domingo, 17 de outubro de 2021

Incêndio destruidor

Com um pequeno fósforo o papel inteiro é queimado. 

A fogueira acende. 

Uma floresta inteira é incendiada.


O incêndio começou.

Tudo está tomado pelas chamas. 

Não restará uma só espécie viva.


Tu me deste o fósforo.

E o riscaste com o poder de uma simples palavra.

Foi a semente deste incêndio devastador.


Tu, que vestes a roupa cor de fogo. E em cujos olhos brilha a luz da lua. Teu sorriso um dia desarmou minhas defesas e a terrível  destruição agora começou. 


Minha floresta de pecados está em chamas, qual a sarça de Moisés.

Tem fogo em todas as coisas.

Do ardor de cada lenho escorre uma seiva refrescante que deságua em um rio no centro e não se sabe para onde vai.


E tu assistes a toda essa destruição com a imparcialidade amorosa de teu generoso coração.


Niterói, 17/10/2021

sábado, 16 de outubro de 2021

No coração

 Pensei em você com todo o meu coração.


Com a ajuda de meu mestre fui até sua presença.


Sentado, silenciei em sua presença.


Você foi ficando grande grande grande.

E eu na sua frente bem pequeno. E você imenso. Será que é assim que os filhos veem os pais?

Olhei pro alto e só me restou abrir os braços a sua altura.

Abracei a grandeza. Tomei um gole do infinito.

Até que me vi dentro de você.

Você é tudo em volta de mim. O meu quarto, o meu salão (as paredes a minha volta são seus braços, a luz aqui dentro é a sua cor). A minha árvore, o meu bosque de meditação. Será que conseguirei viver assim, em você?


Então com o conselho de meu mestre parei e silenciei novamente. Tudo isso vai passar. Não é isso também impermanente? Voltei meus olhos para dentro com serenidade.

E lá em meu centro estava você. Um pontinho. Pequeno pequeno pequeno. Bem pequeno era você. Você dentro de mim. E cada célula cada partícula era você.

Tudo dentro era você, como a corrente, como o pulsar, percorrendo todo o meu corpo. Você em tudo que existe em mim. O mais íntimo.


Tudo: fora e dentro.

O infinito e o ínfimo.

Você você você.

A contiguidade das coisas.

Todos um.

Que mistério esse seu nome! Que mistério essa sua imagem que me preenche me permeia e me envolve!


Niterói 16/10/2021

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Nem dentro nem fora

 Eu sou dentro. 

Eu sou fora.

Eu sou dentro e eu sou fora.

Eu sou dentro e fora.

Eu sou o dentro do fora.

Eu sou o fora do dentro.

Eu não sou nem dentro nem fora.

Eu sou dentro.

Eu sou fora.

Não pensar mais em superioridade

 

Eu vou te confessar um pano de fundo que tá na minha mente. Quando li a vida de Swami Vivekananda, sua passagem pela pobreza, depois sua jornada pela Índia e suas falas sobre a Força e Libertação do povo... Me veio uma pergunta fulminante : se Vivekananda nascesse no Brasil e estivesse adulto agora entre nós o que ele nos diria sobre tudo isso que estamos vivendo? Quais seriam suas palavras para acordar nosso Espírito como povo? Isso tá virando um programa de pesquisa pra mim.

Olha isso:
"Que os latino-americanos em geral e os brasileiros em particular tenham se deixado e ainda se deixem, até os dias de hoje, colonizar com uma concepção racista e arbitrária que os inferioriza e lhes retira a autoconfiança e a autoestima não é apenas lamentável. É uma catástrofe social de grandes proporções. Como as ideias são fundamentais para a ação prática, jamais seremos um povo altivo e autoconfiante enquanto permanecermos vítimas indefesas desse preconceito absuro" Jessé Souza, p. 24. Sobre a construção do paradigma culturalista conservador.

E agora isso:
16 de julho.
(...)
Saí indisposta, com vontade de deitar. Mas o pobre não repousa. Não tem o privilégio de gosar descanço. Eu estava nervosa interiormente, ia maldizendo a sorte (...) catei dois sacos de papel. Depois retornei, catei uns ferros, umas latas e lenha. Vinha pensando. Quando eu chegar na favela vou encontrar novidades. Talvez a D Rosa ou a indolente Maria dos Anjos brigaram com meus filhos.  Encontrei a Vera Eunice dormindo e os meninos brincando. Pensei: são duas horas. Creio que vou passar o dia sem novidade! O João José veio avisar-me que a perua que dava dinheiro estava chamando para dar mantimentos. Peguei a sacola e fui. Era o dono do Centro Espírita da rua Vergueiro 103. Ganhei dois quilos de arroz, idem de feijão e dois de macarrão. Fiquei contente. A perua foi-se embora. O nervoso interior que eu sentia ausentou-se. Aproveitei a minha calma interior para eu ler. Peguei uma revista e sentei no capim, recebendo os raios solar para aquecer-me. Li um conto. (...)".
Carolina Maria de Jesus - diario de uma favelada.

