"Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Por não esperar. Tão separado do que ama, em ti,
que não te inquiete
Se o amor leva a felicidade.
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo..."
Cecília Meireles, Cânticos, VII
sábado, 29 de junho de 2013
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Cecília Meireles
Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.
Cânticos, III.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
João Batista na manifestação do ser humano
Gosto dessa forma que o filme Jesus de Nazaré consagrou João Batista. Um homem cheio de força. Vivendo no deserto, se alimentava de mel e gafanhotos, com roupas de pelo de camelo. Selvagem. Cru. E puro. Seu lema era a justiça, a verdade. Dizia: "arrependei-vos!" Para que as pessoas estivessem leves e pudessem reconhecer aquele que chegaria. Ele anunciava um mais forte que ele. Dizia que não era digno de amarrar as sandálias do que viria. Nesses tempos de manifestações aqui no Brasil, nesses tempos em que voltamos a pensar em mudanças de verdade e vendo que tantos se aproveitam para driblar o certo e a verdade, buscando se dar bem, manipular o povo, manter seus privilégios, ainda ecoa essa voz no deserto: "Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está por vir?" (Mt 3,7). João Batista não temia os poderosos, denunciava sua astúcia, e exigia que o povo também fosse íntegro e não se igualasse aos vencedores de então. Esse o verdadeiro significado do profeta na tradição hebraica: denúncia e anúncio.
Tempos de esperança. Anúncio de nova era. Transformação que se ritualizava nas águas do rio, sob o templo da natureza. Gosto de pensar em você João. Gosto de pensar que estou num caminho de transformação buscando coerência. Gosto da ideia de que preciso me preparar por dentro para ver a pureza do cordeiro, das crianças, dos pássaros, das águas, das pessoas de boa vontade, dos olhos que brilham, da juventude que sonha. Porque sei que minha mente é astuciosa e me engana com argumentos rápidos e lógicos. Rejeito-os. Preciso dessa mudança nas estruturas internas. Creio na revolução que se faz dentro e transborda. De dentro pra fora, um novo homem. Creio que esse tempo está chegando. Mas não ouso gritar às víboras, como tu o fizeste meu amigo, pois sinto-as dentro. Em meu silêncio, caminho internamente, na busca de mim mesmo, ao encontro da minha natureza mais rica e forte, certo de que só assim posso manifestar quem sou. Manifestar o ser humano que sou. Quem serei eu, despido das máscaras que acumulo ao longo dos anos para atender aos apelos do mundo? Quem serei eu, quando me permitir e me aceitar na espontaneidade de mim mesmo, pleno de potenciais únicos? Quem serei então, face a face com minha Realidade?
Oh, voz que ecoa pelos séculos, pureza dos que reconhecem a grandeza dos simples e que são capazes de viver a celebrar sua chegada... Liberdade! Quero a liberdade dos livres dos jaulas invisíveis do desejo de sobrepujar o outro, desejo que corrói e corrompe a alma por dentro da gente, não nos deixando um segundo de paz. Amor! Quero o amor dos que amam porque querem uma integração cheia de beleza e alegria com as pessoas e todos os seres, e não porque estão cheias de fome e sede de algo ou alguém.
Porque a vida pode ser bonita, plena de maravilhas, te agradeço João, o batista.
Porque nos banha nessa água (vida) que nos afasta da ilusão, só me interessa a revolução do amor.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Tristezas e alegrias: pólos da totalidade da vida
"Quando você fica triste, você acredita que alguma coisa ruim lhe aconteceu. Isso é uma interpretação que você faz de alguma coisa ruim que lhe aconteceu, e então você começa a tentar fugir disso de fato; você nunca medita sobre isso. Trata-se de uma atitude errada que foi dada a você – de que a tristeza é errada. Nada há de errada nela. É uma outra polaridade da vida.
A alegria é um pólo, a tristeza outro. A felicidade é um pólo, a miséria, outro. Uma vida apenas de felicidade terá uma dimensão lateral, mas não terá uma profundidade. Uma vida apenas de tristeza terá profundidade, mas não terá amplidão. A vida que contém ambas, tristeza e felicidade é multidimensional; move-se em todas as direções simultaneamente.
