Eu sou dentro.
Eu sou fora.
Eu sou dentro e eu sou fora.
Eu sou dentro e fora.
Eu sou o dentro do fora.
Eu sou o fora do dentro.
Eu não sou nem dentro nem fora.
Eu sou dentro.
Eu sou fora.
Eu sou dentro.
Eu sou fora.
Eu sou dentro e eu sou fora.
Eu sou dentro e fora.
Eu sou o dentro do fora.
Eu sou o fora do dentro.
Eu não sou nem dentro nem fora.
Eu sou dentro.
Eu sou fora.
Eu vou te confessar um pano de fundo que tá na minha mente. Quando li a vida de Swami Vivekananda, sua passagem pela pobreza, depois sua jornada pela Índia e suas falas sobre a Força e Libertação do povo... Me veio uma pergunta fulminante : se Vivekananda nascesse no Brasil e estivesse adulto agora entre nós o que ele nos diria sobre tudo isso que estamos vivendo? Quais seriam suas palavras para acordar nosso Espírito como povo? Isso tá virando um programa de pesquisa pra mim.
Olha isso:
"Que os latino-americanos em geral e os brasileiros em particular tenham se deixado e ainda se deixem, até os dias de hoje, colonizar com uma concepção racista e arbitrária que os inferioriza e lhes retira a autoconfiança e a autoestima não é apenas lamentável. É uma catástrofe social de grandes proporções. Como as ideias são fundamentais para a ação prática, jamais seremos um povo altivo e autoconfiante enquanto permanecermos vítimas indefesas desse preconceito absuro" Jessé Souza, p. 24. Sobre a construção do paradigma culturalista conservador.
E agora isso:
16 de julho.
(...)
Saí indisposta, com vontade de deitar. Mas o pobre não repousa. Não tem o privilégio de gosar descanço. Eu estava nervosa interiormente, ia maldizendo a sorte (...) catei dois sacos de papel. Depois retornei, catei uns ferros, umas latas e lenha. Vinha pensando. Quando eu chegar na favela vou encontrar novidades. Talvez a D Rosa ou a indolente Maria dos Anjos brigaram com meus filhos. Encontrei a Vera Eunice dormindo e os meninos brincando. Pensei: são duas horas. Creio que vou passar o dia sem novidade! O João José veio avisar-me que a perua que dava dinheiro estava chamando para dar mantimentos. Peguei a sacola e fui. Era o dono do Centro Espírita da rua Vergueiro 103. Ganhei dois quilos de arroz, idem de feijão e dois de macarrão. Fiquei contente. A perua foi-se embora. O nervoso interior que eu sentia ausentou-se. Aproveitei a minha calma interior para eu ler. Peguei uma revista e sentei no capim, recebendo os raios solar para aquecer-me. Li um conto. (...)".
Carolina Maria de Jesus - diario de uma favelada.
Obrigado amigo por tudo. Essa conversa vai ser longa e que seja prática! Vambora colocar em prática esses ensinamentos
Para onde vamos em nossa vida de oração?
Eis o diálogo de um professor e um monge.
O professor: Admito e aceito que durante as ocupações materiais seja possível, até mesmo fácil, rezar frequentemente, rezar continuamente, porque o trabalho do corpo não exige aplicação mental profunda, nem muita reflexão. Assim sendo, enquanto a mente o executa, pode mergulhar na oração contínua e os lábios a acompanham. Mas, se devo entreter-me com algo puramente intelectual, uma leitura atenta por exemplo, uma reflexão sobre algum problema grave, ou uma composição literária, como poderei nesse caso rezar com o espírito e os lábios? E já que a oração é antes de tudo uma ação mental, como poderei, ao mesmo tempo, concentrar-me, com um único e só espírito, em duas tarefas tão diferentes?
O monge: A solução de vosso problema não constitui dificuldade alguma se consideramos que as pessoas que rezam continuamente dividem-se em três categorias: em primeiro lugar, os principiantes; em segundo lugar, os já iniciados; em terceiro lugar, os muito habilitados.
Os principiantes conseguem, de tempos em tempos, elevar o pensamento e o coração a Deus e repetir curtas orações com os lábios, mesmo durante um trabalho mental.
