quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Autoeducação com adolescentes
Não vou escrever agora um livro sobre educação de adolescentes. Bem que seria possível. Mas nesse momento vou compartilhar umas reflexões a partir de uma experiência que estou vivendo.
Me interesso por educação porque me interesso pelo mundo interior do ser humano.
Me interesso pelas relações.
E tento entender como que, no encontro, pode haver aprendizado.
Educação é um caminho de desenvolvimento dos nossos potenciais.
É uma caminhada por uma maior integração humana.
Um ser humano integrado, num mundo tão cheio de dualismos, é um verdadeiro milagre.
Somos, como dizia Campbell, o herói na trajetória de busca por si mesmo...
E essa é a nossa busca para sair desse labirinto das contradições humanas...
E é nessa minha caminhada de autoeducação que acompanhar um adolescente está sendo de grande ajuda. Espero que para os dois.
Vamos ao fato.
A mãe está tentando fazer o filho de 11 anos voltar a frequentar a escola e sair do vício do uso do computador.
Ele deixou de ir a escola (uma série de motivos, não cabe aqui entrar no caso completo dele) e passava o dia inteiro trancado no quarto, usando o computador, sem querer ver ninguém.
A mãe desesperada está procurando ajuda profissional e está começando a retomar as rédeas da situação.
Comecei a ficar com ele alguns dias no período em que a mãe determinou que ele teria de ficar sem computador. De quatro as seis da tarde.
Tem sido muito interessante. Um verdadeiro aprendizado.
"O que você está fazendo aqui? Vai embora! Eu não quero ver ninguém! Eu te odeio! Nunca mais saio com você. Nunca mais quero te ver!" Você já ouviu coisas assim? Quem tem filho adolescente sabe que isso é normal.
Mas o que o adolescente precisa é: regras claras. E de uma autoridade que garanta o cumprimento das regras.
As regras são importantes porque são impessoais.
O erro mais comum dos pais ao lidar com adolescentes é não ter regras claras.
E querer mandar.
"Agora você vai fazer isso! Pronto e acabou". São excessivamente autoritários.
Ou, "tá bem, pode, mas só um pouco. Deixa mais um pouco. Não. Só mais um pouquinho. Tá bem." São excessivamente flexíveis.
Tudo que o adolescente precisa (e testam os adultos nisso) é de autoridade coerente. Por isso regras. Elas são impessoais. E muitas regras podem ser combinadas, discutidas, mudadas, adaptadas, após os momentos de diálogo.
Então comecei sendo bem rígido com a regra. Não pode ficar no quarto. Ele aceitou de bom grado. Só vai voltar no horário combinado. Ele concordou. Não pode andar sozinho pela rua. Depois de um atrito a respeito disso, aceitou.
E assim, estabelecendo regras com rigidez, ele se adaptou e pudemos conversar sobre suas dificuldades, seus desafios. Temos comido pizza, ido ao cinema... sinto que ele gosta de ter, junto com a autoridade do disciplinador, a afetividade e o calor de um adulto que se preocupa com ele.
Disciplina e afeto.
Eis o segredo.
É simples.
Mas o aprendizado disso não pode ser meramente teórico, precisa ser vivido.
E por isso é um caminho.
Achar a dose certa.
E as coisas de dentro da gente vão se desvendando.
O meu desafio como educador e adulto é ouvir suas reclamações, seus xingamentos e manter a calma. Entender que sua agressividade é um mecanismo de desenvolvimento de sua identidade. Não levar para o lado pessoal. Está com raiva porque eu sou a autoridade que o está frustrando. Daqui a pouco ele volta a sentir-se meu amigo e a gostar de me ter como apoio para refletir suas questões.
E mesmo quando ele lança sobre mim suas ofensas, posso impor alguns limites, do tipo, não fale assim comigo, não precisa falar palavrão. Mas acho que quando ele diz: eu te odeio!, preciso respeitar porque ele está expressando seu sentimento. Já vi muito adulto se ofendendo por quase nada e discutindo igual criança com os adolescente. Isso não ajuda.
Bom, sinto que se sou um adulto equilibrado, há um bom senso nessa relação de respeito ao outro e o respeito por si mesmo.
Hoje por exemplo, acho que exagerei.
E aprendi algo sobre mim mesmo.
Estávamos caminhando.
Iríamos a uma livraria passar parte do tempo que ele teria que estar na escola. Como saiu mais cedo (fase de adaptação sugerida pela psicóloga da escola) a mãe combinou que ele ficaria comigo até o fim do tempo que ele estaria na aula. Hora de escola é para estudar! - disse a mãe. Adorei! A mãe está sendo ótima, tendo ótimas soluções para essa fase dele.
E no caminho eu propus como desafio que ele achasse o caminho da livraria. Ele já havia estado na livraria outras vezes, mas sempre conduzido pela mãe.
No fundo eu queria que ele pedisse informações às pessoas (para sair do seu casulo).
Então ele achou uma solução muito interessante. Ele se lembrava que a livraria ficava perto da avenida principal do centro da cidade e que esta era a única avenida com prédios altos. Olhou para o alto e viu alguns prédios altos, segui-os e encontrou o caminho. Achei simplesmente genial. Uma solução muito original. E nisso fomos olhando os prédios e ele fazendo comentários sobre a arquitetura, um de seus interesses. Fiquei feliz com a atividade. Estava sendo um sucesso.
Chegamos num ponto bem próximo da livraria.
Mas ele não conseguia chegar.
Comecei a sugerir que ele perguntasse às pessoas, que ele pedisse informações.
Mas ele se recusou.
Disse que não queria. E num momento admitiu que sentia vergonha.
Eu o pressionei (aqui acho que exagerei) sugerindo: "pergunta pra esse moço, pra essa senhora".