Observe a estátua de Buda, ou algumas vezes olhe dentro dos meus olhos e você encontrará ambas juntas – uma beatitude, uma paz, e uma tristeza também. Você encontrará uma felicidade que contém tristeza dentro de si, porque essa tristeza lhe dá oportunidade. Observe a estátua de Buda – feliz, mas ainda assim triste. A própria palavra triste lhe trás uma conotação errada. Trata-se de interpretação sua.
Para mim, a vida em sua totalidade é boa. E quando você compreende a vida em sua totalidade, só então você pode celebrar, de contrário não." - OSHO
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Cura da criança ferida
Cura da Criança Interior
Quando éramos crianças, éramos muito vulneráveis. Nós nos machucávamos
muito facilmente. Um olhar severo de nosso pai poderia tornar-nos infelizes.
Uma palavra forte de nossa mãe pode causar uma ferida no nosso coração. Quando
criança, temos um monte de sentimentos, mas é difícil nos expressarmos. Nós
tentamos e tentamos. Às vezes, mesmo se podemos encontrar as palavras, os
adultos em torno de nós não podem nos ouvir, não escutam, ou não nos permitem
falar.
Nós podemos ir para nossa casa interior e falar com a nossa criança,
ouvir a nossa criança, e responder diretamente a ele. Eu mesmo fiz isso, mesmo
tendo recebido amor e carinho dos meus pais. Essa prática me ajudou
tremendamente. A criança ainda está lá e pode estar profundamente ferida. Nós
negligenciamos a criança em nós por um longo tempo. Temos que voltar e
confortar, amar e cuidar da criança dentro de nós.
Esta meditação pode ser feita ao sentar ou caminhar. É importante
encontrar um lugar calmo, um lugar onde você possa se sentir confortável e
relaxado ininterruptamente por pelo menos cinco minutos. Enquanto você inspira
e expira, pode dizer estas palavras a você mesmo.
Inspirando, eu me
vejo como uma criança de cinco anos de idade.
Expirando, eu sorrio
com compaixão para a criança de cinco anos de idade em mim.
Primeiramente você pode querer dizer a frase inteira, então você pode
apenas querer usar as palavras-chave:
Eu com cinco anos de
idade.
Sorrindo com
compaixão.
A criança de cinco anos de idade, dentro de você precisa de muita
compaixão e atenção. Seria bom se a cada dia você encontrasse alguns minutos
para sentar e praticar esta meditação. Seria muito curador e muito
reconfortante, porque a criança de cinco anos de idade em nós ainda está viva e
precisa ser cuidada. Com o reconhecimento e a comunicação, podemos ver que a
criança responde para nós e ela começa a se sentir melhor. Se ela se sente
melhor, nós nos sentimos melhor e também começamos a sentir grande liberdade.
A criança dentro de nós não é apenas nós mesmos. Nossos pais também
sofreram quando crianças. Mesmo como adultos, muitas vezes não sabem como lidar
com o seu sofrimento, assim fazem seus filhos sofrerem. Eles foram uma vítima
de seu próprio sofrimento, e depois seus filhos foram vítimas deste sofrimento
também. Se não somos capazes de transformar o sofrimento em nós, nós vamos
passá-lo para os nossos filhos. Cada pai foi uma criança de cinco anos de
idade, frágil e vulnerável.
Meu pai e eu não somos realmente duas entidades separadas. Eu sou sua
continuação, então ele está dentro de mim. Ajudando o menino de cinco anos de
idade que é o meu pai em mim, curo a nós dois ao mesmo tempo. Ajudar a menina
de cinco anos de idade, que era minha mãe e que ainda está em mim, eu a ajudo a
transformar e ser livre. Eu sou uma continuação da minha mãe. Aquela menina que
foi ferida e sofreu tanto está viva em mim. Se eu puder transformar e curar
minha mãe ou pai dentro de mim, vou ser capaz de ajudá-los fora de mim também.
