domingo, 27 de janeiro de 2013

Deus brinca de esconde-esconde



"Deus também gosta de brincar de esconde-esconde, mas como não há coisa alguma fora de Deus, ele só pode brincar consigo mesmo. Contudo, ele passa por cima dessa dificuldade, fingindo que ele não é ele mesmo. Essa é a maneira que ele tem de esconder-se de si próprio. Finge que é você e eu e todas as pessoas do mundo, todos os animais, todas as plantas, todas as rochas e todas as estrelas. Desta forma, tem estranhas e maravilhosas aventuras, algumas delas terríveis e assustadoras, mas que são apenas pesadelos, pois desaparecem quando ele acorda. Agora, quando Deus brinca de esconder-se e finge que é você e eu, esconde-se tão bem que demora muito tempo para lembrar-se de onde e como se escondeu. Mas essa é a parte mais divertida: trata-se exatamente do que ele queria fazer. Não quer encontrar-se demasiado depressa, já que isso estragaria o jogo. E por isso que é tão difícil, para mim e para você, descobrirmos que somos Deus disfarçado, fingindo que ele não é ele. Mas quando a brincadeira já durou muito, todos nós acordamos, paramos de fingir e recordamos que somos todos um só ser, o Deus que é tudo aquilo que existe e que vive para sempre e sempre. Você poderá perguntar por que razão é que Deus, por vezes, se esconde na forma de pessoas horríveis ou finge ser pessoas que sofrem doenças graves e grandes dores. Pense, primeiramente que ele está fazendo isso a si próprio e não a outras pessoas. Recorde, também, que em quase todas as histórias de que você gosta tem de haver gente ruim e gente boa, pois a emoção da história é descobrir como é que a gente boa vai levar a melhor sobre a gente ruim. O mesmo acontece quando jogamos cartas. No começo do jogo misturamos todo o baralho e as cartas ficam numa grande desordem, como as coisas ruins do mundo, mas o objetivo do jogo é acabar com essa desordem, voltar a ordenar as cartas, e acabar com essa desordem, e aquele que se sair melhor será o vencedor. Depois, voltamos a embaralhar as cartas e jogamos uma vez mais - e é isso que sucede com o mundo."
Alan Watts, no livro Tabu.

Alan Watts, a chegada do zen no ocidente


Li uma biografia de Alan Watts, escrita por J.C.Ismael em 1986. Eis um resumo reflexivo:

Um pensador ocidental com a bússola interior apontada, desde cedo, para o oriente.

Nascido em 1915, Alan Watts foi um dos principais divulgadores do zen budismo no mundo ocidental.
Inglês, após o primeiro casamento emigrou em 1938 para os EUA, onde se naturalizou e fez fama, com suas conferências, entrevistas na TV, livros e presença sempre carismática e bem humorada. Um show-man que influenciou a geração beatnik e o movimento hippie. Seus livros eram best sellers e a fonte de contato dos jovens com a antiga tradição do zen budismo que vinha sendo divulgada no ocidente por Suzuki. Um pensador polemizador e uma vida polêmica, especialmente no que diz respeito a suas ideias e práticas de liberdade sexual, bem como as experiências e conselhos no uso de drogas para alterar a consciência (tais como o LSD). Watts viveu e pensou o zen um pouco à sua maneira, diferentemente das escolas e mosteiros zen, com suas disciplinas de meditação e regras de comportamento. Mas mesmo diante das acusações de incoerências pessoais, Allan Watts foi um divulgador e uma fonte de inspiração para um mundo que precisava de seu grito de alerta.

Watts falava do aprisionamento ocidental à cultura materialista do consumo e ao labirinto do "medo de sentir medo." Buscar segurança num mundo em contante mudança é a causa da loucura que vivemos.

"Uma sociedade com base no anseio de segurança não é mais que um concurso de retenção da respiração, em que todos ficam tensos como um tambor e vermelhos como uma beterraba."

Imagine uma sociedade que para fugir do medo gera ainda mais stress? Isso é bem atual.

Entretanto Watts não queria uma importação do oriente como cópia de hábitos e ritos, mas uma orientalização do cristianismo despindo-o da carga pesada de racionalizações teóricas e de rituais sem uma simbologia viva.

Porque o que é o zen?

