é fugir dela.
Mas não sou eu quem a busco. Nem você. Nem nós. É algo. O que fazemos é dar espaço para algo em nossa vida. E algo nos faz meditar, algo nos faz ouvir a Ana, algo nos faz conversar e algo nos fez tomar esse chá aqui, enquanto tememos que a água do lago esteja muito fria para um mergulho.

Nossa! Por falar nisso, o chá esfriou. Espera um pouco que vou aquecer mais um pouco de água. Quer de outro sabor?

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Noite e Dia

Era uma vez um homem que amava a noite.
Mas a noite tinha seus perigos e o homem quase morreu.
Por sorte ele conheceu o dia e o homem seguiu em segurança por longos anos.
O tempo passou e um dia ele reencontrou a noite e sentiu novamente seu fascínio.
Por algumas vezes, arriscou-se a trocar o dia pela noite. Mas só de vez em quando. De modo que teria alguns dias seguidos para garantir-se novamente com o dia.
Na verdade em suas novas andanças pela noite ele se perguntava se não haveria um jeito de desfrutar de ambas: noite e dia.
Lembrou-se de que quando era todo dedicado à noite, dormia um pouco de dia e passava o resto do tempo esperando que a noite chegasse e pudesse entregar-se a ela e passar um bom tempo acordado em meio ao obscuro mistério que só a noite lhe trazia. E ficava de dia, lembrando-se do que ouvira da noite.
E pensou também de que quando se encontrou inteiramente com o dia, procurava ir dormir bem cedo para estar bem disposto e aproveitar o dia para dar o seu máximo naquele consciente luminoso que só o dia lhe trazia. E procurava iluminar um ou outro ruído que a noite lhe trazia.
Mas agora o homem que amava a noite, passou a amar também o dia e, assim que voltou a amar a noite, decidiu que toda a sua vida era mesmo feita de amor.
E foi então que o homem nunca mais dormiu.

Fala coração

Fala comigo
Coração meu
Sim, quero te ouvir
Quero saber dos teus planos para o amanhã
Quero saber como passaste todos esses anos
Enquanto estive insensível a tua voz, perdido entre minhas ilusões.
Quantas vezes te ignorei?
Quantas vezes me esqueci de te escutar?
Agora
Velho amigo
Mestre
Quero seguir os ritmos
Cadenciados pela tua pulsação
Fala
Quero te ouvir
Quero entregar meus passos para que tu sejas meu guia
Aonde queres me levar, coração?
O que planejas para mim?
De que sono queres que eu desperte?
Com quem asas queres que eu voe?
Que barco preparas para que eu navegue o mar profundo?
Que delicadeza e ternura me sugeres e anuncias
Agora que a guerra acabou e já começo o retorno pra casa?
Ajuda-me, coração, através do pulsar e do teu som
A ouvir o pulsar da vida, da terra, do céu
Faze-me contemplar as estrelas novamente -
E o céu por detrás delas
Faze-me relembrar onde é  minha casa
E redescobrir por que fiquei tão distante dela
Mostra-me o caminho de volta
Ó velho amigo
Mestre
Guia-me, conduz-me, orienta-me
E receba meu profundo agradecimento
Por estares aqui.

sábado, 21 de março de 2020

O último


Sempre achei que os cenários apocalípticos eram necessariamente tristes.
Hoje tive a convicção de que o último da espécie pode passar serenamente seus últimos dias, com a alegria de ver o cenário maior da vida cumprindo seu curso.

* * *


É tempo de milagres. Hj vi dois animais aparentemente mortos. Mexi neles. Eles vivem! O animal está vivo!

Aprendizados da paternidade - parte 2



Minha filha me bateu. O que eu faço?