No final ele se desequilibrou emocionalmente, e disse que não aguentava mais. Percebi sua angústia.
Eu acabei perguntando às pessoas na rua, na esperança de mostrar para ele que não é nenhum bicho de sete cabeças. E assim, chegamos a livraria, onde estava sua mãe nos esperando.
Mas não sei se ele aproveitou a lição, porque estava com muita raiva de mim.
Claro que nada é perdido. Ele ficou diante do desafio de encarar a frustração. Creio que seja esse um dos temas pelos quais está evitando o convívio.
Mas eu fico pensando que eu poderia ter deixado ele sair vitorioso dessa.
Eu poderia ter mudado a brincadeira.
Refletindo mais tarde concluí que poderia ter feito a brincadeira de quente-frio e terminado o nosso encontro de uma forma amigável. Com vários sucessos.
E aí fiquei pensando onde posso melhorar como educador.
Entendi que ser adulto, e ser educador, é sim lançar desafios, mas que é também perceber quando a criança e o jovem já estão no seu máximo (cognitiva ou emocionalmente) e conduzir as situações de forma que eles sintam-se vitoriosos, sintam- se capazes e estimulados a novos desafios. Acho que fui longe demais e demorei a flexibilizar o jogo, e ele se sentiu desmotivado e, possivelmente, frustrado consigo mesmo.
Fiquei pensando que na raiz da minha atitude estava uma intolerância, um homem irredutível, duro demais. E olhando mais profundamente, um traço infantil de personalidade (criança ferida) de alguém que precisa sempre vencer e para isso fazer os pequenos perderem. Por trás da violência dos adultos na relação com as crianças está esse jogo de poder.
Acho que olhar para isso com mais cuidado pode me fazer um educador melhor nas próximas vezes.
Claro que dessa experiência, como em todas as experiências da vida, o nosso jovem terá os elementos para que possa crescer.
Não há educador perfeito, como não há ser humano perfeito.
Mas, eu cá, preciso admitir meus tropeços e aproveitar o rico contato com eles e aprender sobre mim.
Estou aprendendo.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Minha experiência com Ana Thomaz
Meu primeiro contato com ela foi numa palestra numa casa em Santa
Teresa, Rio de Janeiro. Fui a convite de uma amiga chamada Paula.
Aliás, antes de conhecer a Ana, foi necessário ter conhecido a Paula.
De uma família de acadêmicos no meio das ciências sociais, ela não havia
cursado o mestrado (e nem tinha interesse!) mas discutia educação de uma forma
mais original e interessante do que os colegas que eu encontrara na UFF. Ela me
indicou um livro (O Cálice e a Espada) sobre os primórdios da humanidade, uma
civilização matrística, que antecedeu a sociedade patriarcal e ao falar com ela
notei que a discussão sobre educação era uma discussão sobre o sonho de uma
civilização mais livre e feminina. Sua casa era muito interessante porque eu
fiquei logo à vontade sentado no chão, com um monte de brinquedos espalhados.
Sua filha ao colo e ela me falava de manter a casa num ambiente adequado para a
filha experimentar viver com mais autonomia. Poder escolher do que quer brincar
e acessar os brinquedos de forma independente. Paula estava com vontade de
educar a filha fora da escola e daí que a conversa sobre Ana Thomaz surgiu. Ana
tinha tirado o filho da escola e faziam sucesso os vídeos que as pessoas
postaram dela falando sobre desescolarização. E foi assim que um dia a Paula,
uma mãe com ideias super interessantes sobre a forma de educar sua filha, me
convidou para ouvir a Ana.
Na palestra em Santa Teresa, metade do tempo ela explicou sobre desescolarização,
desmassificação, e respondeu muitas perguntas que as pessoas ansiavam saber do
tipo: aspectos jurídicos de se ter uma criança fora da escola, como lidar se as
crianças só quiserem jogar videogame, etc. A outra metade foi ainda mais
interessante. Ela falou que seria uma vivência e então ensinou uns exercícios
da técnica Alexander.
Ex-bailarina, era bom olhar o corpo da Ana em funcionamento. Transmitia
uma espécie de segurança, uma vitalidade, uma coerência entre corpo, pensamento
e fala tudo funcionando com muita naturalidade. Imagina, uma pessoa na frente
de um grupo de pessoas que ela não conhece... e ela estava tão à vontade, sem
aquela tensão do autocontrole... ela passava aquela impressão de que “está tudo
certo, se algo der errado, é porque esse é o certo” essa confiança no Tao,
daquilo que flui com naturalidade...
Fiquei com a impressão de que entregaria meu corpo inteiramente a ser
trabalhado nas mãos dela. Seria minha professora de dança. Pena que ela não
trabalha como professora mais, pensei.
Na vivência a conversa ia fazendo muito mais sentido, porque estávamos
ali em grupo, trabalhando corporalmente algumas das realidades das quais ela se
fundamentava para criticar o paradigma de uma sociedade escolarizada. Através
de uns exercícios posturais, ela falava de re-humanização, que passava
obrigatoriamente pela vivência de uma presença no aqui e agora, e dos aspectos
emocionais que estar presente no aqui e agora significa. Emoção. “Somos seres
emocionais que às vezes pensam”, dizia.
Os encontros com a Ana sempre têm a presença de mães, e as mães sempre
com os filhos. Foi a primeira vez que fui num encontro entre adultos onde as
crianças são bem vindas, não se precisou de um lugar à parte para elas (não
tinha uma ‘escolinha’, o que é bem coerente com a ideia de desescolarizar).
Mesmo as crianças sendo um pouco (às vezes muito) barulhentas, isso não
atrapalhava o encontro. Pelo contrário, de algum jeito, Ana usa as crianças
como elemento para explicar o que ela está falando. Ao falar da técnica
Alexander mostra como as crianças têm naturalidade na postura e no movimento em
contraste com a rigidez dos corpos dos adultos cheios de controle e repressões.