Um caminho espiritual influenciado pelo budismo e pelo taoísmo onde se busca a realização do satori (iluminação) através da vivência consciente do momento presente, o 'aqui e agora'. Mas para isso é preciso que a pessoa se desvencilhe de todos os bloqueios que a separam da experiência autêntica do real.

O ego é o principal inimigo (como ensinava Buda), e seu artifício é a racionalização, o pensamento através de palavras e conceitos, que buscam constantemente a segurança ao responder as perguntas: quem sou? Que caminho é esse? Como serei livre?

Um círculo vicioso: quem deseja ser Buda, nunca será. Só quando se abandona o desejo, mesmo o de se iluminar, é que a iluminação pode acontecer. Para ser livre, é preciso então desenvolver o não-pensar (taoísmo). Ou seja, a vida autêntica, a vida espontânea, simples e livre só pode ocorrer através dessa experiência direta que transcende o jogo neurótico do pensamento que busca definições, amarras, explicações. Experiência direta: "o som da chuva não precisa de tradução" (Morimoto).

A liberdade do zen é a vida cotidiana vivida sem tensões e especulações cerebrais: "quando tenho fome, como; quando tenho sono, durmo", diz um antigo aforismo zen.

Diz Watts, "O que nós esquecemos é que os pensamentos e as palavras são convenções e que é fatal tomá-los muito a sério... Palavras e medidas não proporcionam vida; simplesmente a simbolizam. Em vista disso, todas as 'explicações' do universo expressas através da linguagem são circulares e deixam as coisas mais importantes e essenciais sem definição e sem explicação."

Um dos mais famosos métodos do zen é o uso do koan. Uma espécie de anedota, ou diálogo, em que o mestre busca ajudar o estudante a romper a lógica racionalista. Alan Watts, em suas conferências e apresentações na TV gostava de usar esse recurso como por exemplo esse poema:

"Tenho as mãos vazias, mas observai a pá na minha mão; vou andando a pé, mas estou montado em um touro. E quando passo sobre a ponte, vede, não é a água que corre, mas a ponte que flui."

Essa linguagem paradoxal (mãos vazias, com pá na mão; a pé e montado no touro) não esconde um sentido oculto ou um enigma. É simplesmente uma estrategia para quebrar o pensamento que gira em círculo vicioso e nos aprisiona na ilusão. O koan busca "o despertar de um sentido interno que permite ao individuo uma visão do autêntico funcionamento das coisas" (Suzuki). Perceber para além do intelecto. Um caminho para despertar a intuição. A ilusão do intelecto nos impede de viver, porque ficamos divididos. E isso significa uma crítica frontal a toda a filosofia do ocidente.

"A filosofia especulativa, como a conhecemos no ocidente, é quase inteiramente um indício da mente dividida, do homem procurando situar-se fora de si mesmo e da sua experiência para poder verbalizá-la e defini-la... a mente indivisível, entretanto, acha-se livre dessa tensão de estar sempre tentando situar-se fora de si mesma e encontrar-se em toda parte, menos aqui e agora."

A busca pelo oriente é, portanto, a tentativa de salvar a filosofia e com ela a civilização ocidental decadente que adoece em suas ilusões consumistas e cientificistas. A própria espiritualidade ocidental (cristã) pode experimentar uma revitalização no contato com o zen e as filosofias orientais.

"O budismo - e o mesmo se pode dizer de certos aspectos do hinduísmo, vedanta, ioga e taoísmo - não é uma cultura, mas uma crítica da cultura, uma permanente revolução não-violenta ou 'oposição leal' à cultura a que está ligado."

Assim como Thomas Merton, Alan Watts valoriza o papel dos contemplativos no mundo. E participa desse debate acerca da tensão entre ação e contemplação, especialmente num mundo que começa a questionar um tipo de ação que leva mais a guerra e ao progresso material do que a um sonhado mundo melhor. A espiritualidade mística dá um frescor às religiões, uma autenticidade que o apego ao dever e aos ritos não alcançam:

"Com a realização da união com Deus, os homens não tem mais necessidade de provar a si mesmos que estão salvos, ficando mais fácil para eles amarem-se uns aos outros, de forma autêntica e sincera e sem qualquer sentimento de inibição. Demonstrarão amor, consideração e misericórdia pelos outros de forma autêntica e sincera não porque isso seja bom, não porque tal conduta lhes assegure estar levando uma vida cristã, mas porque a vida contemplativa lhes dará consciência da presença de Deus em todos os seres humanos (...)"