Obrigado amigo por tudo. Essa conversa vai ser longa e que seja prática! Vambora colocar em prática esses ensinamentos

Mais uma vez o peregrino russo

 Para onde vamos em nossa vida de oração?

Eis o diálogo de um professor e um monge.


O professor: Admito e aceito que durante as ocupações materiais seja possível, até mesmo fácil, rezar frequentemente, rezar continuamente, porque o trabalho do corpo não exige aplicação mental profunda, nem muita reflexão. Assim sendo, enquanto a mente o executa, pode mergulhar na oração contínua e os lábios a acompanham. Mas, se devo entreter-me com algo puramente intelectual, uma leitura atenta por exemplo, uma reflexão sobre algum problema grave, ou uma composição literária, como poderei nesse caso rezar com o espírito e os lábios? E já que a oração é antes de tudo uma ação mental, como poderei, ao mesmo tempo, concentrar-me, com um único e só espírito, em duas tarefas tão diferentes?


O monge: A solução de vosso problema não constitui dificuldade alguma se consideramos que as pessoas que rezam continuamente dividem-se em três categorias: em primeiro lugar, os principiantes; em segundo lugar, os já iniciados; em terceiro lugar, os muito habilitados.

Os principiantes conseguem, de tempos em tempos, elevar o pensamento e o coração a Deus e repetir curtas orações com os lábios, mesmo durante um trabalho mental.

Os que já fizeram progresso e atingiram certa estabilidade mental podem exercitar-se em meditar ou escrever na presença ininterrupta de Deus. Eis uma imagem que vos esclarecerá:

Suponhamos que um monarca severo e exigente vos ordene escrever um tratado a respeito de um assunto abstrato, em sua presença, diante de seu trono. Embora possais estar todo entregue a vosso trabalho, a presença do rei, que exerce poderio sobre vós, e que tem a vossa vida entre as mãos, não vos deixará esquecer um só instante que pensais, refletis e escreveis não na solidão, mas num local que exige de vós uma atenção e um respeito particulares.  Essa consciência de proximidade do rei exprime muito claramente ser possível aplicar-se à oração interior permanente, até mesmo durante um trabalho intelectual.

Quanto àqueles que um antigo hábito ou a graça de Deus fez progredirem da oração mental à do coração, esses não interrompem sua oração contínua, durante os exercícios intelectuais mais frequentes, nem mesmo durante o sono. Conforme nos disse o sábio: "Eu durmo, mas meu coração vela" (Ct  5,2).

Aqueles que alcançaram essa espontaneidade do coração adquirem tal aptidão para invocar o nome divino que a própria oração vela e o espírito é inteiramente levado num fluxo de oração incessante, não importa em que condição ele reze e por abstratas e intelectuais que sejam suas ocupações naquele momento.


 "O peregrino russo - três relatos ineditos" p. 96-98.

Trisuparna mantra

 "Que a verdade de Brahman supremo me alcance!

Que a Realidade com as características de felicidade suprema me alcance!

Que a indivisível, homogênea, doce realidade de Brahman manifeste-se em mim!

Ó Ser Supremo, que és eternamente consistente com Teu poder de revelar a consciência de Brahman a todos os Teus filhos - Devas, seres humanos e outros - a Ti possa eu, Teu filho e servo, ser um objeto especial de compaixão!

Ó grande Senhor, destruidor do sonho mau dos mundos, destrói todos os meus sonhos maus, a percepção da dualidade!

Ó Ser Supremo ofereço como oblações minhas forças vitais e controlando meus sentidos, coloco minha mente em Ti somente. Ó Uno que brilha, que diriges todo ser, remove de mim todos os defeitos que são obstáculos ao conhecimento correto e ordena que o conhecimento da Realidade, livre de absurdos e contradições, surja em mim!

Que todas as coisas do mundo - o sol, o ar, a água fresca e pura dos rios, grãos como cevada e trigo, árvores, etc., ordenados por Ti, iluminem e ajudem-me a alcançar o conhecimento da Verdade!

Tu estás manifestado no mundo, ó Brahman, em várias formas com força especial. Ofereço oblação a Ti que és fogo, visando alcançar, pela pureza do corpo e da mente, a capacidade de reter o Conhecimento da Realidade. 

Sê gracioso comigo!"


Conteúdo do Trisuparna-mantra


Recitados na abertura do sadhana do Mestre de acordo com a Vedanta, guiado pelo Guru Tota Puri.