E quando as crianças estão agitadas, aí é que o mais interessante acontece: Ana
defende que uma vez que as crianças são muito maleáveis, suas emoções são
reflexos das emoções dos pais e dos adultos.
Nessa hora havia uma criança que estava muito agitada. Até que em algum
momento Ana conversou com a mãe e a mãe dizia que esse comportamento em público
da criança a incomodava. Basicamente a mãe ficava com vergonha, sem saber o que
os demais adultos estariam pensando. E sem saber se seria julgada como
repressora demais ou desleixada demais.
A análise desses casos são recorrentes nos grupos da Ana. Porque, de fato,
estamos discutindo sobre o nosso convívio com crianças e a nossa capacidade de
incluí-las efetivamente nas relações.
A mãe então disse que isso a incomodava muito e contou que sua filhinha,
por exemplo, fez muita bagunça e malcriação na festa junina da escola, indo
para o meio da roda e levantando o vestido, deixando-a bastante envergonhada.
Ana perguntou se a mãe estava gostando da festa da escola.
A mãe disse que estava detestando toda aquela formalidade, aquelas
convenções, achando tudo ridículo.
Ana sugeriu: será que se você pudesse você não faria a mesma coisa que
sua filha¿ Entraria no meio da festa, fazendo um monte de bagunça¿
A mãe sorriu e concordou.
Todos sorrimos aliviados.
Estava ali uma verdade a nossos olhos.
“A sua filha só fez o que você estava com vontade de fazer mas estava
se segurando. É o que as crianças fazem. Como elas não reprimem, captam nossa
emoção e as expressam livremente.”
E, nesse exato momento, a menina se acalmou.
É incrível! Quem olha de fora acha que é algum tipo de encantamento ou
magia.
Em outros encontros que estive com Ana presenciei a mesma coisa. Uma
criança agitada. Ela pergunta aos adultos quem está com algum incômodo
emocional. Alguma pessoa admite. Ela vai até a pessoa e conversa sobre a
questão. A pessoa se trabalha (ou seja, compreende as causas, admite para si
mesmo suas crenças, se aceita, faz-se uma meditação, etc) e, como numa passe de
mágica, a criança que estava gritando, chorando, esperneando do outro lado da
sala, fica calma, calma, como um anjinho.
É incrível! Uma sociedade desrepressora tem nas crianças uma grande
fonte de inspiração.
É impossível mentir às crianças.
Elas leem nossas emoções.
Elas vivem emocionalmente a partir de si mesmas, sem disfarces.
Um mundo desescolarizado é um mundo que vive na verdade. Cada um
centrado na sua verdade, na sua potência.
E sinto que o que a Ana Thomaz está vivendo é uma coerência interna. E
estar diante das crianças e das pessoas nessa coerência é o trabalho permanente
de não planejar nem disfarçar. Mas viver no presente, a partir de si, centrado
na sua potência. Consciente das suas emoções.
É simples. Mas, numa cultura que complica tanto as coisas, o difícil é
ser simples.
terça-feira, 21 de julho de 2015
PALAVRAS SOBRE A ESCRITA
Eu escrevo porque a palavra existe.
Sou um artista da palavra.
A palavra nos aproxima: eu de você, leitor, e você
de mim.
Aproxima nossos sentimentos.
Nossa forma de ver o mundo
De compreender as coisas do mundo.
É uma espécie de magia, de criação de um mundo
comum.
Conduz, emociona, convence.
Palavra é política.
Escrever é um ato político.
Seduzir com as palavras.
Descrever o mundo.
Escrever é dotar o mundo de sentimento.
Carregá-lo de significado.
Sou herdeiro dos poetas: músicos e escritores
Meu mundo é um mundo descrito por eles.
Sou um bom leitor, por isso escrevo o mundo ao meu
jeito.
E escrevo para tocar e compartilhar esse meu mundo
Doando amorosamente meu sentimento
Para que você veja e entre em contato com o mundo
do sentimento
Com o sentimento do mundo
O sentimento que perpassa as coisas.
Escrevo porque se eu não escrever
As pessoas não vão ter meios de ler o mundo... e
criar o seu mundo
Estive à procura de uma arte, música, dança, teatro...
Me sinto muito vivo no palco
Sinto a imensa plenitude ao dançar, cantar junto...
Mas é na escrita que expresso meu amor
Descobri e aceitei que é essa a minha arte.
Ao escrever ponho beleza na vida, ajudo o leitor a
ver a beleza da vida.
Nem sempre gosto do que escrevo.
Mas às vezes gosto tanto que me emociono ao me ler.
Me emociono ao me ler mais do que ao escrever, ou
mesmo mais até do que o tanto que senti ao viver aquilo que relato em meus
textos.
E me surpreendo ao me ler como se eu não fosse o
autor, como se fosse outro...
A escrita tem uma vida própria... uma regra própria
Escrever é um meio de entretecer a vida no universo
do símbolo
E ler é o meio de sentir melhor o que foi vivido.
O poeta fingidor, dizia Fernando Pessoa... escrever
para sentir a dor que sente.
Escrever é a minha arte porque é o meu meio de
sentir.
Escrever é o meu ato de amor.
Minha escrita é um desabafo
Muitas vezes nasce da dor. Nasce das minhas derrotas,
do sentimento inconsolável de impotência.
Escrevo para denunciar a nossa desumanidade, a
nossa falta de arte, de vida.
E partilho
meu sentir. É um desabafo. Mas é também um grito de esperança. De manter acesa
uma chama de sensibilidade, de sentimento humano.