Outro método para apontar o caminho zen (já que não se pode ensinar o zen, nem mesmo explicá-lo) é o riso. Estratégia constante do bem humorado Watts. Gostaria de encerrar essas citações com uma reflexão, bem no espírito zen, de Christmas Humphreys sobre o riso:

 "Nada existe para ser encontrado; então, por que o esforço para encontrá-lo? Encare a vida com despreocupação, porque ela flui à sua volta e, se você for sagaz, estará fluindo também, cheio de felicidade. Abandone tudo que o preocupa e continue abandonando. Ria, ria ainda mais, mas se não puder rir, descubra o que o impede."


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Vibrar AMOR


Acabo de chegar da rua, ainda às lágrimas de emoção.

Há umas semanas li numa revista do Instituto Valores Humanos uma entrevista com o Gonçalo (esse aí da foto).
Ele dizia que a vida dele mudou quando começou a praticar o que o Sai Baba ensinou: todos os dias, vibre amor por 10 pessoas que você não conhece. Isso te ajudará a despertar a sua capacidade de amar.

Aí comecei a praticar também.
Hoje pela manhã, após a meditação, dediquei vibrações de amor por 10 pessoas que eu não conhecia. Isso é sempre difícil. Como pensar em quem não conheço? Então às vezes vem na mente um porteiro do prédio vizinho, um motorista de ônibus que peguei no dia, uma senhora do supermercado, etc. Hoje já estava na lista dos 7 e faltavam 3. Aí lembrei do gerente da loja onde compro frutas e dediquei também para duas moças que ficam no caixa.

Bom, tudo normal. A vida segue e fui resolver as coisas do dia.
Na volta do banco passei para comprar melancia para o suco do almoço. Tinha esquecido completamente da oração da manhã.
Qual não foi minha surpresa? No meio da loja, o gerente (nunca tinha falado comigo!) olha pra mim e diz num sorriso, como se fôssemos grandes amigos: "E aí chefe, tudo bem?" E põe a mão no meu ombro. Põe a mão do meu ombro!!! Foi emocionante demais perceber a realidade da oração, da vibração. Eu nem estava pensando nisso, tinha esquecido completamente, mas ele estava todo simpático comigo. Parecia até que ele estava me confundindo com alguém mais chegado. E depois na hora de pagar, a moça falou no final: "Bom dia, querido". Me chamou de querido!!!! É a primeira vez que falam comigo lá, sem que seja a mera resposta de um bom dia, ou um obrigado.

Incrível. Estou muito emocionado com o carinho que recebi dessas pessoas.
Acho que amar é isso. É estar aberto a receber amor.
Fica a dica: todos os dias, vibre amor para 10 pessoas que você não conhece.
Paz, paz, paz!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Poema de um Natal sem paz


Naquele dia ouvi tua voz.
Me chamavas para perto de ti.
E me lançavas como instrumento teu
À ação em teu nome.

O tempo passa.
E já não ouço tua voz há tantos anos.
Bem que gostaria de ouvi-lo
Temo, no entanto, não ser capaz de oferecer agora o que pedirias.

O tempo passou
E me chamas novamente, desta vez sem voz,
Para perto de ti.
Como faço
se já não queres vãs ações exteriores?
O que preciso mudar em mim para te alcançar
e recomeçar?

Sinto-me tão vazio de ti
errante em busca de tantas coisas, perdido na multidão dos sentidos.

Me chamas novamente.
E já não sei ao certo o que queres de mim.
E me demoro em mim.
Na esperança de que estás no comando
Dessa inquietante transformação.
De que sairei desse deserto
mais aberto ao Amor.
Às exigências do teu amor, ó meu Amado.
Meu adorado, a quem eu sou capaz de sacrificar tudo.
E que me completas
Ao me deixar perplexo ante teus chamados.

Estranho paradoxo: me sinto pleno quando me anuncias um novo começo.
Essa dinâmica só encontro em relação a ti
Com tudo mais é o inverso.
No entanto me envergonho de tardar em entender os teus sinais.

Contigo é assim
Estou sempre certo e convicto da bondade de teu chamado
Estou sempre incerto das minhas respostas.
E assim caminho sem a paz prometida, sem a liberdade esperada.
Me ajuda, suplico-te.
Já não te peço que afastes de mim essas dores
Mas que me ajude a entender o sentido deste novo chamado.
Sei que um dia vai parar essa procura toda.
E já não ouvirei teus chamados
Pois serás chama em mim.