Passo 1. Observo os sentimentos. Estou furioso de raiva.
Passo 2.
Olho mais profundamente e percebo a presença de um pensamento tabu na sociedade. Filhos não podem jamais bater nos pais.
Mas eu fico furioso e por um  triz não bato de volta.
Passo 3. E grito: não bate em mim! Por vezes seguro as mãos dela.
A pequenina certamente não digere bem a reação exagerada do pai. Até que entenda o que é tabu. Até que internalize uma regra. Isso vai levar tempo.
Continuo pesquisando em outras situações.
Momentos que estou mais relaxado. Vou conversando com menos reatividade. Não. Não bate em mim. Sou seu pai etc etc.
Mas ainda fico achando que tabus são pesados mesmo que num tom calmo. Pq estou reproduzindo tabus?
Entendam, caros leitores, não quero dizer que a partir de agora está liberado filhos baterem em pais, netos baterem em avós. Não. Não é isso. Mas educar transmitindo tabus, proibições inconscientes não me parece algo saudável, nem natural.
Me lembro das frases que sempre ouvi adultos dizerem:
Você precisa me respeitar! Eu exijo respeito!
Sempre essas frases me soaram como vindas de um desequilíbrio interior. Fico com a sensação de que na verdade respeito não se exige, se conquista.
O enigma continua. Como agir diante dos filhos que testam a autoridade, ou que simplesmente explodem de raiva e indignação diante do mais próximos de seu afeto?
Foram meses pesquisando minhas emoções.
Aos poucos fomos nos entrosando, minha filha e eu, no campo de nossa própria interação. Ela quando vinha bater já vinha consciente de que não poderia chegar às vias de fato e eu já ia mais consciente da lenta iniciação de minha filha na arte do autocontrole e da minha própria mudança de padrão emocional.
Mas ontem minha pesquisa chegou a um ponto muito interessante.
Vi uma amiga na interação com seu filho. E vi a situação e a forma como minha amiga agiu.
Ele veio cheio de sofrimento precisando de apoio e acabou que bateu nela. Primeiro percebi que ela manteve a calma - Ponto 1.
Depois ela disse: não vai adiantar bater em mim, filho. Ela o acolheu dentro de sua aflição diante de uma frustração - Ponto 2.
E por fim, quem saberá se foi só porque eu estivesse nessa pesquisa e a Vida achou que estava na hora de me dar a resposta a minhas indagações, ela disse pra ele: eu não quero que você bata em mim.
Eureka!
Eu não quero que você bata em mim.
Perfeito!
Ao dizer isso estou expressando o meu desejo, minha vontade.
Não estou dando ordens. Não estou ditando regras universais antecipando moralismos castradores.
Aqui sim: as individualidades foram respeitadas. Qual a sua vontade? Qual a minha vontade? O limite não é uma regra universal. O limite não é um tabu. O limite emerge como um respeito a força interior de outro ser em seu legítimo desejo sobre o que quer ou não quer em seu corpo. Uma vontade expressa por uma pessoa autoconsciente.
Assim, caros leitores que chegaram até aqui, fiquei animado a escrever esse texto para contar da conclusão da pesquisa.
Mas chamo atenção para um perigo. Se vc achar que essa frase: não quero que vc bata em mim, pode ser usada como a resposta pronta para essas situações, não vai dar certo.
O que se passa dentro de você? Quais emoções? Essa calma interior de um adulto diante de uma criança é uma conquista de profundidade. Senão eu ponho a capa da frase certa sobre o vulcão fervente das emoções feridas. Não adianta. A criança percebe que a frase virou um chavão. Temos visto isso no contexto da educação viva. A emoção é 90%. A consciência interior é 90%. A frase boa, do tipo, não fazemos comparações, ou, vc quer ir pra casa, não conseguem esconder a verdadeira tradução do sentimento por trás delas: não faz isso, isso é feio, vou te colocar de castigo. Que é muitas vezes o nosso verdadeiro primeiro impulso reativo antes de compreender os sentimentos que as crianças querem expressar e não estão sabendo como.
Então a conclusão da pesquisa é uma pesquisa que se conclui para recomeçar. De novo e de novo. E pesquisa cada um tem que fazer a sua.
Desejo um lindo caminho, com suas luzes e sombras, para todos nós.