Página 291 da edição deste livro da foto.

sábado, 24 de julho de 2021

A doçura do amor em tudo

 - Você pode amar os meus filhos como você ama a sua filha?

Depois de um silêncio:

- Eu não consigo.

Ela então disse:

- Deixa que eu amo.

- Eu posso observar o seu amor por eles?

- Você pode ficar observando.

- Vou ficar observando todo esse jogo do seu amor por eles.

sábado, 19 de junho de 2021

Uma só

Por quantos retiros de silêncio terei de passar até que eu possa te ouvir outra vez?

Por quanto tempo meus olhos precisarão ficar fechados até que eu possa te ver uma única vez?

Quantas noites escuras, quantos desertos, quantas estações, quanto tempo enredado em ilusão até que a luz da tua presença venha me acordar?

Quantas palavras ao vento, quantos lamentos, quanta secura, quantas gotas de passageiras euforias, até que enfim o teu amor me oceane?

Quantas guerras, cruzadas, ditaduras, quantas esperanças, guerrilhas, rebeliões terei de enfrentar, liderar e sofrer até que minha mente resolva aquietar em tua humilde casa?

Quantas horas de espera para que me abras a porta de casa, até que teu convite sussurre em meu ouvido: 'entre, você está em casa'?

Quantos passos, quantas jornadas, longínquas viagens, até que me perca e me ache de novo e te descubra sempre a meu lado?

Amor. Amor. Amor.

Disseste-me que me bastava abrir o coração. 

Quantas palavras desperdiçarei em sutis poesias até que um silêncio ainda mais suave me faça sentir que me dás a mão?

Por que não me calas a voz com a doçura de teus lábios?

Por que não apaziguas essa saudade com o pousar de tua mão em meu peito?

Por que não me vens tu até este leito acariciar meus cabelos e me guiar para um sono sem sonhos na direção do infinito?

Por que me deixas sem paz a espera daquela paz prometida em teu olhar?

Tu que me amas tanto.

Tu a quem amo tão pouco.

Ouve! O coro de minhas irmãs e irmãos já se ergue em tua direção e percebo-te dançando entre nós.

Diga uma só palavra e rompa esse duro silêncio de minha solidão. 

Uma só que me faça curar desse amor insatisfeito.

Uma só que me faça voar e dançar no céu do teu amor.

Tu danças em meu peito. Livre! 

Tu danças em meu peito. Infinita! 

Tu danças em meu peito. Danças a vida e a morte!

Tu danças em meu peito. Sou teu!


sábado, 12 de junho de 2021

O que colore a minha alma?

A experiência de Ser.

Algo acontece que me traz uma experiência de que sou mais do que pareço, e de que estou conectado a algo maior, e de que há um transpor do nível comum de consciência para uma consciência mais ampliada (como ir para fora de um quarto fechado). Mais calma e intuitiva. Mais em paz. Mais amorosa e quase angustiada em compaixão pelo mundo. Mas sobretudo em paz.

Como pode minha mente produzir um pensamento que me arrepia? Que é isso?

E quando esse pensamento é dito em voz alta? Aos 21 anos foi quando tive a minha primeira experiência de oração. Como é isso de quando me dirijo a um Tu, algo se acende em mim?

De onde vêm as lágrimas de emoção ao meditar no amor? Sentir-se absolutamente amado. Graça e misericórdia.

Que são essas coisas? Quem somos?

Que tipo de ligação é essa entre o interior (pensamento) e algo mais (a vida, o todo, o sentido, o doador de sentido)?

Uma vez uma lágrima desceu-me dos olhos ao comer um bolo de Natal.

A emoção de cantar junto. O que é tudo isso que promove algo em meu interior? O estudo, a abertura de uma nova compreensão interna que arrepia os cabelos. A ação social que une, que promove amor.

Há tantas coisas que me encantam. Que me apaixonam. Mas o que colore a alma é algo além do sentimento. Além do sentir amor. Além do sentir o outro. Além do sentir o nós. O nós que nos liga a um sentido. A um enredo da história humana sobre a terra. 

O humano, a casca da árvore. O tronco cascudo da árvore é só uma casca de árvore. Mas o que é a casca da árvore quando eu a chamo Deus? E me dirijo a um Tu.

Será tudo isso um auto engano? Será tudo isso um mistério científico a ser estudado? Ou será tudo isso um mistério a ser adorado?

A abertura ao desconhecido.

Encarar o aberto. O medo. Medo de um gozo. Não suportar o gozo desse amor e me perder. O roçar do sagrado. Como o rio que beira a margem. Não exatamente a poesia, não as palavras, mas o algo que ela toca. E da qual me retraio.    

E então a própria melancolia dramática de não me submergir nesse mar. A melancolia de não ser esse amor. 