Mas até lá ainda suplico tua ajuda.
Tua voz?
Ó como seria doce e encantador ouvir-te novamente.
Até quando me farás esperar?
Nesse Natal sem paz
Choro. Choro o choro sem lágrimas. O teu choro de criança nascente.
E não sei quando chegará o momento de sorrir.
Mas me felicito com esse Natal doloroso.
Sim, estás em minha dor.
Sei que estás no desconsolo de minha alma nascente.

“No tempo da cólera tornou-se rebento” (Eclo 44,17)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Aristocracia Brasileira


Hoje fui ao Rio Sul, shopping localizado na Zona Sul carioca.
Interessante observar, logo ali na entrada, a existência da radical divisão de classes que vivemos no Rio, especialmente quando a gente entra pelos fundos. O pessoal que trabalha no shopping sai um pouquinho para poder fumar, e também ali estão, nas idas e vindas de seus postos de trabalho, demais funcionários, todos em contraste com a chegada animada e triunfal dos clientes. A diferença é visível, ao menos para quem vive a cultura por dentro. Está na qualidade das roupas, nos cortes de cabelo, na postura, no jeito de andar, de falar, de respirar e, até, de flertar. Tudo é símbolo de distinção. Vivemos numa sociedade radicalmente dividida. Até mesmo naquilo que seria um campo equalizador, por nos aproximar a todos da natureza, do lado cru da vida, o campo do flerte sexual, a diferença surge impondo muros de distinção e proibições. Raro, muito raro, um proletário acreditar que tem chance com a princezinha zona sul, daquelas "tão lindas que acho que cresceu só comendo filé". Muito difícil, quase impossível, o homem rico mexer com a pobre, sem que seja no jogo sujo do sexo imaginário violento e despudorado, mas que não seja nunca para casar, pois afinal, não vão aceitar lá em casa. Casamento só dentro da casta. Sim, lembro que li, há alguns anos, em Gilberto Freyre sobre o Brasil colonial: "negra pra trabalhar, mulata pra f... e branca pra casar". No que pese as (poucas) mudanças na cor, a regra continua valendo. É engraçado quando brasileiro se horroriza com a sociedade de castas indiana, com suas delimitações rigorosas e a vergonha dos intocáveis. Ora, ora, ser humano é ser humano, aqui e na China (e na Índia). Aqui também há castas: internalizadas no nosso imaginário. Tem gente que se a gente toca na rua, precisa correr pra lavar a mão. Sim, Brasil aristocrático. Lembro da aula da filósofa Marilena Chauí sobre a filosofia política em Baruch Spinoza (seu preferido). Segundo ele o que marca um regime democrático ou aristocrático de sociedade não é a forma de se contar os votos, é a busca por distinção social que há nas aristocracias. E não é que o judeu excomungado e expatriado tinha razão? Não é que a corrida simbólica em nossa sociedade é, mais do que dinheiro e poder, corrida por distinção? Brasil, eis a tua cara. Homem, ei-lo homem. É tudo humano. É tudo humano.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Conto de Rumi: Moisés e o Pastor