Esta meditação irá gerar compaixão e compreensão dirigidas a nós mesmos e
também aos nossos pais como crianças de cinco anos de idade.
Falamos muito sobre a compreensão, mas há entendimento maior do que
esse? Quando podemos sorrir, sabemos que estamos sorrindo para nossa mãe e pai,
e libertando nossa mãe e pai. Se praticarmos dessa forma, em seguida, todas as
perguntas que fazem as pessoas sofrerem - Quem sou eu? Será que minha mãe
realmente me quer? Será que meu pai realmente me quer? Que sentido tem minha
vida tem? - se tornam sem sentido.
Nós não precisamos voltar à nossa terra natal, para a Irlanda ou China,
para encontrar nossas raízes. Nós só precisamos estar em contato com cada
célula de nosso corpo. Nosso pai, mãe, e todos os nossos antepassados estão presentes de uma forma muito real, em cada célula do nosso corpo,
mesmo nas bactérias. Entendimento desperto foi transmitido a nós por todas as
gerações, todos os seres sencientes, e também os chamados seres não sencientes.
Somos ambos, pai e filho. Às vezes, manifestamos como pai ou mãe e, às vezes,
nos manifestamos como filhos. Assim que a goiaba nasce, tem sementes de
goiabeira, e por isso já é uma mãe ou um pai. Podemos praticar assim:
Inspirando, vejo meu
pai como uma criança de cinco anos de idade.
Expirando, eu sorrio
para meu pai como uma criança de cinco anos de idade.
Pai, cinco anos de
idade.
Sorrindo com
compaixão.
Seu pai era uma criança de cinco anos de idade, antes de se tornar um
pai. Como um menino de cinco anos de idade, ele foi bastante vulnerável. Ele
podia se machucar muito facilmente por seu avô ou sua avó, e por outras
pessoas. Então, se às vezes ele foi duro ou difícil, talvez fosse por causa da
forma como o menino de cinco anos de idade nele foi tratado. Talvez ele tenha
sido ferido quando era criança.
Se você entender isso, talvez você não fique mais com raiva dele. Você
pode ter compaixão por ele. Se você tem uma foto de seu pai com cinco anos de
idade, pode olhar para isso durante a meditação. Olhe para ele quando ele tinha
cinco anos de idade, inspire e expire e você vai ver a criança de cinco anos de
idade que ainda está viva nele e em você também.
Quando sua mãe tinha cinco anos, ela também era vulnerável e frágil. Ela
pode ter ficado ferida com muita facilidade, e ela pode não ter tido um
professor ou um amigo que a ajudasse a curar. Assim, a ferida e a dor continuam
nela. É por isso que às vezes ela pode ter se comportado de maneira não gentil
com você. Se você puder ver a sua mãe como uma menina de cinco anos de idade,
frágil, então você poderá perdoá-la muito facilmente com compaixão. A menina de
cinco anos de idade, que era sua mãe está sempre viva nela e em você.
Inspirando, vejo
minha mãe como uma menina de cinco anos de idade.
Expirando, eu sorrio
para que a menina de cinco anos de idade ferida que foi a minha mãe.
Mãe, cinco anos de
idade.
Sorrindo com
compaixão.
Se você é jovem, é importante praticar a cura da criança de cinco anos
de idade em você. Caso contrário, se você tiver filhos, você vai transmitir a
sua criança ferida para seus filhos. Se você já tiver transmitido a sua criança
ferida para o seu filho ou filha, não é tarde demais. Você tem que praticar
agora para curar a criança em você e ajudar o seu filho ou filha a curar a
criança ferida que você transmitiu a ele ou a ela.
Todos nós, como pais e filhos, podemos praticar juntos e curar a criança
ferida em nós e em nossos filhos. Esta é uma prática urgente. Se conseguirmos
fazer isso, a comunicação entre nós e nossa família será restaurada.
Compreensão mútua será possível.