A falta, não de um amor comum, mas de não me reconhecer o próprio amor maior. A angústia da ausência de paz. A paz que se insinua, que vem de visita, que me desafoga por instantes.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Conversas diante do altar

"Revela-te a mim.

Quem és?

Para além desse corpo, dessa aparência, quem és? Mostra-me quem és de verdade?"


Pergunto isso e te sinto tão perto. Como se permeasses tudo. Dentro e fora de mim. Como se uma chuva de doce néctar caísse sobre mim. Sinto a pele arrepiada. É tão prazeroso. Uma respiração se faz profunda. Exalo em um suspiro de alívio como se voltasse para casa depois de haver esquecido que existia casa. Sinto paz e abertura ao intemporal.


"Mostra-me quem sou. 

 Quem sou eu?"


Pergunto isso e me sinto tão unido a ti, sinto nossa identidade. 


"Quem és tu? quem sou eu?"


Te olho.


"Quem és tu? quem sou eu?"


Te olho e uma neblina turva o olhar.


"Quem és tu? quem sou eu?"


Te olho e te sinto como as raízes profundas em minha natureza, no tempo e no espaço de onde habito. Como se fosses minha verdade ancestral, abismal.


No centro da Terra girante, um só ponto. Piso a Terra e percebo que somos, todos aqui, filhos da Terra. No centro do círculo da vida nos encontramos a todos. Caminhar para o centro é pisar no mesmo chão, chegar exatamente no mesmo ponto, de meus irmãos e irmãs. No centro, o encontro.


Encarno em um irmão. De dentro dele abro um rosário de orações. Procuro a divindade e peço: olha por mim (ou melhor, por ele, ou melhor, por nós).


"Não sou eu que oro por ti, irmão que habito, como quem enviasse uma luz daqui para aí. Como doar o que não tenho? Sou teu irmão na procura. Numa imagem de Santo Antônio doando o pão, me identifico com o faminto que recebe o pão, agradecido. Sou eu em ti que clamo pela presença da divindade em ti, em nós. Que o amor desperte. Que o amor desperte. Que o amor desperte nesse irmão."


Será essa uma forma de orar pelo outro, de ajudar?


Sempre senti prazer em orar pelas pessoas, enquanto caminhava na beira do mar. Sentia Deus presente em mim imaginando participar dessa descida do amor de Deus a seus filhos. E uma forma de oração levava a outra até que eu chegava na melhor oração que encontrei: que era agradecer a Deus pela existência de cada um em minha vida. E agradecendo, vendo as qualidades, parecia-me que boas sementes eram regadas. 


Pisando a Terra girante também me agrada dançar. Danço em louvor. Meus braços se abrem, se erguem, expõem meu coração a ti que me infunde a força da vida, Deus em movimento. Meu corpo dança e inventa o passo para fora de todo hábito.

Me agrada girar. Distribuo de dentro para fora e recebo de fora para dentro, de todas as direções. Girar me faz voar. Já na segunda volta a beleza se mostra a meus olhos. E a beleza é o voo da alma. Girar me põe no ritmo da Terra e aqui também toco meus irmãos na roda da vida. 


E sou tocado. Ah é tão bom ser tocado. Um dia, a profissão mais valorizada e estimulada no mundo vai ser a de massagista. Se bem que há toda uma arte em abrir a pele ao toque. E da pele ao abismo... ah isso leva muitos anos de prática para se libertar inteiramente o corpo. E o corpo é o céu!


"Podes me levar até o Mestre? Abrir a estrada que me leva a Ele? Mostra-me o Mestre."


Com esse pedido sinto o amor imenso. Parece possível uma espécie de transmissão: quem muito ama ensinar aqueles que pouco amam. Não exatamente ensinar, mas derramar um dom, como é da natureza de todo ensinar.


"Sim, mas não me queira para si. Ela me diz. Você está pronto a não rivalizar com o Mestre? Está pronto para ver meu amor por Ele e não querer que te ame a ti da mesma forma? Porque a beleza de meu amor poderia te confundir. Eu eu não posso amar a alguém tanto quanto a Ele. Estás pronto para olhar, não para mim, mas para onde olho?"


Lembro-me de Buda dizendo para as pessoas olharem para a lua e não para o dedo que a aponta.


Quero dizer sim.


Saio das camadas da superfície e desço mais e mais para perto do desejo original.


Digo sim.


Toco a pedra e sinto a fonte do Ser, de tudo, de Deus e do que sou. O mesmo Eu sou.


"Oh grandiosa fonte do Ser".


Finalmente olho o Mestre.


"Eu e Tu somos um."


Silencio. E amo. E sou. 


E é tudo tão rápido até que eu volte ao grande véu.


Passou. 


Ah minha vida seria um desespero sem o conhecimento de que, além do eterno amor, és a própria impermanência de tudo que não és.