Por isso escrevo tanto sobre os oprimidos. Os sem
teto e as crianças: que são os grandes oprimidos neste mundo. A quem me ligo
para buscar viver mais intensamente e coerentemente a minha crítica, a minha
negação ao sistema.
E escrevo com o sangue da indignação, mas com a
fragrância da ternura. Como nos contos de Natal, na tradição cristã. Sou
romântico, admito. Vejo melancolicamente a beleza na tristeza e sonho com a
redenção humana através do sentimento.
E me encanto com os textos que proclamam o nascer
de uma flor, em meio à cegueira geral. Mas que alguém reparou. E é aí que mora
a beleza.
Como quando uma criança dança e ninguém vê. Estão
todos muito ocupados em seus deveres.
Ou quando um pobre da rua divide o seu único pacote
de biscoito. E estão todos em sua luta pelo biscoito de cada dia.
Minha escrita está lá, poeticamente,
deliciosamente, captando esta beleza oculta, esta epifania: a presença do
mistério.
Uma beleza do mundo humano. Do universo do
sentimento. Uma mística.
Minha escrita é uma forma de oração.
terça-feira, 30 de junho de 2015
Os anjos e a escola pública
Quando se intelectualiza muito, a pessoa deixa de se abrir às sincronicidades e coincidências maravilhosas da vida.
Eu me intelectualizei o suficiente para deixar aberta a porta às surpresas da vida.
Ou seja, manter o verdadeiro espírito científico. Observar os fatos novos e estar aberto a rever teorias velhas.
(Os epistemólogos mostraram como os acadêmicos normalmente deixam de ser cientistas por rejeitarem fatos ou por terem mania de forçar o encaixe de fatos novos em explicações velhas).
Portanto, em nome do bom e velho espírito científico, vou contar o que aconteceu na escola, hoje de manhã. Vou narrar fatos.
Hoje fui para aquela turma do terceiro ano...
Mas desta vez fui como observador.
No início, as crianças estranharam, mas logo me esqueceram lá no fim da sala, só observando.
Se, por acaso, vinham puxar papo eu dizia: "hoje só vim observar, volta lá, senta lá, vai fazer o dever".
E pude ficar ali, observando a aula, observando cada criança, fazendo o meu verdadeiro estágio inicial na pedagogia.
E como estou estudando a pedagogia Waldorf, fiquei ali observando e tentando decifrar os temperamentos das crianças, além, claro, de observar a rotina e o ritmo das crianças e da professora.
Aprendi muito sobre a necessidade de se ter olhos de águia, para ver o todo e a individualidade e ser implacável nas intervenções. Numa turma de 30 alunos, um professor sozinho precisa estar realmente muito ativo.
E ali fiquei observando, inspirado pelas leituras de Steiner...
Aliás eu estava ali com um exemplar de um livro muito complicado de Steiner sobre a evolução do planeta e dos homens: "A ciência oculta". Nesse livro, assim como em toda antroposofia, Rudolf Steiner fala a partir de uma "ciência espiritual", algo que depende da lógica mas também de uma capacidade de percepção supra-sensorial. E particularmente esse texto intrincado fazia muitas referências ao papel da hierarquia de anjos na evolução espiritual do mundo.
E eu ali, aprendiz de educador antroposófico, procurava olhar as crianças, ao mesmo tempo que auscultar suas almas, seus corações, na sintonia do melhor desejo dos anjos para cada uma delas. Um olhar amoroso e espiritual, procurando essa sintonia dentro de mim, confiante de que essa força cósmica superior está a postos para ajudar o desenvolvimento das crianças nessa existência terrena. (estou falando do meu sentimento no momento, portanto, um fato emocional referente ao observador).
E estava ainda mais inspirado porque ouvira no fim de semana o discurso de Steiner para os professores da primeira escola antroposófica onde ele evocava os anjos e, mais ainda, porque ontem a noite, minha companheira e eu conversávamos justamente sobre a presença e os conselhos dos anjos nessa vocação educacional que temos sentido.
E assim foi. Aula vai, aula vem. Criança vai, criança vem. Uma lida rápida no livro do Steiner, algumas anotações no papel... A aula foi chegando ao fim, quando um dos meninos, que aliás não tinha falado nada comigo a manhã inteira, se levanta de sua cadeira, vem até minha direção e me entrega um papel.
Um presente desses que as crianças nos enternecem com seus bilhetinhos e declarações, pensei.
Agradeci: "Pra mim? Obrigado."
Mas nesse papel não havia texto.
Apenas um desenho.
Esse aqui ó:
Quem quiser que busque explicações...
Quem quiser simplesmente se maravilhar...
Quem quiser que conte outras histórias lindas como essas que tenho vivido na escola pública...
segunda-feira, 29 de junho de 2015
As crianças e a morte - uma aula não planejada
Hoje mais uma vez na escola passei por uma daquelas experiências não planejadas.
Juro que dessa vez eu tinha planejado as atividades todas. Inclusive com várias turmas eu segui o planejamento.
Mas naquela turminha do terceiro ano as coisas sempre acontecem de forma diferente.
O plano era descer com a turma, passar por uma área com árvore, interagir um pouco com a árvore e depois ir para a quadra fazer umas atividades dirigidas de respiração, corpo e música, com dança de roda. Um trabalho que já fiz muitas vezes e sempre dá certo.
O fato é que saiu tudo muito diferente do que eu esperava.
Claro, se vamos observar a natureza não temos como saber o que a natureza quer nos mostrar.
E enquanto estávamos observando a árvore, eis que nos surge um casal de besouros gigantes em pleno ato sexual.
A criançada adorou, claro!
Fizemos algumas respirações mas é óbvio que o sexo dos besouros estava roubando a cena.