Os que já fizeram progresso e atingiram certa estabilidade mental podem exercitar-se em meditar ou escrever na presença ininterrupta de Deus. Eis uma imagem que vos esclarecerá:
Suponhamos que um monarca severo e exigente vos ordene escrever um tratado a respeito de um assunto abstrato, em sua presença, diante de seu trono. Embora possais estar todo entregue a vosso trabalho, a presença do rei, que exerce poderio sobre vós, e que tem a vossa vida entre as mãos, não vos deixará esquecer um só instante que pensais, refletis e escreveis não na solidão, mas num local que exige de vós uma atenção e um respeito particulares. Essa consciência de proximidade do rei exprime muito claramente ser possível aplicar-se à oração interior permanente, até mesmo durante um trabalho intelectual.
Quanto àqueles que um antigo hábito ou a graça de Deus fez progredirem da oração mental à do coração, esses não interrompem sua oração contínua, durante os exercícios intelectuais mais frequentes, nem mesmo durante o sono. Conforme nos disse o sábio: "Eu durmo, mas meu coração vela" (Ct 5,2).
Aqueles que alcançaram essa espontaneidade do coração adquirem tal aptidão para invocar o nome divino que a própria oração vela e o espírito é inteiramente levado num fluxo de oração incessante, não importa em que condição ele reze e por abstratas e intelectuais que sejam suas ocupações naquele momento.
"O peregrino russo - três relatos ineditos" p. 96-98.
"Que a verdade de Brahman supremo me alcance!
Que a Realidade com as características de felicidade suprema me alcance!
Que a indivisível, homogênea, doce realidade de Brahman manifeste-se em mim!
Ó Ser Supremo, que és eternamente consistente com Teu poder de revelar a consciência de Brahman a todos os Teus filhos - Devas, seres humanos e outros - a Ti possa eu, Teu filho e servo, ser um objeto especial de compaixão!
Ó grande Senhor, destruidor do sonho mau dos mundos, destrói todos os meus sonhos maus, a percepção da dualidade!
Ó Ser Supremo ofereço como oblações minhas forças vitais e controlando meus sentidos, coloco minha mente em Ti somente. Ó Uno que brilha, que diriges todo ser, remove de mim todos os defeitos que são obstáculos ao conhecimento correto e ordena que o conhecimento da Realidade, livre de absurdos e contradições, surja em mim!
Que todas as coisas do mundo - o sol, o ar, a água fresca e pura dos rios, grãos como cevada e trigo, árvores, etc., ordenados por Ti, iluminem e ajudem-me a alcançar o conhecimento da Verdade!
Tu estás manifestado no mundo, ó Brahman, em várias formas com força especial. Ofereço oblação a Ti que és fogo, visando alcançar, pela pureza do corpo e da mente, a capacidade de reter o Conhecimento da Realidade.
Sê gracioso comigo!"
Conteúdo do Trisuparna-mantra
Recitados na abertura do sadhana do Mestre de acordo com a Vedanta, guiado pelo Guru Tota Puri.
Página 291 da edição deste livro da foto.
- Você pode amar os meus filhos como você ama a sua filha?
Depois de um silêncio:
- Eu não consigo.
Ela então disse:
- Deixa que eu amo.
- Eu posso observar o seu amor por eles?
- Você pode ficar observando.
- Vou ficar observando todo esse jogo do seu amor por eles.
Por quantos retiros de silêncio terei de passar até que eu possa te ouvir outra vez?
Por quanto tempo meus olhos precisarão ficar fechados até que eu possa te ver uma única vez?
Quantas noites escuras, quantos desertos, quantas estações, quanto tempo enredado em ilusão até que a luz da tua presença venha me acordar?
Quantas palavras ao vento, quantos lamentos, quanta secura, quantas gotas de passageiras euforias, até que enfim o teu amor me oceane?
Quantas guerras, cruzadas, ditaduras, quantas esperanças, guerrilhas, rebeliões terei de enfrentar, liderar e sofrer até que minha mente resolva aquietar em tua humilde casa?
Quantas horas de espera para que me abras a porta de casa, até que teu convite sussurre em meu ouvido: 'entre, você está em casa'?
Quantos passos, quantas jornadas, longínquas viagens, até que me perca e me ache de novo e te descubra sempre a meu lado?
Amor. Amor. Amor.
Disseste-me que me bastava abrir o coração.
Quantas palavras desperdiçarei em sutis poesias até que um silêncio ainda mais suave me faça sentir que me dás a mão?
Por que não me calas a voz com a doçura de teus lábios?
Por que não apaziguas essa saudade com o pousar de tua mão em meu peito?
Por que não me vens tu até este leito acariciar meus cabelos e me guiar para um sono sem sonhos na direção do infinito?