Certa vez, Moisés ouviu um pastor que rezava de forma espontânea: — Ó Deus, mostra-me onde estás, para que eu possa me tornar Teu servo, para que eu amarre Tuas sandálias e que eu penteie Teus cabelos, para que eu lave Tua roupa, mate Teus piolhos e traga Teu leite. Oh!, meu adorado! Que eu beije Tua mão amada, que eu massageie Teu pé amado e no momento de dormir, balance Tua pequena cama. Ó Tu, a quem todas as minhas cabras são ofertadas em sacrifício; ó Tu em quem eu penso, lânguido, pleno de desejo de amor. Ao ouvir a oração do pastor, Moisés, o profeta legalista, repreende-o severamente, identificando-o como alguém perverso e ímpio, por se referir ao Deus juiz de forma assim tão familiar e estúpida. Para ele, o grande Deus não necessitava de um semelhante serviço. Diante de tal atitude, o pastor, envergonhado e transtornado, com a alma queimada, rasga suas roupas e se retira para o deserto. Neste momento, veio do céu uma revelação de Deus a Moisés, que dizia: — Separaste meu servidor de Mim. Eis que viestes para reconciliar meu povo comigo, e não para afastá-lo de Mim. De todas as coisas, a mais detestável a Meus olhos é o divórcio. Dei a cada povo uma forma de expressão. Não tenho necessidade de seus louvores, estando acima de toda necessidade. Não considero as palavras que são ditas, mas o Coração que as oferece, pois o Coração é a essência e a palavra o acidente. Ó Moisés, aqueles que amam os belos ritos são de uma classe, aqueles cujos corações e almas ardem de amor são de outra. Não é preciso se virar para a Caaba quando se está nela, e mergulhadores não precisam de sapatos. A religião do amor é diferente de todas as outras religiões, pois, para os amantes, Deus é a fé e a religião. Em seguida, Deus infundiu no íntimo do Coração de Moisés os mistérios que palavra humana alguma alcança. As palavras invadiram seu Coração, transformando radicalmente sua visão. Após compreender a reprovação de Deus, Moisés correu ao deserto em busca do pastor. Ao se encontrar com ele, assim se expressou, movido de compaixão: — Não busques regra alguma, nem método de adoração; diz tudo o que teu Coração aflito deseja. Tua blasfêmia é a verdadeira religião, e tua religião é a Luz do Espírito. Estás salvo, e graças a ti um mundo inteiro se salvou igualmente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Perdoe-me ainda


Perdoe-me Raíssa
perdoe-me os desencontros
perdoe-nos.
Perdoe-me por um tempo
ainda
há tempo

Perdão
Raíssa linda
projeto infinito
de mulher, de família,
de acalantos e carinhos
Raíssa menina
minha
ainda
hei de abrigar-te
e servir-te, na taça mais rica
o melhor vinho do amor
que envelhece.
Serei teu
pai
irmão
amigo
amado
ainda.

Deixa então que passem
as ilusões amargas
a dor
a solidão
Que venham
as lágrimas
romper a secura

Confio-te à vida
porque seco
e se te sinto perto
quase refloresço

Perdoe-me os desencontros
perdoe-nos
ainda
mais uma vez
Ainda será tempo.

sábado, 10 de novembro de 2012

Esses momentos de Liberdade - com Virginia Woolf


O que é liberdade?

Infinitas discussões filosóficas e apreensões espirituais são possíveis.

Hoje, trago um breve trecho de nossa incrível romancista Virginia Woolf, de seu livro Mrs. Dalloway, para breves comentários.

Um dos personagens Peter Walsh, em suas andanças por Londres, quando se dá conta que quase ninguém sabe que ele está na cidade entra num estado de espírito de profunda liberdade:

"(...) uma irreprimível, uma esquisita alegria; como se, dentro do seu cérebro, uma estranha mão corresse cortinas, escancarasse janelas e portas, e ele, sem nada ter com isso, se visse à entrada de intermináveis avenidas, por onde poderia vagabundear, se lhe aprouvesse. Fazia anos que não se sentia tão jovem." V.Woolf, Mrs Dalloway, p.53-4

Liberdade aqui é essa abertura de andar sem caminhos fixos. Andar sem meta. Estar na vida sem uma meta predefinida. Esse estado raro de abertura à vida é liberdade. 

Mas vemos que isso é algo raro e muito difícil de se alcançar. No texto, Virginia fala quase que de uma intervenção no cérebro, uma mão que abrisse cortinas. Linda imagem!

E depois prossegue:

"Tinha escapado! estava completamente livre - como acontece em todos os despojamentos, quando o espírito, como uma chama desabrigada, inclina-se, curva-se e parece que já vai espraiar-se fora do seu âmbito. Há anos que não me sinto tão jovem! pensava Peter, deixando (apenas por algumas horas, naturalmente) de ser exatamente o que era, sentindo-se como um menino que corre porta afora e vê, enquanto vai fugindo, a sua velha ama a chamá-lo." V.Woolf, Mrs Dalloway, p.54

Há muito o que comentar aqui. 

Primeiro a relação de liberdade com despojamento do espírito.
Ou seja, o estado de liberdade precisa de um despojar-se, ou seja, um sair de si, um desistir de todos os objetivos e metas traçados pelo espírito. É uma atitude de entrega. Esse é, na verdade, o objetivo da vida dos yoguins (hindus) ou mesmo do homem do Tao (taoísmo), é um deixar que se faça a Outra vontade, que não a minha. Esse (des)controle é expresso na imagem da chama, que tende a se espalhar. Belíssima imagem.