Estamos em nossos filhos. Nos transmitimos inteiramente a eles. Nossos
filhos, nossas filhas são a nossa continuação. Nosso filho, nossa filha são nós
mesmos. E eles vão nos levar para longe no futuro. Se temos tempo para amar
nossos filhos com compaixão e compreensão, eles vão lucrar com isso e fazer o
futuro melhor para si mesmos, seus filhos e as futuras gerações.
(Do livro de Thich
Nhat Hanh - "Reconciliation” - Tradução Leonardo Dobbin)
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Estátua negra
Para Maria
"Se meus demônios me deixassem, temo que meus anjos também fugissem." Rilke
Escolhi-te para objeto de minha paixão e de minhas mais doces fantasias
E foi bom, e me deixei envolver
E procurei me entregar e partilhar contigo minha intimidade
Minha naturalidade, meu jeito de ser
Direcionando a teu centro minha ternura, meu carinho.
Mas algo não deu certo.
Uma barreira intransponível quedou-se entre nós.
A pele de teu rosto tornou-se uma casca tão dura que não me
deu vontade de acariciar
Teus cabelos perderam movimento
Não te deixaste abrir e mantiveste esta armadura e este escudo
e esta espada.
Exceto por uma pequena fresta por onde pude ver e sentir o
calor de tua ternura. Ah, se eternizassem esses momentos...
Mas foi pouco.
Não conseguiste entregar-te, penso eu.
Então não te quis.
Mas agora,
Que aparentemente fechaste-te por completo,
De objeto de paixão, tu te tornas o meu objeto de ódio, de ciúme,
de loucura,
Agora me possuíste, de uma forma muito estranha, ó serpente!
Não te querendo, disputo contigo esse jogo infrutífero e sem
razão.
Estátua negra, tens tua beleza.
Pena que és tão férrea e grosseira e masculina e agressiva e
que tudo isso faça de ti uma pessoa que não é bonita.
Estátua bela.
Impenetrável.
Agora mil demônios despertaram e mergulho ainda mais fundo em
mim e gemo, e urro, e soco o ar, para não me ferir, com raiva de mim mesmo.
E vivo essa luta entre deuses e demônios, e já não sei mais
quem sou.
Estou sempre por um triz. Por um triz da morte, do abandono
de tudo, por um triz do surto, da loucura.
Quem és tu, e por que não vais embora de uma vez?
Te quero!
E nunca mais voltes e nunca mais estaremos juntos.
Quero-te ainda agora, fica!
Estás em mim. És esse demônio feroz contra o qual me agrido.
Sim, percebo todo esse paradoxo e estou preso.
Víbora, pele de jacaré, pedra fria, vejo em ti todo o mal e
esse estranho fascínio me atrai ainda mais a teu jogo desprezível e sedutor.
Mal, mal, mal. Estou mal e tu és a culpada. E me agrido o ser
que me agride. Inesperado. Acordaste meus demônios. Te odeio. Não tenho forças
nem coragem, nem vontade, nem de te possuir, nem de te vencer, nem de te
atacar.
Quero te amar.
E já não sei o que é o amor. Porque não quero te tocar na
face, nem muito menos beijar teus lábios.
Mas sei da tua porção melhor e terna. E tenho pena dessa
situação de fuga e esconderijo em que vives.
Há quanto tempo sofres assim?
Por que te fechaste tanto?
Por que não te entregas a mim, eu que sou prisioneiro desse
desejo de te ter aos meus pés, também para nada, assim como fazes comigo?
Estou cansado. Mas não consigo sair desse frêmito.
É como um caminho para a morte.
E não retorno, sinto-me atraído para a morte.
Ah, o diabo se apossa de mim.
E não me resta alternativa a não ser repousar nele.
Estou perdendo a batalha, meu amor. Tua crueldade não terá
fim? Não terás pena de mim se eu posar de vítima?
Não.
Serpente, és minha salvação.
Insensível, cínica e vulgar, és minha escada para D'us.
Amo-te e me entrego.
Quero ser teu. Mas não te quero minha.
Quero-te só minha, mas não te quero.
Enlouqueço. Sim. Tua loucura me toma.
Estou chegando ao fim.
Ao fundo de mim.
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