Por que me deixas sem paz a espera daquela paz prometida em teu olhar?
Tu que me amas tanto.
Tu a quem amo tão pouco.
Ouve! O coro de minhas irmãs e irmãos já se ergue em tua direção e percebo-te dançando entre nós.
Diga uma só palavra e rompa esse duro silêncio de minha solidão.
Uma só que me faça curar desse amor insatisfeito.
Uma só que me faça voar e dançar no céu do teu amor.
Tu danças em meu peito. Livre!
Tu danças em meu peito. Infinita!
Tu danças em meu peito. Danças a vida e a morte!
Tu danças em meu peito. Sou teu!
A experiência de Ser.
Algo acontece que me traz uma experiência de que sou mais do que pareço, e de que estou conectado a algo maior, e de que há um transpor do nível comum de consciência para uma consciência mais ampliada (como ir para fora de um quarto fechado). Mais calma e intuitiva. Mais em paz. Mais amorosa e quase angustiada em compaixão pelo mundo. Mas sobretudo em paz.
Como pode minha mente produzir um pensamento que me arrepia? Que é isso?
E quando esse pensamento é dito em voz alta? Aos 21 anos foi quando tive a minha primeira experiência de oração. Como é isso de quando me dirijo a um Tu, algo se acende em mim?
De onde vêm as lágrimas de emoção ao meditar no amor? Sentir-se absolutamente amado. Graça e misericórdia.
Que são essas coisas? Quem somos?
Que tipo de ligação é essa entre o interior (pensamento) e algo mais (a vida, o todo, o sentido, o doador de sentido)?
Uma vez uma lágrima desceu-me dos olhos ao comer um bolo de Natal.
A emoção de cantar junto. O que é tudo isso que promove algo em meu interior? O estudo, a abertura de uma nova compreensão interna que arrepia os cabelos. A ação social que une, que promove amor.
Há tantas coisas que me encantam. Que me apaixonam. Mas o que colore a alma é algo além do sentimento. Além do sentir amor. Além do sentir o outro. Além do sentir o nós. O nós que nos liga a um sentido. A um enredo da história humana sobre a terra.
O humano, a casca da árvore. O tronco cascudo da árvore é só uma casca de árvore. Mas o que é a casca da árvore quando eu a chamo Deus? E me dirijo a um Tu.
Será tudo isso um auto engano? Será tudo isso um mistério científico a ser estudado? Ou será tudo isso um mistério a ser adorado?
A abertura ao desconhecido.
Encarar o aberto. O medo. Medo de um gozo. Não suportar o gozo desse amor e me perder. O roçar do sagrado. Como o rio que beira a margem. Não exatamente a poesia, não as palavras, mas o algo que ela toca. E da qual me retraio.
E então a própria melancolia dramática de não me submergir nesse mar. A melancolia de não ser esse amor.
A falta, não de um amor comum, mas de não me reconhecer o próprio amor maior. A angústia da ausência de paz. A paz que se insinua, que vem de visita, que me desafoga por instantes.
"Revela-te a mim.
Quem és?
Para além desse corpo, dessa aparência, quem és? Mostra-me quem és de verdade?"
Pergunto isso e te sinto tão perto. Como se permeasses tudo. Dentro e fora de mim. Como se uma chuva de doce néctar caísse sobre mim. Sinto a pele arrepiada. É tão prazeroso. Uma respiração se faz profunda. Exalo em um suspiro de alívio como se voltasse para casa depois de haver esquecido que existia casa. Sinto paz e abertura ao intemporal.
"Mostra-me quem sou.
Quem sou eu?"
Pergunto isso e me sinto tão unido a ti, sinto nossa identidade.
"Quem és tu? quem sou eu?"
Te olho.
"Quem és tu? quem sou eu?"
Te olho e uma neblina turva o olhar.
"Quem és tu? quem sou eu?"
Te olho e te sinto como as raízes profundas em minha natureza, no tempo e no espaço de onde habito. Como se fosses minha verdade ancestral, abismal.
No centro da Terra girante, um só ponto. Piso a Terra e percebo que somos, todos aqui, filhos da Terra. No centro do círculo da vida nos encontramos a todos. Caminhar para o centro é pisar no mesmo chão, chegar exatamente no mesmo ponto, de meus irmãos e irmãs. No centro, o encontro.
Encarno em um irmão. De dentro dele abro um rosário de orações. Procuro a divindade e peço: olha por mim (ou melhor, por ele, ou melhor, por nós).