Em segundo lugar, a relação com a juventude, que aparece nos dois trechos. O estado de liberdade é esse estado de jovialidade em que tudo é possivel, ou seja, estou aberto a todas as possibilidades que a vida traz. E eu deixo de ser quem eu sou, para ser um outro-eu, livre de mim mesmo.

Em terceiro lugar, os limites desse estado. Há o limite do tempo. Virgínia reconhece que isso se dá somente por algumas horas. Em alguns casos isso se dará por menos tempo ainda. Nos mais neuróticos isso se dá somente em alguns segundos, e ainda assim, com uma imensa sensação de culpa. 

Outro limite é visto na dimensão da liberdade em contraposição ao aprisionamento. É a 'liberdade de', diferente da 'liberdade para'. Psicologicamente, o estado de liberdade é tão intenso e assustador, que ele tende a se manifestar no confronto àqueles que nos aprisionam (no caso, a ama, em seus registros infantis).

Bom, ainda comentando nossa Virginia. Há de se ler e viajar com ela. Porque em sua obra percebemos que a verdadeira liberdade apreciada é a liberdade de pensamento. Liberdade de imaginar situações. Possibilidades de vidas paralelas. Tudo na vivência do pensamento, como nesse trecho entre Clarissa e Peter (seu amor de juventude com quem ela não casou):

"Leva-me contigo! pensou Clarissa num impulso, como se ele fosse partir imediatamente para uma longa viagem; e, no instante seguinte, foi como se tivessem passado os cinco atos de uma peça excitante e movimentada, nos quais ela tivesse vivido toda uma vida e fugido, vivido com Peter, e tudo agora estivesse terminado." Mrs Dalloway, p. 49.

O pensamento é como um macaquinho pulando de galho em galho, frase de Buda, que me foi lembrada pela professora Alice (quem me indicou o livro). Pois é, se assim for, ler Virginia é acompanhar uma macacada pela floresta. E muita ilusão, atrás de ilusão Ah, Virgínia, que dor! Se você meditasse, não teria produzido o que produziu (e talvez não teria cumprido sua tragédia).

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Goenka, como agir diante da morte de um ente querido?



Como é que um meditador pode enfrentar a dor quando perde alguém querido?

O meditador deve ser muito sábio e compreender a lei da natureza. Apesar de todos os vossos choros e rezas, não há possibilidade de trazer essa pessoa de volta. Tem que aceitar o fato de que essa pessoa se foi.
Compreendam que sempre que gerarem uma sensação de lamento e de infelicidade enquanto se lembram de alguém que faleceu, essa vibração vai alcançar essa pessoa onde quer que ela possa estar, e vai fazê-la infeliz. Ninguém quer tornar infeliz um ente próximo e querido que tenha falecido. Certamente iríamos gostar que essa pessoa estivesse feliz, em paz e liberta, apesar disso, enviamos-lhe vibrações que a vão fazer mais infeliz. Ao fazer isso, estão a prejudicar a pessoa que querem que seja feliz.
Um outro aspecto prejudicial é que, enquanto choram pelo ente próximo e querido que faleceu, estão a semear sementes de sankharas de sofrimento. Estão a sofrer, e a semente de sofrimento não irá trazer mais nada para o futuro além do sofrimento. A natureza não vai distinguir se estão a semear a semente devido a este ou aquele motivo lógico. Não, a semente é a do sofrimento, e não pode deixar de trazer consigo o sofrimento.
Afinal, o que é a semente? A semente gera e cria um padrão habitual da mente. E quando estão a sofrer mais, seja por que motivo for, estão a alimentar um padrão habitual da mente. Esse padrão habitual irá trazer mais sofrimento no futuro; por isso começaram a prejudicar-se e ao ente querido que se foi.
E o terceiro aspecto prejudicial é que essa sensação de sofrimento que estão a gerar através desse sankhara começa a impregnar a atmosfera à vossa volta. Todas as outras pessoas da família que vos rodeiam vão ficar deprimidas, porque vocês estão a gerar esse tipo de sensações. Começaram a prejudicar-se a si mesmos, aos que vivem à vossa volta, e também ao ente querido que faleceu. Essa vossa ação é prejudicial de três maneiras.
Se alguém trabalhar sabiamente e compreender a lei da natureza, quando se lembrar daquele que partiu, se surgir na sua mente mesmo que um leve lamento, irá acalmar-se imediatamente e começar a gerar vibrações de metta, de amor. “Possas ser feliz, onde quer que estejas. Possas ser feliz, possas estar cheio de paz, possas encontrar a libertação.” As vossas vibrações irão alcançar este ser, e ele ou ela sentir-se-á feliz. Essas vibrações são cheias de alegria, paz e harmonia. Nesta altura estão a gerar um sankhara de harmonia e paz. Essa semente irá trazer-vos frutos de paz, de harmonia e de alegria. E essas vibrações espalhar-se-ão na atmosfera e irão torná-la harmoniosa e cheia de paz. Começaram a ajudar todos os três – o ente querido que faleceu, a vós próprios e à vossa família – da maneira propícia, da maneira do Dhamma.
As vibrações funcionam. Mesmo para aqueles que faleceram, onde quer que possam estar, a vibração que geramos quando nos lembramos deles irá com certeza alcançá-los, forte ou suavemente, de acordo com a força da vossa mente.