De repente: "olha tio, um passarinho morto aqui no chão"
Eu juro que passei ali na árvore antes e vi um besouro, mas solitário, e não havia nenhum pássaro morto. Ou seja, foi um presente totalmente dedicado às curiosas crianças dessa manhã.
Peguei o pássaro morto e todos queriam ver e tocar.
Parece planejado: as crianças em contato com o sexo e a morte, a origem e o fim da vida...
Com certeza é umas dessas aulas que ficam gravadas para sempre em suas mentes infantis.
De lá fomos para a quadra. E claro que não consegui fazê-las sentar em roda como tinha planejado.
Um grupo ficou jogando futebol, com uma bola improvisada de papel que fizeram ali mesmo. E outro ficou embaixo das goiabeiras sob a supervisão da professora.
Depois de um tempo em que fiquei ali atento as intensas relações emocionais e corporais dos meninos em torno do futebol... uma criança me chamou para ver o enterro do Bob.
Enterro do Bob? Pois é. Quando cheguei lá, elas já estavam fazendo uma cruz com gravetos. O passarinho, que ganhara o nome Bob, já estava enterrado. Folhas de caderno coladas nas pedras ao chão indicavam o nome e a data de falecimento do passarinho.
Ali estava um grupo de crianças velando e enterrando o passarinho.
Me aproximei com respeito e admirei a beleza da cena.
O chão com um pouco de matinho, uma tampinha vermelha de refrigerante, o crucifixo, a lápide de papel...
Crianças envoltas no afeto, no cuidado, no impacto emocional da morte.
Sim, comentamos a professora e eu, um pouco mais tarde, a aula mais uma vez não saiu como o planejado. Mas se saísse seria só mais uma aula a ser esquecida dentre tantas outras. Essa tocou em dimensões muito profundas. Essa é daquelas de que vão se lembrar.
E me tranquiliza perceber a espontaneidade das crianças. Sempre achei que me veria embaraçado ante os temas da vida e da morte sendo um professor ligado ao pluralismo religioso em tempos em que as crianças são vítimas tão fortes de fundamentalismos (chegam a dizer que é macumba quando peço para fecharem os olhos e observarem a respiração).
Então o que vou fazer quando o tema da morte estiver entre nós. Orações? Explanações sobre a vida além da morte?
Mas não precisei fazer nada.
Diante da morte a gente vê como os sentimentos das crianças são espontâneos. Sensibilidade natural. Religiosidade natural, como defendia Rousseau.
Tenho adorado essas aulas que dão errado...
Aulas em que as crianças aparecem mais que o professor vaidoso que aqui escreve...
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Com quem as crianças aprendem?
Nessa última semana voltando da escola fiquei com vontade de escrever sobre as dificuldades encontradas com algumas crianças que ficaram muito agitadas na atividade. Crianças com quem não consegui entrar numa relação pedagógica amigável. Elas ficaram me colocando no lugar do poder autoritário, se escondendo, mentindo, amedrontadas, etc. E eu estava querendo refletir em que medida eu retroalimento essas imagens de professor que elas pre-estabelecem...
Fiquei adiando a escrita, esperando a inspiração...
Aí uma pessoa amiga me cobrou: "e aí, essa semana não vai sair nenhum texto?"
Foi então que decidi que escreveria assim que parasse diante do computador.
E, andando pelas ruas, comecei a formular o que eu queria dizer.
Foi aí que a própria rua começou a me dizer coisas.
Um cena: dois homens, próximos a uma esquina, tropeçam um no outro.
Um deles abre os braços exageradamente.
Fico sem saber se era para abraçar o amigo que encontrava por acaso ou se era por reclamação (tal como o atacante quando cai e o juiz não apita falta).
E aí eles começam a bater boca.
"Poxa, você me viu e não parou!"
"Ué, você também não parou!"
E começaram a se xingar e se ofender.
Cena forte, risco de agressão física.
Achei tão infantil, até engraçado...
Meu impulso era ir até eles e intermediar a relação.
Quase baixou o professor em mim...
Achei melhor seguir adiante.
E assim foi minha caminhada ouvindo a rua:
Pessoas ao celular, palavrões, brigas, fumantes, agitação, um jovem cuspindo no chão e um senhor também que escarrou, bochechou, mirou e cuspiu com toda a destreza de um adulto que se exibe na rua.
E comecei a pensar sobre a tarefa do educador dentro da escola.
A escola é um espaço artificial de aprendizagem.
A verdadeira aprendizagem se dá na rua.
Por isso acho interessante quando ouço falar em cidade educativa.
E fico pensando na violência simbólica da educação num espaço tão artificial:
Se nós, adultos nos portamos assim no dia a dia, não é uma certa hipocrisia exigir que as crianças ajam de outro jeito?
Ela aprende a não falar palavrão e a não brigar na escola, com medo da repreensão do professor.
Mas, uma vez na rua, ela reaprende a usar os melhores palavrões e as melhores estratégias de violência para se defender.
Por isso acho interessante quando ouço falar em cidade educativa.
E fico pensando na violência simbólica da educação num espaço tão artificial:
Se nós, adultos nos portamos assim no dia a dia, não é uma certa hipocrisia exigir que as crianças ajam de outro jeito?
Ela aprende a não falar palavrão e a não brigar na escola, com medo da repreensão do professor.
Mas, uma vez na rua, ela reaprende a usar os melhores palavrões e as melhores estratégias de violência para se defender.
Quando peço para ela não cuspir ou não brigar é estranho. Parece que, num sentido global, estou agredindo essa criança. Uma criança mais esperta poderia me dizer com plena consciência:
"Pô tio, você fica mandando aí em mim, só pra exercer poder. Todo mundo sabe que na rua a gente pode usar celular, xingar e é até bonito cuspir. Todo mundo sabe que a gente precisa brigar pra defender o que é nosso. Aí o senhor fica tentando me ensinar o contrário. Pô... ou o senhor está por fora da realidade, ou o senhor quer me deixar maluco, ou está só se aproveitando que eu sou mais fraco pra exercer o seu poderzinho sobre mim."