"Não sou eu que oro por ti, irmão que habito, como quem enviasse uma luz daqui para aí. Como doar o que não tenho? Sou teu irmão na procura. Numa imagem de Santo Antônio doando o pão, me identifico com o faminto que recebe o pão, agradecido. Sou eu em ti que clamo pela presença da divindade em ti, em nós. Que o amor desperte. Que o amor desperte. Que o amor desperte nesse irmão."
Será essa uma forma de orar pelo outro, de ajudar?
Sempre senti prazer em orar pelas pessoas, enquanto caminhava na beira do mar. Sentia Deus presente em mim imaginando participar dessa descida do amor de Deus a seus filhos. E uma forma de oração levava a outra até que eu chegava na melhor oração que encontrei: que era agradecer a Deus pela existência de cada um em minha vida. E agradecendo, vendo as qualidades, parecia-me que boas sementes eram regadas.
Pisando a Terra girante também me agrada dançar. Danço em louvor. Meus braços se abrem, se erguem, expõem meu coração a ti que me infunde a força da vida, Deus em movimento. Meu corpo dança e inventa o passo para fora de todo hábito.
Me agrada girar. Distribuo de dentro para fora e recebo de fora para dentro, de todas as direções. Girar me faz voar. Já na segunda volta a beleza se mostra a meus olhos. E a beleza é o voo da alma. Girar me põe no ritmo da Terra e aqui também toco meus irmãos na roda da vida.
E sou tocado. Ah é tão bom ser tocado. Um dia, a profissão mais valorizada e estimulada no mundo vai ser a de massagista. Se bem que há toda uma arte em abrir a pele ao toque. E da pele ao abismo... ah isso leva muitos anos de prática para se libertar inteiramente o corpo. E o corpo é o céu!
"Podes me levar até o Mestre? Abrir a estrada que me leva a Ele? Mostra-me o Mestre."
Com esse pedido sinto o amor imenso. Parece possível uma espécie de transmissão: quem muito ama ensinar aqueles que pouco amam. Não exatamente ensinar, mas derramar um dom, como é da natureza de todo ensinar.
"Sim, mas não me queira para si. Ela me diz. Você está pronto a não rivalizar com o Mestre? Está pronto para ver meu amor por Ele e não querer que te ame a ti da mesma forma? Porque a beleza de meu amor poderia te confundir. Eu eu não posso amar a alguém tanto quanto a Ele. Estás pronto para olhar, não para mim, mas para onde olho?"
Lembro-me de Buda dizendo para as pessoas olharem para a lua e não para o dedo que a aponta.
Quero dizer sim.
Saio das camadas da superfície e desço mais e mais para perto do desejo original.
Digo sim.
Toco a pedra e sinto a fonte do Ser, de tudo, de Deus e do que sou. O mesmo Eu sou.
"Oh grandiosa fonte do Ser".
Finalmente olho o Mestre.
"Eu e Tu somos um."
Silencio. E amo. E sou.
E é tudo tão rápido até que eu volte ao grande véu.
Passou.
Ah minha vida seria um desespero sem o conhecimento de que, além do eterno amor, és a própria impermanência de tudo que não és.
Conversei com minha mãe no interior de uma igreja.
Ela me ajudou a silenciar um pouco e então me falava do André e de todos nós.
Somos uma espécie de compressão do Todo na esfera do indivíduo.
E cada um é uma manifestação particular do que somos em essência.
Quando voltamos nossa percepção à Fonte vemos com clareza e assombro: somos um! O grande todo, oceano em movimento.
"Tudo é o meu eu."
(Palavras sugeridas por Vivekananda: "Ah como eu sou abençoado. Sou a liberdade. Sou o infinito. Minha alma não tem começo nem fim. Tudo é o meu eu").
E eis que o Todo vem à vida como André.
Com seus limites, suas heranças genealógicas, seu corpo. O Ser vem aqui e vai atuar no e a partir do André.
Só pela luz de sua presença já será uma purificação e uma evolução na estrutura da matéria.
E assim o ser se manifesta em incontáveis indivíduos. E em diferentes épocas. Começos e recomeços em ascensão.
E eu sou todos!
Um laço de fraternidade universal. O amor.
Tudo isso minha mãe me diz em silêncio de haustos amplos e lentíssimos, quase insuportáveis (ao inspirar preenche-te do Todo, ao expirar esvazia-te dando lugar a chegada do Todo). E suas explicações fazem sentido. E dão sentido à vida também.