S.N. Goenka no livro: Para o Benefício de Muitos, Ed. Vipassana Portugal, 2009, p. 47-8.

Sentidos do Amor



Sentidos do Amor (Perfect Sense). Um filme lindo, emocionante, reflexivo, de dar embrulho no estômago em muitas passagens. É a história de uma relação amorosa nascendo entre uma mulher epidemiologista e um homem chef de cozinha. Muito boa a escolha das profissões. Porque está ocorrendo uma pandemia no mundo onde as pessoas estão perdendo gradativa e quase que simultaneamente cada um dos sentidos do corpo. Olfato, depois o paladar. Mais a frente a audição e por fim a visão. A mulher diante de uma doença mundial sem explicação. O homem sofrendo com as mudanças em seu restaurante e a impossibilidade das pessoas desfrutarem sua arte. 
Interessante que cada perda do sentido é precedida por uma vivência muito intensa de um tipo de sentimento. A primeira delas é a experiência de um luto. As pessoas começam a chorar, por alguma perda significativa. Tempos depois não conseguem sentir mais nenhum cheiro. O mesmo vai ocorrendo com os demais. Uma fome alucinante vem antes da perda do paladar, a explosão de raiva antecede a surdez e, interessante aqui, uma sensação maravilhosa de felicidade e compaixão é o sentimento que acomete a todos aqueles que irão perder a visão. 
A histeria coletiva, os anúncios de fim do mundo, a busca por culpados, terroristas, etc. são o pano de fundo social para as tramas de um relacionamento amoroso que começa no abraço consolador da experiência do luto e se encerra no abraço também compassivo ao ficarem cegos. As idas e vindas do casal, a forma como lidam com seus sentimentos, tudo isso vão nos trazendo à reflexão sobre a vida.
Filosoficamente, o filme toca na raiz da nossa experiência com o que é real. Percebemos o mundo pelos sentidos. É interessante notar, por exemplo, o nexo entre memória e sentidos. O olfato nos remete a memórias antigas. A perda do olfato vai apagando também nosso passado. Afinal, quem somos? quem somos sobre essa terra? somos mesmo quem pensamos ser? quando ferimos ou carregamos mágoas, quem nos magoou? uma pessoa ou uma onda de sentimento que ultrapassa os sujeitos individuais? somos realmente os mesmos? nossos relacionamentos são reais? Enfim, um filme que nos faz pensar muitas coisas.
Pessoalmente gostei da relação entre sentimentos e sensações, experiências da mente e experiências do corpo. Sinto que o filme toca no enigma do que os cientistas começam a buscar compreender, e que tem a ver com as descobertas que os místicos vem fazendo à milênios sobre o a relação mente-matéria e a existência do que somos. Certamente Buda tem algo a dizer sobre a impermanência, a partir das suas experiências, dentro da moldura de seu próprio corpo, no seu caminho de iluminação. Sensações, sentimentos, ideias, tudo possui a natureza de surgir e desaparecer. E o filme, apesar de trágico em suas conclusões, deixa a sensação final de que ao fim de todos os sentidos (corporais) resta um sentido (significado) na vida: o amor.