Me sinto numa competição injusta com o "mundo da rua".
Assim como numa situação um tanto incoerente.
A escola parece um espaço bem incoerente.
Sim, mas uma vez que somos nós que estamos diante dessas crianças... o que fazer?
Algo me diz que o "nada a fazer" pode se um bom começo.
Não é questão de fazer. É questão de ser.
Antes da pedagogia exterior, a pedagogia interior.
Precisamos de inspirações nesse campo...
Precisamos de inspirações nesse campo...
E justamente hoje estava estudando a Pedagogia Waldorf e encontro Rudolf Steiner (Arte da Educação), falando da importância da auto-educação.
"Há uma grande diferença, para um grupo menor ou maior de alunos, se é este ou aquele professor que entra na classe para dar aulas. Essa grande diferença não resulta do fato de o professor possuir maior habilidade que outro nas técnicas pedagógicas exteriores; a diferença principal atuante no ensino decorre da atitude mental do professor em todo o tempo de sua existência, atitude que ele leva para a aula. Um professor que reflete sobre a evolução do ser humano atuará sobre os alunos bem diferentemente do colega que nada sabe a esse respeito e nunca lhe dedica seus pensamentos."
" Temos de ficar cônscios, antes de tudo, desta primeira tarefa pedagógica, que consiste primeiro em educarmos a nós próprios, fazendo reinar uma relação mental e espiritual íntima entre o professor e os alunos, e não apenas as palavras, repreensões e habilidades pedagógicas."
Algo me diz que é por aí que vem o sopro da inspiração...
Algo me diz que é por aí que vem o sopro da inspiração...
Há esperança.
Existe um lugar para a educação.
Mas tem um trabalho dentro...
E...
Será que outros adultos podem começar esse trabalho também?
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Para falar com Jesus
Estou querendo falar com Jesus.
O senhor marcou hora?
Não, tem que marcar?
Aquela fila ali é de quem não marcou hora.
Achei que fosse mais simples.
Tempos modernos, meu caro.
Tem um lanchinho pra esperar?
Você não trouxe de casa?
Casa? Era sobre esse assunto mesmo que eu queria falar com Ele.
Hum, milagres hoje não tá saindo muito não.
Não?
Povo anda sem fé.
Mas Ele...
E com essa política toda aí... fica difícil até pra Ele.
Só aqui que Ele atende?
Onde mais?
Não sei... é que achei que Ele estivesse pelas ruas...
Rua hoje tá um perigo!
Não tem nem um pãozinho?
Você pode tentar com o pessoal da fila. Mas acho difícil, solidariedade tá em baixa.
Hum... deve ser bom trabalhar aqui, diretamente pra Ele.
O emprego até que paga bem. Mas é muito tempo em pé.
E o senhor, fala sempre com Ele?
Eu? Nunca.
Ué, mas o senhor trabalha aqui.
É... mas Ele é muito ocupado, não sobra tempo.
Nossa, achei que por estar mais perto...
Anda, anda que tem mais gente chegando.
E o senhor acha que se eu entrar na fila consigo falar com Ele ainda hoje.
Não tenho a menor ideia. Aquele pessoal da fila, já está ali há muito tempo.
E nada?
Nada.
Meu Deus, como é que se fala com Jesus?
Não faço ideia. Dizem que ele não tem facebook.Mas ouvi dizer que tem uns encontros com ele.
E tem que pagar?
Claro! Em que mundo você vive?
Ai, mas é que eu estou meio sem emprego.
É... você não é único. O pessoal ali da fila...
Estou cansado. Queria ao menos falar com Jesus do meu cansaço.
Vai ao médico ver o que é isso.
Achei que Ele...
Vamos, vamos, o senhor está atrapalhando a fila.
O senhor marcou hora?
Não, tem que marcar?
Aquela fila ali é de quem não marcou hora.
Achei que fosse mais simples.
Tempos modernos, meu caro.
Tem um lanchinho pra esperar?
Você não trouxe de casa?
Casa? Era sobre esse assunto mesmo que eu queria falar com Ele.
Hum, milagres hoje não tá saindo muito não.
Não?
Povo anda sem fé.
Mas Ele...
E com essa política toda aí... fica difícil até pra Ele.
Só aqui que Ele atende?
Onde mais?
Não sei... é que achei que Ele estivesse pelas ruas...
Rua hoje tá um perigo!
Não tem nem um pãozinho?
Você pode tentar com o pessoal da fila. Mas acho difícil, solidariedade tá em baixa.
Hum... deve ser bom trabalhar aqui, diretamente pra Ele.
O emprego até que paga bem. Mas é muito tempo em pé.
E o senhor, fala sempre com Ele?
Eu? Nunca.
Ué, mas o senhor trabalha aqui.
É... mas Ele é muito ocupado, não sobra tempo.
Nossa, achei que por estar mais perto...
Anda, anda que tem mais gente chegando.
E o senhor acha que se eu entrar na fila consigo falar com Ele ainda hoje.
Não tenho a menor ideia. Aquele pessoal da fila, já está ali há muito tempo.
E nada?
Nada.
Meu Deus, como é que se fala com Jesus?
Não faço ideia. Dizem que ele não tem facebook.Mas ouvi dizer que tem uns encontros com ele.
E tem que pagar?
Claro! Em que mundo você vive?
Ai, mas é que eu estou meio sem emprego.
É... você não é único. O pessoal ali da fila...
Estou cansado. Queria ao menos falar com Jesus do meu cansaço.
Vai ao médico ver o que é isso.
Achei que Ele...