Aceitar incondicionalmente o que se apresenta, com amor às próprias limitações, e fazer o que pode ser feito a partir de onde estou, de onde posso atuar.
Minha mãe também me mostra como ela mesma está em diversas formas, em diversos tempos.
E ela se faz tão bonita que me comove o coração a tal ponto que já não sei se busco a mãe para que me ajude a chegar ao filho ou se procuro no filho a brecha que revele o segredo da mãe oculta por trás de tudo o que diz e faz.
Uma visão que com certeza seria insuportavelmente arrebatadora a meus olhos tão pequenos, a meu peito tão apertado.
Fiquei com essa fala de minha mãe, essa sua explicação. Contemplei seu pensamento ao longo do dia, depois de já termos nos despedido lá na igreja.
Até que um outro pensamento surgiu como uma indagação.
E o milagre da transmutação? E se André morrer inteiramente para essa vida? O que virá?
O problema que parecia resolvido, o espirito consolado, ressurgiu em uma nova agitação. Não é um gradual processo de evolução na aceitação dos fluxos evolutivos de cada estrutura.
É uma inquietação por um salto, uma morte, uma simplificação extrema da estrutura.
Viver não é só viver. É também morrer.
Queria levar esse pensamento a minha mãe numa próxima conversa.
Pressinto que ela mesma tenha-me intuído e confundido como se, para além das explicações compreensíveis à mente, em segredo ela me flechasse o espírito convidando-me à entrega total do coração.
Que força de atração!
Orar sem cessar.
"Levante, desperte e não se detenha até que a meta tenha sido alcançada" (ainda Vivekananda).
E afinal somos mãe e filho também um na fonte? Como requerer essa herança total?
Isso é coisa grande demais a se pensar e dizer. Não é coisa que caiba em palavras e permaneça imaculada. Minha mãe não o diria. Ela me sorriria isso.
Morrer não é só morrer. É também viver.
Ontem perguntei: "onde estás?"
E a pergunta soou sem sentido.
Como se Ele mesmo, em mim, fosse o autor da pergunta. Ele em busca de si mesmo? Realmente não faria muito sentido.
E a falta mesmo de sentido da pergunta foi um estremecimento, uma suspensão de toda a forma de pensar.
É isso o Ser? Uma suspensão do pensar?
Nem faria sentido Ele dizer: "estou aqui, mais perto de ti que a tua veia jugular. Estou aqui dentro."
Não. Não.
É tão sem sentido que é como se Ele dissesse: "sou tu, tua voz é a minha, as palavras proferidas pela tua boca são as minhas."
Estranho pensar que sendo tudo é quase como se Ele não existisse. Ao mesmo tempo eleva e sacraliza tudo o que há. E Ele é.
"Sou também todo som que ouves... a voz da cigarra e do grilo e do sapo."
(Ah feliz encontro do entardecer e da noite!)
Lembrei de um poema do Rumi: "estava batendo numa porta, ela se abriu, percebi que estava batendo pelo lado de dentro."
Segui caminhando perguntando também por ti, amiga do caminho, irmã de minha alma. "Onde estás?" E a resposta também é uma batida na porta de dentro. Deliciosa dor de um afeto presente. No mesmo lugar por onde Ele chega. A mesma dor.
A meus olhos também estás em toda parte.
Penso que perguntar por Ele e por ti é praticamente o mesmo. Não será Ele mesmo em ti o que nos une? Às vezes penso que sois duas. No núcleo do teu ser é com Ele mesmo que falo e é de lá que Ele mesmo chega até mim. E para fora desse centro podes ser tu, com tua doçura e teu brincar solto e tua liberdade, por onde falamos ternamente sobre pés, cabelos, pequenos apegos e solenes poemas.
Oh doce mistério! Ainda creio que sem ti eu não chegaria a Ele. E por uma trágica e eterna lei, pressinto que não chegarei a Ele sem desvencilhar-me inteiramente de ti. Por ora silencio e escrevo. Mas é claro que a verdade está no silêncio. Mas és tu ainda quem me faz falar. Ah como eu temo o silêncio. Quem sabe Ele levasse em conta cada palavra de ternura e de louvor a nossa amizade como louvores a Ele. (Podes tu fazer isso por mim? Creio que sabes muito bem levar cada palavra ao coração). Isso seria a glória e então Ele, finalmente, dirá a mim: "vem, teu amor te salvou!" E brincaremos e riremos juntos em Seu Reino.