Vamos, vamos, o senhor está atrapalhando a fila.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
A criança, a dança, a arte...
Hoje na escola muncipal estava a crer que voltaria para casa sem nenhuma história inspiradora para contar.
Estava naqueles dias... sabe?
Aqueles dias em que as crianças estão agitadíssimas e você propõe atividades legais (que você julga legais) e elas não entram, estão por demais aceleradas, agressivas, se machucando...
Dessa vez fui pra escola animado com vivências de biodanza. Levei música, tinha a quadra à disposição, som legal.
Mas a relação das crianças dessa turma com o corpo, a noção de espaço, a relação com os colegas, o nível de repressão a que ainda estão submetidos pela professora... é começar um movimento corporal e entram na loucura inconsciente, se machucam sem querer... mas apesar de tudo, se divertem bastante. Só não atingiram o objetivo que eu estava planeando que é chegar num relaxamento e numa integração mais harmoniosa. Interrompi a aula no meio.
Mais tarde olhando-as no recreio até que deu para perceber que estavam mais donas dos seus movimentos, mais alegria, mais ritmo...
Quando a gente trabalha com olhar amoroso, liberdade por princípio, respeitando o tempo da molecada, sempre terá algo proveitoso no trabalho.
Mas eu estava meio frustrado com meu dia.
Foi quando...
Estava andando sem ter o que fazer (as melhores atividades sempre surgem quando estou não-direcionado)...
E vi na escada, aguardando os responsáveis, um casal de irmãos, que estão frequentemente por ali após o horário da saída. Por algum motivo, a mãe sempre atrasa para buscá-los.
Eram mais de duas da tarde e desde o meio-dia, ninguém.
Então perguntei: querem ir pra quadra fazer uma aula comigo?
Aceitaram.
Com músicas calmas fizemos alongamento, umas posições de yoga, depois meditamos sentados. Andamos um pouco pela quadra.
Deitamos.
E quando deitamos...
O menino veio perto e se deitou ao meu lado e segurou na minha mão.
E ficamos ali, contemplando as estrelas do céu do afeto entre um adulto e uma criança.
Acolhimento, confiança, união.
Me emocionei com a simplicidade e a facilidade do encontro.
Depois caminhamos os três pela quadra, caminhada com ritmo, e começamos a dançar como aves, batendo as asas...
Foi então que resolvi me sentar e propor que eles dançariam para eu assistir.
Nunca tinha tido essa ideia antes.
Ele foi até a minha playlist e escolheu a música: Villa Lobos. Aria Cantilena, das Bachianas brasileiras. Uma soprano, ópera, muito dramático e belo.
Da outra vez que usei essa música na hora das massagens me perguntaram na escola se as crianças realmente conseguiam música clássica.
Bom, dessa vez, lá estava o menino. A quadra inteira era dele. Eu e sua irmã ficamos assistindo. Ele andava. Parava. Levava a mão ao peito, a outra ao alto, e imitava a voz cantando. Que drama. Que belo. Descobri um dançarino. Ou melhor, se bem aprendi com Isadora Duncan... as crianças nascem dançando. Dançar é o movimento mais natural da vida. E ali estava a beleza em seu olhar inocente e trágico, em seus braços estendidos ao alto qual uma estátua grega, em suas mãos delicadas...
Por Zeus, de onde esse menino aprendeu a arte clássica?
O que eu faço agora?
Meu coração transborda de paixão pela dança, pela arte, pela criança...
terça-feira, 9 de junho de 2015
Ser Homem
Ser homem é aguentar pressão
Um dia, coração não aguenta
a pressão de ser homem
Homem não chora
E como não implora
Implode
Homem tem que sustentar a casa
Se não consegue
Homem é um fracassado
Derrubado, não sustenta
Impotência
Homem tem que fazer cara de mal
Se fica muito alegre
Parece mulher
Homem não tem prazer
Homem tem que bater
Religião é coisa de mulher ou de padre
Aí homem se apaixona
Mulher vira deusa
Deusa vira santa, santa é virgem
Homem precisa de amante ou de puta
Homem só pode ter prazer com futebol, porrada e mulher
Homem pereba e cansado de briga
Vira escravo de mulher
Homem não pode ser frágil, nem vulnerável, nem ter medo de
nada.
Homem aprende a mentir
Se fosse permitido aos homens sentirem prazer
A sociedade do trabalho capitalista desmoronaria
Homem fere porque foi ferido
A ferida do homem está aberta
Sangra purulenta
Quantos ais, quantas dores sufocadas, quantos choros
engolidos, gritos calados
Homem sofre ainda a dor maior de todas
A dor de ter feito sofrer a mulher
A dor de ter feito sofrer a criança
E homem continua a ferir a ferro da sua própria ferida
Homem não pode sentir dor
Mas sente
Homem não pode pedir ajuda
Mas adora carinhoHomem tem medo de homem
Homem não tem medo de mulher
Mas quando mulher diz: Eu te amo
Homem tem medo.
Todo mundo dança
Homem fica sentado
Diz que não gosta.
Se tenta, não consegue
Treme todo.
Homem pilota avião
Constrói prédio, ponte, navio
Homem vai a marte
Mas não dança.
terça-feira, 2 de junho de 2015
O vento da mudança...
Logo após as atividades que fizemos na quadra da escola as crianças subiram.
Inspirados na biodanza, havíamos trabalhado roda de integração, brincadeiras de andar em grupo, fizemos massagens nas crianças, recebemos massagem delas, tudo com música, movimento e afeto. Estávamos felizes com o resultado que obtivemos, a professora, as mães e eu. E então as crianças subiram.
Acontece que um dos meninos, no caminho da sala de aula, se estranhou com um menino de outra turma no bebedouro e começaram a brigar.
Quando eu cheguei perto estavam se chutando e expressando muita raiva.
Bem no corredor do segundo andar.
Segurei os dois.
Eles continuaram acertando pontapés um no outro.
Dei um jeito, não sei bem como, já sentado e me espalhando no chão, de segurá-los mais longe um do outro e disse com autoridade: "ninguém mais vai bater em ninguém aqui."
Pararam.
Então nos sentamos na escada ampla que tem ali.
Fiquei no meio dos dois. Dando a mão a cada um, perguntei: "o que houve?"
Um dos meninos contou um pouco do que se passou. Seu coraçãozinho estava agitado e notei que sua mão tremia ainda sob efeito da adrenalina em seu corpo; a voz tremia e a respiração era ofegante.
Ouvi o que ele disse.
Virei-me para o outro e resumi: "ele disse que você bateu nele quando ele estava no bebedouro." (Bem ao estilo Piracanga de intermediar de forma neutra)
Nada. Nenhuma resposta.
Perguntei ao menino: "você quer falar o que aconteceu?"
Silêncio.
Fiquei esperando.
O outro queria falar mais. Pedi que esperasse. Estávamos "escutando" o amigo. Sim, porque há um escutar do silêncio do outro quando damos chance de falar e a pessoa não fala. Nesse "silêncio escutatório" a pessoa tem chance de pensar no que aconteceu, mesmo que não verbalize nada.
Ele estava rígido. O corpo todo tenso. A mão esquerda cerrada, prestes a dar um soco, enquanto a outra mão segurava a minha. Os olhos bem abertos, vidrados, olhando para a frente sem piscar, como num transe. Respiração e coração agitados.
E foi assim que continuamos.
Até que em um momento eu perguntei ao primeiro:
"Como você está se sentindo agora?"
E ele respondeu: "mais calmo."
Então fiz a mesma pergunta ao menino que ainda não tinha dito nada. E ele conseguiu dizer, baixinho e firme, como que soltando uma voz que vinha lá do fundo da alma:
"Estou com raiva."
Opa! Conseguimos uma expressão. E bem do jeito que eu gosto de trabalhar. Porque uma coisa é você contar os fatos do que ocorreu. Depois disso gosto que as crianças consigam perceber os sentimentos que estão tendo no momento. Ele, apesar de não ter dito nada, estava ali, meio que tomado de uma emoção, mas lá do fundo conseguia ter consciência do que se passava: raiva.
Fiquei observando a coerência entre o corpo e a emoção. Os olhos continuava vidrados. Outras crianças já se aproximaram e ficaram ali assistido a cena. Umas obedeceram quando pedi que fossem embora. Outras insistiram em ficar e achei mesmo que não estavam atrapalhando. Estavam realmente atentas, observando como podemos lidar com as emoções.
E juntos observamos o corpo do amigo delas. A raiva se manifestando.
E juntos esperamos pacientemente que o estado emocional fosse se alterando, sem que a gente precisasse dar sermões ou emitir julgamentos de valor.
"Sim a raiva está aí, disse eu, você consegue observar em qual parte do corpo ela se manifesta?"
Nada. Silêncio. Os mesmos olhos vidrados.
Até que perguntei de novo: "como você está se sentindo agora?"
E ele respondeu: "estou tenso."
"Onde está a tensão no seu corpo?"
Ele ficou um tempo pensando e respondeu: "na cabeça."
"Muito bom, pensei eu. Estamos num processo excelente, apesar de bem demorado". Acho que já tinham se passado dez minutos ali.
Sugeri: "então vamos fazer o seguinte. Fecha um pouco os olhos, respire fundo e fique observando a cabeça e veja o que acontece."
E ficamos ali juntos.
E as crianças em silêncio junto comigo, às vezes conversando um pouquinho entre si enquanto esperávamos o processo do nosso amigo.
Eis que, de repente, ali naquele corredor um pouco escuro, começo a sentir um vento. Um vento gostoso, arejando o ambiente. Olhei para o menino. Ele estava com um leve sorriso, e um pouco mais relaxado.
"Ei, ei, estão sentindo o vento?" sussurrei.
As crianças pararam e sentiram, sorrindo para mim.
"Esse é o vento da mudança."
"Olhem só para ele. E apontei com os olhos para o menino. Já tem alguma coisa nova aqui.
Enquanto ele estava tenso, o ar estava parado. Agora vejam só, tem um bom humor aparecendo aqui, tem um sorriso surgindo. E aí quando ele relaxou, permitiu a entrada do vento. Esse vento significa a mudança da emoção."
As crianças envolvidas na situação me perguntaram:
"É verdade, tio?"
Em uma fração de segundos, todo o meu caminho acadêmico, científico, se defrontou com as minhas experiências místicas. Lembrei da leitura de Carlos Castañeda em diálogo com seu mestre xamânico que falava exatamente nessa linguagem da natureza.
Optei por falar a verdade para as crianças, ao invés de ficar na fantasia. E disse:
"Sim. É verdade. Esse é o vento da mudança."
E ficamos ali, em silêncio, observando o vento passar por nós. E trazer um sorriso nos lábios do nosso pequeno companheiro.
Estava na hora de ir embora. Ainda havia raiva nele. Mas juntamente com a raiva um começo de bom humor.
E para além dos dois sentimentos, a consciência de estar ali observando tudo isso dentro dele.
Então, me coloquei agachado à sua frente e ofereci um abraço abrindo os braços e o coração. "Vem aqui, me dá um abraço para essa raiva acabar de passar. Aperta forte o tio e deixa a raiva ir embora."
E assim, ele me olhou nos olhos e me abraçou demoradamente.
Suspiramos o ar da mudança.
E descemos juntos as escadas até a saída da escola, onde sua mãe o aguardava.
Ainda há muito a aprender, mas estamos no caminho.
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